Oficina da Escrita de Vinhedo

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18 de jun. de 2012

Como a TV instiga a desrespeitar direitos humanos


A população brasileira está mais tolerante com atitudes arbitrárias da polícia e com suspensão de direitos a acusados e condenados. É o que indica a “Pesquisa nacional, por amostragem domiciliar, sobre atitudes, normas culturais, e valores em relação a violação de direitos humanos e violência”, lançada na última quarta-feira (6), pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP. As causas destas mudanças de opinião não aparecem na pesquisa, mas especialistas apontam que a sensação de medo, em parte turbinada pelos meios de comunicação, podem ser o principal fator.
Foram feitas entrevistas, em 2010, com 4025 pessoas, a partir de 16 anos, em 11 capitais brasileiras. Boa parte das perguntas também foram feitas em 1999, o que permite a comparação e mostra menos brasileiros se importando com direitos de suspeitos, acusados e condenados. Uma das questões, por exemplo, perguntava se um policial pode “invadir uma casa”, “atirar em um suspeito”, “agredir um suspeito” e “atirar em um suspeito armado”. A maioria das pessoas continua discordando totalmente nas três primeiras sentenças, mas houve grande queda dos que discordam. Em 1999, 78,4% discordavam totalmente sobre invadir uma casa; em 2010, o número caiu para 63,8%. Na primeira pesquisa, 87,9% discordavam totalmente sobre atirar em um suspeito; o que caiu para 68,6%. Em 1999, 88,7% eram totalmente contra a polícia agredir um suspeito; número que caiu para 67,9%; e 45,4% eram contra atirar em um suspeito armado, o que caiu para 38%. Outra questão era se um policial poderia bater em um preso que tentara fugir. Em 1999, 61,5% discordavam totalmente, número que caiu para apenas 34,8%.
Mudanças também em dados relacionados à Justiça. Embora a grande maioria, quase 80%, se oponha à tortura, quando perguntados se a Justiça deve aceitar provas obtidas por tortura, apenas 52,5% discordaram totalmente e 18,1% discordaram em parte. Em 1999, 71,2% discordavam totalmente e 5,5% discordavam em parte. Pode-se dizer neste caso, e em outras questões, que não aumentou o número de pessoas que concordam com a suspensão de direitos, mas que elas já não têm a mesma firmeza na defesa deles. Na afirmação “nenhum crime justifica pena de morte”, por exemplo, caíram 5% os que concordavam totalmente; número exato do que aumentou os que “concordam em parte”. Ou seja: não aumentou o número de pessoas a favor da pena de morte, apenas as pessoas contrárias à pena capital já não têm a mesma certeza.
Sobre penas, a pesquisa também fez perguntas que não haviam sido feitas em 1999, o que não permite a comparação mas, ainda assim, reforça a tendência que mostramos acima. A pesquisa sugeriu penas para determinados tipos de crime como “sequestro”, “estupro”, “corrupção”, entre outros. Na grande maioria dos crimes, mais da metade dos brasileiros optou pelas três penas não previstas pela Constituição que constavam entre as opções: pena de morte, prisão perpétua e prisão com trabalhos forçados. Além disto, mais de 60% dos entrevistados acredita que o Judiciário “se preocupa demais com os direitos dos acusados”.
Preocupação com segurança é um dos fatores, diz senador
Para o presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, Paulo Paim (PT-RS), os dados são motivados pela preocupação dos brasileiros com segurança. “Qualquer pesquisa que se realize hoje sobre as prioridades dos cidadãos, as pessoas vão dizer que se preocupam com três coisas: educação, saúde e segurança. Com este medo permanente as pessoas defendem medidas mais radicais e não percebem que violência gera cada vez mais violência. Não surpreende os dados da pesquisa e não tenho dúvida de que para crimes hediondos vai se apoiar cada vez mais a pena de morte. A tendência das pessoas é achar que isto vai resolver, mas não vai. Temos que investir em educação, informação, saúde e distribuição de renda”, conclui o senador.
“Basicamente, acho que é a cultura do medo que vai aumentando o aceitamento de repressão – e esvaziando o direito de defesa”, afirma Marcelo Semer, juiz de direito e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia. O magistrado alerta para o fato de que, muitas vezes, o apoio à repressão policial é abstrato e a opinião muda quando se presencia uma cena de violência. “As pessoas podem achar, abstratamente, que aceitam mais a violência policial, mas se comovem quando a veem. Lembre-se que foi a exposição das cenas da violência policial na Favela Naval (em Diadema-SP), transmitida pela TV, que galvanizou apoio à criação do crime de tortura”, diz.
Meios de comunicação têm relação com resultado da pesquisa, acredita professor da USP
O sociólogo, jornalista e professor de Comunicação da USP, Laurindo Leal Filho, acredita que os programas policialescos da televisão têm influência sobre o resultado da pesquisa. “A gente não tem estes dados, mas dá para intuir que têm uma relação muito próxima. Estes programas sempre existiram na televisão brasileira, mas de dez anos para cá, aumentou o número significativamente. Só em Salvador, no horário de almoço, há programas assim em três emissoras diferentes”, exemplifica.
Laurindo analisa que a apresentação de crimes sem contextualização gera uma banalização da violência. “Isto cria um clima de banalização da violência. A violência passa a se tornar rotineira, porque é apresentada como rotineira, sem causa, sem consequências”, afirma. Além disto, o pesquisador destaca que há uma figura padrão do apresentador destes programas – que geralmente exalta a violência como forma de reprimir a violência.
Os próprios jornalistas nestes programas também costumam atropelar os direitos das pessoas, com auxílio, muitas vezes, das autoridades públicas. “O jornalista age como justiceiro. Age como polícia e Justiça. Acompanha a ação policial, interroga, julga”, diz o professor.
“A imprensa joga com isso com frequência e não são apenas os ‘programas policialescos’. O sensacionalismo do Jornal Nacional, por exemplo, com as matéria de crime é atroz. De uma maneira geral, a imprensa perdeu os pudores de estimular a sensação de medo. Quando o pânico é instaurado, qualquer solução para resolvê-lo parece razoável”, afirma Marcelo Semer.
O senador Paulo Paim, por sua vez, critica programas que usam a violência como forma de lucrar, mas ressalta que não se pode “ir na linha da censura”. Para ele, é preciso trabalhar no sentido de difundir opiniões contrárias, que propaguem a não-violência. “Temos que mudar a cultura das pessoas. Mostrar que a violência permanente nos meios de comunicação não soma nada. Temos que trabalhar a cultura da paz, da não-violência, da solidariedade”.
“Há um nítido esvaziamento da ideia de defesa”, afirma juiz
Para Marcelo Semer, não há apenas a difusão da ideia de que o crime precisa ser combatido de forma violenta, mas também uma minimização do direito de defesa. “Há um nítido esvaziamento da ideia de defesa, que passa por um certo moralismo do senso comum, também estimulado pelos meios de comunicação”, diz.
Os exemplos que Semer dá estão na ordem do dia, como o desrespeito do direito ao silêncio que tem se observado na CPI do Cachoeira. “O direito ao silêncio é tratado como se fosse uma malcriação; o sigilo da intimidade como a proteção do ilícito (‘quem não deve não teme’), a escolha de um advogado como um ilícito. Há nitidamente a criação, por parte da imprensa, e também dos políticos que passam a definir suas políticas por ‘pesquisas de opinião’, de um novo macarthismo: a todo momento queremos expor nomes e listas de quem não cumpre suas funções ou tem processos, ou foi ‘citado’ em inquéritos e aí por diante. Somos levados a acreditar que isso vai nos salvar de algo, mas apenas nos enreda ainda mais na cultura da perseguição, delação e preconceito”, opina.
Semer ressalta que o comportamento dos juízes, em geral, não embarca nesta onda. “Felizmente, o papel do juiz, neste campo, é contramajoritário. Não se julga direito penal por pesquisa de opinião. E a democracia não é apenas o governo da maioria, mas, sobretudo, o respeito aos direitos individuais, mesmo contra a vontade da maioria. Espanta-me quando a sociedade passa a aceitar tais restrições à defesa; mas apavora mesmo quando os operadores do direito começam a se convencer disso”, diz.
Fonte:


Por Felipe Prestes, no Sul21

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13 de jun. de 2012

"O inferno são os outros"


A peça Entre Quatro Paredes de Jean Paul Sartre que põe em cena personagens que vivem os dramas existenciais abordados por Sartre nas suas obras teóricas.

Veja esse trecho:

[Garcín – (Deixa Estelle e faz alguns passos em cena. Aproxima-se do bronze). O bronze... (Apalpa-o).
Pois bem, é agora! O bronze aí está, eu o contemplo e compreendo que estou no inferno.
Digo a vocês que tudo estava previsto. Eles previram que eu haveria de parar em frente deste bronze, tocando-o com minhas mãos, com todos esses olhares sobre mim. Todos esses olhares que me comem! (Volta-se bruscamente). Ah, vocês são só duas? Pensei que fossem muitas, muitas mais! (Ri). Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei... Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha... Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno...
O inferno são os outros!]

Pois bem, três personagens: Garcín, Estelle e Inês estão mortos e foram condenados a permanecer juntos num quarto na qual a luz nunca se apaga, pois não existe nem dia nem noite. É um inferno sem fornalhas, grilhões, espetos, torturas, espancamentos, fogo, barulho e tampouco demônios. O único propósito é que cada um se tornará o carrasco e o inferno do outro.

Publicada em 1.945 e mesmo assim sua temática continua atual.

Suas obras foram fortemente influenciadas pela Segunda Guerra Mundial e pela ocupação nazista da França. A noção de engajamento significa a necessidade de um determinado pensador estar voltado para a análise da situação concreta em que vive, tornando-se solidário nos acontecimentos sociais e políticos de seu tempo. Pelo engajamento, a liberdade deixa de ser apenas imaginária e passa a estar situada e comprometida na ação.

Há vários temas envolvidos nessa peça de forma irônica: a moral, a vaidade, a busca por prazer, a ética, a fidelidade, a sexualidade. Cada um procura desculpas e motivos para seus pecados. E assim, conviverão por toda a “eternidade” tolerando um ao outro: Garcín não suporta a futilidade de Estelle, que não suporta a sinceridade de Inês, que não suporta a covardia de Garcín.

Outro trecho que particularmente me chama atenção pelo fato de Sartre mencionar o amor:

[G – Então você quer mesmo um homem?
E – Um homem, não. Você.
G – Nada disso. Qualquer um serviria. Vim parar aqui, tem de ser comigo. Bom. (Toma-a pelos ombros). Bem sabe que não tenho nada do que você gosta: não sou um bobinho e não danço tango.
E – Aceito-o como você é. Talvez eu o transforme...
G – Duvido. Eu serei... distraído. Tenho outras coisas em que pensar.
E – Que coisas?
G – Para você não teriam interesse.
E – Vou me sentar no sofá... no seu sofá e esperar que se ocupe de mim.
I – (Numa gargalhada): Ah, cadela! Ele nem mesmo é bonito!
E – (A Garcin): Não ouça o que ela diz: ela não tem olhos, não tem ouvidos... ela não
existe.
G – Eu darei a você o que puder. Não é muito. Amor, não. Eu conheço você demais.
E – Você me deseja?
G – Sim!
E – É quanto me basta.
G – Pois, então... (Inclina-se sobre ela).
I – Estelle, Garcin! Vocês perderam o juízo! Eu estou aqui!
G – Estou vendo. E daí?
I – Vocês não podem... diante de mim... vocês não... não podem!
E – Por que não? Sempre me despi diante de minha criada-de-quarto.
I –(Agarrando-se a Garcin): Deixe-a, deixe-a! Não a toque com essas mãos sujas de homem!
G – (Empurrando-a violentamente): Basta. Não sou nenhum cavalheiro e não me importo de bater numa mulher!
I – Você me prometeu, Garcin, me prometeu! Por favor, você me prometeu!
G – Foi você que faltou com a palavra. (Ela se afasta até o fundo do aposento);
I – Façam o que quiserem. Vocês são os mais fortes. Mas se lembrem: estou aqui,
olhando. Não tirarei os olhos de você, Garcin. Terá de beijá-la sob o meu olhar. Que ódio tenho de vocês dois! Amem-se! Amem-se! Estamos no inferno e minha vez chegará!
(Durante a cena seguinte ela olhará sem nada dizer).]


Você encontrará essa obra na íntegra no site:http://www.ateus.net/ebooks/

Luciana.
Postado por Unknown às 11:35 Um comentário:
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Fábulas



Forma literária específica, a fábula constitui-se como narrativa curta, onde  as personagens, via de regra, são animais, cujas ações, alegóricas, encerram um princípio moral, ético ou político.
Segundo La Fontaine, compõe-se de corpo e alma, ou seja, da narrativa e da verdade geral que a encerra. Sua estrutura peculiar justifica a dificuldade de propor, hoje, a leitura desse tipo de narrativa para a criança e para o adolescente. Como no drama, observamos o predomínio da unidade de tempo, lugar e ação, uma vez que o gênero pede apenas um conflito, resultando uma narrativa concisa e sóbria. Além disso, possui um esquema geral que se resume em ação/reação ou discurso/contra-discurso, ou ainda um mais amplo como situação-ação/reação-resultado. 
No que se refere à linguagem, a fábula deve primar pela objetividade, o que explica a ausência da descrição, com o predomínio do diálogo, seja direto, indireto ou misto, podendo, inclusive, ocorrer o monólogo. A importância do narrador deve ser ressaltada, uma vez que tanto a situação quanto o resultado são apresentados por ele, ficando a ação e a reação por conta das personagens, por meio do diálogo. As personagens, em número reduzido, caracterizam-se sempre como estáticas ou planas, pois não crescem aos olhos do leitor, não passam por um aprendizado. São preferencialmente animais porque, entre outras razões, as ações estabelecidas entre o comportamento humano e o animal são mais facilmente reconhecidas como, por exemplo, a astúcia da raposa e a ingenuidade do cordeiro. 
A fábula de La Fontaine, composição em versos, traduzidos por Bocage, revela, através do esquema Situação/Ação/Reação/Reação/Resultado, a postura valorizadora do trabalho e da produção capitalista e mercantilista do momento, uma vez que o trabalho dos operários era de suma importância para o crescimento das manufaturas no mundo de então.
O narrador, com uma visão depreciativa da cigarra – penúria extrema, a tagarela, narra a fala do inseto – Rogou-lhe que lhe emprestasse/Pois tinha riqueza e brio/ Algum grão com que manter-se/Té voltar o aceso estio - mas concede voz à formiga que, em discurso direto, difunde os valores mais importantes do relato, ou seja, a moral da fábula: – OH! bravo! – torna a formiga – Cantavas? Pois dança agora! Exalta como valor a avareza da formiga que nunca empresta, / Nunca dá, por isso junta. 
O tempo possui papel de destaque na exígua narrativa, pois tem a função de exasperar a aspereza da situação e enfatizar a negligência da formiga. Polarizado entre dois momentos opostos da natureza, Verão-Fartura/Inverno- Penúria, corrobora o maniqueísmo da visão utilitarista da sociedade que castiga todo aquele que se afasta dos padrões estabelecidos, premiando os que seguem os moldes propostos. 
Na fábula A Formiga e o Escaravelho de Esopo, o Escaravelho caçoa da Formiga atarefada, enquanto todos se divertem no verão. O comportamento da formiga fica mais perdoável. A fábula mostra que não se deve negligenciar em nenhum trabalho, para evitar tristeza e perigos.
Na adaptação de Monteiro Lobato, além do título que já revela um desmonte do maniqueísmo com que era vista a espécie em La Fontaine, a fábula é dividida em duas partes: a primeira relata a participação da formiga boa e, a segunda, a da formiga má. Todavia, em ambas, ressalta-se a figura do narrador do texto. A voz narradora nas fábulas de Lobato é a de Dona Benta que, como avó das crianças, privilegia o contar fantasioso e lúdico em detrimento da preocupação moralizadora como, aliás, almejava Lobato. Ao iniciar o relato, focaliza também a cigarra, à semelhança do que ocorre em La Fontaine, mas o faz com um olhar carinhoso e valorizador das peculiaridades do comportamento do inseto: 
Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha...
E assim, até o final da narrativa, a cigarra merece o olhar amigo do narrador que, aos poucos vai tentando conquistar, como podemos ver pelas marcas formais do discurso, a atenção e a simpatia do leitor: pobre cigarra, em seu galhinho, manquitolando, com uma asa a arrastar, triste mendiga, a tossir.
Além disso, nessa narrativa, a cigarra não é inativa e dependente, ela pensa e pode ser responsabilizada por sua própria recuperação, pois ela mesma procura e encontra uma saída para a situação difícil: deliberou socorrer-se de alguém.

Contudo, não é somente a cigarra que é construída de modo diferente; a formiga também quebra a expectativa, causando o estranhamento no leitor, já que, ao recordar-se de que a outra cantava enquanto ela trabalhava, reconhece o valor de seu canto e procura recompensá-la pelas alegrias que aquela música, cantada pela cigarra nos momentos mais duros de seu trabalho, lhe proporcionava. Ao final da fábula, há o reconhecimento, inclusive, da atividade da cigarra como profissão: voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.
Já no segundo relato, há como que um acirramento das agruras da cigarra, o que pode ser observado principalmente pelo ambiente que, ao contrário da narrativa anterior, é claramente marcado pela distância e dificuldade: os fatos ocorrem na Europa, em pleno inverno. A focalização inicial do narrador incide sobre a formiga má, carregando nos aspectos negativos de sua construção: Não soube compreender a cigarra, com dureza a repeliu de sua porta.
Finalmente, as duas narrativas se fecham com uma máxima, que não se apresenta como uma sentença moral, mas como uma metáfora valorizadora da arte: Os artistas – poetas, pintores, músicos – são as cigarras da  humanidade. 
Assim, embora o resultado desta narrativa de Lobato seja semelhante ao da fábula de La Fontaine, uma vez que a pobre cigarra tem o mesmo fim trágico, há entre essas narrativas uma profunda diferença no modo de narrar. Isto porque a focalização do narrador, francamente crítica em relação às atitudes da formiga, acaba formando a opinião do leitor, levando-o a refletir sobre as relações humanas representadas na narrativa.
José Paulo Paes faz uma releitura da fábula de La Fontaine com parâmetro no século XX que nos remete ao ditado: "quem canta os males espanta".

A cigarra e a formiga de La Fontaine: http://www.gargantadaserpente.com/fabulosa/lafontaine/cigarra_formiga.shtml

A Formiga e o Escaravelho de Esopo:http://www.sofabulas.globolog.com.br/archive_2006_01_06_0.html

A cigarra e a formiga (a formiga boa) de Monteiro Lobato:http://br.geocities.com/turmadajuli/mlcigarraformiga.htm

Sem barra de José Paulo Paes:http://www.saudeanimal.com.br/fabula12.htm

Luciana.
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(...) A vida Senhor Visconde, é um pisca - pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. É portanto um pisca-pisca.

O Visconde ficou novamente pensativo, de olhos para o teto.

Emília riu-se.

Está vendo como é filosófica a minha ideia? (...) A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim, pisca pela última vez e morre.

- E depois que morre? - perguntou o Visconde.

- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é? 

Excerto de Memórias da Emília, de Monteiro Lobato

Fonte:

Memórias da Emília, de Monteiro Lobato
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Consciência individual X tirania estatal







“Deixa-me sofrer o tremendo castigo de minha temeridade! Por muito que eu sofra, nunca serei privada de uma bela morte."Sófocles - Antígona, I, 20

Antígona, tragédia grega escrita por Sófocles, encenada em 441 a.C., onze anos antes de Édipo Rei é uma sequência do mito da família Labdácias. Antígona arrisca a vida em nome de um princípio e arranca até hoje mesmo escrita a 2500 anos atrás indagações e admiração do público ocidental.

Tal maldição incidiu sobre toda a família de Lábdaco, rei de Tebas, por haver seu filho Laio raptado a Crisipo, filho do rei Pélops. Hera, a protetora dos amores normais, pelos lábios de Pélops, amaldiçoou a Laio e a todos os seus descendentes. Quando Laio, que sucedera a seu pai Lábdaco no trono de Tebas, se casou com Jocasta, dirigiu-se ao Oráculo de Delfos e perguntou se sua união com a jovem tebana seria fecunda: “se de Laio e Jocasta nascer um filho, ele matará o próprio pai e casar-se-á com a própria mãe”, respondeu a Pitonisa. Tudo se realizou consoante a predição de Apolo, nós o sabemos, através do mito e da tragédia preferida de Aristóteles, Édipo Rei. Pois bem, quatro são os filhos de Édipo e Jocasta: Etéocles, Polinice, Antígona e Ismene que ficaram sob a tutela de Creonte, irmão de Jocasta. Ao completarem a maioridade, Etéocles e Polinice, segundo acordo prévio, combinam reinar alternadamente por um ano.

Etéocles, todavia, se recusou a entregar o trono a seu irmão Polinice, que, por isso mesmo, uniu-se a seu sogro Adrasto e marchou contra Tebas na famosa expedição do Sete contra Tebas, que mereceu, com este mesmo título, uma famosa tragédia de Ésquilo.

Os irmãos, a maldição familiar pesava sobre eles, morreram um às mãos do outro. Creonte, como parente mais próximo, assumiu o poder. Decretou funerais suntuosíssimos para Etéocles e proibiu, sob pena de morte, que se desse sepultura a Polinice, por considerá-lo traidor da pátria, embora o mesmo postulasse apenas um direito que o irmão Etéocles teimara em negar-lhe.

A tragédia ANTÍGONA se inicia aqui!

Antígona livremente tomou uma decisão: apesar do edito proibitório de Creonte, resolve, embora sabendo que vai morrer dar sepultura a seu irmão Polinice.
Surpreendida pelos Guardas, que vigiavam o cadáver insepulto de Polinice, Antígona é presa e levada à presença de Creonte. Esse encontro é o choque da polis, da ditadura estatal X religião, postulado da consciência individual – um verdadeiro duelo verbal.

O professor Junito de Souza Brandão escreve: “Para nós também Antígona é a oposição de duas normas jurídicas: athemistía, a ilegalidade de uma decisão, cifrada em Creonte, que representa uma polis especial, apolis sofística, em contraposição a thémis ou nómos, inserida na decisão de Antígona, que representa a religião, a consciência individual.”



Antígona, então, foi condenada a ser sepultada viva. O direito ao sepultamento era tão sagrado, que nem mesmo os deuses podiam impedi-lo. Houve a intervenção de Hêmon, filho único de Creonte e noivo de Antígona, em nome da justiça e do amor, porém foi contraproducente. Porque referente à justiça, Creonte se julga seu único representante. E quanto ao amor, para Creonte o único amor é o físico, o resto é insensatez. Hêmon”teria outros ventres que trabalhariam para ele”.

Antígona se enforca na gruta em que fora jogada e Hêmos se uni a ela à morte, pois deveria ter se unido em vida.

Creonte com o cadáver do filho aos braços começa a purgar suahamartía (Nas tragédias gregas uma forma comum de hamartía era também o pecado contra a hybris - aquele orgulho ou excesso de autoconfiança que conduz o protagonista a desobedecer aos avisos divinos ou a violar qualquer importante lei moral. A hybris conduz à queda e à inevitável punição)

O Mensageiro traz para Creonte a notícia que Eurídice, sua esposa, quando soube da morte de seu único filho, matou-se no palácio.

Uma das características fundamentais da obra de Sófocles é fazer que suas personagens, no fecho da tragédia se apaguem numa sombra física e psíquica.

Vitória, portanto, da consciência individual sobre a tirania estatal.

“Portanto, o extraordinário drama abarca também uma desavença intradinástica, onde a velha estirpe, representada pelo sangue contaminado de Antígona, luta para salvar sua honra de uma família decadente, enquanto uma nova estirpe, que se imagina ainda não poluída, tenta afirmar-se como sucessora legítima da Casa dos Labdácidas. Ambos seriam pois, faces diferentes de uma exigência genética. Uma inteiramente infectada, outra tentando fugir ao contágio.” – na erudita interpretação que Kathrin Rosenfield (Antígona - de Sófocles a Hölderlin, P.Alegre, 2000).

Luciana.
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Vamos refletir?

Confiamos mais no google do que na reflexão? Pelo menos é o que parece, quando 


olhamos o mundo e suas manifestações contemporâneas.


Concordam ou não?


Ótimo tema para redação.


Luciana.
Postado por Unknown às 09:22 Nenhum comentário:
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Certo ou errado?

Postado por Unknown às 07:45 Nenhum comentário:
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12 de jun. de 2012

Secretário-geral da ONU cobra “coragem política” na Conferência


Uma carta de intenções representando os objetivos do mundo a respeito do desenvolvimento sustentável, semelhante às Metas do Milênio, pode ser o máximo que a comunidade internacional vai conseguir produzir na Rio+20. A possibilidade de este ser o desfecho da Conferência, que começa no dia 13 no Rio de Janeiro, ficou clara em entrevista coletiva concedida nessa quarta-feira 6, em Nova York, pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.
Na conversa com os jornalistas, transmitida pela internet, Ban se disse “cautelosamente otimista”, mas deixou transparecer sua preocupação com a incapacidade dos países de chegar a um acordo sobre as diretrizes do desenvolvimento sustentável. Assim, fez um chamado aos negociadores que estarão no Brasil. “Acredito que os países estão seriamente engajados nas negociações, mas é preciso ter claro que, se perderem esta oportunidade, vão ter de esperar muito tempo para conseguir outra”, disse Ban.
A chance de a oportunidade ser perdida não é pequena. Normalmente, em conferências como a Rio+20, os chefes de Estado comparecem apenas para assinar e referendar documentos produzidos previamente por suas missões diplomáticas. Na Rio+20, este não deve ser o caso, pois há muito a ser discutido. Só há acordo sobre 20% do texto principal de conclusão da Conferência, e o restante precisará ser definido pelos negociadores até 15 de junho. O que não for resolvido pode ser discutido pelos chefes de Estado, mas este caminho também não é auspicioso. Líderes importantes como Barack Obama (Estados Unidos), Angela Merkel (Alemanha) e David Cameron (Reino Unido) não estarão no Rio de Janeiro. Assim, disse Ban, é importante que os chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDG, na sigla em inglês) sejam definidos, com termos “claros” e “mensuráveis”.
Os SDGs, se firmados entre os participantes da Rio+20, devem ser criados nos moldes dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (também conhecidos como Metas do Milênio). Estas metas funcionam bem, pois estabelecem problemas genéricos, como “erradicar a pobreza”, e passos concretos para lidar com eles, como “reduzir a um quarto, entre 1990 e 2015, a proporção da população com renda inferior a US$ 1 por dia”. Assim, muitos governantes conseguiram melhorar as condições de vida de sua população com base nas Metas do Milênio. O raciocínio é que, com o desenvolvimento sustentável, poderia ocorrer a mesma coisa.
Em recente artigo, a diretora de Assuntos Sociais e Ambientais do Ministério das Relações Exteriores da Colômbia, Paula Caballero Gómez, defendeu os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Segundo ela, se desenvolvidos adequadamente, os SDGs “sem dúvida terão um papel fundamental de guias para a sustentabilidade”, pois envolvem “métricas” e permitem que cada ação seja mensurada. De acordo com ela, os objetivos devem tratar de temas como segurança alimentar, gestão de recursos hídricos, desenvolvimento de energias sustentáveis e a busca por eficiência no uso de recursos naturais, entre outros.
Se os chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável forem oficializados na Rio+20, o mundo estaria diante de uma nova abordagem a respeito do tema. Esses objetivos poderiam substituir outras formas de negociação fracassadas, como a estipulação de metas por grupos de países, como as existentes no Protocolo de Kyoto, descumpridas sistematicamente. Na coletiva desta quarta, Ban Ki-moon afirmou que ainda não há definições a respeito do prazo que os países teriam para cumprir as metas. Poderiam ser “cinco, dez ou mais anos”, de acordo ele. Segundo o secretário, é importante que os negociadores se empenhem. “Temos que ser práticos. Este mundo tem limites em termos de recursos e temos de usá-los da melhor forma. É preciso sabedoria política e coragem política para colocar as metas do desenvolvimento sustentável em andamento”, disse.
Fonte:
Por 
José Antonio Lima, Carta Capital



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20 anos depois, a “menina que calou o mundo” volta ao Brasil


Há duas décadas, uma garotinha canadense de 12 anos discursava perante autoridades mundiais, cobrando mudanças nas atitudes e maior cuidado com as causas ambientais. Essa era Severn Cullis-Suzuki, mais conhecida como “a garota que calou o mundo por cinco minutos”.
A participação de Severn na Eco 92 é lembrada até hoje e representa a preocupação das novas gerações com o futuro de todos. Neste ano, a canadense volta ao Brasil para participar da Rio+20 e dar continuidade ao trabalho que vem desenvolvendo na área ambiental desde que ainda era uma criança.
O jornal Folha de S.Paulo conseguiu uma entrevista exclusiva com Severn, que hoje é mãe de dois filhos, apresentadora de um programa canadense e educadora ambiental. Durante a conversa ela explicou que a oportunidade para discursar na Eco 92 surgiu após um esforço feito por ela e um grupo de amigas que formavam a ECO (Environmental Children’s Organization). Juntas as garotas conseguiram arrecadar fundos com a comunidade onde moravam, no Canadá, para que fosse possível viajar ao Rio e participar do Fórum Global, em que elas foram inscritas como ONG e aproveitaram a oportunidade para falar sobre meio ambiente com muitas pessoas.
Esta iniciativa fez com que a Unicef se interessasse pelo trabalho e oferecesse uma oportunidade para que uma delas representasse a ECO em um discurso para as autoridades. Severn foi escolhida e as suas palavras marcaram profundamente as pessoas presentes e ainda hoje emocionam quem a vê no vídeo disponível na internet.
Após 20 anos desde a preleção da canadense, muitas coisas mudaram. Segundo ela, na década de 1990, as questões ambientais foram deixadas de lado. Nos últimos anos, devido às crises econômicas e à mudança climática, o assunto voltou a ganhar espaço e a ser discutido. Além disso, ela acredita que a facilidade com que as informações são compartilhadas pela internet pode “inspirar a verdadeira mudança no Século 21”.
No entanto, os sistemas econômicos mundiais ainda não refletem este anseio por mudança. Severn ressalta o fato de que as economias são mensuradas a partir do índice do Produto Interno Bruto (PIB) e isto “pouco se reflete na qualidade de vida”.
Para a ativista, a chave para mudar este cenário é a mobilização. A mudança parte de uma transformação na sociedade e na política. As pessoas podem trabalhar individualmente para reduzir seus impactos na natureza e ainda podem se tornar mais ativas política e socialmente, cobrando ações, sabendo exercer os direitos e compartilhando conhecimento e informação, para que possam ser ouvidas.
A entrevista é finalizada com Severn falando sobre a esperança para o futuro. “Acredito que só o amor por nossos filhos possa virar a maré. A questão do ambiente é o futuro deles. Temos de fazer a conexão entre nossa vida hoje as suas vidas no futuro. Se nós, politicamente, fizermos a conexão, mudaremos tudo. Eu tenho que acreditar nisso”, concluiu.
Relembre aqui o discurso de Severn Suzuki
Fonte:
* Com informações da Folha de S.Paulo.
** Publicado originalmente no site CicloVivo e retirado do site Mercado Ético.

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11 de jun. de 2012

Programação da Rio+20 inclui debate indispensável; qual a diferença entre intervenção estatal sobre reprodução e direito da mulher ao corpo?

Desenvolvimento sustentável. A expressão tem sido ouvida pra lá e pra cá desde a Eco-92, ou em palavras mais formais, a primeira Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Passados vinte anos, a dimensão do debate cresceu e em diversos pontos do mundo foram relatadas mudanças significativas no clima e na disponibilidade de recursos naturais – um sinal de que nosso desenvolvimento, apesar de certos esforços (?), não anda lá tão sustentável assim. Estão aí obras como a usina de Belo Monte pra nos lembrar disso. Neste caso, como em tantos outros, a construção de uma hidrelétrica atropelou questões étnicas e sociais muito profundas, que sujam esta forma de geração de energia considerada “limpa”, numa falaciosa expressão muito utilizada ao longo de todo o debate.
Mulheres e homens, porém, não sofrem de igual modo os impatcos étnicos, raciais e sociais da injustiça ambiental. Algumas das diferenças estão descritas num relatório da Nações Unidas sobre gênero, do qual a jornalista Jeanne Callegari destaca alguns pontos num texto indispensável, publicado por Blogueiras Feministas. Análises que combinam gênero e mudanças climáticas não são novidade. Tem-se falado muito do papel das mulheres no desenvolvimento sustentável há alguns anos. Mas é preciso notar uma diferença substancial entre os discursos hegemônicos de representantes de governo e as reivindicação de ONGs e movimentos sociais.
Representantes de governos, de um lado, costumam limitar a análise de “gênero” a um reconhecimento da função reprodutiva das mulheres cissexuais como ferramenta de equilíbrio populacional. O termo “controle de natalidade” designa políticas que têm este fim, praticamente demográfico: controlar, com instrumentos externos às famílias e às mulheres, sua reprodução. Em muitos países, como no Brasil, esterilizações forçadas são recorrentes. Tampouco são homogeneamente distribuídas, já que as mulheres negras e pobres costumam ser exatamente o tipo de população que não se deseja que aumente. Em outros, políticas como a do Filho Único, na China, têm efeitos drásticos – inclusive sobre o equilíbrio de gênero na população e o significado social dos gêneros. Quem escreveu lindamente sobre isso foi Xinran, em “Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida” e, em forma de ficção, em “As Filhas Sem Nome” (leia uma resenha aqui).
Opondo-se a esta abordagem e trazendo o tom de “direitos sexuais e reprodutivos” ao debate, movimentos sociais e ONGs têm tratado o assunto de outra forma. Na visão destas organizações e seus ativistas, as políticas públicas precisam promover o acesso ao planejamento familiar. Isso significa fazer chegar, à população em geral, tanto a informação sobre sua própria saúde sexual e reprodutiva quanto recursos para controlá-la. Reivindica-se, além de centros de referência com palestras e workshops, postos de saúde e médicos de família, a distribuição de pílula anticoncepcional e, em alguns casos, até mesmo de kits de autoexame ginecológico. Estas são algumas possibilidades concretas de políticas humanizadoras e empoderadoras para as mulheres.
A partir desta semana, diferentes atividades na Rio+20 e na Cúpula dos Povos prometem colocar o assunto em pauta. O objetivo é evitar que, nesta disputa, as políticas de “controle de natalidade” sobreponham-se ao acesso ao planejamento familiar.
Abrindo o debate, a ONG #ChangeMob, situada no Brasil mas organizada num sistema de colaboração internacional entre ativistas, realiza uma exibição pública do filmeWeathering Change(Sobrevivendo à Mudança) produzido pela Population Action International. A apresentação será seguida de um debate, de forma similar à audiência pública realizada em Brasília (22/05) e a um evento com jornalistas e blogueiros em São Paulo (31/05). Esta atividade é parte do projeto deadvocacy “Sobrevivendo à Mudança”, que busca tornar estas questões visíveis sobretudo entre agentes sociais envolvidos na produção de políticas públicas.

Participantes e não-participantes da Rio+20 e Cúpula dos Povos estão mais do que convidados a se integrar à discussão e conhecer mais a fundo este tema. A exibição acontecerá no dia 14 de Junho (quinta-feira), às 16h, na Federação Nacional dos Urbanitários (Rua Visconde de Inhaúma, 134, 7º andar, Centro – Rio de Janeiro, RJ).
Fonte:
Por Marília Moschkovich, editora de Mulher Alternativa
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7 de jun. de 2012

Eliminem a 'verdade'


A palavra "verdade", na Comissão da Verdade e da Reconciliação instituída pela África do Sul, tinha um significado judicial, relacionado aos poderes do organismo. Nossa Comissão da Verdade, ao contrário, não tem poderes judiciais. Por esse motivo a palavra "verdade" deveria ser eliminada de seu nome.
As prerrogativas da comissão sul-africana, presidida pelo arcebispo Desmond Tutu, abrangiam não apenas a investigação de violações de direitos humanos cometidas durante o regime do apartheid, mas, crucialmente, a concessão de reparações às vítimas e de anistia individual a perpetradores. A comissão brasileira não dispõe das duas últimas prerrogativas: as reparações são da esfera da Comissão de Anistia e a anistia já foi concedida a todos, por lei emanada da ditadura militar, recepcionada por sucessivos governos civis e confirmada pelo Supremo Tribunal Federal. O mandato de nossa comissão está circunscrito por lei à produção de um relatório sobre violações de direitos humanos por motivação política entre 1946 e 1988. Para não abusarmos da noção de verdade seu nome deveria ser algo mais modesto, como Comissão de Inquérito.
Verdade histórica é diferente de verdade judicial. Nos tribunais, e numa comissão com poderes judiciais, como a sul-africana, a verdade é uma narrativa factual organizada à luz dos códigos legais. A decisão final, transitada em julgado, é uma "verdade" irrecorrível, com implicações penais ou cíveis. A "verdade" histórica, por outro lado, é uma interpretação dos eventos do passado que oscila ao sabor do "espírito do presente" - isto é, dos valores predominantes em cada época. Verdades distintas concorrem entre si nas obras de História, formando um diálogo pluralista e, em princípio, infindável. Uma comissão sem estatuto judicial, mas batizada com o nome da verdade, almeja a verdade histórica. Contudo, por definição, a verdade histórica não pode ser emoldurada com o selo oficial - a não ser como contrafação fabricada por regimes totalitários.
A Lei de Anistia cercou as violações de direitos humanos cometidas pela ditadura militar com uma muralha de interdição, cassando ao sistema judiciário o poder de julgar crimes políticos declarados imprescritíveis por tratados internacionais. Vergonhosamente, a elite política brasileira teceu um consenso em torno da lei promulgada no derradeiro governo militar - e, em razão de tal consenso, as maiorias parlamentares de sustentação de Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma recusaram-se a suprimir o interdito. Num intercâmbio lamentável, a proteção dos violadores foi paga, por meios pecuniários e simbólicos, pela Comissão de Anistia. Se não mudar seu nome, a Comissão da Verdade cumprirá o papel indigno de emitir o cheque simbólico final na agônica transação.
Na sua acepção judicial, a verdade está relativamente livre do jogo da política e da ideologia. A comissão sul-africana ouviu testemunhos de crimes cometidos pelo Estado e também das organizações de resistência, contextualizando-os segundo os princípios do Direito. Se o Brasil tivesse abolido a Lei de Anistia, tribunais emitiriam sentenças sobre as incontáveis violações cometidas impunemente pela ditadura militar e também sobre os escassos casos de crimes das organizações armadas que não foram julgados à época. Isso, infelizmente, não ocorrerá - e a ausência do Poder Judiciário coloca a Comissão da Verdade diante do dilema expresso nas interpretações históricas dissonantes a respeito dos "anos de chumbo".
A narrativa do combate nas trevas entre os "dois lados", representados pelo regime militar e pelas organizações armadas de esquerda, é uma fraude histórica e uma tese imoral. A repressão política, as prisões e a tortura atingiram os opositores em geral, em sua maioria desarmados, não apenas as correntes minoritárias da esquerda armada. O poder de Estado, com seus aparelhos judiciais, policiais e militares, não pode ser equiparado aos grupos irregulares de militantes das organizações seduzidas pela estratégia do "foco revolucionário". O assassinato e a tortura nos calabouços são definidos no Direito Internacional como crimes contra a humanidade, distinguindo-se por sua gravidade dos demais tipos de crimes. Carlos Marighella e Carlos Lamarca praticaram crimes asquerosos. Mesmo assim, eles não podem ser equiparados aos crimes do delegado Sérgio Fleury, do general Ednardo D'Ávila Mello ou do presidente Emílio Garrastazu Médici.
A historiografia, tanto quanto os tribunais, têm ferramentas para destruir o falso sinal de identidade desenhado com a finalidade de providenciar um álibi para a ditadura militar. O leitor decente sabe separar as narrativas históricas legítimas das fábulas ideológicas destinadas a justificar crimes contra a humanidade. Contudo a pretensão impossível de estatizar a verdade histórica no regime democrático confere à narrativa delinquente sobre os "dois lados" a aura de uma "verdade sufocada" em confronto desigual com uma "verdade dos vencedores".
Uma comissão de inquérito consagrada ao relato dos crimes contra a humanidade praticados pela ditadura militar seria capaz de iluminar fatos, personagens e circunstâncias ainda desconhecidos, oferecendo material valioso aos historiadores. Em contraste, uma Comissão da Verdade sem poderes judiciais está condenada a fabricar interpretações estatais sobre o passado, algo com valor de verdade similar ao dos retratos encomendados pelos mecenas.
O conceito africano de ubuntu relaciona-se à ideia de que a humanidade de cada indivíduo depende da dignidade humana de todos os demais. A comissão sul-africana tinha a missão escrita de promover "ubuntu", não "retaliação" nem "vitimização". Nossa comissão não pode promover ubuntu, mas ao menos não precisa engajar-se em operações simbólicas de retaliação e vitimização. Eliminem a "verdade", senhores comissários!
Fonte:
DEMÉTRIO MAGNOLI, SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP. 
 O Estado de S.Paulo


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5 de jun. de 2012

'Nós hipotecamos o futuro', critica sociólogo polonês Zygmunt Bauman



 A Fuvest ''adora'' este intelectual.
Fiquem de olho!
Assistam à entrevista dada ao programa Milênio, da Globo News.
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2 de jun. de 2012

O discreto preconceito dos intelectuais


Sexta-feira (27/05) foi Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica. Começa pelo gênero – “trabalhadora doméstica”, no feminino. A profissão não é fechada aos homens, mas historicamente em nossa sociedade a limpeza tem sido um tipo de trabalho delegado às mulheres. Inclusive profissionalmente. Mais do que isso, a origem do trabalho pago de limpeza no Brasil está diretamente associada à herança da escravidão e à pobreza. São majoritariamente negras as mulheres que fazem este tipo de serviço.
Enquanto algumas correntes da esquerda e do feminismo almejam um mundo em que não exista trabalho doméstico pago e outros grupos políticos defendam que ele exista e continue sendo mal pago e uma “exceção” no mercado de trabalho (em termos de direitos e garantias das trabalhadoras e trabalhadores), pessoalmente me alinho com a luta pela regulamentação em regime CLT, com piso salarial, férias, 13º, fundo de garantia, licença-maternidade (e por que não, paternidade?), etc. O trabalho de limpeza, me parece, não é necessariamente mais ou menos degradante, exigente, etc. do que outros tipos de trabalho. Tudo depende das condições em que é realizado.
Me lembro de conhecidas e conhecidos que buscam/buscaram empregadas domésticas para dormir no serviço. Isso significa morar com a família que emprega (portanto deixar a sua própria em segundo plano) e estar à disposição, em maior ou menor grau, 24 horas por dia. Gostaria, sinceramente, de perguntar a elas/eles se aceitariam tais condições de trabalho – independente do salário. Que tal se o chefe ligasse dizendo que a partir de segunda-feira você teria que dormir no escritório, tomar banho no escritório, comer no escritório etc. com o mesmo salário? Em tese, você não estaria trabalhando mais horas, só ajudando com um telefonema ou outro, uma urgência ou outra. Sabem como é. O fato é que muitas das pessoas que vivem reivindicando atitudes “profissionais” e comportamento “ético” no próprio espaço de trabalho não hesitam em tratar o trabalho doméstico como “uma ajuda”, pagá-lo mal e tratar empregadas e empregados de forma desumana como jamais fariam com um colega de equipe – e como jamais gostariam que seus chefes fizessem consigo.
Este tipo (horroroso) de condição de trabalho também pode ser regulamentado. Há casos em que a distância de casa e a insalubridade são “compensadas”, em tese, com bônus. Trabalhadores de plataformas de petróleo, por exemplo, têm períodos longos de descanso antes de embarcarem novamente, recebem diversas bonificações. Na cabeça de algumas pessoas, há um outro fator que faria com que trabalhadores de plataformas de petróleo merecessem ganhar mais do que empregadas domésticas que dormem no trabalho: eles estudaram mais anos e executam um trabalho mais especializado. Parte-se do pressuposto que qualquer um pode fazer a faxina. Oras, então por que não a fazem? Ao mesmo tempo, se todas as pessoas tivessem a mesma oportunidade e o mesmo acesso à formação especializada, igualmente qualquer um poderia realizar o trabalho nas plataformas de petróleo, certo? Se os bens simbólicos fossem distribuídos entre as pessoas de forma homogênea, qualquer um a princípio poderia ser um intelectual, médico, engenheiro… Não há nada, inato na pessoa em ou na profissão em si, que faça de alguns mais apropriados para certos tipos de trabalho do que outros.
Não é fácil, porém, desconstruir o mito da meritocracia. Mesmo as pessoas que mais criticam o status quo, que querem transformar a situação das empregadas domésticas (seja através da regulamentação de sua profissão ou através da extinção), não pensam duas vezes antes de concordar que quem estuda mais anos deve receber mais dinheiro. Não se lembram de que o status de um profissão não está apenas relacionado ao dinheiro, nem aos anos de estudo e nem apenas à relevância social que lhe é atribuída. Ignoram que este pensamento é uma forte ferramenta de dominação – afinal, os recursos simbólicos e a educação não são distribuídos igualmente entre as pessoas, e a competição é absolutamente injusta desde a largada, o que nos leva a deduzir erroneamente que quem nasceu em condições privilegiadas “merece” continuar em posições privilegiadas.
Portanto, antes de defender que o trabalho doméstico seja uma “exceção” em termos da regulamentação e direitos trabalhistas, reflita se o seu trabalho também poderia ser uma exceção. Antes de defender que esta profissão deixe de existir, pergunte-se: por que te parece que uma médica, executiva, escritora ou pesquisadora é socialmente mais relevante que uma empregada doméstica?
Fonte:
Por Marília Moschkovich, na coluna Mulher Alternativa


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1 de jun. de 2012

Desculpe qualquer coisa!


Uma frase constantemente ouvida no Brasil: “Desculpe qualquer coisa!”.

c93 300x143 Desculpe qualquer coisa!
Alguém lhe presta um serviço. Um garçom, um motorista de táxi, uma faxineira, um porteiro. Quando vai se despedir, lhe diz: “Desculpe qualquer coisa!”. Você não estranha nada? Você concede o perdão sem saber o que está perdoando? Ou pergunta o motivo deste pedido?
Pede-se desculpa com naturalidade. E por “qualquer coisa”. Mesmo que essa coisa qualquer não tenha acontecido. O garçom não derrubou o prato sobre o cliente, o motorista de táxi não inventou roteiros mais longos e mais caros, a faxineira não escondeu o pó debaixo do tapete, e o porteiro estava lá, cumprindo suas tarefas. Porém, pedem desculpa.
Resquícios da escravatura? Escrúpulos? Medo de desagradar? Falta do que dizer? Carência de elogios e reconhecimento?
Nunca ouvi um médico, terminada a consulta ou depois da cirurgia, dirigir-se assim ao paciente: “Desculpe qualquer coisa”. Duvido que um empresário diga aos sócios e acionistas: “Desculpem-me qualquer coisa”. Jamais ouvi político em fim de mandato, no discurso de despedida, dizer: “Vocês, que votaram em mim, desculpem qualquer coisa!”.
Quem pede desculpas deve explicar a culpa que sente. Pedirei desculpas pelo atraso, por exemplo. Atrasei-me e quero desculpar-me. Não se trata de uma coisa qualquer, mas de algo bem concreto. O culpado sabe muito bem por que pede desculpas. E o prejudicado ou ofendido terá condições de aceitá-las ou não.
Perdoemos o perdoável, contanto que saibamos, com clareza e exatidão, o que vamos perdoar. Perdoar qualquer coisa é até perigoso. E se essa coisa qualquer for imperdoável?
No fundo, essa frase nasce do medo subserviente em que tantos foram deseducados. Ou talvez seja exatamente o contrário: esse pedido para que se desculpe “qualquer coisa” será forma genérica de extrema delicadeza no trato…
Compreendo o inespecífico “qualquer coisa”. Ficará ao gosto do perdoador definir o conteúdo. Outra hipótese ainda é que esse “qualquer coisa” nada seja! “Qualquer” está apenas no lugar do “nenhum”. Então, a frase será entendida de modo inverso: “Não fiz coisa qualquer de errado… mas desculpe qualquer coisa!”.
De qualquer modo, faço uma sugestão. Quando alguém lhe disser um humilde “desculpe qualquer coisa”, não deixe barato, responda sem dó: “Não, eu não vou desculpar qualquer coisa, mas desculpo esse seu injusto pedido de desculpas!”.
Fonte:
* Gabriel Perissé é autor do livro O valor do professor (Autêntica Editora), Pesquisador do NPC – Núcleo de Pensamento e Criatividade – Site do autor: www.perisse.com.br
** Publicado originalmente no site do Correio da Cidadania.
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