8 de ago. de 2014

" O mal que os homens fazem sobrevive a eles; o bem geralmente é sepultado com seus ossos"
(Shakespeare) 

Jesus, os Gays e a Bíblia

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.

No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”…).
Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).
No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.
A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.
Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.
São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.
A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama…).
Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?
Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar a homossexualidade. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.
Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?
Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.
   Por
   FREI BETO
Fonte: Pragmatismo Político, de 31/07/2014
gyas bíblia jesus frei betto

Calendário VESTIBULAR 2015

ENEM

8 e 9 de Novembro

No primeiro dia 8, um sábado, os candidatos farão as provas de Ciências Humanas e Ciências da Natureza, de 13h às 17h30 (horário de Brasília). 

No dia 9, domingo, serão aplicadas as provas de linguagens e códigos, matemática e redação, de 13h às 18h30 (horário de Brasília).


Principais vestibulares:


Fuvest (USP e Santa Casa)

  • Inscrições: de 22 de agosto a 8 de setembro
  • Exame da primeira fase: 30 de novembro
  • Exames da segunda fase: 4, 5 e 6 de janeiro de 2015
  • Primeira chamada: 31 de janeiro de 2015

Unicamp

  • Inscrições: de 11 de agosto a 11 de setembro
  • Exame da primeira fase: 23 de novembro
  • Prova de habilidades específicas de música: 25 a 29 de setembro
  • Exames da segunda fase: 11, 12 e 13 de janeiro de 2015
  • Prova de habilidades específicas: 19 a 22 de janeiro de 2015
  • Primeira chamada: 11 de fevereiro de 2015

Vunesp (Unesp)

  • Inscrições: de 15 de setembro a 10 de outubro
  • Exame da primeira fase: 16 de novembro
  • Exames da segunda fase: 14 e 15 de dezembro
  • Primeira chamada para matrícula virtual28 de janeiro de 2015

Unifesp

  • Inscrições: de 22 de setembro a 24 de outubro
  • Exame da primeira fase (Enem): 8 e 9 de novembro
  • Exames da segunda fase: 11 e 12 de dezembro
  • Primeira chamada para matrícula virtual26 de janeiro de 2015

ITA

  • Inscrições: de 1º de agosto a 15 de setembro

PUC-Campinas

  • Inscrições: de 9 de setembro a 26 de outubro
  • Exame de fase única: 28 e 29 de novembro

PUC-SP

  • Inscrições: de 10 de outubro a 18 de novembro
  • Exame de fase única: 7 de dezembro

As "selfies" mais simpáticas já feitas são de uma macaca. UAU!!!!


"Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito."
(Albert Einstein)

Preconceito e Reconhecimento

“O futebol é um espelho da realidade”. Essa é uma sentença curta e crítica que poderia ser enunciada por um renomado filósofo ou sociólogo europeu, mas cuja autoria é de Arouca, volante do Santos Futebol Clube, pouco conhecido no mundo acadêmico. Esse precioso mote de reflexão teve como inspiração um lamentável caso de racismo da torcida do time Mogi Mirim contra o jogador durante o Campeonato Paulista deste ano. Na lista de vítimas de racismo televisionados deste ano podemos citar também Francisco Assis, lateral-esquerdo do Uberlândia, e Márcio Chagas da Silva, juiz do Campeonato Gaúcho. Quando incluímos o crescimento da violência simbólica contra determinadas classes sociais na mídia, a exemplo dos médicos cubanos, dos comentários desumanos feitos pela jornalista Rachel Sheherazade e do aumento significativo das manifestações preconceituosas contra populações de baixa renda nas redes sociais,concluímos que estamos em uma crescente de violência social contra determinadas raças e classes econômicas. Fatos que não podem ser ignorados e que merecem reflexão.
Os eventos citados causaram um mal-estar generalizado na mídia brasileira, pois colocaram em xeque a ideologia do “brasileiro cordial”e da “democracia racial”. Já me posicionei sobre os mitos raciais de Darcy Ribeiro quando tratei da “dignidade da pessoa humana” em uma coluna anterior. Enquanto os jornais buscam uma causa para o “surgimento” desse fenômeno e promovem eventos para “acabar” com o problema, os acadêmicos se questionam sobre quais seriam os motivos para o secular preconceito brasileiro “sair do armário”e se tornar manifesto.
Como eu tomo partido dos acadêmicos, acredito na existência de um preconceito histórico-cultural de cor e de classe na sociedade brasileira que por muitos anos lutou para se tornar natural e imperceptível. Utilizo do conceito de ideologia de John Thompson para defender minha tese de que toda manifestação jornalística e artística (novela, música, fotografia etc.) que sustenta uma perspectiva de sociedade miscigenada e harmoniosa, sem conflitos raciais ou de classe, tenta produzir um sentido que serve para estabelecer e sustentar relações de poder que beneficiam as classes econômicas dominantes – que por razões históricas possui o traço étnico caucasiano europeu.
Minha hipótese para a transição do preconceito situado no recalque da esfera na violência simbólica para as manifestas na esfera pública reside no fenômeno social de diminuição da desigualdade social operada pelos programas de transferência de renda e a instituição dos programas de cotas para negros, indígenas e alunos de baixa renda que estudam em escolas públicas. A desigualdade social vigente nos 500 anos de nossa história garantiu uma separação espacial entre dominantes e dominados, negros e brancos, pobres e ricos que se tornou natural em nossa cultura. Havia um lugar social já determinado na educação e no mercado de trabalho para os filhos dos pedreiros e  domésticas, para os emergentes da classe média e para os herdeiros da elite – existindo pequenos espaços nos esportes, na religião e no mercado informal que legitimavam uma mudança de classe social. Uma pequena loteria que criava esperanças de reconhecimento e mudança de vida para as pessoas fragilizadas que obedeciam a injusta estrutura social.
As mudanças operadas pelos programas sociais do governo federal nos últimos dez anos romperam com muitas separações espaciais e simbólicas que dividiam os pobres, a classe média e os dominantes. A expansão da classe trabalhadora e o aumento do poder aquisitivo geraram restruturações dos espaços que não foram aceitas e reconhecidas pela classe média e pela elite. “Os aeroportos viraram rodoviária. Empregada agora usa avião para ver a família no Norte”, dizem osreacionários inconformados com a perda do lugar e da distinção social que o serviço aéreo proporcionava. “Orkutização do Facebook”, “os vagabundos do bolsa família”, “os bandidos do funk”, “esses nordestinos sem educação”, “essas empregadas que querem virar madames”, “na ditadura militar, o Brasil não era essa desordem” são frases carregadas de preconceito que já são comuns em sociedades fascistas como a paulista. Aposto que o leitor já se deparou com um e-mail ou frase em rede social com esse tipo de conteúdo.
Os conflitos étnicos e de classe tornaram-se mascarados por muito tempo, operando na sutileza da aceitação e na negação do reconhecimento. Não há problema em aceitar que os negros, pardos, índios e pobres existam e que transitem entre nós, afinal somos uma sociedade colonizada, subdesenvolvida e multirracial. Muitos deles fazem trabalhos pesados, são limpinhos, sorridentes e entretêm. Também os consideram mal-educados e poucos confiáveis, mas acreditam que o uso da força física e verbal os faz andar na linha. Entretanto, não os reconhecem como iguais. Não aceitam uma justiça social que corrija os problemas históricos que a classe dominante causou a essa parcela da população. Não aceitam disputar, em pé de igualdade, espaços em sites, bairros, elevadores, concessionárias, aviões e universidadesO discurso dominante no Brasil é o de aceitar as diferenças, mas nunca o de reconhecer o diferente como um igual.
Por Arthur Meucci.
Mestre em Filosofia pela USP, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pelo Mackenzie e membro da Associação Filosófica Scientiae Studia. Professor  conferencista da ECA/USP e do curso de Ética e Meio Ambiente do PEC/FGV-SP e consultor do Espaço Ética.
Artigo publicado na Revista  Filosofia:  ciência & vida, maio 2014.

10 de mar. de 2013

Eutanásia: o que aprendi com a minha mãe



Meu pai, irmã e eu sentamos num restaurante chinês quase vazio, escolhendo nossos pratos, incapazes de evitar a discussão que nos levara ali: quando seria o momento de deixar mamãe morrer?
Tinha sido um dia exaustivo no hospital, esperando – rezando – por qualquer sinal de que minha mãe poderia emergir de seu coma. Três dias antes, ela havia sido internada por náuseas; teve uma tosse horrível e enfrentava problemas para manter os alimentos no estômago. Mas quando a enfermeira tentou introduzir uma sonda nasogástrica, seu coração parou. Ela precisou de ressuscitação cardiovascular por nove minutos. Antes de que eu voasse para Chicago, um ventilador já estava respirando por ela, e a medicação intravenosa mantinha a pressão arterial estável. Hora após hora, meu pai, minha irmã e eu tentamos falar com ela, tocando suas músicas favoritas, encorajando-a a apertar nossas mãos ou abrir os olhos.
Os médicos não podiam dizer exatamente o que havia de errado, mas o prognóstico era sombrio, e eles sugeriram removê-la do respirador. Assim, aquela noite de janeiro, nos dirigimos a um restaurante no subúrbio de Detroit para uma inevitável reunião familiar.
Meu pai e irmã olharam para mim em busca de meus pensamentos. Em nossa família, sou a referência para todos os assuntos médicos. Por 15 anos, trabalhei como repórter de saúde: no Dallas Morning News, no Los Angeles Times e agora na ProPublica. Como tenho uma noção relativamente boa do complexo sistema norte-americano de saúde, fui eu quem ajudou meus pais a definir planos de medicamentos do Medicare1, pesquisar novos diagnósticos e questionar médicos sobre os tratamentos recomendados.
Como em muitas situações anteriores, eu esperava ter algumas respostas. No entanto, os anos como repórter nunca me prepararam para este momento, essa decisão. De fato, eu comecei a questionar algumas das minhas suposições sobre o sistema de saúde.
Há muito observo, e algumas vezes escrevo, sobre as perversas batalhas políticas em torno dos cuidados de fim da vida. Como muitos jornalistas de saúde, reviro os olhos quando ouço frases como “painéis da morte”, usadas para descrever uma proposta apresentada em 2009 no Congresso, que teria permitido ao Medicare reembolsar médicos que aconselhassem pacientes sobre como decidir até que ponto levar certos tratamentos. A polêmica, levantada por políticos conservadores e apresentadores de programas de auditório, obrigou os autores do “Lei de Tratamentos Sustentáveis” a retirar essa cláusula antes de o projeto virar lei.
Política à parte, sempre considerei o alto custo dos cuidados de fim da vida um assunto digno de discussão. Cerca de um quarto dos pagamentos do Medicare são gastos com o último ano da vida, de acordo com recentes estimativas. E o grau de atenção oferecido a pacientes neste último ano – quantos médicos eles visitam, o número de internações hospitalares em UTIs – varia drasticamente entre os Estados e mesmo dentro deles, de acordo com o conceituado Atlas Dartmouth. Estudos mostram que o cuidado é constantemente inútil. Não sempre prolonga a vida, e não sempre reflete o que os pacientes querem.
Em artigo que escrevi para o Los Angeles Times, em 2005, citei a fala de um médico que disse: “Há sempre um tratamento a mais, há sempre mais um, ‘Por que não tentar?’. Mas temos que ser sensíveis aos objetivos daquele paciente, que não são estar internado, ligado a tubos, sem chance de realmente se recuperar”.
Isso fez muito sentido pra mim naquela época. Mas isso se aplicaria a minha mãe?
Sabíamos de seus desejos para o fim da vida: ela dissera a meu pai que não queria ser mantida viva de modo artificial, se não tivesse chances reais de se recuperar significativamente. Mas o que era uma chance real? O que era uma recuperação significativa? Como nós saberíamos se os médicos e enfermeiras estavam certos? Em minhas reportagens, eu nunca havia percebido quão pouco os custos do sistema de saúde importam para a família do paciente. Quando aconteceu com minha mãe, o que nos importava é que seríamos responsáveis por qualquer decisão que tomássemos. E não teríamos a chance de escolher duas vezes.
Quando minha mãe chegou à UTI, não havia dúvidas de que sua função cerebral era prreocupante. Nas horas após ser ressuscitada, ela teve um tipo de convulsões que podem ocorrer quando falta oxigênio no cérebro. Depois disso, permaneceu imóvel. Quando o neurologista espetou-a com o alfinete de segurança, ela não respondeu. Quando tocou suas córneas, elas não se moveram reflexivamente.
Comecei a consultar a literatura médica, como faço na condição de repórter. Não achei nada animador. Estudos mostram que após 72 horas de coma causado por falta de oxigênio, as chances de recuperação de um paciente são quase nulas. Pedi para minha parceira de redação, em Nova York, fazer uma pesquisa adicional. Ela tampouco encontrou algo que pudesse trazer muita esperança.
Mas minha mãe não poderia superar os prognósticos? Harriet Ornstein era uma mulher determinada. Tinha 70 anos e havia superado adversidades muitas vezes antes. Em 2002, antes de meu casamento, ela foi assaltada em um estacionamento e quebrou o nariz ao bater o rosto na calçada. Mas lá estava ela para me acompanhar até o altar – olhos negros cobertos por maquiagem. Ela tinha doença de Parkinson havia uma década, e em 2010 sofreu um traumatismo craniano, porque um carro atropelou-a quando descia uma rampa de deficientes na farmácia. Mamãe persistiu, continuando a reabilitação e trabalhando para levar uma vida mais normal possível. Ela não poderia lutar contra esta nova situação também?
Verdade seja dita, eu já estava um tanto cético diante das previsões médicas. No ano passado, o coração do meu pai parou e foram necessários mais de dez minutos em ressuscitação cardiovascular para reanimá-lo. Os médicos e enfermeiras disseram que uma recuperação neurológica completa era improvável. Perguntaram sobre suas opções para o fim da vida. Mamãe e eu ficamos até tarde falando sobre a vida sem ele e discutindo a logística de seu funeral. Mas, apesar de tudo, ele se recuperou. Regressou para casa em algumas semanas de volta a seu antigo eu. Apreciei o poder da medicina moderna, mas me questionei: por que todos tinham tanta certeza de que ele iria morrer?
Também pesava sobre mim outra história que escrevi para o Los Angeles Times, sobre um paciente cuja morte cerebral havia sido declarada erroneamente por dois médicos. A família estava sendo encorajada a interromper o uso dos aparelhos e autorizou a entrada de uma equipe de doação de órgãos. Mas o exame de uma supervisora de enfermagem descobriu que o homem, de 4t anos, mantinha o poder de tossir reflexivamente, além de mover um ligeiramente a cabeça, ambos sinais inconsistentes com morte cerebral. Um neurocirurgião confirmou suas descobertas.
Ninguém estava sugerindo que minha mãe estivesse em morte cerebral, mas as avaliações médicas não ofereceram nenhuma pista encorajante. E se elas estivessem erradas, também?
Durante o jantar no restaurante chinês, fizemos um pacto: não decidiríamos com pressa. Procuraríamos uma segunda opinião médica. Mas se os testes continuassem negativos – eu pediria para ler os relatórios clínicos –, nós interromperíamos os cuidados agressivos.
Uma neurologista recomendada por um conhecido da família chegou na manhã seguinte. Depois de realizar um minucioso exame, essa médica tampouco demonstrou otimismo, mas disse que dois exames adicionais poderiam ser feitos, se nós ainda tivéssemos dúvidas. Se mais testes podiam ser feitos, meu pai decidiu que deveríamos fazê-los. Minha irmã e eu concordamos.
Na manhã de sexta, o momento do teste final chegou. Recebemos más notícias. Em uma sala de conferências estéril do hospital, um neurologista definiu nossas opções: nós poderíamos transferir minha mãe para a unidade de cuidados paliativos e inserir-lhe tubos de alimentação. Ou poderíamos desconectar o ventilador.
Decidimos que era hora de honrar os desejos da minha mãe. Choramos enquanto as enfermeiras a desconectaram, naquela tarde. A equipe do hospital considerou improvável que respirasse sozinha, mas ela o fez por várias horas. Morreu em paz, em seus próprios termos, tarde da noite – com meu pai, minha irmã e eu a seu lado.
Não acho que alguém possa nunca se sentir confortável sobre tal decisão, e o fato de ser um repórter de saúde agravou minhas dúvidas. Estava plenamente confiante de que fizemos o que minha mãe queria. Mas uma semana depois, quando voltei a Nova York, com alguma distância emocional, eu me perguntava como nosso pensamento e comportamento enquadrava-se com o que eu havia escrito como repórter. Teríamos desperdiçado recursos, enquanto tentávamos decidir, por dois dias? Se cada família fizer o que fizemos, dois dias multiplicados por milhares de pacientes somam milhões de dólares.
Curioso sobre como os especialistas veriam isso, liguei para Elliott S. Fisher. Há muito tempo respeito-o, professor de medicina da Dartmouth e um líder do Atlas Dartmouth. O Atlas foi o primeiro a identificar McAllen, no Texas, tema de uma memorável reportagem de Atul Gawande, no New Yorker (em 2009) sobre os gastos aparentemente descontrolados com o Medicare.
Perguntei a Fisher se pensava que minha família havia desperdiçado dinheiro. “Não”, ele respondeu. Ele também não teria achado abusivo se decidíssemos manter minha mãe no ventilador por uma semana ou duas, ainda que minha descrição de seus exames e testes neurológicos fosse pessimista.
“Você nunca precisa se apressar para decidir”, ele me disse. “A preocupação central deve ser, sempre, tomar a decisão certa para o paciente e a família… Temos muito dinheiro, no sistema de saúde dos EUA, para ter certeza de que estamos apoiando as famílias na tomada de uma decisão com a qual elas possam sentir-se bem. Sou muito sensível a isso”.
“Muito dinheiro? Como isso se articula com sua opinião de que muito dinheiro é gasto em cuidados no final da vida?” Ele respondeu que sua preocupação é mais em situações em que os desejos de fim de vida não são conhecidos, e casos em que médicos empurram tratamentos para doenças terminais que são claramente inúteis e podem prolongar o sofrimento. “Eu não acho que o melhor cuidado possível significa sempre manter as pessoas vivas, ou fazer a quimioterapia mais agressiva”, disse ele, “quando as evidências mostram que não há virtualmente chance alguma de esse tratamento fazer diferença para o paciente”.
Deixei a conversa concordando com o raciocínio de Fisher, mas acreditando que é muito mais difícil na prática do que na teoria. Você pode conhecer os desejos de alguém e ainda estar confuso sobre o que é mais apropriado fazer.
As últimas semanas foram as mais difíceis da minha vida. Espero que o que eu aprendi me faça um jornalista melhor e mais compassivo. Acima de tudo, vou sempre lembrar que por trás do debate sobre os custos e cuidados de fim da vida, há famílias reais que lutam com decisões reais.

 Por 

Charles Ornstein é repórter sênior e presidente da Associação de Jornalistas da Saúde dos Estados Unidos.

1 Medicareé nome do sistema de seguros de saúde gerido pelo governo dos EUA, criado em 1965 e destinado a pessoas a partir de 65 anos, ou que preencham certos critérios de rendimento. Em geral, as pessoas podem receber a ajuda doMedicare se tiverem contribuído para o sistema durante pelo menos dez anos e residam permanentemente nos Estados Unidos. As pessoas de menos de 65 anos podem beneficiar-se do programa Medicare se forem portadores de alguma deficiência ou estiverem com doenças renais graves.

OUTRAS PALAVRAS

30 de jan. de 2013

A tragédia de Santa Maria


"É o retrato da nossa tolerância com o engano."
(Flávio Tavares)

Link:


http://globotv.globo.com/globo-news/entre-aspas/t/todos-os-videos/v/especialistas-falam-sobre-a-tragedia-que-abalou-o-pais/2375075/

Para começar: citações


A crença em uma fonte sobrenatural do mal não é necessária.
O homem, por si só, é capaz de toda maldade.
(Joseph Conrad)

Quando você olha dentro de um buraco, o buraco olha dentro de você.
(Nietzsche)

Imaginação é mais importante do que conhecimento.
Conhecimento é limitado. Imaginação abrange o mundo.
(Albert Einstein)

Não tente só ser melhor que seus contemporâneos ou predecessores, tente ser melhor que você mesmo.
(Faulkner)

Quase toda absurdidade de conduta vem da imitação daqueles com quem não podemos parecer-nos.
(Samuel Johnson)

Não esqueça que não posso ver a mim mesmo, que meu papel é limitado a ser aquele que olha o espelho.
(Poeta francês Jacques Rigaut)

Pássaros cantam após a tempestade, por que as pessoas não podem se sentir livres para se deleitar no pouco de sol que lhes resta?
(Rose Kennedy)

Quando um homem bom é ferido, todos os considerados bons devem sofrer com ele.(Eurípedes)

O amor, quando em excesso, não traz ao homem nem honra nem mérito. (Eurípedes)

A irracionalidade de uma coisa não é argumento contra a sua existência, mas sim uma condição para ela. (Nietzche)

Não existe caçada como aquela de um homem, e os que caçaram homens armados por algum tempo e gostaram disso, não se importam de verdade com mais nada.
(Hemingway)

Um homem saudável não tortura os outros.
Em geral, é o torturado que se torna o torturador.
(Carl Jung)

Uma crença não é apenas uma ideia que a mente possui, é uma ideia que possui a mente.
(Robert Oxton Bolt)


A questão que às vezes me deixa louco; Louco sou eu ou são os outros? (Albert Einstein)

Não saber o que sente não é o mesmo que não sentir nada. (Jason Gideon)

Infelizmente, uma super abundância de sonhos é compensada por um crescente potencial de pesadelos. (Sir Peter Ustinou)

Ideologias nos separam, sonhos e aflição nos unem.
(Escritor Eugène Lonesco)

A lágrima mais amarga derramada sobre túmulos, é para palavras que não foram ditas e planos não realizados. (Harriet Beecher Stowe)

O mal nunca é fora do comum e sempre humano. Compartilha nossa cama e come à nossa mesa. (Poeta W. H. Auden)

Só avalie o trabalho ao final do dia e com a tarefa cumprida.
(Elizabeth Barrett Browning)

O que é alimento para uns, para outros é um veneno amargo.
(Filósofo romano Lucrécio)

Antes de embarcar numa jornada de vingança, cave duas sepulturas. (Confúcio)

Quem derrama o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue derramado. (Gênesis 9:6)

O que fazemos para nós, morre conosco. O que fazemos pelos outros e pelo mundo, continua e é imortal. (Albert Pine)

O homicídio é singular, pois anula o prejudicado. Assim, a sociedade deve assumir o lugar da vítima e em seu lugar exigir punição ou garantir o perdão. (Poeta W. H. Auden)

Americanos não têm senso de privacidade. Não sabem o que isso significa. Isso não existe no país. (Bernard Shaw)

Estes com quem vivemos, amamos e devemos conhecer, que nos iludem. (Norman Maclean)

No final, não são os anos da vida que contam, mas a vida que há nos anos.
(Abraham Lincoln)

O indivíduo sempre tem de lutar para evitar ser subjugado pela tribo. (Nietzsche)

Há muitos caminhos para chegar ao mesmo lugar.
(Velho ditado Apache)

É melhor ser violento se existe violência em seu coração, que vestir o manto de não-violência para disfarçar impotência.
(Gandhi)

Sou contra a violência, pois quando parece fazer o bem, o bem é apenas temporário.
O mal que causa é permanente.
(Gandhi)

Uma fotografia é o segredo de um segredo. Quanto mais diz, menos você sabe.
(Diane Arbus)

Outras coisas podem nos mudar, mas a família é o começo e o fim.
(Anthony Brandt)

O mal não é um fenômeno cultural e sim humano.
(Jason Gideon)

Há aqueles que só empregam palavras com o objetivo de disfarçar seus pensamentos.
(Filósofo francês Voltaire)

Estamos tão acostumados a nos disfarçar para os outros, que no fim acabamos nos disfarçando para nós mesmos.
(François de La Rochefoucauld)

Numa época de dissimulação, falar a verdade é um ato revolucionário.
(George Orwell)

Os defeitos e falhas da mente são como feridas no corpo. Depois que todo cuidado possível foi tomado para curá-las, ainda restará uma cicatriz.
(François de La Rochefoucauld)

Disseram que: O tempo cura tudo.
Não concordo. As feridas permanecem. Com o tempo, a mente protegendo sua sanidade, cobre-as com cicatrizes e a dor diminui. Mas ela nunca se vai.
(Rose Kennedy)

Quanto mais o homem fala de si, mais deixa de ser ele mesmo. Dê-lhe uma máscara e ele dirá a verdade.
(Oscar Wilde)

A base da vergonha não é algum erro que cometemos, mas que essa humilhação seja vista por todos.
(Milan Kundera)

Salve uma vida e salvará o mundo.
(Jason Gideon)

Embora haja sofrimento no mundo, há também muita superação.
(Helen Keller)

Perdoamos uma criança que tem medo de escuro facilmente. A verdadeira tragédia da vida é quando homens têm medo da luz.
(Platão)

Não importa quem começou o jogo, mas quem chegou ao final.
(John Wooden, treinador de basquete)

A escolha definitiva para o homem, considerando que é impelido a transcender a si mesmo, é criar ou destruir, amar ou odiar.
(Erich Fromm)

O crime trucida inocentes para garantir um prêmio, e a inocência luta com todas as forças.
(Robespierre)

Coincidências são a fonte de algumas de nossas maiores irracionalidades.
(Um cientista cognitivo do MIT)

Lembre-se que em todas as épocas existiram tiranos e assassinos que, por algum tempo, pareceram invencíveis. Mas no final, sempre caem. Sempre.
(Gandhi)

Algumas das melhores lições são aprendidas dos erros do passado. O erro do passado é a sabedoria do futuro.
(Dale Turner)

A fim de aprender as lições importantes da vida, devemos superar um medo por dia.
(Ralph Waldo Emerson)

Entre o pensamento e a realidade, entre o impulso e a ação, cai a sombra.
(T. S. Eliot)

O que somos é uma evolução constante.
(Dr. Reid)

Entre o desejo e o medo, entre o poder e a existência, entre a essência e o declínio, caem as sombras. É assim que o mundo termina.
(T. S. Eliot)

Todo segredo é grave. Todo segredo se torna sombrio. Está na natureza dos segredos.
(Cory Doctorow)

Distorcem-se fatos para satisfazer teorias, e não o contrário.
(Sherlock Holmes)

O mal une os homens.
(Aristóteles)

Não há um homem justo na terra que só faça o que é certo e nunca peque.
(Eclesiastes 7:20)

Dos desejo mais profundos, muitas vezes surge o ódio mais mortal.
(Sócrates)

A vida dos mortos habita a memória dos vivos.
(Cícero)

Nossa vida provém da morte dos outros.
(Leonardo da Vinci)

Só que saber nem sempre adianta.
(Jason Gideon)

Se é preciso haver problemas, que seja na minha época, para que meus filhos tenham paz.
(Thomas Paine)

A tragédia é um meio para que os outros sobreviventes adquiram sabedoria, e não um guia para se viver.
(Robert Kennedy)

A tortura de uma consciência culpada é o inferno do ser vivo.
(John Calvin)

Viva como se fosse morrer amanhã. Aprenda como se fosse viver para sempre.
(Gandhi)

Não pode haver o bem sem o mal.
(Um velho provérbio russo)

As famílias felizes são todas parecidas. As infelizes são infelizes cada uma de seu jeito.
(Leo Tolstói)

A selva de um homem é o parque temático de outro.
(Autoria ignorada)

Os animais selvagens não matam por esporte. O homem é o único para quem a tortura e a morte de alguém da mesma espécie é diversão.
(Historiador britânico James Anthony Froude)

De todas as presunções ridículas da humanidade, nada ultrapassa as críticas feitas aos hábitos dos pobres por aqueles que têm casa, estão aquecidos e alimentados.
(H. Melville)

Nada é permanente neste mundo cruel, nem mesmo os nossos problemas.
(Charles Chaplin)

Escolho meus amigos pela boa aparência, meus colegas pelo bom caráter, e os inimigos pelo bom intelecto.
(Oscar Wilde)

O homem que experimenta êxtases e visões, que confunde sonho com realidade, é um entusiasta. O homem que alimenta sua loucura com assassinato é um fanático.
(Voltaire)

“Todas as mudanças, mesmo aquelas pelas quais ansiamos, têm sua melancolia. O que deixamos para trás é uma parte de nós mesmos. Precisamos morrer em uma vida antes de entrarmos em outra.”
(Anatole France )


“O que de esplendor outrora tão brilhante agora seja tomado de minha vista para sempre. Apesar que nada pode trazer de volta a hora de esplendor na grama, de glória numa flor, não nos afligiremos. Encontraremos forças no que ficou para trás.”
(Wordsworth)


“A mulher não deve depender da proteção do homem, mas deve ser ensinada a se proteger.” (Susan B. Anthony)

“Se soubéssemos os segredos uns dos outros, que conforto deveríamos encontrar.”
(John Churton Collins)

“Uma alma triste pode matá-lo rápido, mais rápido que um germe.”
(John Steinbeck )


“Atravessamos nossas pontes quando vamos até elas e as queimamos atrás de nós com nada para mostrar nosso progresso exceto a memória do cheiro da fumaça e a presunção de que um dia nossos olhos lacrimejaram.”
(Tom Stoppard)

“Não há como fugir da confissão através do suicídio. O suicídio é a confissão.” (Daniel Webster )


“A coisa mais autêntica sobre nós é nossa capacidade de criar, de superar, de suportar, de transformar, de amar e de sermos gratos até mesmo no nosso sofrimento.”
(Ben Okri)

“Dentro de cada um de nós está a criança que fomos um dia. Esta criança constitui a base do que nos tornamos, quem somos e o que seremos.”
(Neurocientista Dr. R. Joseph)


“Não existe nenhuma fórmula para o sucesso, exceto, talvez, pela aceitação incondicional da vida e do que ela traz.”
(Arthur Rubinstein)


“Por pagarmos um preço por tudo que obtemos ou pegamos nesse mundo, e embora ter ambições valha a pena, não devem ser vencidas de forma barata.”
(Lucy Maud Montgomery)

“Nenhum homem ou mulher que tente perseguir um ideal ao seu próprio modo, nunca o faz sem angariar inimigos”. Daisy Bates


“Sábio é o pai que conhece o próprio filho.”
(William Shakespeare)

“O Super-Homem é, afinal, uma forma de vida alienígena. Ele é simplesmente a face aceitável das realidades invasoras.”
(Clive Barker)


“O herói sombrio é um cavaleiro numa armadura de sangue coagulado. Ele é sujo e faz o possível para negar o fato de que é um herói em tempo integral.”
(Frank Miller)

“Ame a todos. Confie em poucos. Não faça mal a ninguém.”
(William Shakespeare)

“Fantasias abandonadas pela razão produzem monstros impossíveis.”
(Francisco Goya)


“Um reino na Terra não pode existir sem desigualdade entre as pessoas. Alguns devem ser livres, alguns servos, alguns líderes, alguns seguidores.”
(Martin Luther King)

“Contos de fadas não dizem às crianças que dragões existem. As crianças já sabem que dragões existem. Contos de fadas dizem às crianças que dragões podem ser mortos.”
(G. K. Chesterton)

“Na cidade, o crime se tornou um emblema de classe e raça. Porém, no subúrbio é íntimo e psicológico, resistente a generalização, um mistério da alma individual.”
(Barbara Ehrenreic)

“Aquele que controla os outros pode ser poderoso, mas aquele que é mestre de si mesmo é mais poderoso ainda.”
(Lao Tzu)

“Você ganha força, coragem e confiança em toda experiência em que você encara o seu medo. Você deve fazer aquilo que pensa que não pode fazer.”
(Eleanor Roosevelt)

10 de jan. de 2013

Redação da FUVEST


Acesse o link:

http://guiadoestudante.abril.com.br/vestibular-enem/fuvest2013-fase2-dia1.pdf

O tema foi sobre o CONSUMISMO. Era possível falar sobre o capitalismo, aparência, desigualdade, a relação entre ter e ser, entre outros assuntos.

28 de dez. de 2012

Receita de ano novo




Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 


Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumidas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 


Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.

 
Carlos Drummond de Andrade 



27 de out. de 2012

Ao invés de abolir, o Brasil está exportando “quarto de empregada”


Incomodo-me bastante que muitas plantas de apartamentos por aqui ainda tenham o “Quarto de Empregada” destacado, ao lado da cozinha e da lavanderia – versão contemporânea da senzala. Como já disse anteriormente, a crítica pode parecer besta, mas isso é carregado de simbolismo e, portanto, fundamental, herança da escravidão oficial, que moldou o nosso país. Aquele tantinho de espaço ao lado das vassouras, rodos e produtos de limpeza, destinado à criadagem me irrita. Peço perdão aos amigos que, por contingências do emprego, utilizam esse tipo de serviço, mas creio que retomar a análise é válido.
- Ah, mas ela é minha empregada e não uma pessoa da família.
Tenho vontade de jogar um litro de cândida na cabeça da “sinhá” que solta um “minha” empregada, como se fosse uma tábua de passar roupa, um objeto pessoal. Bem, daí você já retira o naipe do interlocutor.

- Ah, e onde você quer que ela durma? Junto com as outras pessoas da casa?!
O ideal seria que ganhasse o suficiente para ter sua própria residência (lembrando que as empregadas domésticas contam com menos direitos trabalhistas que o restante dos trabalhadores), que não morasse nas franjas da cidade (para onde empurramos sistematicamente os mais pobres) e pudesse se deslocar para o emprego por um sistema de transporte coletivo de qualidade. E, nos casos eventuais de dormir na casa dos patrões, deveria compartilhar um espaço mais digno que o furúnculo da casa, por exemplo, um cômodo como os dos demais moradores ou um quarto de hóspede. Você manda o seu hóspede dormir ao lado da máquina de lavar?

- Ah, mas ela prefere assim, pois se sente mais à vontade. Lá vê a novela.
Ah, pelo amor de Deus! Quem está acostumado à exploração, e não tem consciência disso, automaticamente se refugia no lugar em que, acredita, dever pertencer. Noves fora que há famílias que realmente não fazem o mínimo esforço para que a pessoa se sinta como igual. E, como sabemos, a novela só passa na TV do quarto de empregada.

Mudar isso significa um aumento no custo do trabalho doméstico que vai impactar diretamente no custo de vida de uma parcela da população, pressionando por aumento de salários de quem utiliza esses serviços e gerando demandas junto a empresas e governos. Mas se ignorarmos os direitos dessas trabalhadoras, estamos considerando que uma sociedade pode (continuar a) aceitar basear o seu crescimento sobre o esfolamento de um determinado grupo.
O ideal seria que transformações ocorressem baseadas em um processo de conscientização, mas – como sempre – isso virá como consequência de outras lógicas sociais e econômicas. Grande parte das mulheres mais pobres das novas gerações preferem outros empregos mesmo que opressores e mal remunerados (como atendentes de telemarketing) do que tentarem a sorte empregadas domésticas. Querem fugir do estigma social impostos às suas mães e avós, além de contarem com melhor formação educacional.
O custo de usar os serviços de uma empregada que durma no emprego está cada vez maior e, assim como aconteceu em outras partes do mundo, chegará o dia em que ficará proibitivo para uma grande camada da população. Nesse momento, muitos terão que dar um jeito de tocarem esses afazeres por si, demandando das empresas mais tempo livre, com redução de jornada, por exemplo.
Não é à toa que cresce o número de empregadas de países sul-americanos, como Bolívia e Paraguai. Elas não cruzam a fronteira apenas para se acabar de trabalhar em oficinas de costura, ocupando uma função que interessa cada vez menos os jovens brasileiros. Seguem também para residências.
E enquanto importamos mão de obra, os mais endinheirados – que continuarão por aqui com seus quartos de empregada – já exportam “habitações de serviço” para outros países…
O gancho de trazer novamente este assunto foi a coluna deste sábado (27) da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo. Como sempre, vale a leitura pela deliciosa ironia que permeia o seu texto:
“Quartos de empregada para brasileiros em Miami”, coluna de Mônica Bergamo
Dona da Halmoral Group, que vende imóveis de Miami (EUA) para brasileiros, a empresária Gabriela Haddad diz que foi ela, e não Yael Steiner, diretora do Centro da Cultura Judaica, quem traduziu a expressão “habitação de serviço” para “quartinho de empregada” em leilão beneficente realizado pelo CCJ nesta semana. Quem comprasse um apartamento por R$ 6,4 milhões ganhava um crédito da incorporadora que poderia reverter para o centro.
Steiner disse que a informação, publicada pela coluna, era “boba e mentirosa”. “Inventar e ironizar negativamente como se fossemos fúteis e ridículos e na minha boca ainda?” Disse também que “jamais faria comentário vulgar e discriminatório”.
A frase foi dita. Ao assumi-la como sua, Gabriela Haddad disse que era necessário explicar “o contexto”.
O quarto de empregada é um diferencial importante do prédio apresentado, o Boutique Chateau Beach, que fica em Sunny Isles, Miami. É que, lá, esse tipo de habitação não existe. As funcionárias domésticas não dormem na casa dos patrões nem ficam à disposição 24 horas por dia, como muitas vezes ainda ocorre no Brasil.
“Eu trabalho em Miami há 20 anos. Houve um boom de brasileiros comprando imóveis lá [na década de 90], quando o dólar custava um real”, afirma. “E os incorporadores pediam dicas sobre o que o brasileiro gostaria de ter no apartamento. Eu disse: ‘Quarto de empregada!’”
Os brasileiros que compram apartamentos em Miami “levam cozinheira, babá, motorista”. Para abrigá-los, têm que reformar os imóveis. “Tem gente que compra dois apartamentos e junta só para fazer a habitação de serviço”, explica Gabriela.
“Não são só os brasileiros que gostam. Todo sul-americano está habituado com isso”, diz a empresária. “Só que, nos EUA, eles não estão acostumados. É o país deles. Então, poucos prédios têm o quarto de empregada.” No máximo, “uns cinco, o que para Miami não é nada”. Os que têm o diferencial “são muito concorridos”.
Gabriela Haddad acredita que foi possivelmente a primeira a dar a preciosa dica para as incorporadoras de Miami que querem conquistar os brasileiros -que nesta década voltaram a comprar na cidade. “Eles adoram, acham bárbaro”, afirma a empresária.
Fonte
Por
Leandro Sakamoto

19 de out. de 2012

Escravidão Moderna

Olá Pessoal,

Assistam a este vídeo.

Nos últimos dois anos,  a fotógrafa Lisa Kristine tem viajado o mundo, documentando as realidades duras da insuportavelmente escravidão moderna. Ela compartilha assombrosamente belas imagens - mineiros no Congo, camadas de tijolos em Nepal - iluminando a situação dos 27 milhões de almas escravizadas em todo o mundo.

Lisa Kristine usa a fotografia para expor histórias profundamente humanas

Fonte:

http://on.ted.com/Kristine

E este vídeo:

Kevin Bales explica o negócio da escravidão moderna, uma economia multibilionária que sustenta algumas das piores indústrias sobre a terra.

Fonte:

http://www.ted.com/talks/kevin_bales_how_to_combat_modern_slavery.html

7 de out. de 2012

Eleições: tenho preguiça de quem tem preguiça de discutir política


Tenho muita preguiça de quem tem preguiça de discutir política. Principalmente em dias como este domingo, em que – ancoradas em nosso silêncio e nossa resignação – pessoas bisonhas tendem a ser eleitas para fazer rir indivíduos, empresas e organizações que os apoiam.
Sim, em última instância, somos nós os responsáveis por eleger os bisonhos supracitados. Seja por ter votado neles (reproduzindo o que terceiros disseram sem a devida análise de quem são, o que defendem e com quem estão), não votado mas também não tentado, ao menos, pautar a discussão sobre eles (quando temos certeza de que não farão um bom governo ou uma boa representação) ou , pior: não ter se interessado em saber o que faz um prefeito ou um vereador – ou se as opções que estão aí cumprem esse papel.
Passei a semana convencendo amigos e inimigos a votarem nos candidatos que, acredito, farão uma boa gestão e nos representarão na Câmara dos Vereadores. Fui à rua, conversei com pessoas do bairro onde moro (Sumaré) e naquele onde cresci (Campo Limpo), enfim, o que sempre faço nesses momentos. A internet é importante como plataforma de construção e reconstrução da realidade, mas não é a única camada de interação possível, nem a única desejável. O velho corpo a corpo é fundamental. Fiquei feliz de ter mudado votos, ainda mais de pessoas que tinham tomado suas decisões baseadas em informações erradas.
Na foto, uma preguiça que não se interessa pelos destinos da sua cidade pois, afinal de contas, é feita de pelúcia
Note que não estou citando o candidato X, Y ou Z. Não estou pregando, neste espaço, voto a alguém mas que, pelo amor que tem à sua própria qualidade de vida, você participe ativamente dos destinos da sua cidade. Ainda dá tempo de tomar conhecimento de quem é o cara ou a mina em que você vai depositar sua confiança e se ele ou ela é digno desse voto ou apenas um iogurte desnatado vendido pelo marketing. E se perder o timing, lembre-se que em muitas cidades haverá segundo turno, ou seja, chance renovada.
“Pô, mas política é chata demais.” Mas não precisa ser assim, ela parece chata porque construíram ela dessa forma. Invente sua maneira divertida de fazer política, oras, tem muita gente fazendo isso. E, principalmente, não xingue quem está travando o bom debate. Afinal de contas, a saída para contrapor uma voz não é forçar o silêncio, mas sim outra voz. O silêncio dói, machuca. O diálogo é música. Sinto um amargo na boca quando vejo pessoas que, sob o risco de verem seus argumentos naufragarem em sua própria arrogância, tentam calar o outro.
Muita gente simplesmente repete mantras que lê na internet, ouve em bares ou vê na igreja e não para para pensar se concorda ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando o outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o cotidiano.
Somos seres complexos com múltiplos níveis de relações. Tenho colegas conservadores politicamente, mas liberais em comportamento que guardo em muito mais estima do que colegas progressistas politicamente, mas com um discurso e prática comportamentais tacanhos. Afinal de contas, não é possível defender a liberdade dos povos e transbordar machismo, tratando a companheira como uma serva em casa.
É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.
Neste domingo e para o segundo turno, onde ele ocorrer, sugiro que busquem a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e ao questionarem o outro sobre as raz ões que o levam a determinada escolha, não tenha medo de colocar à prova a sua própria opção. Que se for forte o bastante, resistirá ao contato com outra ideia. Nossa natureza não é de certezas, mas de dúvidas e falhas que só conseguem ser melhor percebidas nesse contato.
Por fim, quem rompe a barreira do conformismo e tenta debater política – independentemente do seu posicionamento – é taxado como chato, babaca ou subversivo. Ou seja, um mala sem alça que não entende que a cidade é um organismo autônomo que lhe presta um favor por deixar nela viver. E ainda é obrigado a ouvir coisas do tipo: “Ignora que ele vai embora”, “Ei! Estamos numa mesa de bar e você quer conversar de política? Deixa de ser idiota!”, “Você não curtiu a foto que postei no Face da minha rosquinha no café da manhã e quer agora que eu discuta política? Você se acha, né?”
O fato é que nós não nos sentimos donos da cidade em que vivemos. Acreditamos que somos ocupantes provisórios. Caso tivéssemos essa necessária sensação de pertencimento, participaríamos realmente da vida da metrópole e perceberíamos o quão importante são dias como hoje em que decisões para os próximos quatro anos serão tomadas.
Mas a cidade, como todos sabem, não nos pertence. Entregamos ela, há muito tempo, às indústrias de automóveis, às empreiteiras e às empresas de telefonia móvel, entre outras, que sabem do que a gente realmente precisa.
Fonte:
Blog do Sakamoto