19 de abr. de 2011

Bullying: crime

Promotores da Infância e Juventude de São Paulo querem que o bullying seja considerado crime. Um anteprojeto de lei elaborado pelo grupo prevê pena mínima de um a quatro anos de reclusão, além de multa. Se a prática for violenta, grave, reiterada e cometida por adolescente, o autor poderá ser internado na Fundação Casa, a antiga Febem.
Nos casos de cyberbullying, pena prevista pela proposta é ainda maior.
A proposta prevê que poderá ser penalizada a pessoa que expuser alguém, de forma voluntária e mais de uma vez, a constrangimento público, escárnio ou qualquer forma de degradação física ou moral, sem motivação evidente estabelecendo relação desigual de poder. Estão previstos casos em que a pena pode ser ampliada (leia quadro nesta página), como quando é utilizado meio eletrônico ou qualquer mídia (cyberbullying). “Hoje, como não há tipificação legal específica, os casos que chegam são enquadrados geralmente como injúria ou lesão corporal”, explica promotor Mario Augusto Bruno Neto, secretário executivo da promotoria.


Como o bullying e o cyberbullying são praticados na imensa maioria dos casos por crianças e adolescentes, os promotores vão precisar adaptar a tipificação penal dessas práticas ao que prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O anteprojeto será submetido, no dia 6 de maio, a aprovação na promotoria e, depois, encaminhado ao procurador-geral do Ministério Público (MP), Fernando Grella Vieira, que deverá enviar o texto a um deputado para que o documento seja encaminhado ao Congresso. Antes disso, porém, a proposta será divulgada no site do MP para consulta pública. “Queremos que a população envie sugestões para que possamos aperfeiçoá-la”, explica o promotor Bruno Neto.


A educadora Madalena Guasco Peixoto, da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), considera a proposta exagerada. “Essa questão não se resolve criminalizando, e para casos graves já existe o crime de lesão corporal”, opina. “As escolas precisam assumir a responsabilidade e, se tiver de haver punição, que seja aplicada pelos estabelecimentos de ensino”, defende. “O problema é que as escolas estão sendo omissas”, rebate o promotor Thales Cezar de Oliveira, que também assina o anteprojeto de lei.


No ano passado, dois casos graves de cyberbullying que envolviam alunos de colégios de classe média alta de São Paulo foram parar no MP. Em um deles, as ofensas foram postadas por três meninas contra uma colega, obrigada a trocar três vezes de escola. Mesmo assim, os novos grupos acabavam descobrindo a história. “(Esses adolescentes) frequentam as mesmas baladas, clubes e shoppings e a notícia circulou também nesses meios”, conta Bruno Neto. Após oito meses, o caso foi resolvido na semana passada. As autoras concordaram em pedir desculpas à vítima evitando que a história fosse encaminhada à Justiça e tivesse desdobramentos legais e financeiros, já que a família havia entrado com ação de indenização. Mas, antes de chegar a esse resultado, a família da menina perseguida pelo grupo foi obrigada a contratar advogado nos Estados Unidos para conseguir produzir provas contra o grupo, porque as postagens eram feitas por meio de um site sediado em um provedor fora do Brasil.


O segundo também era um caso de cyberbullying punido com liberdade assistida, medida prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em que o acusado é obrigado a comparecer a um setor do MP para ter acompanhamento de psicólogos, educadores e assistentes sociais.


6 ANOS é a pena máxima prevista no anteprojeto para casos que deixem sequela psicológica
4 ANOS é a pena máxima prevista para a prática de bullying, sem as agravantes, segundo anteprojeto
1 ANO é a pena mínima para casos de bullying no anteprojeto elaborado pelos promotores

O QUE PODE MUDAR
COMO O BULLYING É TRATADO HOJE:
- É enquadrado como injúria ou lesão corporal

- Injúria consiste em atribuir a alguém qualidade negativa, que ofenda sua honra, dignidade ou decoro. A ofensa pode ser verbal, por escrito ou física. Pena de detenção de um a seis meses ou multa. Se há violência, a detenção é de três meses a um ano e multa. Se utilizar elementos como raça, cor, etnia, religião, entre outras a pena é de reclusão de um a três anos e multa

- A lesão corporal consiste em ofender a integridade corporal ou a saúde. Pena de detenção de três meses a um ano. Se for grave, reclusão, de um a cinco anos

ENTENDA
O QUE É BULLYING:

- Ocorre quando há violência sistemática, com agressões físicas ou verbais repetitivas, contra a mesma criança

O QUE É CYBERBULLYING:



- Quando as ofensas são postadas em redes sociais como Facebook, Orkut, Twitter, MSN, SMS com mensagens ou fotos e também por meio de mensagens de celular

COMO AGEM AS VÍTIMAS:



- Em casa mudam o comportamento, têm dores de cabeça e estômago, falta de apetite e insônia

- Na sala de aula têm uma postura retraída, faltam frequentemente e demonstram tristeza

- No recreio escolar ficam isolados do grupo


Fonte:


O Estado de S. Paulo, de 19/04/11

Quem tem medo da promiscuidade?

Os últimos dias foram pródigos em acontecimentos parecidos: agressões a gays, chacina de crianças em escola, ataques verbais a negros, uma surpreendente novela num dos maiores canais de televisão sobre os porões da ditadura... Deveríamos pensar esses fatos como um conjunto inteligível da sociedade brasileira atual? Deveríamos separá-los por planos - o plano político, o moral, o psíquico, o histórico, e assim por diante? Ou haverá um plano anterior em que todos esses fatos se apresentem ao mesmo tempo à nossa compreensão, como fato social total? Questão teórica, dirá o leitor, não precisamos de mais uma. O problema é que sem método de pensar acabamos embriagados de fatos, caímos numa espécie de ressaca midiática.
Um deputado, Jair Bolsonaro, está se defendendo das acusações de racismo e homofobia. Vamos lhe dar o benefício da dúvida: ele não entendeu a pergunta da entrevistadora (o que faria se um filho seu casasse com uma negra?), e desancou a promiscuidade.

No plano moral, não precisamos definir promiscuidade; provavelmente somos todos contra. No plano da sexualidade, seria a falta de moral que conduz a fazer sexo com qualquer um; e provavelmente nem todos somos contra.

Acontece que a promiscuidade aparece também em outro plano, o da história. É um fator de longa duração, que operou de Cabral até hoje, sem intermitência. Não fosse ela, seríamos outro país. A língua que falamos é um exemplo, resultou da promiscuidade do português com as línguas indígenas e africanas. O Estado, as academias, a escola, os manuais de redação lutaram todo o tempo para proteger o português das outras línguas. Perderam. Ficaram vestígios dessa luta inglória - o hábito de chamar as línguas africanas de dialetos, diminuindo-as; os nomes indígenas de locais paulistas, resistentes de cinco séculos às designações oficiais...

A família brasileira, desde o começo, foi promíscua. A grande fazenda, o curral, as minas, as bandeiras amontoavam brancos, índios, negros e mulatos na mesma casa, nas mesmas canoas e redes, de dia e de noite. A unidade de produção coincidia com a unidade familiar: onde se trabalhava era onde se comia e onde se amava (e/ou odiava). Essa coincidência ajuda a explicar nossa miscigenação. Somos patriarcais, etc., porque fomos promíscuos. Parece estar aí um significado da homofobia e negrofobia brasileiras: conter a promiscuidade. A Ordem sempre a combateu com sermões, conselhos e leis. Inventou, certa época, termos jurídicos: inversão, para homossexualidade; cromoinversão, para casamentos inter-raciais. Deus livrasse delas nossa família. Não livrou.

Detestar pretos e homossexuais é um livre-arbítrio; há quem os deteste até por motivo religioso. No plano político, o da luta pelo poder, ocorre de o negrófobo ser quase sempre homófobo. Negros e homossexuais são avatares da promiscuidade que nos ameaça.

A promiscuidade criou a patuleia. Se esta se mantivesse no seu lugar, nenhum problema. Não houve racismo durante a escravidão: não era necessário. O problema começa quando a mulataria luta para se tornar povo, não o povo retórico dos políticos, mas comunidade de sujeitos cidadãos. Nessa luta, a Ordem apresentou suas armas. A primeira foi classificar a promiscuidade como problema moral/sexual, recalcando o plano histórico em que, afinal, todo fato também ocorre.

A mais duradoura e eficaz dessas armas é a tortura. O senso comum vê o torturador como um desviante moral/sexual, mas essa não é sua característica principal. Politicamente, a tortura visa a impedir a transformação da mulataria em povo. Espancar a criança para não virar viado (transviado, invertido), por exemplo, é obrigação do pai. Se este falhar, que entre a lei e a polícia, com seu arsenal de palmatórias e choques.

Essa é essa pedagogia coerentemente defendida pelo deputado Bolsonaro. O negrófobo, o homófobo e o torturador têm um fundo comum. Não no plano moral/sexual, em que os valores se combinam subjetivamente. Mas no plano histórico-social, em que se combinam objetivamente.



Por

Joel Rufino dos Santos, Doutor em Comunicação e Cultura.
O Estado de S. Paulo, de 17/04/11

14 de abr. de 2011

o luto da arte

 

Damien Hirst: a arte contemporânea, sendo trabalho do luto, prova sempre experiência do desgosto


A discussão sobre a morte da arte teve um lugar essencial nas Lições de Estética, de Hegel, no século 19. Não se pode perder de vista que a morte da arte à qual Hegel se referia era a da arte bela e não da arte de modo geral. Se Hegel tem razão, em havendo uma morte da arte que não deve ser generalizada, trata-se de entender que tipo de arte, para além da arte bela, sobreviveu. Em um século de genocídios, ditaduras e violências de toda sorte, a arte é a memória da sua própria morte.


A pré-história dessa percepção está na Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant, que antes afirmou a existência de dois sentimentos, o belo e o sublime, como sustentáculos da experiência estética. Belo – a sensação de prazer com os objetos agradáveis – e sublime – um misto de prazer com desprazer – são formas de acesso subjetivo à beleza, tanto da natureza quanto das artes. Kant define a arte bela como aquela que pode representar de modo belo até mesmo as coisas feias. A tarefa histórica da arte sempre foi a de colocar beleza no mundo e suplantar o feio. Criamos essa expectativa e isso hoje em dia não nos ajuda.


Mas o próprio Kant disse que havia uma espécie de feiura, que não pode ser representada de acordo com a natureza sem cancelar a complacência estética, ou seja, a nossa capacidade de perceber a beleza em geral e a beleza da arte. Kant refere-se à feiura que desperta asco. O asco, segundo Kant, é uma “sensação peculiar” marcada pela imposição do objeto feio que imediatamente se nos lança sobre os sentidos, sem que desejemos aceitar sua presença. O filósofo espanhol Eugenio Trías dá um exemplo repugnante só de ler: quem pisa em um rato morto e eviscerado na rua tem a sensação de que ele vai parar dentro da boca. A experiência do asco se dá como se um prato de merda fosse oferecido para se comer.


O asco é uma espécie de sentimento impossível, por estar na contramão do gosto. Podemos traduzi-lo por nojo. E nojo é algo que se traduz por luto. A experiência do asco ou do nojo, como experiência do des-gosto, é da mesma ordem da experiência do luto, de algo que não desejamos e que mesmo assim se impõe. A lástima pela perda de um objeto amado, mas também do gosto – seja pela arte, seja pela vida – que acompanhava aquele objeto é experiência disseminada em nossa cultura, da qual a arte atual vem a ser a apresentação mais clara.


A arte, do asco ao luto

O luto é sempre uma reação à perda de um objeto amado. É, portanto, a experiência da morte enquanto ela pode ser conhecida: a morte dos outros, das coisas, das experiências. Até mesmo, como em Luto e Melancolia, de Freud, a perda de uma abstração, de um ideal qualquer. Nunca a da epicuriana morte que não encontraremos, pois já não estaremos quando ela aparecer. A arte contemporânea é experiência enlutada e, por isso, dói tanto tratar dela. Encará-la é experimentar o luto na forma de sua exposição possível. Mas, se há entre arte e vida, entre ficção e realidade, uma relação que é sempre de mimese, por imitação ou por mimetismo, e se há tanta perda na vida, a arte não deveria ser nosso resgate para além do que a vida nos dá sem nenhuma elaboração?


A promessa romântica da arte é que ela viria nos salvar da vida. Mas, após a perda da ingenuidade romântica, por que ainda esperamos tanto da arte? Arte é apenas um conceito que tem tão pouco valor quanto pouco uso nos dias de hoje. No entanto, arte ainda é, como conceito, algo que vai na frente da nossa sempre atrasada sensibilidade. Que a arte mova nossa sensibilidade é a esperança sem fundamento de muitos, mas sensibilidade é uma formulação imprecisa entre o perigoso culto da emoção e os sentimentos que só são elaborados mediante a interferência da racionalidade capaz de criar conceitos. Não há chance de que arte hoje seja mais do que uma construção para fazer pensar.


Temos na experiência contemporânea da arte a autopresentificação do seu próprio luto. Como se a arte ainda estivesse no período enojado em que tem que se haver com a memória de um cadáver que é ela mesma e que, na verdade, mimetiza o estado das coisas de um mundo em crise de sentido. Assim é que a obsolescência do conceito de arte o coloca na posição de um conceito-memória. Um conceito que foi válido, mas que perdeu sua circunstância na atualidade. Arte não é mais a bela arte, ainda que possamos com muito esforço descobrir nas obras que a beleza também é um conceito e, como tal, uma visão das coisas.


O paradoxo do gosto

O que a arte contemporânea nos sugere é a experiência do paradoxo do gosto. Como é possível “apreciar” esteticamente aquilo que repugna se neste momento a experiência estética como mediação entre sensibilidade e racionalidade foi anulada? A questão é que a arte contemporânea, sendo trabalho do luto, acontecendo na contramão do gosto, provoca sempre a experiência do desgosto. Por isso, a arte conceitual tem tanto espaço em nosso tempo, por chamar ao pensamento em tempos de cancelamento da sensibilidade. É como se toda obra nos enviasse a mensagem: se não podemos “gostar”, podemos “pensar”. É o paradoxo da inestética: a sensação é de perda da sensibilidade na arte; mais do que um problema da arte, é problema da cultura na qual ela surge. Um artista como Damien Hirst, com seus bezerros e tubarões no formol, não é, portanto, julgável segundo o padrão do gosto pela arte bela, porque estamos em tempos de perda do gosto. O que será que ele nos mostra que não sabemos pensar?

Com isso se consegue compreender o que acontece com a arte atual. Ela é a experiência da morte da própria arte bela nestes tempos de desgraça cultural. Tempos tensos: de um lado tragicofílicos – desejamos a tragédia – e de outro tragicofóbicos – evitamos a morte a qualquer custo –, como disse Hans Gumbrecht. Podemos dizer, nestes tempos, que a arte se faz na ordem do trágico, este sentimento da “morte em mim”, da morte como experiência subjetiva, como imagem da melancolia que nada mais é do que a morte do eu e do pensamento que sempre foi a prova de que existia algo chamado “eu”. Não, não exageremos.

A arte contemporânea não é nem trágica nem melancólica. Enlutada, ela nos pede que ultrapassemos a memória da morte e reinventemos o presente. Só o que impede isso é o capital culto à desgraça em que vivemos hoje. O gozo atual é com a ideologia da morte como um fim, quando, na verdade, estúpidos e conceitualmente avarentos, não sabemos entender o valor e o poder das transformações históricas das quais a arte nos dá apenas uma imagem para nos fazer acordar. Mas quando até mesmo a desgraça se tornou um “capital”, haverá espaço para a arte que denuncia o seu caráter capitalista?



Por

Marcia Tiburi
Revista Cult, de 05/04/2010.

A interdição do véu

A França é o primeiro país europeu a lançar-se ao ataque contra véu islâmico, embora numerosas muçulmanas em muitos outros países também usem a burca. Precauções extremas foram tomadas para evitar que a lei pareça dirigida exclusivamente contra o Islã.

Primeira precaução: a burca não é a única vestimenta visada. É igualmente proibido transitar com o rosto oculto sob uma máscara ou um capuz. A lei não proíbe uma prática religiosa, islâmica, mas quer simplesmente impedir que qualquer pessoa na França mostre seu rosto. Um palhaço cristão ou budista que andasse com o rosto coberto por uma máscara seria preso.


Segunda precaução: os policiais deverão dar prova de delicadeza. Antes de cobrar uma multa de 150 euros, eles explicarão à mulher que ela deve mostrar seu rosto para permitir o controle de sua identidade. Em nenhum caso, o véu será retirado contra a vontade. Mas, se a "operação persuasão" fracassar, a pessoa faltosa será encaminhada à Procuradoria da República.

Na França, contam-se no máximo 3 mil mulheres adeptas do niqab ou da burca. Como explicar que um dispositivo tão pesado tenha sido montado para tão poucas pessoas? Primeiro, defende-se um princípio: a França é um país laico. Ela não pode tolerar nenhuma marca religiosa fora dos templos. Depois, o uso dessas máscaras é atentatório à liberdade e à dignidade da mulher. Por essa razão, multas muito mais pesadas serão aplicadas aos homens que obrigarem suas mulheres a adotar o véu.

Mas como provar semelhante coerção? Uma sondagem foi feita com 32 mulheres que usavam o véu integral. A maioria, 29, é nascida na França ou convertida. Primeira constatação: 12 dessas 32 mulheres adotaram o véu somente depois que eclodiu o debate sobre a vestimenta, em 2009.

"Em face aos ataques lançados contra minha religião, quis reafirmar minha identidade." Uma dessas mulheres explicou sua escolha: "Eu disse a Deus: se quereis que eu use o niqab, dai documentos a meu marido." O marido recebeu os documentos e, em seguida, a mulher cobriu o rosto.

Todas dizem que estão felizes e falam de uma experiência quase mística. "Eu sinto orgulho e um verdadeiro êxtase." Ou ainda: "A burca me introduz numa existência monástica." Outras fazem análises de tendências feministas: "O niqab me protege do olhar dos homens." Safra, de 17 anos, diz que o niqab assegura a separação dos sexos. Parveen, de 19, reconhece que, desde que usa o véu, não fala mais com homens.


Essas mulheres são muito críticas das instituições oficiais do Islã francês. Com frequência, lembraram que o uso do véu era um costume tardio que não figurava nos princípios islâmicos. As mulheres que optaram pelo uso do véu se dizem convencidas de que, ao contrário, a interdição está inscrita no Alcorão.
 
 
"O véu faz parte da religião", disse uma delas. "As mulheres do Profeta estavam todas integralmente cobertas." No conjunto, essas mulheres são hostis à lei. Nenhuma delas, porém, quer entrar em guerra contra a república. Todas dizem que, se lhes pedirem para tirar o véu para identificação, estão prontas para tirá-lo.

Por:

Gilles Lapouge, correspondente em Paris.
O Estado de S. Paulo, 12/04/11

Há 50 anos, homem chegava ao espaço pela primeira vez

Na manhã de 12 de abril de 1961, o soviético Alekseyevich fez um café-da-manhã inédito. Flutuando a 327 km acima da superfície terrestre, o homem de apenas 27 anos comeu e bebeu dentro de uma bola de apenas 2,3 m. Ficou conhecido para a posteridade como Yuri Gagarin e seu desjejum matinal foi apenas um feito dentro de outro maior: o primeiro voo de um humano no espaço.
Foi a segunda refeição do dia para o piloto da força aérea da extinta URSS. Horas antes, na companhia do seu substituto imediato German Titov, o cosmonauta já havia recebido “comida do espaço” para se acostumar à rotina durante a missão. Gagarin foi o escolhido entre mais de 3,5 mil aspirantes à missão, após intensos testes de resistência física e psicológica. Somente seis homens foram selecionados como possíveis candidatos à primeira aventura do homem no espaço. A decisão sobre quem iria estar a bordo da nave redonda Vostok 1 foi comunicada ao grupo apenas quatro dias antes da missão.Foi a segunda refeição do dia para o piloto da força aérea da extinta URSS. Horas antes, na companhia do seu substituto imediato German Titov, o cosmonauta já havia recebido “comida do espaço” para se acostumar à rotina durante a missão.
À época, a extinta União Soviética e os Estados Unidos travavam uma batalha silenciosa para saber qual nação levaria o primeiro ser humano à Lua. Os norte-americanos venceram a disputa em 1969, com o “pisão” inaugural de Neil Armstrong no satélite natural da Terra, mas nos oito anos anteriores, os soviéticos sempre estiveram à frente - inclusive no lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957.
Os Estados Unidos só levariam o primeiro homem ao espaço alguns meses mais tarde, durante a viagem de Alan Shepard no voo da Freedom 7, em 5 de maio de 1961. Porém somente em 7 de fevereiro de 1962, durante a missão Friendship, com John Glenn, o país teve seu primeiro astronauta completando uma volta inteira ao redor do planeta. Ambos os feitos fizeram parte do Projeto Mercury, da agência espacial norte-americana (Nasa).
‘Poyekhali’
O voo de Gagarin começou às 09h07 no horário de Moscou, com o lançamento da cápsula Vostok 1 com o foguete R-7.
Antes de decolar, o cosmonauta gritou “Poyekhali!” (“Vamos nessa!", em tradução livre).
A nave partiu das instalações do então secreto Cosmódromo de Baikonur, conhecido à época também como Tyuratam, localizado atualmente nas estepes do Cazaquistão – uma das ex-repúblicas soviéticas.
Onze minutos após a decolagem, o combustível do foguete acabou, a cápsula redonda Vostok foi liberada e a humanidade entrava em órbita pela primeira vez.
Gagarin 4 (Foto: Nasa)Yuri Gagarin ao ser transportado para o lançamento da Vostok 1, na manhã de 12 de abril de 1961. Ao fundo da imagem está German Titov, piloto reserva da missão, que foi ao espaço na missão Vostok 2. (Foto: Nasa)
Para girar ao redor do planeta, a Vostok precisou alcançar uma velocidade média de 28 mil km/h. Gagarin não chegou a controlar a nave, ainda que os controles para uma operação manual da Vostok 1 estivessem disponíveis ao piloto soviético.
Durante os 108 minutos de duração da missão, Gagarin deu uma volta inteira em torno da Terra. Os relatos do cosmonauta narram a sensação de estar sob o efeito de uma gravidade menor, além de uma preocupação constante sobre os dados do voo – ao solicitá-los à equipe responsável na Terra.
O cosmonauta retornou ao solo terrestre às 10h55 em uma área de plantação em Smelovka, na província de Saratov, a 300 km de onde deveria ter pousado. De volta ao planeta, Gagarin recebeu seu terceiro café-da-manhã naquele dia: leite e pão de Anna Takhtarova, uma avó espantada com a figura de um homem vestido em trajes laranjas e com um capacete, vindo do espaço.
Vostok 1a (Foto: ESA)A cápsula Vostok 1, com apenas 2,3 m de diâmetro,
após aterrissar de volta na Terra. (Foto: ESA)
Legado
Gagarin virou um herói soviético após retornar ao planeta que ele observou - pela primeira vez - de fora. Foi poupado de outras missões pelo medo de um acidente encerrar a vida de um dos principais ícones soviéticos durante a Guerra Fria.
Ironicamente, o temor se justificou em 28 de maio de 1968, quando em um acidente ainda envolto em mistério, Gagarin morreu durante testes em um avião MiG.
Após a tragédia, uma cratera na Lua e um asteroide foram nomeados em homenagem ao cosmonauta.
Depois de Gagarin, mais de 400 pessoas – de 30 países diferentes – já estiveram no espaço. A maior distância já percorrida por humanos foi pouco maior que 400 mil quilômetros, durante a quase fatal missão Apollo 13, da Nasa.
Fontes:
G1 e História Pensante

Um bom professor, um bom começo

Todos Pela Educação


Um bom professor, um bom começo é a nova campanha do Todos Pela Educação pela valorização do professor.

Veja vídeo: http://migre.me/4eMnF

13 de abr. de 2011

Falta mão de obra qualificada

A falta de mão de obra qualificada prejudica 69% das indústrias de transformação e extrativa do País. Os dados constam na Sondagem Especial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada nesta quarta-feira. Em 2007, quando um estudo prévio foi realizado, 56% das empresas do setor haviam apontado problemas com a qualificação da mão de obra.

Para Renato da Fonseca, gerente-executivo da Unidade de Pesquisa da CNI, a maior percepção com relação ao problema da mão de obra está associada ao crescimento da economia nos últimos anos. “O crescimento econômico agrava o problema da mão de obra qualificada, porque você precisa produzir mais, com maior qualidade, para ter produtividade e competir com os importados e em mercados estrangeiros.”

O estudo entrevistou executivos de 1.616 empresas de pequeno, médio e grande porte, entre os dias 3 e 26 de janeiro.

Uma das principais conclusões do levantamento é que a falta de mão de obra impacta toda a indústria brasileira. O problema afeta com maior intensidade as companhias de pequeno e médio porte (70% do total), segundo a CNI. Nas grandes indústrias, a dificuldade com mão de obra atinge 63% das companhias.

A área de produção é a principal afetada pela escassez de mão de obra qualificada. A maior necessidade está nos cargos de operador de produção (94%), técnicos de produção (82%) e engenheiros de produção (61%).



Mas a falta de trabalhador qualificado também é vista nas mais diversas áreas e categorias, segundo a CNI. Para 62% das indústrias, há dificuldades com trabalhadores qualificados para cargos gerenciais. As áreas administrativas (62%), vendas e marketing (71%) e administrativa (66%) também sofrem com a falta de qualificação de mão de obra.

Educação

Renato da Fonseca pontua que a educação básica é o principal entrave para a qualificação dos trabalhadores da indústria. “Foi o tempo em que o trabalhador simplesmente apertava um parafuso. Hoje, em qualquer área tem tecnologia inserida. Isso demanda um conhecimento de lógica, de interpretação e matemática bastante avançado.”


Segundo a sondagem da CNI, 84% das empresas disseram ter dificuldades para capacitar os funcionários. “No longo prazo, se não tivermos um investimento em educação vamos enfrentar problemas de produção.”

Para 52% das indústrias ouvidas, a má qualidade da educação básica é a principal barreira para qualificar os trabalhadores. Outros 38% disseram que perder o trabalhador para o mercado, depois do período da qualificação, é um impedimento. O pouco interesse dos trabalhadores foi citado como dificuldade para 35% das empresas.


Como alternativa para compensar a falta de qualificação, 78% das companhias ouvidas pela CNI disseram ter capacitação na própria empresa para os funcionários. Outras 40% disseram ter uma política de retenção do trabalhador e 33% utilizam capacitação fora da empresa.

Em quatro dos 26 setores pesquisados, as empresas disseram não ter mecanismos para compensar a falta de mão-de-obra. São eles: farmacêuticos, indústrias diversas (ambos com 17%), bebidas (20%) e calçados (21%).

“No Brasil, há uma demanda por profissionais qualificados. Começa-se a mudar uma estrutura de ensino, mas isso demanda tempo e um custo maior para capacitar”, disse Renato da Fonseca.
Setores


A indústria extrativa apresenta falta de trabalhador qualificado em 74% das empresas. O levantamento da CNI mostrou, ainda, que dos 26 setores da indústria de transformação considerado, 25 enfrentam dificuldades em encontrar trabalhadores qualificados.

De acordo com a CNI, o setor de vestuário é o principal afetado pela escassez de mão-de-obra qualificada. Para 84% das companhias do setor consultadas pela confederação, há dificuldades em encontrar trabalhadores qualificados para os postos. Em seguida, aparece o setor de outros equipamentos de transporte (83%). Os setores de limpeza e perfumaria (82%) e móveis (80%) também apresentarão alto índice de dificuldade.


Fonte:

Economia Empresas, de 04/04/11

Desarmamento terá consulta popular

A proposta de uma nova consulta popular sobre o desarmamento foi oficializada ontem pelo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com apresentação de projeto determinando realização de plebiscito sobre o tema já no dia 2 de outubro deste ano. A pergunta a ser feita é: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?"

A ação tem como pano de fundo a tentativa de dar resposta à sociedade após o massacre na Escola Tasso da Silveira, no Rio, que matou 12 adolescentes. Para que a consulta popular seja realizada no prazo desejado, será preciso trâmite acelerado no Congresso. O projeto de decreto legislativo terá de passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado antes de ir ao plenário da Casa. Aprovada, a proposta vai para a Câmara, onde terá de passar por duas comissões antes de ir a plenário.

A lei que trata da convocação de plebiscitos e referendos define que cabe à Justiça Eleitoral fixar a data da consulta. Por isso, a proposta teria de ser aprovada a toque de caixa, visto que só para a convocação de mesários o Tribunal Superior Eleitoral precisa de pelo menos 60 dias.

Na realização do referendo de 2005, o custo foi de R$ 252 milhões, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Naquela ocasião, a campanha contra o desarmamento custou R$ 5,7 milhões, ante R$ 2,2 milhões da propaganda de quem defendia o fim do comércio. Quase a totalidade da campanha vitoriosa do "não" foi patrocinada por empresas de armamentos. A Taurus doou R$ 2,8 milhões e a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), outros R$ 2,7 milhões.

O presidente do Senado acredita que a decisão da sociedade agora será diferente. "A sociedade muda. O que estamos vivendo hoje não é o que vivíamos há alguns anos. Precisamos repensar o que foi decidido." A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, apoiou a proposta e afirmou que o desarmamento é um dos centros de atuação da presidente Dilma Rousseff.

As críticas, porém, não demoraram a aparecer, começando pelo presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS). "Já fizemos um referendo que demonstrou a opinião da sociedade e a opinião foi muito firme: mais de 60% dos cidadãos votaram pelo não." Já o líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), classificou a discussão como "bobagem". "É para dar satisfação à sociedade. Eu sou a favor do desarmamento de bandido, mas como o governo não quer tomar providências usa essa questão da restrição das armas."

Outras propostas. Além do plebiscito, diversas propostas surgem como reação à tragédia do Rio. O presidente da CCJ do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), vai levar hoje à análise dos parlamentares um apanhado de projetos da área de segurança parados na comissão.

Outra ação foi do líder do PSDB, Duarte Nogueira (SP). Ele apresentou projeto para que todas as armas fabricadas no País tenham chip eletrônico com dados de segurança e identificação.


ApreensõesSó na capital paulista foram apreendidas, em média, 13 armas de fogo ilegais por dia no ano passado. Ao todo, foram 5.062 unidades: 55% revólveres e 23,8% pistolas.

GLOSSÁRIO



Referendo


Eleitores são chamados a se pronunciar sobre determinada decisão já tomada pelo Legislativo.

Plebiscito


É convocado antes da lei, mas tem caráter de consulta. Congresso não é obrigado a aprovar lei.

Fonte:

O Estado de S. Paulo, de 13/04/2011

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Opinião de Dora Kramer, jornalista:

Duas palavras para definir a proposta do presidente do Senado, José Sarney, de fazer uma nova consulta popular sobre a proibição de venda das armas: acintosamente oportunista.

O Senado não cuida de si, não cumpre as promessas de corrigir as deformações administrativas, não zela pela autonomia do Poder Legislativo, nem sequer controla o ponto dos funcionários, mas é ágil quando se trata de surfar na onda da comoção popular.

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É necessário valer as leis. O Assassino de Realengo comprou as armas ilegalmente. Que tal fecharmos as fronteiras para o comércio ilegal das armas e das drogas? As leis são severas, mas não são aplicadas devidamente. Precisamos é conter o comércio ilegal das armas. Outra consulta popular em menos de 6 anos não fará diferença, caso as autoridades não cumpram seu papel: fazer com que as leis sejam cumpridas doa a quem doer.

Luciana


12 de abr. de 2011

A tragédia de Realengo

O que se passa na mente de um desequilibrado como Wellington Menezes de Oliveira? Como defini-lo?  Psicopata? Sociopata? Esquizofrênico? Não. Assassino.

Ganhou seus 15 minutos de fama assassinando  cruelmente crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira  onde estudou, em Realengo, no Rio de Janeiro. O bairro era conhecido nacionalmente devido à música de Gilberto Gil: "Alô, alô Realengo. Aquele abraço". E além da música, agora ficará na memória da população brasileira pela eternidade.

Não adianta perguntar o porquê. É impossível entrar na mente do assassino para saber sua motivação, mas houve premeditação e um planejamento minuncioso. Wellington foi minuncioso na expressão das últimas vontades, nos pedidos e recomendações que fez. A carta deixada por ele é clara: explica seus valores de referência, relativos à pureza do corpo e à sua purificação ritual para o sepultamento. O corpo continua no IML à espera de liberação por um parente. Há o aspecto hediondo da morte das crianças no estilo de execução: tiros certeiros na cabeça e no abdomên, principalmente nas meninas.

A tragédia dificilmente poderia ser evitada, uma vez que os tiroteios em escolas, haja vista os casos nos Estado Unidos, envolve pessoas que faziam parte da instituição. É um ataque de uma pessoa conhecida e não um invasor, e assim, muito mais difícil de se proteger. Enfim, é uma agressão que vem de dentro, por isso perigosa e imprevisível.

Segundo especialistas em tiroteios em massa, a maioria dos atiradores de escolas se vê como um fracassado socialmente, rejeitado e não aceito por um grupo. São potenciais suicidas, mas não querem somente se matar e ficar com o estigma de fracos, eles têm essa necessidade de chamar mais atenção e usam a violência para isso. Eles querem ser respeitados. São vistos como assustadores, dramáticos no ato da violência para espantar a pecha de perdedor, que é como ele foi visto a vida toda.

É impossível garantir que algo assim não acontecerá nunca mais. Para um assassino cumprir sua missão com maior número de vítimas, ele tem que ter acesso a um tipo de arma automática ou rapidamente recarregável, como aconteceu em Realengo. Também nota-se, por meio de outros casos de execução em massa, que quando o assassino decide causar tantas mortes, ele está determinado, como se fosse uma missão. Não sei se uma pessoa nesse estado é detida por obstáculos como leis de restrição ao porte de armas, mas dificultaria muito a compra delas.

Temos que tentar melhorar a experiência escolar dos adolescentes, diminuindo o bullying, a rejeição. Também se constuma culpar filmes e games violentos, porém a real influência desses vídeos na cabeça dos jovens é a forma como ali a violência representa a masculinidade, a glória do anti-herói e os países ocidentais glorificam e respeitam o homem violento, infelizmente. É a nossa cultura.

Ademais, as razões do que se passou em Realengo permanecerão incógnitas, mesmo tentando achar os culpados. O que nos resta é daqui para frente dar mais atenção às pessoas que têm alucinações ou fantasias destrutivas ou comportamentos preocupantes (ficar obssessivamente mergulhado na internet). Não há só um fator para a construção de um assassino, o comportamento que leva ao crime é evolucionário.



Luciana 






6 de abr. de 2011

Preconceitos em pauta 2

Um caso polêmico está agitando as semifinais da Superliga masculina de vôlei. Michael, jogador do Vôlei Futuro, afirma que foi alvo de homofobia durante a partida de sexta-feira diante do Sada/Cruzeiro em Contagem (MG). No confronto, a equipe da casa levou a melhor e saiu na frente na série melhor de três.

Michael, que é homossexual, disse que foi chamado de "bicha" pela maior parte dos torcedores presentes no ginásio, em coro. O árbitro não relatou o ocorrido na súmula, mas o Vôlei Futuro encaminhou um relatório ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) do vôlei e cobra providências.

"No jogo em Contagem eram cerca de duas mil pessoas, o ginásio estava super lotado e todos me chamando de 'bicha', 'gay' e outras ofensas. Me senti ofendido e constrangido pelo ocorrido. Não eram só alguns torcedores de torcida de futebol, eram crianças, mulheres, o ginásio inteiro gritando e me ofendendo.

O jogo foi transmitido pela TV e não só quem estava no ginásio pode ouvir, mas todos que assistiram ao jogo pela TV no Brasil inteiro, depois da partida as pessoas em Araçatuba e de diversos lugares vieram me perguntar o que tinha acontecido e se mostraram muito solidárias. Eu poderia ter jogado melhor se não tivesse passado por esse constrangimento e me senti julgado pelo lado pessoal e não pelo profissional que sou. Acho que este tipo de acontecimento não deve passar em branco, realmente me fez muito mal, acho que deve ser divulgado e discutido para que isso não ocorra com mais ninguém", declarou o atleta.

"Sou gay, mas isso não precisa ser comentado. Todo mundo aqui sabe", disse posteriormente, em entrevista ao Globoesporte.com.

Vôlei Futuro reclama. A equipe de Araçatuba divulgou uma nota repudiando a atitude da torcida e dos dirigentes adversários. "Tratando-se da torcida do Cruzeiro, esta atuou de maneira feroz e preconceituosa, mostrando ódio, aversão e discriminação a um dos atletas do Vôlei Futuro, deixando claro o manifesto de homofobia dentro do Ginásio. O coro era de forma organizada, crianças, homens e mulheres se juntaram para cometer o tremendo desrespeito e discriminação com o atleta Michael", destaca o Vôlei Futuro.

O time do interior paulista também reclama da superlotação do local. Diz que se deparou com um segurança "aparentemente alcoolizado", afirma que não havia ingressos para a sua torcida e denuncia que o policiamento local era inferior à necessidade de pessoas presentes.

"Na saída mais um caso de desrespeito, do Ginásio até o ônibus da equipe não havia segurança ou membro da organização da equipe adversária. Nossos atletas passaram pelos torcedores que se agrupavam para xingá-los e desrespeitá-los", ressalta o comunicado.

Reposta. O Cruzeiro refuta as acusações e ainda ataca o rival. "Suspeitamos que tais 'denúncias' sejam uma nítida manobra no sentido de intimidar a nossa equipe e nossa torcida no jogo da volta em Araçatuba, no próximo sábado", diz, em nota. A equipe mineira teme hostilidade contra seus jogadores no próximo confronto.

De acordo com a diretoria cruzeirense, o jogo foi normal e a torcida fez uma festa bonita, como sempre acontece na Superliga. "O Cruzeiro não incentiva e nem apoia atos considerados como preconceituosos. Ao contrário, sempre pede que todos sejam tratados com respeito. Após a partida, funcionários da equipe Sada/Cruzeiro viram vários atletas do Vôlei Futuro, como Leandro Vissotto, Mário Jr e Michael tirando fotos e dando autógrafos para os torcedores, em sua maioria crianças e mulheres, num clima comum a um jogo de vôlei. Nenhuma confusão."

Além disso, o time de Minas Gerais declara que todos os integrantes da delegação do Vôlei Futuro foram bem recebidos no ginásio.

Estadão on line, 05/04/2011

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Vamos cuidar da vida! E respeitar mais o próximo.
Cada vez mais está provado que o Brasil é uma nação que não respeita as diferenças.
Não adianta falar mal do deputado e cometer os mesmos erros.

5 de abr. de 2011

Toda revolução é uma revolução "sui generis"

Uma revolução se assemelha à morte de uma estrela agonizante, uma brilhante explosão em cores que dá origem não a uma galáxia nova, mas a uma nebulosa, uma nuvem disforme de energia instável. E, embora cada revolta seja diferente, nesta era incerta de levantes árabes e de intervenções do Ocidente, enquanto os mísseis americanos caem sobre a Líbia, enquanto o presidente do Iêmen vacila à beira da catástrofe e as tropas sírias disparam em manifestantes, a história da revolução ainda pode apresentar algumas indicações sobre o futuro.

O sociólogo alemão Max Weber apontou três razões para os cidadãos obedecerem a seus governantes: prestígio histórico, carisma do governante ou ordem e justiça. A primeira razão é particularmente importante porque no mundo árabe até as repúblicas tendem a ser dinásticas. Antes de ser deposto, o egípcio Hosni Mubarak preparava seu herdeiro. Antes de falecer, em 2000, Hafez Assad, ditador sírio, entregou o poder ao filho Bashar. O coronel Muamar Kadafi governou por muito tempo por meio de capangas herdeiros, cada qual desempenhando uma função diferente: um era o executor totalitário; outro, o liberalizante pró-Ocidente. Cada um competindo pela sucessão. Do mesmo modo, Ali Abdullah Saleh, do Iêmen, é protegido por forças especiais comandadas por filhos e netos.

Entretanto, "a vida de uma dinastia corresponde ao arco da vida de um indivíduo", escreveu Ibn Khaldun, historiador islâmico do século 14. Todas essas "monarquias" árabes tiveram como base o prestígio de uma religião, de uma personalidade ou de um vínculo hereditário. "O prestígio, no entanto, acaba inevitavelmente degenerando", escreveu Khaldun. As revoluções são desencadeadas por acontecimentos dramáticos:uma eleição fraudada no Irã, em 2009, ou uma autoimolação na Tunísia. Mas são também reflexo de depressões econômicas persistentes, sem mencionar as crescentes esperanças e a tentação de uma comparação: a internet mostrou que a juventude árabe compara os direitos mínimos que lhe são concedidos com os de seus contemporâneos ocidentais.

A diferença de culturas entre os encarquilhados faraós e os jovens obcecados pelo Twitter agravou a crise, que ainda poderá marcar o fim do antigo paradigma do governante árabe, o xeque sábio e poderoso. Está em perigo o ditador que é regularmente ridicularizado pelo jovens por seus cabelos tingidos de preto, em estilo gótico, com as maçãs do rosto inchadas por cirurgias plásticas e cuja entourage inclui tantas enfermeiras quantos generais.

Esses ditadores estão tão esclerosados que só percebem que há uma revolução quando ela desaba sobre suas cabeças. Em 1848, o príncipe Klemens von Metternich, chanceler da Áustria, estava tão velho que, literalmente, não ouvia as multidões do lado de fora de seu palácio. Quando as revoltas atuais eclodiram, imagino que Kadafi ou que o rei Hamad al-Khalifa, do Bahrein, tiveram uma conversa mais ou menos nos seguintes termos: "O que está havendo? Uma revolta?", questionou o rei francês Luís XVI, em 1789. "Não, majestade", respondeu seu braço direito. o duque de La Rochefoucauld-Liancourt. "É uma revolução."

Revoluções sem líderes, sem organização, se caracterizam por um impulso magicamente espontâneo que é mais difícil de esmagar. Lenin acabara de concluir que nunca haveria uma revolução enquanto ele vivesse quando, em fevereiro de 1917, as multidões famintas de São Petersburgo derrubaram o czar Nicolau II. O revolucionários estavam no exterior, exilados e ameaçados pela polícia secreta infiltrada entre eles.

Desta vez, a espontaneidade sem liderança teve a ajuda do Facebook, o que certamente acelera a mobilização das multidões e a transmissão da cultura ocidental, seja dos solilóquios de Charlie Sheen ou das alegrias da democracia americana. As maravilhas da tecnologia, no entanto, são exageradas: em 1848, a revolução que mais se parece com a atual, os levantes foram da Sicília a Paris, Berlim, Viena e Budapeste em poucas semanas, sem telefones e muito menos Twitter, graças ao vigor do impulso e ao rígido isolamento de governantes repressivos.

Voz das ruas. Uma vez que as massas ocupam as ruas, a capacidade de esmagar as revoluções depende da vontade e da capacidade do governante de derramar sangue. Quanto mais moderados são os regimes - como o do xá do Irã, em 1979, ou o de Mubarak no Egito -, mais facilmente serão derrubados.

Quanto mais brutal é a polícia, como a de Líbia, Iêmen ou Síria, mais difícil será derrubar o governo. O Irã reprimiu brutalmente sua oposição. Para Teerã, é fundamental não ser aliado dos EUA e banir a mídia internacional, porque é muito mais fácil massacrar o povo do país sem o controle do Departamento de Estado ou da CNN.

"Começos muito auspiciosos muitas vezes terminam de maneira vergonhosa, lamentável", afirmou Edmund Burke, observador da Revolução Francesa. Basta ver a Revolução dos Cedros, do Líbano contra a Síria, que terminou com a instalação de um governo dominado pelo Hezbollah e apoiado por Damasco.

O primeiro sucesso da revolução cria uma vertigem exuberante de liberdade democrática, como vimos no Cairo e em Benghazi. Na Europa, em 1848, e na Rússia, em 1917, houve primaveras igualmente arrebatadoras. Muitas vezes, surgem líderes temporários - como Alexander Kerenski, o empertigado primeiro-ministro russo que permaneceu no poder antes de os bolcheviques assumirem -, mas toda a revolução tem suas figuras que dão cobertura aos homens fortes. O aiatolá Khomeini nomeou Mehdi Bazargan, um democrata, para o cargo de primeiro-ministro, mas ele renunciou após a crise dos reféns.

A festa não dura muito. A desordem, a incerteza e as divergências de uma revolução fazem com que os cidadãos anseiem por uma autoridade estável, ou então adotem o radicalismo. Evidentemente, os extremistas aplaudem a deterioração. Lenin, o lacônico decano da faculdade de ciência da revolução, a condensou tudo em um slogan: "Quanto pior, melhor." A essa altura, as soluções extremas se tornam mais aceitáveis. "Como fazer uma revolução sem pelotões de fuzilamento?", questionou Lenin.

Nesse estágio, a liderança torna-se vital. Lenin conduziu pessoalmente o golpe bolchevique, em outubro de 1917. Khomeini foi decisivo na criação de uma teocracia xiita no Irã, em 1979, assim como Nelson Mandela garantiu uma transição pacífica na África do Sul. No entanto, não existem líderes opositores facilmente identificáveis na Líbia, no Iêmen ou na Síria - um cruel aparato de segurança dizimou os candidatos.

Em 1848, a primavera dos povos não sobreviveu à intervenção externa. O czar Nicolau I esmagou as revoluções no Império Austríaco, o que lhe granjeou o apelido de "Gendarme da Europa". A intervenção saudita contra os rebeldes xiitas no Bahrein sugere que os sauditas são os gendarmes do Golfo. No Iêmen, o presidente Saleh também pediu ajuda aos sauditas, que ainda não veio. Evidentemente, na Líbia ocorreu o inverso. O Ocidente apoia os rebeldes contra o massacre de Kadafi. Cada caso é diferente, cada revolução é um evento local. O que quer que aconteça daqui para frente no mundo árabe, não será um retrocesso.

Depois dos levantes de 1848, a incerteza deu origem a estranhos híbridos políticos, modernos e autoritários: Luís Napoleão Bonaparte, posteriormente imperador da França, e, mais tarde, nos anos 1860, Otto von Bismarck, chanceler da Prússia.

No complexo Egito, o resultado das revoluções árabes, provavelmente, será um híbrido semelhante, uma nova democracia, com os militares em um papel peculiar, no estilo da tutela turca. Na Líbia, pode ser simplesmente um retorno à rivalidade tribal. Atacada por aviões britânicos e americanos, a Líbia talvez domine as manchetes, mas é a Síria que decidirá o destino dos três mais importantes - Egito, Arábia Saudita e Irã. Afinal, como dizia Metternich, "quando Paris espirra, a Europa está com gripe". A Síria é o antigo coração árabe. O levante sírio poderá encorajar uma nova revolução no Irã, que enfrenta o desafio de explorar as revoltas que solapam os aliados americanos na região sem sucumbir à própria agitação interna.

Na Síria, a mudança também pode libertar o Líbano do Hezbollah. A queda do rei do Bahrein pode contagiar a monarquia saudita, assim como a derrubada do rei egípcio Farouk, por Gamal Nasser, em 1952, foi o fim da monarquia iraquiana anos mais tarde. Nunca devemos esquecer de que, por mais liberais que sejam essas revoluções do Facebook, as rivalidades entre xiitas e sunitas são muito mais fortes do que o Twitter e a democracia.

O que virá depois? É muito cedo para dizer. Devemos lembrar que, embora os entusiastas citem as revoluções de 1989 como estímulo para as revoluções de hoje, até que ponto as revoltas na Europa Oriental foram bem-sucedidas? A democracia floresceu no leste europeu, assim como na Georgia e nos países do Báltico, mas a maioria das ex-repúblicas soviéticas são ditaduras. Nenhuma doutrina pode ou deve se encaixar nesse novo caleidoscópio, no universo multifacetado que é o Oriente Médio. Devemos nos convencer de que será um jogo demorado, o grande torneio do século 21.

Devemos proteger vidas inocentes sempre que pudermos, com um poderio aéreo limitado, mas sem soldados pisando no solo.

Devemos analisar quais são os países que nos importam em termos estratégicos e, depois que a festa do Facebook acabar, descobrir quem está realmente controlando os eventos nos lugares que são importantes para nós.

Os julgamentos mais perfeitos são de estadistas que sabiam tanto reprimir quanto fazer revoluções. "A Velha Europa está no começo do fim", disse Metternich ao se ver cercado de revoltas, "A Nova Europa, porém, sequer começou a existir. Entre fim e começo, haverá o caos." Como bem resumiu Lenin, a questão fundamental de toda revolução é sempre é quem controla quem.

Por
Simon Sebag Montefiore, historiador britânico e autor de Stalin: a corte do czar vermelho (editora Companhia das Letras).

O Estado de S. Paulo, 31/03/11

* meus grifos.
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Opinião:

As redes sociais, a internet são meios e não o fim para causar as "revoluções". Além dos meios, é necessário querer mudar, a reflexão sobre os direitos mínimos dos cidadãos.

Infelizmente, ainda impera o medo nestas nações dominadas pelas dinastias. A dinastia da repreensão, do cala boca, da ameaça constante, do temor. Não só os países árabes, mas também, países como a Coreia do Norte, China, Cuba, que fazem com que a cultura do medo rejam a vida do povo destes países.

Luciana