30 de jun. de 2015

Humano, demasiado inseto

Antes do aniquilamento, a metamorfose. A aflição de Gregor Samsa, personagem de Franz Kafka em A Metamorfose, não é só a aflição do fim inevitável, mas da perda gradativa de sua humanidade - e tudo o que a palavra humanidade carrega: compaixão, dor, arrependimento, conflito, alteridade, sonho, história, memória. Subjetividade, enfim.
Clássico das aflições contemporâneas, a obra permanece incrivelmente atual por não se restringir a falar de um local, regime ou período da História. É clássico porque fala de um drama humano, e é isso o que permite suas tantas releituras ao longo do tempo. Uma dessas releituras acaba de ser publicada em quadrinhos pela editora Nemo. Uma Metamorfose Iraniana é a história de Mana Neyestani, cartunista de um semanário infantil de Teerã que, em meados de 2006, desenhou o diálogo entre um de seus personagens e uma barata. Parecia uma tirinha inocente, não fosse um detalhe: o uso, pelo inseto, de uma expressão de origem “turca”, como é chamada, no Irã, a minoria azeri. Ofendidos com a associação com uma barata, e diante do contexto político do país, militantes azeri promovem uma campanha contra a revista, contra o cartunista, contra a maioria farsi e contra o governo Ahmadinejad. O país inteiro entra em convulsão.
Na leitura, é tentadora a ideia de isolar o contexto de um Estado obscuro e repressor como o iraniano de um contexto mais, digamos, “ocidental”. Mas é ainda mais tentadora a busca por paralelos bem aqui na nossa esquina.
Diante da pressão popular, Neyestani é levado à prisão sob a acusação de promover distúrbios contra a ordem pública. Diferentemente de Josef K, outro personagem de Kafka, ele sabe do que é acusado, mas nem mesmo os acusadores do Estado Islâmico acreditam nesta acusação. Não importa. Ao se tornar pivô dos distúrbios, Neyestani já não é alguém capaz de se justificar perante a sociedade e a Justiça. É um preso político, e um preso político tem sempre uma função dupla (para não dizer múltipla). 
Há, em seu encarceramento, um peso simbólico: por meio dele o Estado se comunica com o restante da sociedade, sobretudo os que temem ser presos. A prisão serve como munição a uma narrativa segundo a qual os valores da revolução iraniana correm riscos de desintegração por causa de dissidentes e patrocinadores de dissidentes, caso dos EUA. Por isso, e para o bem de todos, devem ser retirados de circulação. Mas o preso político serve também como moeda de troca. A tortura física e psicológica da prisão cria um campo de tensões e coerções valiosas por meio da qual é possível negociar informações e delações em troca de amenidades.
É um ciclo de impotências. Ao Estado, quanto mais manifestações violentas de uma minoria ofendida, mais oportunidade se cria para eliminar, como baratas, uma parte da população cansada de ser tratada como barata. Os tiros contra os vândalos da ocasião apenas aceleram o processo de dedetização.
No meio do conflito, Neyestani não se reconhece nem com o oprimido nem com o opressor, mas vê-se tolhido de qualquer ação ou resposta ao ser injetado para o centro de uma máquina de transformar gente em bicho – não qualquer bicho, apenas os que estraçalhamos, sem culpa, com nossos chinelos. Na prisão, a desarticulação das redes de justiça, diálogo e solidariedade não permite que o acusado peça desculpas, se explique, recorra ao seu histórico ou se arrependa. Isso é para humanos. Quando deixamos de reconhecer qualquer ser vivo como “humano”, tudo contra ele passa a ser permitido. Inclusive o aniquilamento.
Ao recontar a sua história em quadrinhos, é possível que o cartunista tenha se esforçado para obter, pelo olhar do leitor, o reconhecimento de um sofrimento que ateste a sua humanidade. Esse reconhecimento é a compaixão. Pobres iranianos, podemos concluir ao fim da leitura, talvez inconscientes das chineladas distribuídas diariamente contra quem, além do selo, não conferimos qualquer humanidade.
Há algumas semanas, uma atriz transexual chocou o país ao se crucificar, a exemplo de Cristo, em uma passeata gay. O choque diante da “ofensa” não fez eco quando, na vida fora daquela performance, outros travestis morreram violentamente desde então. A atriz - assim como as vitimas de aniquilamentos urbanos diários, algumas inclusive com transmissão ao vivo - causou choque e incomodo por lembrar que não é uma barata. E se não somos capazes de franzir a sobrancelha quando são mortos ou agredidos, é porque uma grande metamorfose está em curso. Ela termina na bala, mas começa no púlpito, no plenário e nas mensagens de alerta e salvação.
Por
Matheus Pichonelli

Novamente a velha e idiota: intolerância


Tolerar a existência do outro,

E permitir que ele seja diferente,
Ainda é muito pouco.
Deveríamos criar uma relação entre as pessoas
Da qual estivessem excluídas
A tolerância e a intolerância.

(José Saramago - Adaptado)








"Devemos, portanto, reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Devemos enfatizar que qualquer movimento que pregue a intolerância deva ser colocado fora da lei, e devemos considerar a incitação à intolerância e perseguição devido a ela, como criminal, da mesma forma como devemos considerar a incitação ao assassinato, ou sequestro, ou para a revitalização do comércio de escravos como criminoso." 

(Karl Popper)



De olho no vestibular: Unicamp adota lista de livros diferente da Fuvest para o vestibular de 2016


A lista integrada com a Fuvest permanece para o vestibular 2015 (ou seja, as obras exigidas pelas USP e pela UNICAMP são as mesmas para o vestibular que será prestado esse ano!) A lista integrada está em vermelho.
A nova lista de leitura obrigatória, do vestibular 2016 da Unicamp, conta com os seguintes títulos:
Poesia
Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade,
Sonetos, de Luís de Camões.
Conto
“Amor”, do livro Laços de Família, de Clarice Lispector.
“A hora e a vez de Augusto Matraga”, do livro Sagarana, de Guimarães Rosa.
“Negrinha”, do livro Negrinha, de Monteiro Lobato.
Teatro
Lisbela e o prisioneiro, de Osman Lins.
Romance
Viagens na Minha Terra, de Almeida Garret.
O cortiço. de Aluísio Azevedo.
Capitães da Areia, de Jorge Amado.
Til, de José de Alencar.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Terra Sonâmbula, de Mia Couto.

Fonte: Comvest

Casamento gay nos EUA é aprovado pela Suprema Corte

A Suprema Corte dos Estados Unidos declarou nesta sexta-feira (26/06) que casais formados por pessoas do mesmo sexo têm o direito constitucional de se casar. Cinco ministros votaram a favor e quatro votaram contra a decisão, que cita a 14ª Emenda da constituição norte-americana que declara que todos os cidadãos do país têm direitos iguais.
A maioria da Corte sustentou que a Constituição norte-americana exige que os estados permitam o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo e reconheçam o casamento em seu território quando ele tiver sido consumado em outro estado. Antes da decisão, casais homossexuais podiam se casar em 36 estados dos EUA, mas cortes federais não estavam de acordo sobre se os estados deveriam permitir casamentos e reconhecer uniões realizadas além de suas fronteiras.

Decisão

“Está claro que as leis discutidas oprimem a liberdade de casais formados por pessoas do mesmo sexo, e deve ser reconhecido que elas condensam preceitos centrais da igualdade (…).
Especialmente após uma longa história de desaprovação deste tipo de união, a negação do direito ao casamento a casais formados por pessoas do mesmo sexo é um grave e contínuo dano”, afirma a decisão da Corte. “A imposição deste obstáculo a gays e lésbicas serve para desrespeitá-los e subordiná-los. E a Cláusula de Proteção Igualitária, assim como a Cláusula do Devido Processo, proíbe esta infração injustificada do direito fundamental ao casamento.”
A Corte conclui: “Nenhuma união é mais profunda do que o casamento, pois ele incorpora os mais altos ideais de amor, fidelidade, devoção, sacrifício e família. [Os requerentes] pedem dignidade igualitária aos olhos da lei. A Constituição lhes garante esse direito.”
Obama
Para o presidente Barack Obama, a histórica decisão é um passo “em direção à igualdade”. “Hoje é um grande passo em nossa marcha em direção à igualdade. Casais gays e lésbicos agora têm o direito de se casar, exatamente como qualquer outra pessoa. O amor vence”.
Casa Branca
Em comemoração à decisão, a Casa Branca mudou seu avatar no Twitter e inseriu um gif com a história do casamento gay no país. O perfil do departamento do Departamento do Interior dos EUA postou uma foto com a mensagem: “Amor é amor!”
Hillary Clinton
A principal pré-candidata à presidência pelo partido Democrata, Hillary Clinton, mudou seu avatar para um H com as cores LGBT e comentou: “orgulhosa por celebrar uma vitória histórica para o casamento igualitário – e a coragem e determinação dos americanos LGBTs que fizeram isso possível”.
Rick Santorum
O pré-candidato republicano Rick Santorum ressaltou em seu perfil que a decisão foi tomada por cinco juízes que não foram eleitos e eles “redefiniram a unidade fundacional da sociedade. Agora é a vez de o povo falar”. Em outra postagem, ele ressaltou que “a Corte é um dos três poderes do governo e eles têm um registro imperfeito. O risco é muito elevado para ceder [a decisão pelo casamento gay] para juízes não eleitos”, ressaltou.
Jeb Bush
O também pré-candidato republicano e ex-governador da Flórida Jeb Bush, irmão do ex-presidente George W. Bush, ressaltou em um comunicado que “guiado pela minha fé, eu acredito no casamento tradicional” e ressaltou que a “Suprema Corte deve permitir que os estados tomem essa decisão”. E acrescentou: “Agora é crucial que como país nós protejamos a liberdade religiosa e o direito de consciência e também a não discriminação”.
Scott Walker
O republicano Scott Walker escreveu que a decisão “foi um grave erro. Cinco juízes não eleitos tomaram para si a redefinição da instituição do casamento
Lady Gaga, Madonna, Bette Midler, Cyndi Lauper
Entre as celebridades, o tom foi de comemoração. A cantora Lady Gaga postou uma foto com a bandeira LGBT e escreveu: “Parabéns, América! Casamento [entre pessoas] do mesmo sexo agora é legal em todo o país #IgualdadeParaTodos. Madonna considerou se tratar do início de uma “revolução do amor”. A atriz, cantora e comediante Bette Midler brincou ao fazer um “convite”: “Vamos à capela”.
A cantora Cyndi Lauper, postou várias mensagens em apoio à decisão, que considerou “um grande passo”. “Todos os americanos, independentemente de sua orientação sexual, podem se casar com a pessoa que ama”.
Mark Zuckeberg, Tim Cook
O criador do Facebook, Mark Zuckeberg, com quase 33 milhões de seguidores na rede social, mudou sua foto de perfil para uma com as cores LGBT e postou uma imagem que mostra a evolução das comunidades LGBT dentro do Facebook. “Nosso país foi fundado na promessa de que todas as pessoas são criadas iguais, e hoje nós demos outro passo para alcançar essa promessa. Eu estou muito feliz pelos meus amigos e por todos em nossa comunidade, que podem, finalmente, celebrar seu amor e serem reconhecidos como casais iguais perante a lei”. A postagem teve mais de 80 mil curtidas e superou os três mil compartilhamentos.
O CEO da Apple, Tim Cook, considerou a decisão “uma vitória para a igualdade, perseverança e amor”.
Por

As sete maiores vergonhas do Brasil nos últimos tempos

A lista dos episódios mais vergonhosos da história nacional foi elaborada pela antropóloga Lilia Schwarcz e a historiadora Heloisa Starling, autoras do recém-lançado ”Brasil: uma biografia”.

1 — Genocídio da população indígena

Até os dias de hoje há controvérsia sobre a antiguidade dos povos do Novo Mundo. As estimativas mais tradicionais mencionam 12 mil anos, mas pesquisas recentes arriscam projetar de 30 mil a 35 mil anos. Sabe-se pouco dessa história indígena, e dos inúmeros povos que desapareceram em resultado do que agora chamamos eufemisticamente de “encontro” de sociedades. Um verdadeiro morticínio teve início naquele momento: uma população estimada na casa dos milhões em 1500 foi sendo reduzida aos poucos a cerca de 800 mil, que é a quantidade de índios que habitam o Brasil atualmente.

2 — Sistema escravocrata

O Brasil recebeu 40% do total de africanos que compulsoriamente deixaram seu continente para trabalhar nas colônias agrícolas do continente americano, sob regime de escravidão, num total de cerca de 3,8 milhões imigrantes. Fomos o último país a abolir a escravidão mercantil no Ocidente (só o fazendo em 1888, e depois de muita pressão) e o resultado desse uso contínuo, por quatro séculos, e extensivo por todo o território foi a naturalização do sistema. Escravos eram abertamente leiloados, alugados, penhorados, segurados, torturados e assassinados.

3 — Guerra do paraguai

O Império brasileiro errou em cheio. Avaliou-se que a contenda internacional opondo, de um lado, Brasil, Uruguai e Argentina, e, de outro, o Paraguai seria breve e indolor. No entanto, a guerra – na época chamada de “açougue do Paraguai” ou de “tríplice infâmia” – durou cinco longos e doloridos anos: de 1865 a 1870. A consequência para o lado paraguaio não foi apenas a deposição de seu dirigente máximo, mas a destruição do próprio Estado nacional. Os números de mortes sofridos pelo país são até hoje controversos e oscilam entre 800 mil e 1,3 milhão habitantes. Quanto às estatísticas brasileiras, a relação de homens enviados varia de 100 a 140 mil.

4 — Canudos

Em 1897, a República abriu guerra contra Canudos: uma comunidade sertaneja originada de um movimento sóciorreligioso liderado por Antônio Conselheiro. Canudos incomodou o governo da República e os grandes proprietários de terras, pois era uma nova maneira de viver no sertão. Em 1897, o arraial foi invadido por tropas militares, queimado a querosene e demolido com dinamite. A população foi dizimada. Em Os sertões, publicado em 1902, Euclides da Cunha escreve: “Canudos não se rendeu. Caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, e todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”.

5 — Polícia política do Governo Vargas

Em 1933, Getúlio Vargas criou a Delegacia Especial de Segurança Política e Social (Desp). Para comandá-la, Vargas entronizou o capitão do Exército, Filinto Müller. Na condição de chefe de polícia, Müller não vacilou em mandar matar, torturar ou deixar apodrecer nos calabouços do Desp os suspeitos e adversários declarados do regime sem necessidade de comprovar prática efetiva de crime. Pró-nazista, sua delegacia manteve um intercâmbio, reconhecido pelo governo brasileiro, com a Gestapo – a polícia secreta de Hitler – que incluía troca de informações, técnicas e métodos de interrogatório.

6 — Centros clandestidos de violação de direitos humanos

A ditadura militar instalou, a partir de 1970, centros clandestinos que serviram para executar os procedimentos de desaparecimento de corpos de opositores mortos sob a guarda do Estado – como a retirada de digitais e de arcadas dentárias, o esquartejamento e a queima de corpos em fogueiras de pneus. No Brasil governado pelos militares, a prática da tortura política e dos desaparecimentos forçados não foi fruto das ações incidentais de personalidades desequilibradas, e nessa constatação reside o escândalo e a dor.

7 — Massacre do Carandiru

Mais conhecida como Carandiru, a Casa de Detenção de São Paulo abrigava mais de 7 mil detentos, em 1992 – a capacidade oficial era de 3.500 pessoas. No dia 2 de outubro, uma briga entre facções rivais de presidiários terminou num massacre: a tropa policial entrou no presídio utilizando armamento pesado e munição letal. 111 presos foram mortos e 110 feridos. O cenário era de horror. Passados 21 anos, somente em 2014, 73 policiais foram condenados – todos podem recorrer em liberdade.

Por:
Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, Trip Magazine

7 de abr. de 2015

Leandro Karnal fala sobre a corrupção no Brasil







"A corrupção é estrutural ela pertence uma interpretação ética bastante difundida na sociedade brasileira e inclusive do governo". (Leandro Karnal)


4 de abr. de 2015

Desprezamos o ensino básico. O resultado está aí...

Nos protestos do dia 15, entre tantas placas de fora isso e fora aquilo, uma chamava a atenção. “Chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire”.Isolada na polifonia de broncas, a bandeira dialogava diretamente com um anti-intelectualismo reinante nas rodas de conversas corriqueiras e nas cabeças ditas pensantes do Brasil.
De repente, fazer contrapontos com base em estudos, experiência histórica ou estatística virou “papo de intelectual”, algo não só pedante como dissociado do “mundo real”, prático e urgente. Uma forma de encerrar a conversa retirando a legitimidade de quem afirma “olha, não é bem assim”. Se não é bem assim não interessa, reagem os revoltados online e off-line, para quem ou se é um governista chapa-branca ou um golpista neoliberal insensível. O “selo” automático é sintomático da confusão de conceitos básicos no debate público sobre direitos, privilégios, inclusão, doutrina, conhecimento, argumento, cinismo, posição política e alienação. Fora de contexto, vira tudo uma conversa de doido.
Pois em meio à confusão flagrante, um sujeito ergue a placa contra um filósofo e educador reconhecido por instituições como Harvard, Cambridge e Oxford. Patrono da educação brasileira, Freire escreveu: “A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. De duas uma. Ou o revoltado não sabe quem foi Paulo Freire ou sabe bem. Em qualquer das hipóteses, o flagrante é gravíssimo. Mostra a incapacidade de parcela da população em entender que tudo o que não nos sobra atualmente é Paulo Freire.
Mas não só. Num mundo em que o conhecimento é disponível na rede, mas é pouco organizado e contextualizado, o medo e a incompreensão tomaram forma em reações raivosas que atropelam qualquer raciocínio. Quando vemos, é preciso rebater o truísmo com os argumentos mais óbvios do tipo “desculpem avisar assim de supetão, mas a guerra fria acabou”. Nem sempre funciona. O medo e a incompreensão impedem um mergulho adequado em obras de referência. Adam Smith e Karl Marx até hoje nos dão pistas para a compreensão dos sistemas de produção e riqueza, mas são evitados por puro preconceito e ignorância. Para muitos, O Capital equivale a um manual de dez mandamentos do stalinismo. É mais ou menos como associar a execução da Cavalgada das Valquírias a planos expansionistas sobre o leste europeu.
É mais fácil, porém, morrer afogado no escuro, imaginando-se livre de qualquer doutrina, do que admitir: não entendo o que vocês falam. Pois pensar incomoda. Exige esforço. Desafia. E é mais fácil jogar na fogueira quem induz ao pensamento do que admitir nossa mediocridade. Desprezamos o contraponto porque ele nos desmente e, se nos desmente, não nos interessa.
O desprezo pelo cânone, que nos impede inclusive de contestá-lo com argumentos mais sofisticados do que as fórmulas prontas, é resultado de anos, décadas, séculos de desprezo pela educação de base. Tanto nas escolas particulares com nas instituições públicas, fracassamos diariamente quando confundimos ensino com mercadoria, macete de múltipla escolha com raciocínio, sucesso profissional com riqueza material, pluralidade com problema social. Os resultados nas provas de proficiência em língua portuguesa ou matemática são o maior legado da nossa falência. 
O ensino precário de matemática na infância formou adultos incapazes de raciocínio lógico e noções de proporcionalidade e grandeza. Da mesma forma, a incapacidade de ler ou produzir textos com qualquer nexo deu origem a adultos bestializados que não entendem figuras básicas de linguagem. Não sabem o que é metáfora, ironia ou contradição. Como debater cidadania sem as ferramentas próprias da cidadania que é a própria linguagem?
A torpeza de linguagem é a torpeza de pensamento, e esta nos levou, durante anos, a dormir tranquilos graças à expansão inconteste do ensino superior. Lá, nossas deficiências básicas começaram a pipocar aos montes. Formamos profissionais convictos de que a sua liberdade estava associada a um padrão de consumo. Vence na vida quem tem carro e grana, e a partir dessa lógica o governo dito popular bateu no peito para dizer na eleição passada que seu maior trunfo era a inclusão de milhões de pessoas ao maravilhoso mundo do consumo. Não era pouco, mas não era suficiente. Faltou o resto. Faltou Paulo Freire. Tanto faltou que o resultado está aí: temos hoje consagrada uma ideia de cidadania desarticulada, agressiva e vulnerável a soluções fáceis para problemas complexos.
A gravidade desse analfabetismo político pode ser observada cada vez que alguém se revolta com notícias falsas de um site de sátiras como o Sensacionalista. Dias atrás, um amigo me marcou numa notícia sobre a transferência da presidenta Dilma Rousseff, com a popularidade em baixa, para o Palmeiras. Um amigo do amigo comentou: “essa égua, em vez de priorizar saúde e educação, prioriza futebol”. Pois se alguém, e não apenas o governante de plantão, desse a mínima ao que Paulo Freire defendia, o sujeito que agora se rebela com paus e pedras saberia o que é sátira e o que é ironia. 
Mas ele não sabe. E, como não sabe, ele agride. A ausência de noção sobre nosso limite intelectual é um sintoma grave de uma ignorância anterior. Mas preferimos não encará-lo. Confortáveis, repetimos que os cães ladram e a caravana passa. O problema é quando a caravana, preocupada com a autoimagem diante dos cães, desiste do diálogo e começa a latir em busca de votos ou leitores.
Isso acontece, por exemplo, quando deputados tentam reconquistar a moral com a população jogando para a plateia o debate sobre a redução da maioridade penal. A retomada ocorre às custas de praticamente todos os especialistas no assunto: Unicef, Ministério Público Federal, Defensoria, Conselhos de Psicologia, ONGs, estudiosos da segurança pública. É como definiu o amigo Rafael Bozutti, advogado especialista em direito penal: quando ficamos doentes, consultamos o médico; quando construímos uma casa, consultamos um engenheiro; mas quando queremos abordar segurança pública ouvimos a…opinião pública. Mal formada e mal informada, ela estará sempre disposta a resumir o mundo em uma sentença simplória: “mais punição, menos crimes”.
Pois de que adianta dizer que no Brasil o jovem morre em proporção muito maior do que mata? Ou que nenhum país que ampliou o sistema de punição reduziu o índice de criminalidade? Ou que a prisão, como funciona hoje, serve como porta de entrada, e não de saída, para o crime? 
"Isso é papo de intelectual", dizem os especialistas em programas policiais de fim de tarde incapazes de apresentar um único bom argumento além do seu desprezo pela figura do marginal – e a quem propõe contrapontos e é taxado de “defensor de marginal”. Atentos a esse sentimento anti-intelectual, os deputados tentam reconstruir, com ligação direta, as pontes com um tipo de eleitor avesso também à política e à ideia de que a expansão de direitos é uma luta política. Este eleitor se contenta com soluções fáceis porque se nega a ver que o problema é complexo.
Por isso, quando confrontado, ele grita. Chama a feminista de puta, a militante de gorda, o negro de preguiçoso, o intelectual de vendido, o contraponto de “comunismo”. Este sujeito radicalizado não é um monstro. É apenas medíocre – e medíocre no sentido original do termo: é ordinário, mediano, trivial e sofrível.
Esse terreno minado da cegueira coletiva se tornou o campo propício do cinismo caolho. De olho nesse (e)leitor apavorado, há quem contrate fãs do pateta, viúvas da guerra fria e meninões do fundão da sala para espalhar monstros e deseducar – inclusive trazendo para o debate antigos coronéis que hoje berram contra a corrupção porque não foram chamados para a festa. Esses grupos têm toda a razão em se opor à pedagogia do oprimido: embora diplomados, não fazem a menor questão de ver seus leitores ligando os pontos e pensando por si. Por isso latem. Ou fingem latir. Ou dão selos de qualidade a jovens de 18 anos que latem em vídeos viralizados para falar sobre corrupção, respeito e cidadania. Para que ouvir especialistas?
Como os deputados afrontados pela impopularidade, o que não faltam são veículos de imprensa que, para dialogar com um público que desaprendeu a pensar, tentam formar um público (ou eleitores) com latidos de cortesia. Assim, a linguagem morre um pouco a cada dia.
Quando os cães tomam a caravana, é tarde demais para fazer chacota sobre os erros de português e raciocínio precário nos cartazes presentes nas mobilizações de rua. É fácil mandar a população estudar quando não nos preocupamos com a violência, o despreparo, os preconceitos e os salários ridículos enfrentados todo dia por professores em sala de aula. Eles têm na base da pirâmide a missão de carregar lamparinas contra a escuridão. Faltam refletores. Falta Paulo Freire.

Por

MATHEUS PICHONELLI


Blog do Matheus Pichonelli

Sobre a menina síria que se rende ao confundir câmera fotográfica com uma arma

Quando ainda menina, lia muito Drummond. Achava um exagero ele dizer que chegaria um tempo de absoluta depuração, em que “(…) os olhos não choram./E as mãos tecem apenas o rude trabalho./E o coração está seco.” Mas hoje eu vi no noticiário uma cena muito peculiar, e a verdade do poema me veio à alma, imediatamente. Um fotógrafo, ao tentar retratar a vida das crianças sírias, conseguiu captar não a frieza deste mundo, mas já a sua consequência. Ele enquadra a criança em sua lente e essa levanta os braços, rendida, pensando ser uma arma.
Deus! Que mundo é este, onde a inocência caminha de mãos levantadas e a alma do mundo não sangra, e os olhos dos homens não choram, e a dor já não nos pode chocar? Que mundo é este cujos avanços tecnológicos não encontram eco na evolução moral dos indivíduos e onde só o que conta são os cifrões?
Um mundo cujo colorido já não é convidativo aos olhos. Onde a beleza é preterida. Onde a pureza dos pequeninos ainda é roubada e banhada do sangue de seus pares, de seus pais e, não raro, do seu próprio sangue. Um mundo cujas crianças já têm a esperança prematuramente envelhecida pela dor que transborda dos noticiários e que não raro floresce ao seu lado. Um mundo em que, a cada dia, o homem teme mais e mais o próprio homem.
Frequentei um curso, há um tempo, e algo me deixou sobremodo perplexa. O instrutor mostrava-nos diversos vídeos com acidentes causados por veículos. Em dada situação, um homem fora atropelado por não olhar para a sua direita quando um carro vinha na contra mão.  Alguns dos colegas, a maioria jovens entre 18 e 25 anos, riram da cena. Noutro atropelamento, a maioria riu. Esboçaram alguma comoção, leve, quando uma criança foi atropelada. Mas, pasmem: um cachorro foi atropelado e, nesse momento, houve uma comoção geral: “Ah, pobrezinho! Tadinho dele!”.  
A banalização da dor do outro é hoje tamanha que os jovens se identificam mais e se comovem mais com a dor de um animal que com a dor de um homem ou de uma criança.
A dor do outro é estatística. “Quanta mortes, mesmo, na Síria? Quantos desabrigados no Acre? Quantas mulheres são agredidas por ano? Quantas crianças são estupradas por parentes próximos?” Não! Essa postura desmerece o infinito que somos, desautoriza a angelitude a que estamos destinados, desmente a centelha do Eterno que permeia a alma de cada um de nós!
Necessitamos ver o outro como parte desprendida, mas ainda ligada a nós por lanços infindáveis de natureza espiritual. Ninguém pode ser plenamente feliz enquanto um só de nós estiver de braços levantados, rendida criança assustada pelos estrondos da guerra, cativa da dor e da morte. Esfomeada de uma Justiça que ela não pode compreender ou dizer, mas, humana que é, já a pode desejar e de sua falta se ressentir.
Que esta criança que hoje vi de mãos levantadas por confundir a câmera com uma arma possa ainda, é o que utopicamente desejo, levantar novamente as suas mãos, mas não por medo. Que ela ainda possa, na pontinha dos pés, elevar os seus braços para brincar com as estrelas.
MENINA SÍRIA
Há alguns dias um fotógrafo capturou, na Síria, a imagem de uma criança que se rendeu em frente sua câmera. Segundo informações do site Huffington Post, a pequena levantou os braços ao confundir a câmera com um rifle.

Por Nara Rúbia Ribeiro
www.contioutra.com



Tristes tempos em que vivemos expressada na letra da música "Perfeição", de Renato Russo: quantos ainda precisarão morrer para celebrar a estupidez humana? 148 mortes no Quênia, 4 mortes no Morro do Alemão...
"Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos covardes
Estupradores e ladrões
Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E sequestros
Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção
Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição! "

5 de mar. de 2015

O país das maravilhas

O escritor e jornalista Juan Arias, comentando meu artigo "O nosso fundamentalismo", indaga se o conservadorismo da sociedade brasileira não estaria fundamentado em nosso precário sistema educacional. Talvez esse seja o ponto essencial para podermos refletir sobre esse colosso territorial chamado Brasil, não só em relação ao reacionarismo da população em geral, mas também à nossa incapacidade de concebermo-nos como nação, ou seja, conjunto de pessoas que se vinculam visando a atingir um objetivo comum.
Em entrevista ao jornal Zero Hora do dia 1º de março, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), especialista no assunto, faz uma série de considerações a respeito do estado da educação no Brasil e diagnostica: se começássemos um trabalho sério nas escolas de base hoje, o país alcançaria um ponto de excelência apenas daqui a 20, 30 anos... No entanto, do jeito que vamos, conclui, estamos ficando para trás. Permanece no ar um questionamento singelo, como devem ser as indagações mais profundas: se eu sei, se você sabe, se todos sabemos que não iremos a lugar algum sem uma radical transformação do sistema educacional, por que nos contentamos em afundar no pântano da ignorância?
Cristovam Buarque constata, desolado, que “por algum motivo” não damos importância à educação. “Ninguém é considerado rico no Brasil por ser culto. Você é considerado rico pela casa, pela conta bancária, pelo tamanho do carro, mas não pelo grau de cultura e educação. Mesmo quem gasta dinheiro para estudar não está em busca de cultura, está em busca do emprego que a educação lhe dá”. Infelizmente, essa assertiva é verdadeira e crucial para tentarmos entender o nosso desprezo pela cultura letrada.
O quadro mudou, certamente, por conta do compromisso do Estado em ofertar ensino gratuito obrigatório a todos os brasileiros entre 4 e 17 anos (alicerçado na Lei de Diretrizes e Bases de 1996) e de garantir cotas raciais e sociais em universidades públicas para afrodescendentes, indígenas e alunos oriundos de escolas públicas (baseado na Lei de Cotas, de 2012). Mas se melhorou em relação à possibilidade de acesso, e isso é um ganho inegável e indiscutível, piorou bastante no que concerne à qualidade da educação disponível.
Infelizmente, nosso sistema educacional continua sendo um instrumento de segregação social e, por consequência, de manutenção no poder de uma elite econômica, que é também política e cultural. A alfabetização e os ensino fundamental e médio, essenciais para a formação do aluno para o resto da vida, definem a que classe você pertence e na qual permanecerá. Segundo dados do IBGE, metade da população com mais de 25 anos não concluiu sequer o ensino fundamental; 15% não concluíram o ensino médio; e apenas 11% concluíram o universitário – desenho nítido da pirâmide social brasileira.
As famílias pobres, sem opção, matriculam os filhos em escolas públicas, que funcionam em prédios obsoletos, com infraestrutura mínima, sem segurança, sem biblioteca, administrados por professores, em geral, mal formados e sem incentivo, acossados pela baixa remuneração e falta de segurança e desrespeitados por pais e alunos. O resultado é que, segundo relatório da Unesco, o estudante está na sala de aula, mas não aprende – 22% se formam sem capacidades elementares de leitura e 39% não têm conhecimentos básicos de matemática. Por outro lado, a maioria dos pais não se sente responsável pelo desempenho dos filhos na escola, ignorando assim que a educação, embora inclua a instrução, a ultrapassa. Essa visão utilitária e limitada impede que a comunidade interfira na resolução dos problemas da escola.
Já as famílias ricas conduzem seus filhos para escolas privadas, que contam com boa infraestrutura, regimes pedagógicos diferenciados, bibliotecas, ambiente adequado, professores bem remunerados, etc. Mais tarde, esses alunos ocuparão a maioria das vagas das melhores universidades públicas – aos alunos pobres restam as universidades privadas, de duvidosa reputação. Em suma: os alunos ricos estudam de graça em boas instituições, sem nenhuma contrapartida social, enquanto os pobres pagam para assistir aulas em estabelecimentos deficientes.
Somos um país, mas não somos uma nação. A ignorância é o terreno fértil para a propagação de ideias conservadoras – o escritor sérvio Danilo Kis, em seu romance Um túmulo para Boris Davidovich, afirma que quem lê vários livros busca a sabedoria, quem lê um único, busca a ignorância. O desdém pela cultura, que atinge o Brasil de alto a baixo, envenena nossa percepção: aqui, o que é de todos, não é de ninguém. Todos nos aferramos às nossas pequenas conquistas e, para não perdê-las, abraçamo-nos a qualquer discurso reacionário, que ao fim e ao cabo, prega sempre o egoísmo, o cinismo, a mediocridade.

Por:
Luiz Ruffato
http://brasil.elpais.com

O palhaço que não amava as mulheres

No ônibus de Vinhedo para a Unicamp, o palhaço entrou pela porta dos fundos e começou a discorrer sobre os benefícios e o princípio-ativo da alegria.
-O homem que sorri está sempre leve e disposto a aprender. O homem sério está brigando o tempo todo, até com os pais.
Simpático, com a calça esgarçada, a peruca mal colocada e a maquiagem já derretendo àquela hora do dia, ele intercalava gracinhas sobre as roupas dos passageiros com mensagens motivacionais.
-Ali à esquerda tem um asilo, e os velhinhos precisam da ajuda de vocês. Sabe do que eles gostam? De sabonete.
Até ali ok, pensei comigo. A abordagem era deselegante, mas um pouco de culpa numa manhã de quarta-feira não faria mal a ninguém. Em instantes, ele avisava que o assunto ali era sério. Que era voluntário dos hospitais da região e precisava de ajuda para o seu projeto. Ajudar ou não ia da consciência de cada um.
Como a conversa não parecia sensibilizar os bolsos dos passageiros, ele logo sacou a Bíblia e começou a falar em nome de Deus - justo Deus, que tinha tanto a fazer no mundo naquela manhã.
Nessas horas, manifestamos uma espécie de preconceito às avessas: o sujeito de fala simples, roupa desgrenhada e que relatava as dificuldades da vida circense estava convicto de que fazia a coisa certa e não poderia fazer nada a não ser nos amolar. O cara era gente boa. Que mal ele faria? Deselegante seria pedir silencio - justo pra ele, um soldado do riso e da esperança de crianças enfermas. Ele, então, seguiu. E o que seguiu adiante é o que acontece quando tentamos imaginar o julgamento dos deuses, e dos autores dos livros sagrados, sobre nossos hábitos contemporâneos: um arremedo entre a desinformação e o moralismo.
Entre outras coisas, o palhaço disse que as famílias estão sendo destruídas pela novela, que o marido perdeu a atenção em casa para a TV, que depois ninguém entende por que ele fica violento, que a Lei Maria da Penha o prejudica e o faz voltar pra casa ainda mais agressivo, que hoje em dia as meninas estão engravidando cada vez mais cedo e estão lotando os hospitais com câncer de mama porque estragam os peitos com silicone e os peitos foram feitos para amamentar, não para ficarem empinados.
Aquela tentativa desastrosa de levar a palavra do Senhor com alegria era a caricatura perfeita do senso comum. Por esse raciocínio, que tantas vezes ouvimos e calamos nos ambientes privados, as mulheres sofrem as dores do mundo desde Eva; a malícia de toda mulher é sempre o pecado original. Ela seduz e engravida por geração espontânea, e isso é sempre uma desonra para quem seduz, nunca para os (supostos) seduzidos.
Na fala do palhaço-cidadão, o câncer era uma questão moral alimentada pela vaidade (delas, claro) e a agressão, a surra, o revide e o assedio eram medidas corretivas compreensíveis - pois a culpa não é jamais do agressor, mas da TV e dos descasos produzidos por quem se deixa seduzir pela TV.
Não sei por qual igreja ele comungava, mas lembrei que os religiosos que falam sobre a desonra da gravidez indesejável são os mesmos que criam demônios - a TV, as drogas, as tentações do corpo - e boicotam os métodos contraceptivos, a educação sexual e o direito à decisão sobre o próprio corpo.
-É verdade ou estou mentindo?, perguntava o palhaço, entre a galhofa e a melancolia.
Alguns riam, muitos concordavam, outros só ficavam constrangidos em dizer não. Aquela viagem em um ônibus público acabava de se transformar num culto, e aquilo não tinha graça nem era inocente.
A certa altura ele disse que a Xuxa não gostava de criança, gostava de dinheiro, e que se gostasse de criança teria engravidado do Pelé ou do Senna. E que nós, brasileiros, tínhamos culpa pelo descalabro do país: tivemos a chance de colocar um homem na Presidência, mas preferimos manter uma mulher.
Quando estava bem claro que o problema do palhaço eram as mulheres, e não a Petrobras, a qualidade dos programas infantis ou do que quer que fosse, calculava comigo mesmo se valia a pena pedir a palavra ou não. Estava pronto para chegar ao trabalho e escrever algo a respeito - mas, como ele, eu também estaria pregando a convertidos. Além do mais, dizer o quê? Pra quê?
Desde os tempos do Centro Acadêmico ouço do meu amigo Maurício Savarese que preciso perder o medo do conflito - não o que a gente expõe em nossas redes e zonas de conforto, mas o que a gente provoca quando rebate, na lata, um absurdo. Eu estava diante de um grande absurdo, e tinha medo de chutar e espalhar a asneira por todo o ventilador. E tinha medo de fazer papelão em público.
Nessas horas, longe do cuidado ao escolher palavra por palavra daquilo que a gente escreve, o risco é me tornar a personagem da Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem: quando digo não só não consigo dizer o que penso como o que penso passa a ser o que eu digo. No cálculo, opto pelo silêncio - e no silêncio me recolho tentando reconstituir, pelo resto do dia, o episódio e tudo o que poderia ter dito e não disse.
Então eu disse.
-Tem alguma mulher no mundo que o senhor não despreza, amigo? A Xuxa, a Dilma, as meninas que engravidam, as que não engravidam. Quem mais?
Engasgando para não falar para dentro, disse que o sujeito ofendia a todos ali que têm ou tiveram casos de câncer ou violência nas famílias. E que o que ele dizia tinha nome: misoginia. E que em nome dessa misoginia ele falava um monte de bobagens que constrangem, desinformam e perpetuam um velho crime. E que se as pessoas ainda morrem vítimas de violência sexual ou violência doméstica não era por causa da TV ou de uma lei feita para protegê-las, mas porque os homens são violentos, e são violentos muitas vezes porque cansaram de ouvir aquele tipo de discurso: o que joga a culpa nos demônios que moram fora, e não dentro deles, sujeitos passivos e incapazes de conter os impulsos provocados pelas saias das mulheres nas ruas e nas novelas. Nada saiu como transcrevo nem como eu gostaria, mas se fosse recapitular o raciocínio não seria muito diferente disso.
Em silêncio o ônibus estava e em silêncio o ônibus seguiu, até que uma senhora se manifestou:
-Afinal, o senhor é palhaço ou é médico?
Só agora consigo ver graça naquela pergunta. Na hora apenas corei. O palhaço, sem graça, me fazia me sentir culpado. Lembrei de sua primeira frase ao entrar, sobre as alegrias. Eu era o sujeito sisudo, fechado e incapaz de sorrir. Que grande chato me tornei.
O olhar que ele me dirigiu era sério, e pouco pude dizer quando ele começou a descrever a dignidade de seu trabalho como palhaço, me mostrou fotos com algumas autoridades locais (todos homens, diga-se), e disse que eu deveria me solidarizar com as crianças, que elas estavam perdidas no mundo, que os doentes precisavam de alegria…
-Respeito o seu trabalho, mas isso não tira a gravidade do que o senhor está dizendo aqui em público para um ônibus lotado.
-Estou só falando a verdade para as pessoas.
-Não, o senhor está falando o que acha ser verdade. O que senhor está falando é bobagem. Câncer de mama não é uma questão moral e não tem a ver com falta de amamentação, e o senhor deveria saber disso.
-Eu só digo o que vejo. E sou livre para dizer o que penso.
-E eu sou livre para não ouvir, mas o senhor não me deu essa opção quando entrou aqui e começou a pregar.
Foi então que ele me desejou felicidades (na verdade ele me amaldiçoava) e desceu. A senhora que o questionara se aproximou e perguntou se eu estava bem, e eu não estava. Não estava porque tinha a sensação de ter chutado cachorro morto.
Em casa, ainda remoendo a necessidade daquilo tudo (e dessa crônica, por fim), ouvi a Camila dizer, com toda razão: falta muito para as pessoas começarem a defender em público o extermínio de mulheres, gays, negros, imigrantes. Falta quase nada. Rir ou caçoar de quem tem a ideia torta não elimina a ideia. Concluí então que o conforto do nosso desprezo, que antes nos paralisa, é o que encurta a distância entre o palhaço da história - o tal cachorro morto - e a tribuna do Congresso. Sim, isso é um convite: rebatam. Em casa, no ônibus, na escola, na vizinhança, na igreja. É isso o que nos fará compreender e conter, pelo constrangimento, sorrisos tão abertos como os de Alexandre Frota e seus asseclas quando manifestam, sem culpa, seus desprezos e suas violências contra quem não tem o menor motivo para sorrir.
Por:
ttps://br.noticias.yahoo.com/blogs/matheus-pichonelli/o-palhaco-que-nao-amava-as-mulheres-005156158.html#

Amor é amor

O mundo assombrado pelos demônios

Com temor, assisto notícias sobre os “Gladiadores do Altar”, mais um fruto nefasto do fundamentalismo religioso, essa praga que assola o Brasil. Impossível não estabelecer comparações com o ótimo filme “A Onda” (Die Welle, de 2008). Enquanto aumenta a porcentagem de ateus nas nações mais evoluídas, por aqui o povo se agarra cada vez mais em muletas teológicas, como a bancada evangélica no Congresso. Até que ponto a religiosidade deve se intrometer na política? Em qual momento foi permitido que a fé, usualmente removedora de montanhas, iniciasse sua remoção de homens e ideias? Homens como o italiano Giordano Bruno, que foi retratado no cinema de maneira excepcional na obra dirigida por Giuliano Montaldo em 1973. Giordano foi um filósofo, além de astrônomo e matemático, do século dezesseis, expulso da Ordem dos Dominicanos por suas ideias e seus questionamentos acerca de um universo ilimitado, povoado por uma infinidade de estrelas e planetas com possibilidade de vida inteligente. Este precursor da ciência moderna foi processado pela inquisição e recusando qualquer retratação, foi condenado à morte na fogueira. Até mesmo em seus últimos momentos tentaram calá-lo, tendo sido morto com uma mordaça e pregos em sua língua, que simbolicamente o impediriam de propagar sua ideologia após sua morte. Notando o mundo atual e vendo a importância que ainda é dada aos preceitos do Vaticano, à opinião do Papa sobre qualquer tema, parece que seus antepassados conseguiram realizar o feito.
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Com uma atuação soberba de Gian Maria Volonté no papel principal e de Charlotte Rampling como Fosca, além de uma fotografia estupenda de Vittorio Storaro e uma linda trilha sonora do genial Ennio Morricone, o filme merece um reconhecimento maior, pois se torna a cada dia que passa mais atual e importante. O diretor não cria uma obra panfletária, ele disserta sobre o homem e suas ações, sabendo ver em cada personagem suas verdades e crenças. Não acusa, simplesmente mostra os fatos e deixa nas mãos do público o julgamento. Imenso foi o preço que Giordano pagou por questionar os dogmas religiosos, tendo como meta apenas a evolução do conhecimento humano. Conhecimento esse que, mesmo séculos depois, ainda se defronta com os mesmos dogmas, com a fogueira primitiva sendo substituída pelo poder de manipulação social. Manipulação de políticos, pois nenhum tem coragem de falar contra a igreja por medo de não se elegerem, assim como a imposição de seus conceitos sobre assuntos que nunca dominaram, como a ciência.
Ao assistirmos o filme, constatamos as razões que o tornam tão pouco conhecido e difundido, ele consegue fazer algo que as religiões nunca souberam: mostrar suas ideias eficientemente e sem necessidade de apelar para violência, ou imposição pelo medo, contra outras crenças ou contra aqueles que as questionam. Essa obra é uma poderosa arma que os religiosos querem manter bem distante de seus fiéis, pois o conhecimento, que tanto Giordano Bruno lutou para divulgar, foge completamente aos anseios dos líderes religiosos, ontem, hoje e sempre.
Por muito tempo, acreditei que silenciar, no tocante a esse assunto, era uma forma de respeito, mas calar é o pior crime que pode ser cometido. Descartes, Nietzsche, Onfray, Bakunin, Stephen Hawking, Carl Sagan, de quem roubei o título do texto, e praticamente todos os grandes pensadores que atravessaram a breve experiência da vida na Terra, já apontaram os malefícios que as crenças em lendas causam ao desenvolvimento intelectual do cidadão. Mitos e superstições escravizam os seres humanos, limitando-os intelectual e criativamente. Amedronte uma pessoa e você a terá na palma de sua mão, fazendo tudo o que você disser que irá ser para o seu bem, inclusive financeiramente, sendo capaz de vender os rins por um espaço garantido no céu. Liberte-a dos medos, que nenhuma força no mundo irá mantê-la sob seu jugo. A exploração do sobrenatural é fonte de renda de muitos, ainda mais nos locais onde o analfabetismo científico reina supremo. O brasileiro, povo extremamente carente em educação, saúde e segurança, acredita em tudo que é impossível, mas sempre duvida do óbvio. Viver em um mundo alternativo de ilusão, composto por truques, efeitos psicossomáticos e histeria coletiva, pode trazer paz temporária, mas não é a melhor solução.
E, complementando, uma ótima citação do físico Steven Weinberg: “Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião”. O sofrimento é uma das coisas mais naturais na vida de todos nós. Aprender a lidar com ele é uma das coisas que nos diferencia dos animais irracionais. Ninguém é imune ao sofrimento.  As crenças concedem aos que sofrem uma paz temporária. E por esse respiro breve, puramente ilusório, gerações de mal-intencionados incitam pessoas bem-intencionadas a se mutilarem, atearem fogo em florestas, acidentalmente, devido ao uso de velas em despachos, despejarem cacos de vidro, garrafas quebradas em rituais, em locais que oferecem grave risco aos transeuntes, sacrificam animais indefesos e até bebês, entre outros absurdos. Caso testemunhe despachos com velas acesas em locais com risco de incêndio, não pense duas vezes, apague-as. Temos que honrar o “sapiens”, que sucede o “homo”. Não tenho religião alguma, sou um respeitoso questionador em eterna busca pelo aprimoramento. O Brasil necessita, mais do que nunca, de nossa lucidez.
Por:
Octavio Caruso
www.contioutra.com

Citação:
“Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião”. Steven Weinberg

 

23 de fev. de 2015

Perceba o verdadeiro sentido da vida

Documentário I AM - Você tem o Poder de Mudar o mundo.





Sinopse:

Do diretor de O MentirosoO Professor AlopradoO Todo-Poderoso Ace Ventura: Um Detetive Diferente, chega um surpreendentemente poderoso e inspirador filme. I AM é a história de Tom Shadyac, um diretor de sucesso em Hollywood, que após um perigoso ferimento na cabeça, experimenta uma jornada para tentar descobrir e responder duas questões bem básicas: "O que está errado no mundo?" e "Que podemos fazer sobre isso?" Com uma equipe de quatro pessoas, Tom visita algumas das grandes mentes dos dias de hoje, incluindo escritores, poetas, professores líderes religiosos e cientistas (Howard Zinn, Lynn McTaggart, Desmond Tutu, Thom Harmann, Coleman Barks), buscando descobrir o fundamental problema endêmico que causa todos os outros problemas, refletindo simultaneamente em suas próprias escolhas de excesso, ambição e possível cura. E se a solução para os problemas do mundo estivesse bem na nossa frente o tempo todo?

Vale a pena!

E para iniciar o ano de 2015 ...

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra adiante vai ser diferente…
… para você,
desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.
Para você,
desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.
Para você neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família esteja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe
desejar tantas coisas
mas nada seria suficiente…
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada
minuto, rumo a sua felicidade!!!”

(Carlos Drummond de Andrade)