22 de mar. de 2011

Século das novas luzes

A periodização da história, especialmente quando escalonada em séculos, é um artifício para se delimitar, de algum modo, a passagem do tempo. Assim, o historiador Eric Hobsbawn chamou de curto o século 20 porque, a rigor, o corte inicial, segundo ele, inicia-se em 1914, com a eclosão da 1ª Guerra Mundial, e o corte final ocorre em 1991, com o colapso da União Soviética.

Qilai Shen/The New York Times
Qilai Shen/The New York Times
 
Citigroup prevê que PIB chinês superará o dos Estados Unidos em 2020; HSBC calcula que será em 2045
Tomando como ponto de partida essa cronologia e com a vantagem da visão retrospectiva, podemos afirmar, em poucas palavras, que o século 20 foi marcado pela tragédia. Morticínio provocado por duas grandes guerras, emergência dos totalitarismos na Rússia, na Itália e na Alemanha, massacre dos judeus, ciganos, “deficientes” físicos ou mentais pela horda nazista.
É possível matizar essa visão profundamente negativa lembrando que, nos dias de hoje, as guerras mundiais são muito improváveis, os regimes totalitários foram derrotados e, mais ainda, que após dois conflitos sangrentos no último século, para não falar da guerra franco-prussiana de 1870–1871, Alemanha e França tornaram-se aliados, com um papel central na União Europeia.
Podemos interpretar o século 20 com ênfases diversas, ou mesmo contrastantes, mas ninguém contesta os fatos que sucederam ao longo de seu decorrer, se jogarmos na lata do lixo “os assassinos da memória”, negadores do Holocausto, como os chamou o historiador francês Pierre Vidal- Nacquet.
Viremos a página para encarar o adolescente século 21, com pouco mais de 11 anos de existência. Quase 90 anos cobertos de neblina surgem diante de nós, ou melhor, das novas gerações, pois muito poucos dos vivos de hoje permanecerão vivos na próxima virada de século.
Nos dias que correm, Clio já nos preparou uma surpresa. Quem poderia prever as revoltas dos povos árabes, estendendo-se dos países do Golfo Pérsico à Argélia, no Norte da África? Certamente essas revoltas terão desfecho diverso e algumas delas poderão fracassar, como é o caso da Líbia. Mas elas vêm demonstrando a inconsistência da afirmação, tantas vezes repetida, de que a cultura dos povos árabes é incompatível com a democracia.
Certamente o ritmo da evolução democrática no mundo ocidental, apesar das ameaças crescentes ao direito das minorias, com fortes traços de xenofobia, não se compara com o quadro existente no Oriente Médio. Mas o fato é que pelo menos uma parcela dos manifestantes dos dias de hoje, além de buscar emprego e uma vida decente, luta pelo direito à livre expressão – um direito que passa pela derrubada de ditadores e tiranos.
Na esfera da economia, o século 21 aparenta ser o século da China, acompanhado de uma queda relativa dos Estados Unidos e mais acentuada dos países da União Europeia. Entretanto, os relatórios recentes dos grandes bancos divergem em seus prognósticos. Num extremo, o Citigroup prevê que já em 2020 o PIB chinês superará o dos Estados Unidos; no outro, o HSBC calcula que a ultrapassagem ocorrerá por volta de 2045. O PIB, por si só, não mede a qualidade de vida da população, pois pouco ou nada diz sobre a renda per capita e o PPP (poder paritário de compra) dos diferentes países, e aí a China tem um longo e complicado caminho a percorrer.
Entretanto, até por volta de 1980 alguns economistas e sociólogos falavam do Japão como a futura potência hegemônica, em contraste com o declínio americano. Hoje, apesar de ainda ser a terceira economia do mundo, o Japão vive uma longa recessão que a recente catástrofe sísmica, infelizmente, deverá agravar.
De uma forma ou de outra, o século 21 seria então, a partir de certo momento, o século da hegemonia chinesa? Talvez. Convém lembrar que o ranking do Citigroup coloca a Índia à frente da China em 2050, enquanto ela fica em terceiro lugar em dois outros rankings (Goldman Sachs e HSBC). A melhor projeção para o Brasil – diga-se de passagem – colocaria nosso país em terceiro lugar, e a pior, em sétimo, a mesma posição de hoje, na hipótese mais pessimista. O ascenso da China e da Índia indica que o maior polo da economia mundial, em meados do século, estará concentrado na Ásia.
Diante de tudo isso, não se trata de dizer que vivemos sob o império do acaso e de um futuro aleatório. As transformações das estruturas socioeconômicas, assim como as culturais, de longa duração, ganharam velocidade, mas permanecem de pé, condicionando e limitando o arco das possibilidades. Convém lembrar, entretanto, que certos conceitos tidos como centrais na história das sociedades contemporâneas perderam muito de seu poder explicativo, como é o caso da luta de classes – chave da história em tempos relativamente recentes.
Estamos hoje longe da crença religiosa nas leis da história e abertos a admitir o imprevisível. Aos nossos olhos, o processo histórico continua a ser um processo, mas menos codificado, mais cheio de surpresas, o que o torna mais atraente.


Por
BORIS FAUSTO, Historiador e professor da USP.
O Estado de S. Paulo, 20/03/11


Lições que o Japão deve aprender com Chernobyl

Por 12 vezes ao mês - é o máximo que os médicos permitem - Serguei Krasikov toma um trem e segue por uma terra de ninguém para assumir seu trabalho em um prédio ao lado do reator número 4, conhecido como "sarcófago". Entre suas tarefas está a de extrair líquido radioativo acumulado dentro do reator incendiado. Isto ocorre quando chove. O sarcófago foi construído há 25 anos em uma situação de pânico, quando a radiação espalhou-se para áreas povoadas após a explosão do reator, que agora está cheio de rachaduras.
A água não pode tocar o que se encontra na parte mais profunda, dentro do reator, onde estão cerca de 200 toneladas de combustível e detritos nucleares fundidos, que queimaram no fundo e endureceram na forma de uma pata de elefante.
Essa massa permanece tão radioativa que os cientistas não podem se aproximar dela. No entanto, há anos, quando conseguiram instalar instrumentos de medição perto dali, obtiveram leituras de 10 mil rem por hora (medida do dano que a radiação causa a organismos vivos), 2 mil vezes mais o limite anual recomendado para trabalhadores da indústria nuclear.
Krasikov, um homem de ombros largos e olhos azuis, trabalha como baby-sitter desse monstro há oito anos. E ficará ali até se aposentar, quando deixará a tarefa para outro homem, que também ali ficará até se aposentar. Questionado por quanto tempo isto deve continuar, Krasikov resmungou: "Cem anos?", arriscou. "Talvez aí, então, já tenham inventado alguma coisa." A morte de um reator nuclear tem um começo, mas não tem fim.
Embora alguns elementos radioativos decomponham-se rapidamente, a meia-vida do césio é de 30 anos e do estrôncio, 29. Os cientistas estimam que levará de 10 a 13 meias-vidas até que a atividade econômica e a vida voltem à região. Isto significa que a área contaminada - determinada pelo Parlamento da Ucrânia como sendo de 38,8 quilômetros quadrados, o tamanho da Suíça - ficará afetada por mais de 300 anos.
Na semana passada, os trabalhadores tentaram freneticamente esfriar os seis reatores na usina de Fuskushima, a 225 quilômetros de Tóquio. Mas é preciso observar a Ucrânia para compreender o imenso tédio e exaustão de lidar com as consequências de uma fusão nuclear. É um problema que ultrapassa as dimensões da vida humana.
Na terça-feira, Volodymyr Udovychenko chegou ao Parlamento da Ucrânia usando camisa púrpura e gravata. Ele é prefeito de Slavutych, que abriga a maioria dos 3,4 mil trabalhadores que continuam empregados na Estação de Energia Atômica de Chernobyl. Muitos não recebem seus salários integrais desde janeiro e o prefeito pediu US$3,6 milhões para pagá-los. "Os líderes do país deram as costas para o problema, acham que Chernobyl não existe", disse. "Mas Chernobyl existe. E aquelas 200 toneladas também."
Visitar Chernobyl hoje é sentir a passagem do tempo. Em Pripyat, cidade-dormitório dos antigos trabalhadores da usina, a pouco mais de 1,5 quilômetro da central nuclear, onde 50 mil pessoas tiveram algumas poucas horas para abandonar suas casas, o papel de parede caiu sob seu próprio peso e a pintura desapareceu das paredes dos apartamentos. O gelo esconde o interior das casas. Numa rua residencial, onde os prédios de apartamentos no estilo soviético predominam, o silêncio é tanto que pode se ouvir uma folha roçar na outra.
O mundo selvagem gradativamente vai se inserindo aí. Anton Yukhimenko, que leva grupos para visitar a zona morta, disse que raposas e javalis selvagens já começaram a buscar abrigo na cidade abandonada e, certa vez, viu um lobo passando silenciosamente a seu lado. Não faz muito tempo, um dos maiores prédios da cidade começou a despencar, suas estruturas apodrecidas por 25 invernos e verões. "Esta é uma cidade que foi tomada pela vida selvagem", disse. "Acho que em 20 anos isto aqui será uma imensa floresta."
As pessoas não têm permissão para avançar além de um espaço de 30 quilômetros distante do reator número 4, mas um fotógrafo e eu conseguimos entrar junto com guias da Chernobylinterinform, uma divisão do Ministério de Emergência da Ucrânia. No posto de controle que leva para a zona de exclusão, há uma pequena estátua da Virgem Maria e uma placa indicando o volume de césio e estrôncio encontrados em cogumelos, peixes e animais de caça.
Em um raio de 9,6 quilômetros começa a zona de reassentamento obrigatório. Um local com árvores queimadas é a marca da chamada Floresta Vermelha, por causa da cor dos pinheiros mortos que foram derrubados em massa e queimados.
À medida que nos aproximamos da usina, o detector de radiação dos guias repentinamente registra 1,5 mil microrem - 50 vezes o normal. No centro de tudo isto está o sarcófago, suas paredes irregulares e corroídas pela ferrugem. Desde o início da década de 90, autoridades da Ucrânia vêm trabalhando em um plano para substituí-lo e, finalmente, deram início ao projeto chamado "Novo Confinamento Seguro", uma arca de aço de 91 metros onde o reator ficará encerrado e isolado pelos próximos 100 anos. O custo estimado é de US$ 1,4 bilhão, a ser pago por nações doadoras. O projeto, que deveria estar concluído em 2005, vem tendo problemas com atrasos e falta de dinheiro.
"Nesse intervalo, a neve do inverno transformou-se em chuva, cuja água penetra no reator, com consequências imprevisíveis", disse Stephan Robinson, físico nuclear que trabalha para a organização ambiental Green Cross Switzerland.
"No inverno, ela congela", disse o físico, que visitou o local na semana passada. "A água se expande e se rompe. Então, talvez, parte do que está dentro se quebre. Uma pequena nuvem pode se soltar por uma rachadura. Se existe água da chuva, isto significa que há uma maneira de ela entrar. E se há um meio de ela entrar, também existe um meio de ela sair."
No entanto, mesmo depois de a nova arca ser construída, Krasikov duvida que será possível pôr fim à longa vigília do reator número 3. "Ninguém sabe o que fazer com o que está dentro", disse. "Haverá trabalho bastante para meus filhos e netos."
À tarde, saindo do local, a luz do sol desaparecia em meio à floresta de pinheiros, um cenário de paz, exceto no caso dos triângulos amarelo e laranja colocados no solo da floresta, alertando para a radiação.
Os trabalhadores saem do local em meio a uma parede de contadores Geiger do tamanho de um indivíduo, cada um aguardando que a máquina faça as medidas e emita o sinal verde, para sair da zona de exclusão e seguir pela estrada destruída. Amanhã, eles retornarão à Estação de Energia Atômica de Chernobyl para um outro dia de trabalho.

Por
Ellen Barry, jornalista do The New Yok Times.
O Estado de S. Paulo, 22/03/11

17 de mar. de 2011

Será que a leitura dos jornais nos torna estúpidos?

O nome não me era estranho. Eu já o vira de relance em algum jornal ou revista. Mas não me interessei. Aquele nome, para mim, não passava de um bolso vazio. Eu não tinha a menor idéia do que havia dentro dele. Sou seletivo em minhas leituras. Leio gastronomicamente. Diante de jornais e revistas eu me comporto da mesma forma como me comporto diante de uma mesa de bufê: provo, rejeito muito, escolho poucas coisas. Concordo com Zaratustra: “Mastigar e digerir tudo - essa é uma maneira suína.“

Aquele bolso devia estar cheio de coisas dignas de serem comidas – caso contrário não teria sido oferecido como banquete nas páginas amarelas da VEJA. Mas eu não comi. Aí um amigo me enviou via e-mail cópia de uma crônica do Arnaldo Jabor, a propósito do dito nome – crônica que eu li e gostei: sou amante de pimentas e jilós.

Senti-me parecido com o Mr. Gardner, do filme “Muito além do jardim“, com Peter Sellers. Mr. Gardner jamais lia jornais e revistas. Aproximei-me então da minha assessora e lhe perguntei, envergonhado, temeroso de que ela tivesse visto o dito filme, e me identificasse com o Mr. Gardner. “Natália, quem é Adriane Galisteu?“ Esse era o nome do bolso vazio. Ela deu uma risadinha e me explicou. À medida em que ela explicava, as coisas que eu havia lido começaram a fazer sentido, e eu me lembrei de uma estória que minha mãe me contava: uma princesinha linda que, quando falava, de sua boca saltavam rãs, sapos, minhocas, cobras e lagartos... Terminada a explicação, fiquei feliz por não ter lido. Lembrei-me de uma advertência de Schopenhauer: “No que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Essa arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público. Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos... Muitos eruditos leram até ficar estúpidos.“ Existirá possibilidade de que a leitura dos jornais nos torne estúpidos?

O que está em jogo não é a dita senhora, que pode pensar o que lhe for possível pensar. O que está em jogo é o papel da imprensa. Qual a filosofia que a move ao selecionar comida como essa para ser servida ao povo?

A resposta é a tradicional: “A missão da imprensa é informar“. Pensa-se que, ao informar, a imprensa educa. Falso. Há milhares de coisas acontecendo e seria impossível informar tudo. É preciso escolher. As escolhas que a imprensa faz revelam o que ela pensa do gosto gastronômico dos seus leitores.

Jornais são refeições, bufês de notícias selecionadas segundo um gosto preciso. Se o filósofo alemão Ludwig Feuerbach estava certo ao afirmar que “somos o que comemos“, será forçoso concluir que, ao servir refeições de notícias ao povo os jornais estão realizando uma magia perversa sobre os seus leitores: depois de comer eles serão iguais àquilo que leram.

Faz tempo que parei de ler jornais. Leio, sim, movido pelo espírito da leitura dinâmica, apressadamente, deslizando meus olhos pelas manchetes para saber não o que está acontecendo, mas para ficar a par do menu de conversas estabelecido pelos jornais. Muita coisa importante e deliciosa acontece sem virar notícia, por não combinar com o gosto gastronômico dos leitores. Se não fizer isto ficarei excluído das rodas de conversa, por falta de informações. Parei de ler os jornais, não por não gostar de ler mas precisamente porque gosto de ler. As notícias dos jornais são incompatíveis com meus hábitos gastronômicos: leio bovinamente, vagarosamente, como quem pasta... ruminando. O prazer da leitura, para mim, está não naquilo que leio mas naquilo que faço com aquilo que leio. Ler, só ler, é parar de pensar. É pensar os pensamentos de outros. E quem fica o tempo todo pensando o pensamento de outros acaba por desaprender a arte de pensar seus próprios pensamentos: outra lição de Schopenhauer. Pensar não é ter as informações. Pensar é o que se faz com as informações. É dançar com o pensamento, apoiando os pés no texto lido: é isso que me dá prazer. Suspeito que a leitura meticulosa e detalhada das informações tenha, freqüentemente, a função de tornar desnecessário o pensamento. Pensar os próprios pensamentos pode ser dolorido. Quem não sabe dançar corre sempre o perigo de escorregar e cair... Assim, ao se entupir de notícias – como o comilão grosseiro que se entope de comida – o leitor se livra do trabalho de pensar.

Confesso que não sei o que fazer com a maioria das notícias dos jornais: entendo as palavras mas não entendo a notícia. Penso: se eu não entendo a notícia que leio, o que acontecerá com o “povão“? Outras notícias só fazem explicitar o que já se sabe. Detalhes, cada vez mais minuciosos, das tramóias políticas e econômicas de um Maluf, de um Jader, nada acrescentam ao já sabido. Esse gosto pela minúcia escabrosa se deriva da pornografia, que encontra seus prazeres na contemplação dos detalhes sórdidos, que são sempre os mesmos, como o comprovam as salas de “imagens eróticas“ da Internet. A dita reportagem sobre a tal senhora e as notícias sobre Jader e Maluf atendem às mesmas preferências gastronômicas. Será que as notícias são selecionadas para dar prazer aos gostos suinos da alma? Por outro lado, há os suplementos culturais que, para serem entendidos, é preciso ter doutoramento. Para o povão, o futebol...

Ao final de sua crônica o Arnaldo Jabor dá um grito: “Os órgãos de imprensa devem ter um papel transformador na sociedade...“ Dizendo do meu jeito: os órgãos de imprensa têm de contribuir para a educação do povo. Mas educar não é informar. Educar é ensinar a pensar. Os jornais ensinam a pensar? Repito a pergunta: Será que a leitura dos jornais nos torna estúpidos?




Por
Rubem Alves, escritor.
Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 02/09/2001.

15 de mar. de 2011

A incivilidade do brasileiro

A Revista VEJA (09 de março de 2011) publicou matéria, de autoria da jornalista Sandra Brasil, com o título: Os cabeças-sujas e seu mundinho. Excelente texto, que todos deveriam ler!

"Que tipo de gente joga lixo na rua, pela janela do carro e deixa a praia emporcalhada quando sai? Uma das respostas corretas é: um tipo que está se tornando mais raro. Sim. A atual geração de adultos foi criança em tempo em que jogar papel de bala ou a caixa vazia de biscoitos pela janela do carro quase nunca provoca uma bronca paterna.  (...)
O flagrante descaso com o bem público tem suas raízes fincadas na história, desde os tempos do Brasil colônia. No período escravocrata, a aristocracia saía a passear sempre com as mãos livres, escoltada por serviçais que não só carregavam seus pertences como limpavam a sujeira que ia atirando às calçadas. (...) Não raro, o rei dom João VI ,fazia suas necessidades no meio da rua, hábito também cultivado pelo filho, Pedro I, e ainda hoje presente. Foi com a instauração da República que o estado assumiu de forma sistemática o protagonismo no recolhimento do lixo, mas isso não significou, nem de longe, nenhuma mudança de mentalidade por parte dos brasileiros. Cuidar as sujeira continuou a ser algo visto como aquilo que cabe a terceiros – jamais a si mesmo.
Existe uma relação direta entre o nível de educação de um povo e a maneira como ele lida com o seu lixo. Não por acaso, o brasileiro está em situação pior que o cidadão do Primeiro Mundo quando se mede a montanha de lixo nas ruas deixada por cada um deles. (...)”

Por que será que o brasileiro (alguns) é incivilizado a ponto de jogar lixo nas ruas, estradas, calçadas que ele próprio trafega?

“A pessoa que joga lixo na rua, na calçada ou na praia se revela portadora de uma disfunção mental e social que a inabilita para o sucesso no atual estágio da civilização.”

Vamos mudar este triste quadro? Cabe a cada um de nós fazermos a diferença.



Fonte:
Excerto retirado da Revista VEJA, de 09/03/2011.

A lista em que falta o Brasil, Elio Gaspari

Na mesma semana em que a revista "Forbes" iluminou 30 bilionários brasileiros, o semanário inglês "THE" ("Times Higher Education") publicou sua lista das cem melhores universidades do mundo. Cadê o Brasil? Micou e não ficou nem sequer entre as 200. Em 2009, a USP fora a 92ª na área da saúde.
Cruzando a lista dos bilionários com a das universidades, a coisa fica feia. A China teve incluídas cinco instituições, a Índia e a Rússia têm uma cada uma. A América Latina, nenhuma.
Nem tudo é ruína. No pequeno mundo dos cursos de formação de executivos, uma avaliação do "Financial Times", deu a Pindorama o 8º lugar com a Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, e o 13º com o Insper, de São Paulo. Ambas são instituições privadas.
Não é o caso de retomar a discussão sobre o futuro das universidades públicas, até porque, com poucas exceções, o estrago da privataria na rede particular garante que ela ficará fora de qualquer lista por mais 50 anos.
Os 30 bilionários brasileiros poderiam refletir em torno da história de um casal americano. Chamavam-se Leland e Jane. Tinham um só filho e, em 1884, ele morreu em Florença, aos 16 anos. O casal quis preservar sua memória. Podia ser com um museu, uma escola técnica ou uma universidade.
Procuraram o presidente de Harvard, a quem conheciam, e aprenderam que uma universidade lhes custaria US$ 5 milhões. Entreolharam-se e viram que tinham esse trocado, pois a fortuna do casal ia a US$ 50 milhões (US$ 1 bilhão em dinheiro de hoje). Voltaram para a Califórnia e criaram a Universidade Stanford, com o sobrenome da família. Ela é hoje a 5ª melhor do mundo, e a localidade de Palo Alto, cujas terras eram de Leland, é o pulmão do progresso tecnológico americano.
Pouca gente se lembra do senador Leland Stanford como um dos "barões ladrões" da Califórnia, nem da estrada de ferro transcontinental que ajudou a abrir, como uma monumental rapinagem, pois ela mudou a geografia dos Estados Unidos.
Pelas contas da Forbes, os 30 bilionários brasileiros têm um ervanário de US$ 130,5 bilhões.

Fonte:
Folha de São Paulo, 13/03/2011.


Infelizmente, não se tem no Brasil identidade de país. Exemplo como o Deputado Federal, Tiririca, que até pouco tempo foi tido como analfabeto (precisou provar para o Juiz Eleitoral que sabia ler e escrever), hoje é da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Como assim?

O que é, afinal, o Brasil?


10 de mar. de 2011

Eu ou mim?

Era pra mim ler?
Não!!
Mim não lê.
Quem lê sou eu!

Outro erro na boca dos brasileiros no dia-a-dia!

Há quem diga que mim é índio que diz! Soa mal! Entretanto está aí na rua, nas conversas, na televisão, no rádio, na política... mais uma vez é mais um fenômeno que não tem sexo, raça, religião, etc.

Pois bem, se não houver verbo à frente, deve-se usar mim ou ti. E se houver verbo exigindo sujeito, eu ou tu.

Isto quer dizer:

Ela conseguiu uma autorização para eu entrar.
Apesar de o pronome pessoal vir precedido de uma preposição, não é regido por ela. Desempenha a função de sujeito do verbo entrar e, por isso, deve ser usado o pronome do caso reto.

Já neste exemplo:

Para mim, viajar de avião é um suplício.
Aqui, a vírgula depois do pronome indica que ele não é o sujeito de viajar, tanto que a frase pode ser alterada sem prejuízo do seu significado: Viajar de avião é um suplício para mim.

Veja agora:

Entre mim e você não existe diálogo e as coisas vão muito mal.
Ou ainda: Entre você e mim não existe diálogo e as coisas vão muito mal.
Tanto faz! Mas a forma correta e culta de se escrever e falar é esta!

Parece que tudo isso é feio, esquisito e errado, mas não o é! É a norma culta que está aí para ser praticada!

Vamos tentar?



As famosas expressões populares

Uma expressão idiomática ou expressão popular, na Língua Portuguesa,é aquela que se caracteriza por não ser possível identificar seu significado através de suas palavras individuais ou de seu sentido literal. Desta forma, também não é possível traduzi-la para outra língua de modo literal. Essas expressões geralmente se originam de gírias, cultura e peculiaridades de diversos grupos de pessoas: seja pela região, profissão ou outro tipo de afinidade.

As  expressões idiomáticas existem em todas as línguas e variam de país para país, região para região, cultura para cultura, entre outras variações de tempo e espaço.

Na expressão “rabo de saia”, a palavra “rabo” vem do latim rapum e designa a cauda de animais selvagens ou domésticos, mas também é aplicado a peixes e aves como a parte essencial do corpo dos primeiros para nadar e as aves para voar, pois lhe serve de leme.
Daí surgiu expressões nascidas do “rabo”. “De cabo a rabo” (do começo ao fim), “crescer como rabo de cavalo” (regredir), “Olhar com o rabo do olho” (olhar de esguelha), “pegar rabo de foguete” (assumir compromisso difícil de cumprir), “encher o rabo” (comer muito), “meter o rabo entre as pernas” (medo diante de ameaça).

O Professor da USP Hudinilson Urbano em sua pesquisa encontrou outros exemplos de expressões populares muito usadas por nós:

Traidor de Jesus, o apóstolo Judas nunca foi perdoado pela Igreja Católica nem pela nossa língua portuguesa. Todas as expressões que o citam emitem idéias negativas. É o que acontece com “Onde Judas perdeu as botas”, que indica um lugar de difícil acesso, longínquo. O professor lembra também que há uma variação registrada, e pode ser usada na mesma situação, que é “onde o diabo perdeu as botas”. Juntam-se a essa expressão outras tantas com o mesmo significado e como mesmo bode expiatório: “no calcanhar- do- Judas”, “cu- de- Judas”, “cafundó- do- Judas”.

Outra expressão muito divertida e usada é “há algo podre no reino da Dinamarca”. A frase é a tradução de trecho da tragédia Hamlet, Príncipe da Dinamarca, de Shakespeare, proferida pelo personagem Marcellus, um dos oficiais dinamarqueses, no 1º ato: “Something is rotten in the state of Denmark”. A frase, sendo do universal Shakespeare, também, ganhou uso universal. Outros ditados acompanham esse sentido, como “Tem boi na linha”, “Tem gato na tuba”, ou outras menos populares como “Debaixo desse angu tem torresmo ou caroço” e “Aqui tem dente de coelho”.

“A ver navios", expressão antiga, em vigor ainda hoje. Essa expressão deriva da atitude contemplativa de populares, que se instalavam nos lugares mais altos de sua cidade à espera de que uma lenda se tornasse realidade. Daí muitos usam para dizer, ficar sem nada ou sem coisa alguma.

Muito usada para situações que envolvem nossos políticos, especialmente em casos de corrupção quando ninguém é punido, “acabar em pizza” é uma expressão muito ouvida e discutida na mídia.

Muitas outras conhecidas e utilizadas: “agarrar com unhas e dentes”, “ao pé da letra”, “amigo da onça”, “ao deus dará”, “babar ovo”, “procurar sarna para se coçar”, “barata tonta”, “bater papo”, “bola pra frente”, “cara de pau”, “enfiar o pé na jaca”, “estar no bico do corvo”, “pensar na morte da bezerra”, “trocar seis por meia dúzia”, “sem pé e nem cabeça”, “segurar vela” e tantas outras que fazem parte do nosso dia-a-dia.

Memórias da Emília, de Monteiro Lobato



(...) A vida Senhor Visconde, é um pisca - pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. É portanto um pisca-pisca.

O Visconde ficou novamente pensativo, de olhos para o teto.

Emília riu-se.

Está vendo como é filosófica a minha ideia? (...) A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim, pisca pela última vez e morre.

- E depois que morre? - perguntou o Visconde.

- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?

Fonte:

Excerto de Memórias da Emília, de Monteiro Lobato

Mapa- mundi IBGE

Recentemente o IBGE lançou um mapa-mundi digital, com síntese, histórico, indicadores sociais, economia, redes, meio ambiente, entre outras curiosidades.

Vale a pena conferir!

http://www.ibge.gov.br/paisesat/main.php 

4 de mar. de 2011

Presidente ou Presidenta?

  
SUA EXCELÊNCIA, A SENHORA PRESIDENTA DILMA


Agora, o Diário Oficial da União adotou o vocábulo presidenta nos atos e despachos iniciais de Dilma Rousseff.
As feministas do governo gostam de presidenta e as conservadoras (maioria) preferem presidente, já adotado por jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão.

* * *
Na verdade, a ordem partiu diretamente de Dilma: ela quer ser chamada de Presidenta. E ponto final.
Por oportuno, vou dar conhecimento a vocês de um texto sobre este assunto e que foi enviado pelo leitor Hélio Fontes, de Santa Catarina, intitulado Olha a “Vernácula” !
Vejam:
"No português existem os particípios ativos como derivativos verbais.
Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante…
Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.
Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, à pessoa que preside é PRESIDENTE, e não “presidenta”, independentemente do sexo que tenha. Se diz capela ardente, e não capela “ardenta”; se diz estudante, e não “estudanta”; se diz adolescente, e não “adolescenta”; se diz paciente, e não “pacienta”."
Um bom exemplo seria:

“A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta.”


Fonte:
Recebido por e-mail.


Caros alunos,

Não se enganem, o PT quis reinventar nossa língua materna. 
Assim: "todos e todas", "afrodescendentes" e muitos outros termos usados em  seus discursos e assembleias.  E temos que engolir "presidenta"?

1 de mar. de 2011

3 mil livros para download no site da USP

A USP lançou um site que disponibiliza 3.000 livros para download. Ao entrar no http://www.brasiliana.usp.br/ o internauta encontra livros raros, documentos históricos, manuscritos e imagens que são parte do acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, doada à universidade.

Há planos de aumentar o catálogo para 25 mil títulos e incluir primeiras edições de Machado de Assis e de Hans Staden.


Fonte:

http://www.brasiliana.usp.br/

Unesco diz que conflitos no mundo deixam 28 milhões de crianças fora da escola

Vinte e oito milhões de crianças estão fora da escola por causa de conflitos armados em todo o mundo. A conclusão é do relatório “Education For All Global Monitoring Report 2011”, divulgado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) nesta terça-feira (1º), nos Estados Unidos.
O total representa 42% de todas as crianças em idade escolar fora do ensino primário no planeta. De acordo com a Unesco, 35 países foram afetados por conflitos armados entre 1999 e 2008.
Nos países pobres em conflito, duas em cada dez pessoas são analfabetas. Nos que estão em paz, 93% são alfabetizados.
Na maioria das áreas com problemas de violência, mais de 60% da população têm menos de 25 anos. No entanto, diz a Unesco, os sistemas de educação não conseguem formar os jovens –o que dificulta a saída deles de situações que podem gerar conflito, como desemprego e questões econômicas.

Além disso, segundo o órgão, crianças, escolas e professores estão virando alvos deliberados nos conflitos. No Afeganistão, por exemplo, pelo menos 613 ataques a instituições de ensino foram registrados em 2009, contra 347 no ano anterior.

Investimentos militares


A Unesco aponta também que, se os países ricos deixassem de gastar seis dias do orçamento militar –economizando cerca de US$ 16 bilhões–, o déficit educacional no mundo seria eliminado. E, se houvesse um corte de 10% nos gastos militares de 21 países em desenvolvimento, poderiam ser incluídas mais 9,5 milhões de crianças na educação primária.

O Paquistão, por exemplo, gasta sete vezes mais com equipamentos militares do que com escolas. Se houvesse o corte sugerido pela Unesco, 3,6 milhões de estudantes poderiam ir às salas de aula. Caso Bangladesh fizesse o mesmo, poderia incluir 1 milhão; o Iêmen, 840 mil.


Fonte:
UOL Educação

O que anda lendo ultimamente?


Da mesma forma que a música de Beethoven é capaz de oferecer ao ouvinte um pouco mais da personalidade arredia do gênio, com a literatura, também passamos a frequentar a cabeça dos escritores, descobrindo o que se passa ali dentro, quer eles queiram ou não. Se qualquer que seja a vida ela já vale a pena, imagine andar pelo mundo, conhecendo-o e conhecendo-se, tendo ao seu lado gente como Jack Kerouac, Eça de Queirós, Erico Verissimo, William Shakespeare, Cervantes, Dante, Chaucer, Dostoiévski ou os goliardos da Idade Média. A literatura é uma dama de muitos séculos que, como uma jovem vampira, está sempre cinematograficamente jovial, adolescendo com uma consciência de espírito que atravessa os séculos, à disposição de qualquer um que goste de ler e que saiba responder à pergunta de Drummond: “trouxeste a chave?”. Se pegarmos de volta o título deste texto, como um laço ou como a língua de um camaleão que se serve – vupt! - de sua comidinha, diga, por favor, o que você anda lendo ultimamente?

Adolescente, fiz parte do Círculo do Livro, que hoje não existe mais, infelizmente. Desde os treze anos me aventurava pela Coleção Vaga-Lume e gostava de Stephen King, Edgar Allan Poe e literatura fantástica. Mas foi um pouco mais tarde, aos vinte e dois, que algo aconteceu: por dias a fio, aguardei pela chegada do “Pequeno guia da literatura universal”, de Luiz Carlos Lisboa, cujo subtítulo é “através de quase duzentos livros que ninguém mais pode ignorar impunemente”. Uau! Me senti como o personagem de Leonardo Di Caprio quando chega à exuberante paisagem principal de “A praia”, filme que nasceu de um romance da literatura inglesa contemporânea, The beach, de Alex Garland. O livro de Lisboa faz parte de minha vida desde então e hoje, aos trinta e sete, encontro nele a mesma alegria que tinha quando moleque, as franjas balançavam estrada afora, como uma cortina de contas de vidro de uma república estudantil sempre em festa.

O ”Pequeno guia da literatura universal” é uma viagem literária, asseguram os editores, “pelo universo da fantasia, da inteligência e da beleza”. Sem dúvida. Dentre as obras selecionadas pelo autor, há romances, contos, peças de teatro, livros de poemas, além de ensaios, memórias, crítica e história. Com um guia como esse em mãos, o que você quer ler? Um romance? Que tal “Martin Eden”, de Jack London, “A metamorfose”, de Kafka, “O homem que foi Quinta-feira”, de Chesterton, ou “Fogo morto”, de José Lins do Rego? Eles estão enfeixados entre Camus, Hemingway, Cortázar e outros. Teatro? Shakespeare, Sófocles, Tchekhov, Brecht ou Nelson Rodrigues? Prefere poesia? Antiga ou moderna? Comece por Homero, Ovídio, passe por Bashô, Blake, Whitman, Bandeira e conheça o vasto mundo de Drummond - não se esqueça da chave. Se quiser, comece por Drummond e, de volta para o passado, chegue ao vasto mundo de Homero. O que mais? Leia o “Antigo Testamento”, “A República”, de Platão, “O Livro tibetano dos mortos”, “A Vida dos doze césares”, de Suetônio, a “Autobiografia”, de Benjamin Franklin, Nietzsche, Huxley, Nabuco e até mesmo Wilson Martins, autor do monumental trabalho - de dedicação e pesquisa - que é a “História da inteligência brasileira”.

Por que ler um guia como o de Lisboa? Porque muitos candidatos a leitores, ansiosos por adentrar o mundo da literatura, não sabem o que ler ou por onde começar. Isso acontece mesmo com aqueles que estão à iminência dos primeiros fios brancos na cabeça, algo que diz muito a respeito de um país que nunca foi um exemplo em se tratando de hábito de leitura e que a cada dia que passa tem menos apreciadores dos livros. Uma pena. Imagine o guia de Luiz Carlos Lisboa nas mãos de quem ainda está adolescendo? É o seu caso? Vamos torcer que sim. Nessa idade é mais fácil criar um laço de convivência entre leitor e livro. É como se, ao saber que seu corpo não precisa de tanto açúcar assim, e sim de mais exercícios, você percebesse que a literatura fará por seu cérebro o que abdominais farão por suas gordurinhas localizadas. Então, o que está esperando? Ao trabalho! Mas, antes, que tal desligar a TV (por favor) e afastar sua mente dos ruídos cotidianos do seu dia? Preste atenção: a leitura não deve ser vista como uma obrigação. Se ao ler você já não mexe seus lábios e nem a cabeça, parabéns, pois o caminho é esse mesmo. Ler requer paciência, algo que é bom ter vida afora. Então, já pensando que talvez sua paciência e concentração estejam prestes a sair por aí, por favor, aproxime-se.

Já pensou a respeito da transitoriedade de seu dia? Já ficou imaginando coisas, como, por exemplo, ser o único a prestar atenção em uma pedrinha triste e solitária, esquecida no jardim de sua casa? Não? Tudo bem. Não era nada disso mesmo. O que precisa saber é: há livros que você deveria ler, enquanto ainda é adolescente, pois eles vão crescer com você. “É como plantar uma árvore na juventude”, disse certa vez o crítico Lionel Trilling, “cada ano acrescenta um novo nó de crescimento no significado e o livro é um pouco como a árvore que vai amadurecendo”. É uma bela metáfora e seria bom que ela fizesse parte da sua vida. Por isso, mais uma vez, o que anda lendo?

E mais: será que anda lendo corretamente? Há algumas atitudes que, zás-trás, farão bem a você. Por exemplo: não há nenhum problema em se ler um livro deitado na cama ou no sofá, não é? Se estiver cansado, depois de ter trabalhado o dia todo, estudado à noite, e mesmo assim você ainda encontra tempo para um livrinho, protelando o sono merecido, parabéns. Sinceros. Nesse caso, por que não se senta, toma um cappuccino e, com uma luz apropriada sobre o livro, ouve sua banda predileta nos fones do mp3 e se debruça sobre a literatura? Vale a pena? Claro!

Em 1973, antes de escrever o “Pequeno guia da literatura universal”, Luiz Carlos Lisboa publicou “Tudo o que você precisa ler sem ser um rato de biblioteca”. Subtítulo? “Roteiro completo dos livros básicos para a sua vida”. São duas obras que versam a respeito do mesmo tema: livros, grandes livros. Como o autor chegou até eles? Quais foram seus critérios de escolha? “Eventuais sugestões de acréscimos, subtrações, fatais em trabalhos deste gênero, poderão compor outro livro, de um outro autor”, diz Lisboa, “não este, resultado de preferências confessadamente pessoais, limitado e omisso, talvez, mas em todo caso animado da esperança de ser útil”.

A utilidade é um bom critério de escolha, não é? Lisboa chegou a essa lista porque ele é um leitor voraz, um rato de biblioteca, como sugere o título de seu livro. Por que não confiar em alguém como ele? O único problema em relação a esses dois guias é que estão fora de catálogo, mas os sebos estão on-line, esperando por você, para o que der e vier. De qualquer forma, o autor não parou por aí e, em 2001, publicou mais dois guias, ambos com o mesmo título de seu primeiro estudo, “Tudo que você precisa ler sem ser um rato de biblioteca”, mas divididos em dois tomos: “guia do melhor da literatura brasileira” e “guia do melhor da literatura internacional”. O estômago roncou? Sim, são obras para abrir o apetite do leitor para o que virá em seguida. O menu? Pratos como: “Quincas Borba”, “Presença de Anita”, ” A menina morta”, “Grande sertão: veredas”, “O encontro marcado”, “As mil e uma noites”, “Dom Quixote”, “Robinson Crusoé”, “Orgulho e preconceito”, “O som e a fúria”, “Viagem ao fim da noite”, “O senhor dos anéis”, “Rei Lear” e outros textos, alguns curiosos, como “O ursinho Puff”, de A. A. Milne.

Outros autores, claro, preocuparam-se em abrir caminho para novos leitores. É o caso do prestigiado Harold Bloom, um vovô norte-americano dono de sobrancelhas horripilantes, autor de “Como e por que ler”, obra que, curiosamente, é lembrada por Lisboa em sua mais recente lista com o melhor da literatura estrangeira. Bloom é um leitor acima de tudo e, na altura de seus quase 80 anos, vem publicando livros que sacodem os estudos literários, como ocorreu com “O cânone ocidental” (1995) e, na virada do século, com “Shakespeare – a invenção do humano” (2000).

Em “Como e por que ler”, Bloom debruça-se sobre textos que não devem permanecer edulcorando a estante e, sim, vivos na imaginação dos leitores. Citando Virginia Woolf, ele estabelece seu objetivo: “não devemos desperdiçar nossas forças, lendo de modo errático e desavisado”, sugere a Clarice Lispector inglesa, e Bloom complementa: “portanto, enquanto não amadurecermos como leitores, algum aconselhamento sobre leitura pode ser-nos útil, talvez, até mesmo essencial”. Mais uma vez a utilidade. Tsc, tsc. Já passou da hora de lembrar que literatura não é utilidade em si, como discutem muitos autores por aí; literatura é antes um prazer irremediável dentre aqueles que gostam de ler ou, como diz Bloom, um “sofrido prazer”, ou seja, algo que “articule uma plausível definição do Sublime”. E o que isso significa? Ele explica: “existe o Sublime alcançado através da leitura, ao que parece, a única transcendência secular que é possível, senão por aquela transcendência ainda mais precária que denominamos ‘amor, paixão’”. Em outras palavras: “leia plenamente, não para acreditar, nem para concordar, tampouco para refutar, mas para buscar empatia com a natureza que escreve e lê”, ele diz. Bacana, não é?

Bloom divide seu livro em contos, poemas, romances e somente três peças: “Hamlet”, “Hedda Gabler” e “A importância de ser prudente”. Bloom é mais austero que Lisboa, mas sua lista não contém só autores clássicos; mais do que Shakespeare e Milton, há muitos escritores rebeldes, por assim dizer, cuja verve mira a juventude e suas linhas tortas, como Coleridge, Tennyson, Blake, Hemingway, e, como não poderia deixar de ser, textos em cujo horizonte de leitura encontra-se o leitor juvenil, como são os casos de “O Horla”, de Maupassant, “A canção de mim mesmo”, de Whitman e “Moby Dick”, de Melville. Aqui, a despeito de toda violência e barbárie, ainda há lugar para “Meridiano de sangue”, de Cormac McCarthy, autor de “Onde os fracos não têm vez”, cuja adaptação para o cinema foi muito bem conduzida pelos irmãos Coen. Como você pode imaginar, “Como e por que ler” já é um clássico instantâneo de nosso tempo e é um livro que fala de outros livros.

Vamos deixar a não-ficção de Bloom e partir para a ficção de Dai Sijie, que escreveu “Balzac e a costureirinha chinesa”, romance que cabe neste texto por dois motivos: além de ser uma narrativa que fala de livros que devem ser lidos na juventude, também traz uma história admirável, amarga e bela. Durante a Revolução Cultural chinesa, opressão e intolerância andam de mãos dadas e quem paga por isso são estudantes, professores, intelectuais e rebeldes de toda espécie, do mais simples operário ao camponês mais arredio. Dois rapazes vão parar numa aldeia e passam por uma espécie de reeducação. São escravizados e sofrem todo tipo de humilhação. Suas vidas resumem-se a um universo em preto & branco e eles não têm nenhuma razão especial para viver. Tudo muda quando descobrem uma valise cheia de romances ocidentais proibidos pelo regime do presidente Mao. Estão lá Balzac, Dumas, Flaubert, Baudelaire, Tolstói e outros autores que dão cor à vida dos dois estudantes e da costureirinha do título, que além de ser uma camponesa humilde e viçosa, é também o secreto objeto de desejo dos dois.

Aos poucos, com os livros, ambos começam a abrir a cabeça da costureirinha, mas não literalmente, claro, transformando-a. O mundo dela começa a mudar por causa de romances como “O conde de Monte Cristo”, de Dumas, “O pai Goriot”, de Balzac, “Jean-Christophe”, de Romain Rolland. “Até aquele encontro roubado com Jean-Christophe”, diz o narrador, amigo de Luo, “minha pobre cabeça educada e reeducada, simplesmente ignorava que se pudesse lutar sozinho contra o mundo inteiro”. Para cada um deles, esses romances flamejantes oferecem o mesmo sentido do Sublime ressaltado por Harold Bloom alguns parágrafos atrás. Por esse motivo, pela descoberta de que a vida não é só comida e peleja, o final do romance é surpreendente e, lendo-o, você há de concordar, não poderia ser outro o destino da costureirinha.

Estamos chegando ao fim, mas, antes, não poderia deixar de mencionar dois títulos que, em busca de formar leitores, merecem sua atenção. Em “Como e por que ler os clássicos universais desde cedo”, Ana Maria Machado, tomando como base sua própria convivência com os livros, ressalta a importância de crescer com textos que, como uma bagagem cultural imprescindível, serão levados vida afora pelo leitor. “Prefiro chamar a atenção para o fato de que esses diferentes livros foram lidos cedo, na infância ou adolescência”, diz a autora, “e passaram a fazer parte indissociável da bagagem cultural e afetiva que seu leitor incorporou pela vida afora, ajudando-o a ser quem foi”.


Já “Mistérios da literatura”, de Daniel Piza, que recorre à biografia do autor para discorrer sobre Poe, Machado, Conrad e Kafka, é outro singular esforço ao encontro da formação de leitores. Minha edição de “Mistérios da literatura” foi autografada pelo autor e gostei muito do que ele escreveu. Serviria a você, leitora e leitor, se estivessem no meu lugar: “Para Renato, este livro que eu queria que tivesse mais leitores como você”. Desconfio de que Piza escreva essa dedicatória a todos os leitores de seu livro, mas se chegou até aqui, até o final deste texto, talvez você perceba que essa dedicatória sugere o sentido de tudo que está em jogo aqui. A literatura é uma dama e, como tal, deve ser cortejada por todos que a querem bem.

Renato Alessandro dos Santos, 37, é professor. Ele edita o site tertuliaonline.com.br .


PARA SABER MAIS

Pequeno guia da literatura universal
Luiz Carlos Lisboa

Como e por que ler
Harold Bloom

Balzac e a costureirinha chinesa
Dai Sijie

Como e por que ler os clássicos universais desde cedo
Ana Maria Machado

Mistérios da Literatura
Daniel Piza

22 de fev. de 2011

O mito de Sísifo


Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em consequência do seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

A acreditar em Homero, Sísifo era o mais ajuizado e mais prudente dos mortais. No entanto, segundo outra tradição, tinha tendências para a profissão de bandido. Não vejo nisto a menor contradição. As opiniões diferem sobre os motivos que lhe valeram ser trabalhador inútil dos infernos. Censura-se-lhe, de início, certa leviandade para com os deuses. Revelou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai espantou-se com esse desaparecimento e queixou-se dele a Sísifo. Este, que estava ao corrente do rapto, propôs a Asopo contar-lhe o que sabia, com a condição de ele dar água à cidadela de Corinto. Aos raios celestes, preferiu a bênção da água. Por tal foi castigado nos infernos. Homero conta-nos também que Sísifo havia acorrentado a Morte. Plutão não pôde suportar o espetáculo do seu império deserto e silencioso. Enviou os deuses da guerra, que soltou a Morte das mãos do seu vencedor.

Diz-se ainda que, estando Sísifo quase a morrer, quis, imprudentemente, pôr à prova o amor de sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo, sem sepultura, para o meio da praça pública. Sísifo encontrou-se nos infernos. E aí, irritado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão licença para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando viu de novo o rosto deste mundo, sentiu inebriadamente a água e o sol, as pedras quentes e o mar, não quis regressar à sombra infernal. Os chamamentos, as cóleras e os avisos de nada serviram. Ainda viveu muitos anos diante da curva do golfo, do mar resplandecente e dos sorrisos da terra. Mercúrio veio pegar no audacioso pela gola e, roubando-o às alegrias, levou-o à força para os infernos, onde o seu rochedo já estava pronto.

Já todos compreenderam que Sísifo é o herói absurdo. É-o tanto pelas suas paixões como pelo seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que o seu ser se emprega em nada terminar. É o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra. Não nos dizem nada sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada; vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de um ombro que recebe o choque dessa massa coberta de barro, de um pé que a escora, os braços que de novo empurram, a segurança bem humana de duas mãos cheias de terra. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atiginda. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso trazê-la de novo para os cimos. E desce outra vez à planície.

É durante este regresso, esta pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que sofre tão perto das pedras já é, ele próprio, pedra! Vejo esse homem descer outra vez, com um andar pesado mais igual, para o tormento cujo fim nunca conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça, essa hora é a da consciência. Em cada um desses instantes em que ele abandona os cumes e se enterra a pouco e pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte do que o seu rochedo.

Se este mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição: é nela que ele pensa durante a sua descida. A clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo a sua vitória. Não há estino que não se transceda pelo desprezo.

Se a descida se faz assim, em certos dias, na dor, pode também fazer-se na alegria. Esta palavra não é de mais. Ainda imagino Sísifo voltando para o seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se apegam de mais à lembrança, quando o chamamento da felicidade se torna demasiado premente, acontece qua a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O imenso infortúnio é pesado de mais para se poder carregar. São as nossas noites de Gethsemani. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas. Assim, Édipo obedece de início ao destino, sem o saber. A partir do momento em que sabe, a sua tragédia começa. Mas no mesmo instante, cego e deseperado, ele reconhece que o único elo que o prende ao mundo é a mão fresca de uma jovem. Uma frase desmedida ressoa então: "Apesar de tantas provações, a minha idade avançada e a grandeza da minha alma fazem-me achar que tudo está bem." O Édipo de Sófocles, como o Kirilov de Dostoievsky, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga identifica-se com o heroísmo moderno.

Não descobrimos o absurdo sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer da felicidade. "O quê, por caminhos tão estreitos?..." Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subtamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhosas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa seqüência de ações sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.

Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.
 

A história de Sísifo

Mestre da malícia e dos truques, ele entrou para a tradição como um dos maiores ofensores dos deuses. Sísifo casou-se com Mérope, uma das sete Plêiades, tendo com ela um filho, Glauco.
Certa vez, uma grande águia sobrevoou sua cidade, levando nas garras uma bela jovem. Sísifo reconheceu a jovem Egina, filha de Asopo, um deus-rio, e viu a águia como sendo uma das metamorfoses de Zeus. Mais tarde, o velho Asopo veio perguntar-lhe se sabia do rapto de sua filha e qual seria seu destino. Sísifo logo fez um acordo: em troca de uma fonte de água para sua cidade ele contaria o paradeiro da filha. O acordo foi feito e a fonte presenteada recebeu o nome de Pirene e foi consagrada às Musas.
Assim, ele despertou a raiva do grande Zeus, que enviou o deus da Morte, Tânatos, para levá-lo ao mundo subterrâneo. Porém o esperto Sísifo conseguiu enganar o enviado de Zeus. Elogiou sua beleza e pediu-lhe para deixá-lo enfeitar seu pescoço com um colar. O colar, na verdade, não passava de uma coleira, com a qual Sísifo manteve a Morte aprisionada e conseguiu driblar seu destino.
Durante um tempo não morreu mais ninguém. Sísifo soube enganar a Morte, mas arrumou novas encrencas. Desta vez com Hades, o deus dos mortos, e com Ares, o deus da guerra, que precisava dos préstimos da Morte para consumar as batalhas.
Tão logo teve conhecimento, Hades libertou Tânatos e ordenou-lhe que troxesse Sísifo imediatamente para as mansões da morte. Quando Sísifo se despediu de sua mulher, teve o cuidado de pedir secretamente que ela não enterrasse seu corpo.
Já no inferno, Sísifo reclamou com Hades da falta de respeito de sua esposa em não o enterrar. Então suplicou por mais um dia de prazo, para se vingar da mulher ingrata e cumprir os rituais fúnebres. Hades lhe concedeu o pedido. Sísifo então retomou seu corpo e fugiu com a esposa. Havia enganado a Morte pela segunda vez.
Outra história a respeito de Sísifo trata do ocorrido quando Autólico, o mais esperto e bem-sucedido ladrão da Grécia (que era filho de Hermes e vizinho de Sísifo), tentou roubar-lhe o gado. Autólico mudava a cor dos animais. As reses desapareciam sistematicamente sem que se encontrasse o menor sinal do ladrão, porém Sísifo começou a desconfiar de algo, pois o rebanho de Autólico aumentava à medida que o seu diminuía. Sísifo, um homem letrado (teria sido um dos primeiros gregos a dominar a escrita), teve a idéia de marcar os cascos de seus animais com sinais de modo que, à medida que a res se afastava do curral, aparecia no chão a frase "Autólico me roubou". Posteriormente, Sísifo e Autólico fizeram as pazes e se tornaram amigos.
Sísifo morreu de velhice e Zeus enviou Hermes para conduzir sua alma a Hades. No tártaro, Sísifo foi considerado um grande rebelde e teve um castigo, juntamente com Prometeu, Títio, Tântalo e Ixíon.
Por toda a eternidade Sísifo foi condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível. Por esse motivo, a tarefa que envolve esforços inúteis passou a ser chamada "Trabalho de Sísifo". 

Trabalho de Sísifo

Sísifo tornou-se conhecido por executar um trabalho rotineiro e cansativo. Tratava-se de um castigo para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses. Os mortais têm a liberdade de escolha, devendo, pois, concentrar-se nos afazeres da vida cotidiana, vivendo-a em sua plenitude, tornando-se criativos na repetição e na monotonia.

15 de fev. de 2011

Bagagem cultural é mais cobrada nos vestibulares

A temporada de estudos na França proporcionou a Juliana Pacetta, de 20 anos, jornadas culturais diferenciadas, como visitas ao Museu do Louvre, um dos maiores do mundo. No retorno ao Brasil, a estudante percebeu o quanto a bagagem cultural ganhou importância nos vestibulares do País, que transformaram o conhecimento de obras de artes plásticas e filmes em conteúdos obrigatórios.

Juliana passou os últimos dias comemorando a conquista do primeiro lugar no processo seletivo do curso de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. Nos últimos quatro meses, além da FGV, "questões culturais" também foram cobradas de vestibulandos da Fundação Cásper Líbero e da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), por exemplo.
A ideia é testar a visão de mundo dos candidatos, exigindo conhecimentos culturais que extrapolem o domínio das disciplinas tradicionais do ensino médio. Em geral, por meio de itens interdisciplinares, são testados conhecimentos sobre música e artes plásticas, cênicas e audiovisuais - algo que uma jornada cultural pode transmitir mais facilmente que uma aula tradicional.
"Queremos alunos diferenciados, que deduzam, reflitam, contextualizem", diz o diretor do vestibular da Faap, Jorge Miguel. "A bagagem cultural pode indicar o potencial do aluno." Por lá, candidatos a vagas em Administração, por exemplo, deveriam conhecer o filme Cidade do Silêncio (2006).
O potencial de Juliana rendeu a ela uma bolsa integral de um ano no ato da matrícula na FGV, prêmio pelo destaque no vestibular. "Com certeza, as experiências vividas no exterior e o contato com a cultura foram fundamentais", diz.
Peso maior. Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Ocimar Munhoz Alavarse vê como positiva a exigência do "saber cultural" nos vestibulares. "No Brasil, há uma tradição curricular muito forte e algumas disciplinas passaram a ganhar mais peso."
Alavarse ressalta, porém, que o acesso à cultura não é universal e a avaliação da bagagem cultural pode ser um critério desigual em razão das diferenças socioeconômicas. "Mas o currículo (de uma avaliação) é sempre arbitrário e depende dos critérios do avaliador."
Ao exigir em sua prova a interpretação e a contextualização de obras como Bicho, de Lygia Clark, e Banhista Enxugando a Perna Direita, de Renoir, a coordenadora do curso de Direito da FGV, Adriana Ancona de Faria, diz selecionar candidatos com a formação ideal para a instituição. "É a capacidade analítica que é avaliada, habilidade que será cobrada no curso e na vida profissional", afirma.
Foi essa proposta que atraiu Isabella Becker, 21 anos, aluna de Direito da FGV. "O vestibular indicou que buscavam alunos flexíveis, com capacidades e habilidades além do conteúdo aprendido em sala de aula", lembra.
Coordenador de vestibular da Cásper Líbero, Roberto Chiachiri crê que a capital dá ao estudante a chance de uma "formação universal". Vestibulando da Cásper, Eduardo Nattanael, 17 anos, corre em busca disso. "Não consegui (passar no vestibular), mas foi a primeira tentativa. Percebi a importância da bagagem cultural. Quem conhece é capaz de aprofundar mais nas questões relacionadas a obras de arte, peças de teatro e filmes."

Fonte:
"O Estado de S. Paulo" - 14/02/2010

Assim, não dá para perder tempo. O conhecimento de artes plásticas, cênicas e audiovisuais são importantíssimos para o vestibular e para a vida.

10 de fev. de 2011

Visite 17 museus sem sair de casa

Você teria de ir a nove países para conhecer a coleções de 17 dos principais museus do mundo, como o Hermitage, de Moscou, o MoMA de Nova York, ou o Reina Sofia, de Madri

Agora você pode ver as obras das principais galerias de arte do mundo da sua casa. É um projeto do Google que com certeza vai fazer a alegria dos amantes das Artes e da Cultura.

Explorar os museus mais famosos do mundo sem sair de casa agora já é possível. Graças à tecnologia do Google Street View, imagens de 17 museus e mais de 1000 obras de arte estão disponíveis na web em alta resolução. A National Gallery, o Van Gogh Museum e o Palácio de Versailles são alguns dos lugares que os visitantes podem conhecer acessando googleartproject.com.

Veja abaixo:

(bluebus.com.br)

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago


           Publicado em 1991, Saramago foi questionado até mesmo pelo governo e pela Igreja sobre o livro. Já a crítica esclarecida é unânime em atribuir ao livro o título de obra-prima.

São 24 capítulos, sem numeração, nem título.

Não há muitas informações sobre a vida do jovem Cristo. Os quatro evangelhos contam a vida de Cristo (menino e homem, morto aos 33 anos), omitindo sua juventude. Saramago, portanto, parte desta lacuna para contar a seu modo a vida do jovem Cristo. Ele oferece nova versão à tão conhecida história do filho de Deus.

A carnavalização é um termo proposto por Bakhtin para explicar o procedimento que aparece em textos como este, isto é, os desvios e inversões nas narrativas consagradas pela tradição. Desta forma, é a quebra do que está sacralizado pelas normas ou tradição.

Exatamente o que ocorre nesta história contada por Saramago que humaniza absolutamente Jesus Cristo. Ele está repleto de imperfeições e vícios nada divinos, com um Deus consciente do preço que a humanidade terá de pagar para que seu poder se estabeleça entre os homens, e com um diabo impotente e aborrecido diante de seu papel, eterno e imposto por Deus, de atuar na história como um contraponto à bondade divina.

O plano de Deus, segundo Saramago, é sacrificar Jesus, como seu filho, e tornar-se o único Deus a ser glorificado na terra, acabando, assim, o politeísmo e com as demais crenças religiosas. Desta maneira, escolhe um casal na terra de forma aleatória para gerar o filho de Deus.

Estes são exemplos da carnavalização do plano de salvação:

“Então, o Senhor não me escolheu, Qual quê, o Senhor ia só passar (...), mas reparou que tu e José eram gente robusta e saudável” (SARAMAGO, 2001, p.311)

“E qual foi o papel que me destinaste no teu plano, O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o de melhor há para fazer espalhar uma crença e afevorar uma fé.” (SARAMAGO, 2001, p.370)

A carnavalização também pode ser vista pela relação entre Deus e o Diabo.

A face de Deus demonstrada na obra é um ser egoísta, pouco interessado pelos assuntos humanos. Já o Diabo mostra interesse pela preservação da vida, seja ela qual for, imagem que contraria o modo como a tradição cristã o apresenta: o “inimigo”.
Na verdade Deus não pode existir sem o Diabo:

(...) Não me aceitas, não me perdoas, não te aceito, não te perdôo, quero te
como és, e, se possível, ainda pior do que és agora, Porquê, Porque este
Bem que eu sou não existiria sem este Mal que tu és, um Bem que tivesse
que existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso
imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é
necessário que tu continues a ser o Mal, se o Diabo não vive como o
Diabo, Deus não vive como Deus, a morte de um seria a morte do outro.
(SARAMAGO, 2001, p. 392-3).

O autor faz também cair às teses sagradas da Bíblia. Assim, o "anjo da anunciação" aparece para Maria na pele de um mendigo. Os três Reis Magos transformam-se em pastores e, em vez de ofertarem ao recém-nascido ouro, incenso e mirra, dão a seus pais leite, queijo e pão presentes mais "humanamente necessários" para quem chega ao mundo numa manjedoura. Até o envolvimento de Jesus com "Maria Madalena é desmistificado no livro.

O Jesus de Saramago é um homem só e sofredor nesta Terra, com a sua insustentável humanidade, seus temores e as suas perguntas sem respostas. Assim, o Cristo de Saramago não se sacrifica pela humanidade, mas sim pela culpa de seu pai José, pois ele poderia ter poupado os inocentes de serem sacrificados por Herodes, mas preferiu fugir para salvar a vida do seu filho e assim deixou que os recém nascidos de Belém fossem mortos. Com aspectos humanos, Jesus carregou essa culpa pela vida inteira. Sua decisão de tornar-se instrumento de Deus foi motivada por essa culpa.

             A verdade é que apesar de ser considerado ateu, Saramago nunca negou a existência de Deus. Ele apenas o humanizou. Jesus é o seu reflexo no homem.

Os recursos linguísticos utilizados pelo autor são um tanto inusitados: coloca ponto onde normalmente se espera encontrar uma vírgula e vírgula onde seria normal encontrar um ponto. Maiúsculas depois da vírgula e não depois do ponto. Escreve longos parágrafos sem pontuação. Talvez seja a representação da vida, sem paradas para respirar.

Fonte: 
SARAMAGO, José. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

9 de fev. de 2011

Escrever é falar no papel

Escrever é falar no papel. Esta frase foi retirada do livro de Donald Weiss Como Escrever com Facilidade, do Círculo do Livro. Ele afirma que o medo acaba inibindo as pessoas alfabetizadas a escreverem. Já que escrever é falar no papel, o primeiro passo para perder este medo é escrever como se estivesse falando, depois vai melhorando o texto, fazendo várias versões (rascunhos) dele.
Ele conta a história de João Carlos, um funcionário que criou um produto novo e foi fazer uma exposição sobre ele à diretoria da empresa. Ele foi tão bem que acabou sendo designado a diretor de "marketing", mas Wilson, presidente da empresa, pediu que lhe entregasse o texto de sua fala na próxima semana. 
A sua promoção, um sonho acalentado há muito, acabara se transformando em suplício, pois João Carlos nunca fora um bom aluno em Português, era traumatizado, não conseguia redigir um bilhete, imagine passar no papel a fala de quase uma hora. 
No final do dia, ele tomou uma decisão, foi falar com Wilson. Desistiria da promoção e acabaria com aquele ansiedade. Wilson não aceitou a sua abdicação, pois se ele dissera tudo aquilo tão bem, sem nenhum texto previamente escrito, João Carlos era mais inteligente do que imaginara. E foi mais além, dizendo-lhe que se ele teve a capacidade de falar tão bem, conseguiria escrever também. Era só perder o medo.
Às vezes, me perguntam como consigo escrever todos os dias, "fazer bons textos", de onde veio esta facilidade. Eu digo que já construí, e continuo, muitos textos ruins, a única diferença entre mim e o inquiridor é que sou corajoso, não tenho exarcebado em mim o senso de ridículo. 
Escrever sem medo e sem preguiça, fazendo vários rascunhos, lendo em voz alta o texto escrito para descobrir as falhas (subvocalização) são técnicas indispensáveis. E o restante advém da coragem, de não ter medo de errar e de ser criticado por alguém que nunca escreveu nada, mas que está sempre pronto a destruir a criatividade do outro. 

Hélio Consolaro
Professor de Língua Portuguesa

Breve História de Quase tudo

Um aspecto curioso de nossa existência é provirmos de um planeta exímio em promover a vida, mas ainda mais exímio em extingui-la.
A espécie típica na Terra dura apenas uns 4 milhões de anos. Desse modo, se quiser permanecer aqui por bilhões de anos, você precisa ser tão volúvel quanto os átomos que o constituem. Precisa estar preparado para mudar tudo em você - forma, tamanho, cor, espécie a que pertence, tudo - , e fazê-lo vezes sem conta. Isso é mais fácil de falar que de fazer, porque o processo de mudança é aleatório. Passar do “glóbulo atômico primordial protoplasmático” (como diz a canção de Gilbert e Sullivan) para ser um ser humano moderno, ereto e consciente exigiu uma série de mutações, criadoras de novos traços, nos momentos certos, por um período longuíssimo. Portanto, em diferentes épocas dos últimos 3,8 bilhões de anos, você teve aversão ao oxigênio e depois passou a adorá-lo, desenvolveu membros e barbatanas dorsais ágeis, pôs ovos, fustigou o ar com uma língua bifurcada, foi luzidio, foi peludo, viveu sob a terra, viveu nas árvores, foi grande como um veado e pequeno como um camundongo, e milhões de outras coisas. Se você se desviasse o mínimo que fosse de qualquer dessas mudanças evolucionárias, poderia estar agora lambendo algas em paredes de cavernas, espreguiçando-se como uma morsa em alguma praia pedregosa ou lançando ar por um orifício no alto da cabeça antes de mergulhar vinte metros para se deliciar com uns suculentos vermes.
Além da sorte de ater-se, desde tempos imemoriais, a uma linha evolucionária privilegiada, você foi extremamente - ou melhor, milagrosamente - afortunado em sua ancestralidade pessoal. Considere o fato de que, por 3,8 bilhões de anos, um período maior que a idade das montanhas, rios e oceanos de Terra, cada um dos seus ancestrais por parte de pai e mãe foi suficientemente atraente para encontrar um parceiro, suficientemente saudável para se reproduzir e suficientemente abençoado pelo destino e pelas circunstâncias para viver o tempo necessário para isso. Nenhum de seus ancestrais foi esmagado, devorado, afogado, morto de fome, encalhado, aprisionado, ferido ou desviado de qualquer outra maneira da missão de fornecer uma carga minúscula de material genético ao parceiro certo, no momento certo, a fim de perpetuar a única seqüência possível de combinações hereditárias capaz de resultar - enfim, espantosamente e por um breve tempo - em você.

(Disponível em:
<http://paginatreze.wordpress.com/category/ciencia/>. Acesso em: 16 out. 2008).