14 de jul. de 2011

A hora de virar a mesa

Já se tornou lugar-comum o despreparo de comentaristas da mídia em todos os níveis. Ler um jornal ou revista atualmente, em busca de norte para a navegação nesse ou naquele campo de cultura, é atravessar mar proceloso.
1154 A hora de virar a mesa
Muitos leitores não leem críticos ou preferem guiar-se pelo contrário do que dizem. Tal filme recebeu avaliação máxima? Melhor evitá-lo. Tal outro levou nocaute do crítico e jaz lá no pé da seção, vitimado por bordoada desferida em luta sem juiz? É melhor para o leitor dar atenção ao desventurado, pois pode tratar-se do único filme a merecer suas horas de cultura numa época em que o tempo é curto para tanta coisa.
Nada se diz de tal peça teatral? Convém conferir. No fundo das livrarias ou nos desvãos da internet, leitores e internautas encontram livros dos quais ninguém fez sequer um pálido registro? Talvez eles façam por merecer um olhar mais longo do que uma espiada.
Ruim para todos
O quadro aterrador não é muito diferente na música, nas artes plásticas, no cinema e em outras manifestações culturais e artísticas.
Quanto à literatura brasileira – ela deveria interessar a todos, é a única que expressa o brasileiro –, para ela o leitor não tem mais guias, embora boa parte das instâncias que o manipulam continuem dando excessiva importância a indicadores extraliterários, de que as listas dos mais vendidos são o exemplo emblemático.
As listas dos mais vendidos merecem algumas linhas. Digamos que elas medissem, não o fluxo de livros nas livrarias – escala necessária na viagem que faz o livro do editor ao leitor – mas as tendências de voto. O leitor aceitaria que as relações discrepassem tanto umas das outras, que algumas delas sequer citassem o candidato, afinal eleito no dia da votação?
Não. Haveria protestos de todos os lados. É que, no caso, seria enganar eleitores e esses já não podem mais ser enganados. Ao menos não pelas listas dos que estão à frente na disputa. Embora também nesse campo tenham ocorrido alguns tropeços, o povo brasileiro corrigiu os desmandos da votação. Foi ele quem, ao tornar-se eleitor, impediu diversas falcatruas, de larga tradição em nossa vida política. Os eleitores encontraram, principalmente na diversidade da mídia, no Ministério Público e na Justiça Eleitoral, as indispensáveis proteções à liberdade de escolha.
Essa conquista não se deu sem lutas. Em 1930, a República Velha receberia seu golpe de morte, desferido pela Revolução de 30. Não foi por acaso que estourou ali um dos mais belos movimentos literários, o romance de 30, que encontrou na sociedade então desamordaçada o caminho do palco, da visibilidade, do reconhecimento de um outro Brasil, até então confinado a diversos apagamentos, que veio a ser revelado e transfigurado, e agora jorrava nas páginas de escritores que logo se tornariam referências solares daquela virada.
Eram quase todos muito jovens e tinham como principal marca de seus romances um desesperado amor ao Brasil, a seus temas e problemas, a personagens calcados na vida que argutamente observavam e sabiam transformar em romances.
Jorge Amado publicou O País do Carnaval, aos 18 anos. Rachel de Queiroz lançou O Quinze, aos 20 anos. José Lins do Rego tinha 31 anos no ano de Menino de Engenho. Erico Verissimo publicou Clarissa aos 28 anos.
Dois deles eram menos jovens. Graciliano Ramos, que lançou Caetés em 1933, aos 40 anos, no ano seguinte publicava sua obra-prima, o romance São Bernardo.
É dominante na crítica que seu melhor romance é Vidas Secas. Como a de poucos outros, minha porção crítica discrepa. Vidas Secas é até cômodo, fixando-se na seca como o grande flagelo, ao passo que São Bernardo não economiza nada nas denúncias, não apenas sociais, das devastações que carcomem a condição humana, inclusive destruições psicológicas, seja dos empregados e agregados, seja de seus patrões. Numa boutade, o latifúndio é ruim para todos.
Em 1928, quando lançou A Bagaceira, José Américo de Almeida também rondava os 40 anos. (Estou escrevendo este artigo em Fartura, no interior de São Paulo, sem poder consultar meus amigos-livros em casa ou na Universidade Estácio de Sá, no Rio, e eles me fazem uma falta danada. Além do mais, como todos os que viajam, estou sendo vítima de outra trapaça: a internet 3G. Atenção, Ministério Público: sei que a luta de vocês é árdua e tem outras prioridades, mas aguardo alguma providência contra as operadoras que nos enganam com internet à lenha, a que chamam “3G”.)
Hospício decadente
O que houve depois do tremendo sucesso dos romancistas de 1930? Uma rearticulação de setores retrógrados e meio míopes que, auxiliados pela nascente universidade brasileira – sim, não existia universidade no Brasil – tomaram o Modernismo no colo e nunca mais cuidaram dos outros filhos da mãe-literatura. Aliás, ainda não fizeram o enterro do cadáver, que jaz em essa pública, em catafalco de todos visto, em cenotáfio choroso – em resumo, o Modernismo é um morto em eterno velório, que já demorou demais a ser enterrado.
Caramba! O Modernismo é o ponto final de qualquer programa escolar de literatura brasileira. Todos vão apenas até ali. O Modernismo é o finis terrae de nossas letras. E no entanto ano que vem ele completa 90 anos!
O boom que a literatura brasileira experimentou a partir dos anos 1960 e 1970 ainda não mereceu atenção. Nem da crítica, com raras exceções, nem da mídia. Antes atenta aos autores brasileiros, a mídia há pelos vinte anos ignora quem são nossos verdadeiros escritores, o que escrevem, quais são seus temas e onde estão homiziados. E em todos os gêneros eles mostram uma vigorosa, exuberante, criatividade em temas e personagens nunca dantes vindos às páginas literárias.
Atentos à produção literária estiveram em memoráveis jornadas profissionais como Geraldo Galvão Ferraz, Wladyr Nader e Wladir Dupont, que avisavam aos navegantes que tinham surgido novos escritores no Sul, no Norte, no Leste, no Oeste nos anos 1970 e 80. Para quem foram entregues essas editorias? Quem sucedeu Mário Pontes no Jornal do Brasil, Carlos Menezes no Globo, Antonio Hohlfedlt, Guilhermino César e Paulo Gastal no Correio do Povo, Danilo Ucha em Zero Hora, entre tantos outros?
Jornalistas especializados procuravam, com modéstia, inteirar-se do que estava acontecendo na literatura brasileira e, com independência, comentando o que tinham lido, lastreados por um saber feito na universidade ou fora dela, davam aos leitores verdadeiros guias de leitura. E numa linguagem que todos entendiam.
Há pelo menos vinte anos a crítica, quando acontece, está confinada à universidade. E o que de lá exala é preocupante, a começar pelos hagiológios e pelas condenações. O cânone literário faliu há décadas. Parece um hospício decadente. Lá está quem não deveria estar, pois que faleceram até os médicos que cuidavam deles. E para lá entrou quem não merecia ser ali albergado.
Outro negócio
Perguntado sobre a razão de não incluir certos autores italianos numa antologia, o escritor Giovanni Papini, sempre criativo, sagaz e mordaz, disse: “Minha antologia não é dormitório público”.
Se dissesse a mesma coisa no Brasil, seria chamado de censor e dele os ignaros, cada vez mais despreparados e mais vaidosos, diriam que tal escolha é censura, perseguição, raiva, algum sentimento menor. Por razão semelhante, Manuel Bandeira por pouco não ficou de fora de uma antologia da poesia brasileira.
Ele não ficou de fora, mas hoje os fazedores de resenhas ainda ignoram romancistas como Benito Barreto – bebê de um ano quando explodia o romance de 1930 – e agora de volta com três novos romances sobre a Inconfidência, depois de ter a extraordinária saga de Os Guaianãs ignorada por décadas. Tendo passado dos 80 anos, ao lado de Salim Miguel (também com novos livros lançados), também da geração que antecedeu a minha, parecem os grandes exemplos do brutal descaso que a mídia vem dedicando aos autores brasileiros, ajudada por quinta-colunas que na universidade só falam se podem repetir alguma coisa ou falar segundo algum pressuposto previamente aprovado por orientadores e membros de bancas examinadoras, os únicos a lerem seu trabalho crítico, e às vezes de forma equivocada.
E por que tudo isso impunemente? Porque somos um país de eleitores, mas ainda não somos um país de leitores.
Tudo é desanimador? Não. Para cada editor ou autor que se acovardou e não quer mexer na geleia geral, porque seu negócio não são mais as livrarias, mas as vendas aos governos, aqui e ali faíscam autores e críticos que vão nos salvar da grande catástrofe. É dever da mídia, não favor, dar atenção a eles e fazer o devido discernimento.
* Deonísio da Silva é escritor e doutor em letras pela USP, é pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá e diretor de Relacionamento; seus livros são publicados no Brasil pela Editora Leya e Novo Século.
** Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.
(Observatório da Imprensa)

    EUA ignoram torturadores

    A política adotada pelo presidente dos EUA, Barack Obama, quanto ao uso de tortura no governo de George W. Bush tem sido um tanto dúbia. Obama ordenou o fim desse tipo de prática, mas evitou uma investigação - muito menos um processo - envolvendo membros do governo anterior. O cálculo foi político: pôr fim aos crimes que vinham sendo praticados por funcionários americanos era um assunto inegociável para Obama, mas investigar supostas ilegalidades cometidas por seu antecessor foi considerado algo que custaria muito caro.
    O novo presidente tinha outras prioridades - organizar uma economia devastada, implementar a reforma do sistema de saúde - e vasculhar os crimes do governo anterior seria uma iniciativa muito perturbadora e hostil quando votos republicanos eram necessários.
    Assim, o presidente adotou o lema do "olhar para frente, não para trás". Sob a vigilância de Obama, os agentes encarregados dos interrogatórios não torturariam os suspeitos, nem os enviariam para o exterior para serem torturados por outros. Não haveria mais justificativas legais deturpadas para a tortura, tampouco eufemismos baratos como "técnicas de interrogatório reforçadas". Mas também não seriam feitas investigações sobre esse horrível capítulo da história americana.
    A única exceção foi um inquérito confiado ao assessor especial John Durham, que investigou agentes cuja crueldade extrapolou até mesmo as técnicas de interrogatórios autorizadas. Esse exame terminou no mês passado e foi decidido que serão apuradas duas mortes de suspeitos de terrorismo que estavam sob custódia da CIA, mas não os cerca de 100 outros casos de supostos abusos.
    A questão mais importante nunca foi a tortura desmedida, mas sim a tortura autorizada. O mentor do 11 de Setembro Khalid Sheik Mohammed, por exemplo, foi submetido a uma "simulação de afogamento" 183 vezes. Foi esse o problema e não se algum agente pôde ter submetido, sozinho, o preso a mais uma, elevando o número para 184 vezes.
    Mensagem perigosa. A supressão deliberada desse vergonhoso passado por Obama é errada. Reflete uma má política, um desleixo com as responsabilidades presidenciais e um desrespeito contínuo da lei internacional.
    A tortura é tratada como opção política, que pode ser adotada ou não ao arbítrio presidencial. Obama proibiu a prática. Mas, ao se recusar a enfatizar que se trata de um crime, com a instauração de um processo, ele deixa a porta aberta para futuros presidentes retomarem a tortura diante de um próximo desafio à segurança.
    A passividade de Obama faz dos EUA um país que viola as normas internacionais. A Convenção contra a Tortura, ratificada pelos EUA e 146 países, assim como as Convenções de Genebra, mais do que proíbem a tortura em qualquer circunstâncias, elas também exigem que casos nos quais esse instrumento foi usado sejam investigados e julgados.
    Não faltam evidências de que autoridades do governo Bush, incluindo o ex-presidente, ordenaram a tortura. A organização Human Rights Watch divulgou um relatório repleto de provas, incluindo um reconhecimento do fato por Bush e outras pessoas. Está na hora de agir com base nessas provas. Pode ser difícil politicamente, mas a viabilidade dessa proibição fundamental da tortura é importante demais para ser descartada por conveniência política. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


    **Kenneth Roth, diretor da Human Rights Watch
    O Estado de S. Paulo (14/07/11) 

    O melhor de Darwin

    As teorias de Charles Darwin sobre a evolução e a seleção natural das espécies só foram recebidas no início com entusiasmo por uma pequena parcela da comunidade cientifica. Houve, de fato, muita resistência nos primeiros anos após a publicação, em 1859, de A Origem das Espécies, e suas ideias, apesar de formarem o esteio de boa parte da ciência moderna, são ainda hoje combatidas pelos criacionistas.
    Darwin já esperava uma forte oposição de fundo religioso ao propor que o homem tivesse evoluído do macaco e ao colocar por terra os 5.000 anos que a Bíblia calculava para a idade do universo. Também sabia que cientistas mais conservadores resistiriam às suas propostas e o atacariam violentamente.
    Entre aqueles que Darwin respeitava e cuja aprovação lhe parecia importante, figurava St. George Mitvart, um biólogo católico inglês que julgou inicialmente as ideias evolucionistas extremamente instigantes. Acenou-lhe com um apoio que o grande cientista apreciou e valorizou tanto mais, que destoava da maior parte das reações de seus pares.
    Mais tarde, Mitvart voltou atrás e tornou-se cada vez mais cético. Até publicar, em 1871, Da gênese das espécies, livro no qual criticava ferozmente seu colega, posição que marcou a ruptura entre os dois cientistas.
    Em janeiro de 1871, data da carta aqui reproduzida, Darwin nada sabia do teor do livro de Mitvart ,até receber o exemplar mandado por ele, logo após sua publicação. Por coincidência, Darwin publicava no mesmo momento o primeiro volume da Descendência do Homem  – sua segunda obra mais importante -, e mandara um exemplar a Mitvart ao mesmo tempo em este lhe enviava seu livro, no qual rejeitava a seleção natural.


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    A carta, escrita imediatamente após o grande naturalista ter recebido o libelo de seu adversário, é uma obra-prima de fina ironia e merece ser transcrita na integra:
    "21 de janeiro de 1871
    Meu caro senhor,
    Sou-lhe muito grato por seu amável presente. Levarei algum tempo para lê-lo, pois só posso ler aos poucos qualquer coisa que exija muito raciocínio. Se eu soubesse que seu livro havia sido publicado, não teria naturalmente pedido que lhe enviassem o primeiro volume do meu livro. Também suponho que não lhe dará muita atenção.
    É provavel que provoque a sua indignação.Mas sempre posso me consolar ao pensar que fiz o melhor que pude.
    Sinceramente seu ,
    Charles Darwin”
    Que o autor daquela que muitos consideram a maior teoria científica do século XIX se posicione apenas como alguém que fez “o melhor que pode” confere a esta carta, para o leitor moderno, um sabor especial que ainda engrandece – se é que é possível – o gênio de Darwin.

     ** Pedro Corrêa do Lago
    * Publicado na Revista Piauí

    13 de jul. de 2011

    Exploração sexual infantil na Copa do Mundo

    É incontestável que a realização de megaeventos e grandes obras geram desenvolvimento econômico, fomentam o turismo e o comércio, ampliando o mercado de trabalho, a infraestrutura urbana e também influenciam o desenvolvimento social. No entanto, quando os grandes eventos e obras são realizados de forma açodada e sem planejamento, como demonstram as investidas empresariais e governamentais relacionadas às obras da Copa do Mundo de 2014, os problemas sociais e a criminalidade, como tráfico de drogas, o turismo sexual e a exploração sexual infantil, podem se agravar.
    Provas disso são as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) de Jirau e Santo Antonio, em Rondônia, que, segundo entidades de direitos humanos, resultaram num aumento em 20% dos casos de abusos e exploração sexual infantil e na multiplicação do número de estupros na região, além de vários outros crimes e situações de riscos que se proliferaram.
    Em 2007, antes, durante e após os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, se verificou a ampliação das ocorrências de exploração sexual, limpeza social, violência policial e da criminalidade em geral. E assim são muitos outros exemplos de obras e eventos que pouco deixam de legado social. Muito pelo contrário, ampliam as desigualdades, as mazelas sociais e a violência que atinge os setores mais vulneráveis da sociedade, como crianças e jovens.
    Atualmente, cidades como Fortaleza, Salvador, Natal, Recife, São Paulo, Rio, entre outras capitais que vão sediar jogos da Copa do Mundo, figuram numa liderança nada promissora com relação à frequente ocorrência de situações de violência sexual contra crianças e adolescentes.
    Mais de 70% das denúncias de abusos e exploração sexual feitas ao Disque 100, em 2011, são de casos relacionados às 12 cidades que sediarão os jogos de 2014. Esta constatação, levando em conta o passado e o presente nada abonador dos grandes eventos e obras, deve gerar preocupação e ação das autoridades municipais, estaduais, federais e dos setores empresariais – excitados com os dividendos políticos e com os lucros financeiros da Copa.
    É indispensável que o Congresso Nacional, ao invés de tratar do sigilo das licitações das obras, discuta o que realmente é prioritário: a realização de estudos de impactos e licenciamentos sociais, além dos ambientais, a serem aprovados nos Conselhos, para que as intervenções e compensações sociais antecedam as grandes obras e eventos, visando a garantir os bens maiores do país, que são vida digna e a integridade das pessoas.
    * Ariel de Castro Alves é advogado, vice- presidente da Comissão Especial da Criança, do Adolescente e do Idoso do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e presidente da Fundação Criança de São Bernardo do Campo.
    ** Publicado originalmente no site Adital.

    7 de jul. de 2011

    Sigilo eterno

    Como teria sido importante o povo brasileiro ter direito à transparência histórica!
    162 Sigilo eternoEncerrado o apocalipse, julgados vivos e mortos na grande assembleia universal do Vale de Jericó, Matusalém e Noé, encarregados do rescaldo final, encontraram nos escombros de Brasília, espalhados entre ruínas dos Ministérios, os arquivos ultrassecretos da República.
    ― Veja só, Noé, estes aqui trazem o carimbo de “sigilo eterno”.
    ― Eterno!? Essa gente não deu ouvidos ao que disse Jesus, que tudo aquilo que se passasse às ocultas seria proclamado nos telhados? Do que as autoridades brasileiras se envergonhavam? – indagou o ancião da arca.
    ― Vejamos esses papéis aqui. Tratam da Guerra do Paraguai. Eis o relatório da atuação do comandante Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias… Nossa, Noé, que coisa!… Como os soldados brasileiros foram cruéis com os paraguaios!
    ― Soldados, Matusalém!? Leia isto aqui: escravos arregimentados sob a promessa de uma liberdade que nunca veio. A maioria teve a morte como prêmio de combate.
    ― Nossa, Noé, e o Barão do Rio Branco! Como ele ousou ampliar assim, na cara de pau, as fronteiras do Brasil!?
    ― É, Matu, por isso há quem, no Itamaraty, prefira que os documentos fiquem à sombra das barbas do Barão. A história se faz entre heroísmos e baixarias. Só que sempre foi escrita pelos vencedores, jamais pelas vítimas. Isso de “sigilo eterno” foi para jogar as infâmias para debaixo do tapete.
    ― Veja isso aqui, Noé, os arquivos da ditadura militar. Repare neste mapa: assinala quando, quem, como e onde foram presas, torturadas e assassinadas as vítimas cujos corpos jamais foram localizados e pranteados por suas famílias. E ainda constam os nomes dos militares que participaram de torturas, assassinatos e sequestros.
    ― Matu, e este documento aqui, que vergonha!
    ― Vergonha por quê?
    ― São os “decretos secretos” da ditadura. Como um documento público, o decreto, pode ser secreto? Isto é o mesmo que alguém se apresentar como ladrão honesto…
    ― Ora, Matu, vergonhosos são esses papéis que tratam dos governos Sarney e Collor.
    ― O que há de interessante neles?
    ― São dados estarrecedores! Quanta sujeirada em tantos governos do Brasil! Haja tráfico de influência, corrupção, nepotismo e favorecimentos. Agora compreendo por que as autoridades brasileiras sonegaram aos historiadores tantos períodos e fatos da história do Brasil!
    ― Naquela pasta ali – disse Noé – estão as licitações secretas da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 no Brasil. Haja maracutaia! Obras que ficariam em quinhentos foram multiplicadas por bilhões!
    ― Pena que o mundo acabou, a história findou e toda essa gente virou pó. Como teria sido importante o povo brasileiro ter direito à transparência histórica! Com certeza teria evitado que a nação repetisse tantos erros e reelegesse aqueles que distorceram os fatos e os encobriram para perpetuarem uma boa imagem que jamais mereceram.

    * Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de Diário de Fernando – Nos Cárceres da Ditadura Militar Brasileira, entre outros livros.
    ** Publicado originalmente no site Brasil de Fato.

    Falando francamente sobre consumo e consumismo

    Somos, por natureza, seres consumidores e estamos no topo da cadeia alimentar. Logo, consumir é nosso destino natural, o problema são os excessos. Excesso de gente, que já está demais e que continua se multiplicando globalmente, embora se reduza em diversos países e regiões. Cada boca que nasce demanda por mais recursos naturais, que não são infinitos. Mas existe um excesso ainda pior, o da desigualdade social, que permite que uns poucos possam se apropriar de mais recursos que a maioria, ou seja, não adiantará muito diminuir o excesso de gente sem também diminuir a ganância.
    139 300x225 Falando francamente sobre consumo e consumismoO mundo atual se construiu em torno da falsa ideia de que o mercado será capaz de suprir as necessidades humanas, a ponto de aceitarmos a organização da sociedade em classes sociais em função do poder de consumo. Quem pode consumir muito pertence às classes altas, os remediados, à classe média, e os pobres, às classes baixas. A reboque do conceito do poder aquisitivo surge quase que naturalmente a falsa noção de que os que têm muito são mais importantes e têm mais direitos do que os que não têm, e isto é absolutamente falso, pois somos todos iguais em dignidade e direitos. O mercado só consegue ser solução para os que têm dinheiro. Para os demais, é preciso políticas públicas.
    O problema não está só no colapso ambiental, mas no colapso ético e moral que nos põe em risco enquanto humanidade e civilização muito antes de desaparecermos enquanto espécie. Se as pessoas aceitarem a ideia de uma sociedade que valoriza o dinheiro acima dos valores humanos, acumular riquezas pode se tornar um fim em si mesmo em vez de meio de vida, aliás, a própria ideia de vida pode se empobrecer a ponto de se resumir a produzir numa ponta e consumir na outra. Bem longe da ideia de viver em abundância e plenamente. Em vez de nos tornarmos mais solidários e cultivarmos bons valores e a cidadania, acabaremos valorizando muito mais o individualismo, o materialismo, a competição desmedida, a insensibilidade com os menos favorecidos.
    E tudo isso baseado numa mentira, a de que se todos alcançarem os mesmos padrões de consumo dos mais ricos, será possível haver recursos naturais para todos. Fazer com que todos acreditem nesta mentira é conveniente para os que dominam e controlam os recursos e as riquezas, pois em vez de pedir por mudanças, as pessoas vão querer que tudo continue como está, na esperança de que um dia chegará a sua vez e que só não chegou ainda por que não foram capazes ou merecedores o suficiente. Não é de se admirar que seja tão difícil ser sustentável e compatibilizar progresso e meio ambiente.
    Mas não é impossível. Não só outro mundo é possível como já vemos por todos os lados os sinais dessa mudança. Por mais que alguns gostem de se iludir com falsas promessas de consumo, eles percebem os sinais de esgotamento do Planeta. Um novo mundo já está nascendo do velho mundo, e o que assistimos são as dores do parto.
    Precisamos é de coragem para persistir nos caminhos da mudança e valorizar escolhas diferentes das que trouxeram a humanidade à beira do colapso.
    Não temos que comprar tudo o que vemos nas prateleiras. Não temos de acreditar em tudo o que se diz nas propagandas e devemos duvidar das informações tendenciosas, mentirosas, e de manipuladores. Não temos que seguir a moda e descartar um produto que ainda serve. Não precisamos de nenhum bem de consumo para amar e sermos amados, ou para sermos felizes, ou para nos sentirmos importantes e reconhecidos socialmente.
    Da mesma maneira que temos a liberdade de consumir o que nosso dinheiro ou crédito a perder de vista nos permite, também temos a liberdade de recusar o consumo desperdiçador de recursos. Podemos escolher consumir criteriosamente, apenas para atender a necessidades objetivas e realmente necessárias, preferir produtos socioambientalmente responsáveis, recicláveis, que fortaleçam as cadeias produtivas locais e a criatividade de nossos trabalhadores e artesãos. Podemos consumir de maneira planejada em vez de agir por impulso. Temos o poder de dizer sim e também de dizer não. Somos nós o poder do mercado.
    Não foi o consumismo que nos fez assim. Ele apenas aproveitou a oportunidade por sermos assim e encheu as lojas e prateleiras e nossos sonhos e desejos de bugigangas e objetos, que no final podem nem ser tão importantes para vivermos uma vida plena e feliz.
    Os inimigos não estão fora de nós. Para resolvermos a crise socioambiental em que nos metemos, teremos de ter a coragem de admitir que somos uma parte importante do problema – e também da solução.
    * Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a Rebia – Rede Brasileira de Informação Ambiental e edita, deste janeiro de 1996, a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente. Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas.

    5 de jul. de 2011

    O melhor do bairro emergente

    A legendária alegria brasileira começa a se refletir na fria realidade das estatísticas. Um estudo coloca números a esse estado de ânimo ao quantificar a significativa redução da desigualdade social nos últimos anos, superior à conseguida por outros países emergentes. A pesquisa “Os emergentes dos emergentes”, apresentada pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS-FGV), compara o desempenho econômico-social do Brasil com o de China, Rússia, Índia e África do Sul, os outros membros do grupo Brics.
    149 O melhor do bairro emergente
    Esse conjunto de nações, que abriga atualmente mais da metade dos pobres do mundo, multiplicará por sete, até 2050, sua relação com a renda gerada pelo Grupo dos Sete países mais ricos do mundo, segundo destaca a introdução do estudo, realizado com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Baseado em índices do Gallup World Poll de 2009 sobre “o grau de satisfação de vida”, o coordenador do informe, Marcelo Neri, comparou “o índice de felicidade” entre os países do Brics.
    Dessa forma estabeleceu que, enquanto no Brasil, em uma escala de 0 a 10, o índice de felicidade é de 8,7%, na África do Sul e Rússia é de 5,2%, e o da China e Índia de 4,5%. “Superamos os demais países”, comemorou Neri em entrevista à IPS. “Mas, melhor do que isso, o Brasil é o único dos Brics que melhorou no ranking mundial da felicidade, passando da posição 22, em 2006, para a 17, em 2009, acrescentou. Neri, que como economista tem o vício de comparar, diz que como brasileiro o faz ainda mais.
    Ironizando o costume local de colocar-se como “os maiores do mundo” em qualquer item de análise, explicou que, embora integre o Brics, o que prefere de verdade é estar “entre os BIG”, em uma referência aos países que ganharam mais campeonatos mundiais de futebol, que são Brasil com cinco títulos, Itália com quatro e Alemanha com três. Brincadeira à parte, o que de fato deixa os brasileiros felizes não é nem o futebol e nem o carnaval, mas o vertiginoso ritmo de ascensão social da última década.
    O estudo busca identificar, por exemplo, se o crescimento macroeconômico se reflete no bolso do cidadão comum e os setores beneficiados com isso em cada país. Com esse propósito, indica que entre 2003 e este ano cerca de 48,7 milhões de brasileiros saíram da pobreza e subiram nas classificações A, B e C. O critério utilizado pelos pesquisadores é colocar quem tem renda mensal maior ou equivalente a US$ 4.215 na classe A; os que recebem entre US$ 3.233 e US$ 4.215 na B, e os que estão entre US$ 750 e US$ 3.233 na C. Abaixo desse nível de renda fica a classe D, entre US$ 468 e US$ 750, e a classe E, que são os menos favorecidos, com renda abaixo de US$ 468.
    Os milhões de pessoas que subiram para a classe média durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) o conseguiram, segundo Neri, graças à estabilidade econômica, ao aumento do emprego formal e a programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.
    “É como se uma Espanha ou uma Argentina completa tivessem saído da pobreza e entrado na classe média”, comparou Neri, que se declarou surpreso pelo “tamanho da nova classe consumidora”. E acrescentou: “É um contingente gigantesco de pessoas que se incorpora ao mercado, o que explicaria, por exemplo, a recentemente anunciada fusão entre as redes de supermercados Carrefour e Pão de Açúcar”. “Muitas pessoas agora querem comer mais e melhor”, afirmou.
    Segundo o estudo, a nova dinâmica social fez com que a classe C seja agora a mais numerosa do Brasil, ao compreender 55% dos 191 milhões de brasileiros. Também se destaca que o surgimento de “uma nova classe emergente em um país emergente”, ocorre em um contexto de vertiginosa redução da desigualdade social. O Brasil é o país do Brics que, apesar de não crescer ao ritmo dos outros, conseguiu distribuir melhor sua riqueza, segundo essas estatísticas.
    Um indicador dessa melhoria, segundo Neri, é que a renda familiar cresceu em um ano e meio 1,8% acima do produto interno bruto, enquanto na China essa relação é inversa quase na mesma porcentagem no período 2003-2010. “O microssocial está evoluindo melhor do que o macroeconômico, ao contrário dos outros países do Brics, concluiu o especialista.
    Nos últimos dez anos, por exemplo, a renda de 50% dos mais pobres do Brasil cresceu 68%, enquanto a dos 10% mais ricos cresceu apenas 10%. No mesmo período, o Brasil teve o segundo melhor índice de crescimento anual de renda familiar na faixa de 20% dos mais pobres, com aumento de 6,3%, atrás da China, com 8,5%, e seguida de África do Sul com 5,8% e Índia com 1%.
    “A desigualdade social cai no Brasil, enquanto aumenta em todos os outros países do Brics”, destacou Neri. O economista citou os casos de China e Índia, onde a classe social com renda maior e com maior formação profissional é a que melhora. No Brasil, por outro lado, esse crescimento ocorre nos setores tradicionalmente sem qualificação profissional e com históricas “relações quase de escravidão trabalhista”, como as empregadas domésticas e os trabalhadores gastronômicos e da construção, bem como os pequenos agricultores. Todos os que agora começam a se incorporar ao mercado formal de trabalho.
    O economista Adhemar Mineiro, do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos, atribui esses resultados aos aumentos do salário mínimo e, em menor medida, aos programas de transferência de renda adotados a partir da chegada de Lula ao governo.
    “O que parece acontecer no Brasil, impulsionado também por essas políticas, é uma enorme expansão do crédito para consumo popular e, por fim, a ampliação da cidadania econômica, de consumo para uma importante parte da população”, disse à IPS Mineiro, também assessor da Confederação Sindical das Américas.
    E também acrescenta um fator político e histórico. “No Brasil temos, após muitos anos, uma coincidência entre um ciclo democrático no campo político e um ciclo de crescimento econômico, como não ocorria desde a segunda metade da década de 1950”, ressaltou.
    No entanto, alertou que existe uma “certa soberba” em considerar que a população que sai da miséria “quase imediatamente se transforma em uma nova classe média”. Um fenômeno no qual – esclareceu – devem ser medidos outros componentes, não apenas econômicos, mas também sociológicos e antropológicos.
    “É fundamental verificar se, com a continuidade desse processo, essa expansão do consumo poderá se transformar em motor de crescimento da economia, gerando um processo estrutural de longo prazo ou se os setores conservadores insistirão na integração do país ao mercado mundial como exportador de matérias-primas agrícolas e minerais como ocorre agora”, afirmou.
    Apesar do otimismo e da “felicidade”, Neri também admitiu que o caminho a percorrer ainda é longo, pois 24 milhões de brasileiros ainda estão excluídos dos benefícios econômicos. Um caminho longo para mudar a lógica expressa na canção de Vinicius de Morais e Tom Jobim, que no refrão diz: “Tristeza não tem fim… felicidade sim”. 

    Fabiana Frayssinet, da Envolverde/IPS

    Uma nova sociedade ou um tsunami social-ecológico?

    No último artigo, aventei a ideia, sustentada por minorias, de que estamos diante de uma crise sistêmica e terminal do capitalismo e não de uma crise cíclica. Dito em outras palavras: foram destroçadas as condições de sua reprodução, seja por parte da devastação da natureza e dos limites alcançados de seus bens e serviços, seja por parte da desorganização radical das relações sociais, dominadas pela economia de mercado com a predominância do capital financeiro. A tendência dominante é pensar que se pode sair da crise, voltando ao que era antes, com pequenas correções, garantindo o crescimento, resgatando empregos e assegurando lucros. Portanto, continuarão os negócios as usual.
    144 Uma nova sociedade ou um tsunami social ecológico?As bilionárias intervenções dos Estados industriais salvaram bancos, evitaram uma derrocada sistêmica, mas não transformaram o sistema econômico. Pior ainda, as injeções estatais facilitaram o triunfo do capital especulativo sobre a economia real. Aquele é tido com o principal deslanchador da crise, comandado por verdadeiros ladrões que colocam o lucro acima do destino dos povos, como se viu agora com a Grécia. A lógica do lucro máximo está destruindo os indivíduos, as relações sociais, penalizando os pobres, acusados de dificultar a implantação do capital. A bomba foi mantida com o estopim. Um problema maior qualquer poderá acender o estopim. Muitos analistas se perguntam amedrontados: a ordem mundial sobreviveria a outra crise do tipo da que tivemos?
    O sociólogo francês Alain Touraine assevera em seu recente livro Após a Crise (Vozes 2011): ou a crise acelera a formação de uma nova sociedade ou vira um tsunami que poderá arrasar tudo o que encontrar pela frente, pondo em perigo mortal nossa própria existência no planeta Terra (p. 49.115). Razão a mais para sustentar a tese de que estamos em face de uma situação terminal deste tipo de capital. Impõe-se a urgência de pensar valores e princípios que poderão fundar um novo modo de habitar a Terra, organizar a produção e a distribuição dos bens, não só para nós (superar o antropocentrismo), mas para toda a comunidade de vida. Este foi o objetivo da produção da Carta da Terra, animada por M. Gorbachev que, como ex-chefe de Estado, da União Soviética, conhecia os instrumentos letais disponíveis para a destruição até da última vida humana, como afirmou em várias reuniões.
    Aprovada pela Unesco em 2003, ela contém, efetivamente, “princípios e valores para um modo de vida sustentável como critério comum para indivíduos, organizações, empresas e governos”. Urge estudá-la e deixar-se inspirar por ela, sobretudo agora, na preparação da Rio+20.
    Ninguém pode prever o que virá após a crise. Há apenas insinuações. Estamos ainda na fase do diagnóstico de suas causas profundas. Lamentavelmente são, sobretudo, economistas que fazem análises da crise e menos sociólogos, antropólogos, filósofos e estudiosos das culturas. O que está ficando claro é que houve um triplo descolamento: o capital financeiro se descolou da economia real; a economia em seu conjunto, da sociedade; e a sociedade em geral, da natureza. Esta separação criou uma fumaça tal que já não vemos quais caminhos seguir.
    Os “indignados” que enchem as praças de alguns países europeus e do mundo árabe, estão colocando este sistema em xeque. Ele é ruim para a maioria da humanidade. Até agora eram vítimas silenciosas. Agora gritam alto. Não só buscam emprego, mas reclamam direitos humanos fundamentais. Querem ser sujeitos, vale dizer, atores de outro tipo de sociedade na qual a economia esteja a serviço da política e a política a serviço do bem viver das pessoas entre si e com a natureza. Seguramente não basta querer. Impõe-se uma articulação mundial, a criação de organismos que viabilizem um outro modo de conviver e uma representação política ligada aos anseios gerais e não aos interesses do mercado. Trata-se de refundar a vida social.
    Por mim, vejo os indícios, em muitas partes, do surgimento de uma sociedade mundial ecocentrada e biocentrada. O eixo será o sistema-vida, o sistema-Terra e a Humanidade. Tudo deve servir a esta nova centralidade. Caso contrário, dificilmente evitaremos um tsunami ecológico-social possível.

    * Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor, autor de Opção-Terra. A solução para a Terra não cai do céu (Record, 2010).
    ** Publicado originalmente no site Adital.