14 de ago. de 2012

A medíocre elite social brasileira


Um dos preconceitos mais firmemente bem estabelecidos no Brasil é aquele que afirma que a culpa de todos os problemas do país decorre da “ignorância do povo”. A elite social da população brasileira, formada pelas classes A e B, em linhas gerais, está profundamente convencida de que o seu status de elite social lhe concede – como um bônus – também o título de “elite intelectual” do país.
Dentro desse raciocínio, a elite brasileira “chegou lá” não apenas economicamente, mas também no que diz respeito às esferas intelectuais e morais – talvez até espirituais. O país só não vai pra frente, portanto, por causa dessa massa de ignóbeis das classes inferiores. Embora essa ideia preconcebida seja confortável para o ego dos que a sustentam, os fatos insistem em negar a tese do “povo ignorante versus elite inteligente”.
O motivo é simples de entender: em nenhum lugar do mundo, a figura genericamente considerada do “povo” se destaca como iluminada ou genial. Por definição, uma autêntica elite intelectual de um país se destaca, precisamente, por seu contraste com a mediocridade (aí entendida como “relativa ao que é mediano”). Ou seja, não é “o povo” que tem obrigações intelectuais para com a elite social, e sim, justamente o contrário: é preferencialmente entre a elite social e econômica que se espera que surja, como consequência das melhores condições de vida desfrutadas, uma elite intelectual digna do nome.
Analfabetos funcionais
Uma elite social que, intelectualmente, faça jus ao espaço que ocupa na sociedade, não apenas cumpre com o seu papel social de dar algum retorno ao meio que lhe deu as condições para uma vida melhor como, ainda, cumpre o seu papel de servir como exemplo – um exemplo do tipo “estude você também”, e não um exemplo do tipo “lute para poder comprar um automóvel tão caro quanto o meu”.
Tendo isso em mente, torna-se fácil perceber que o problema do Brasil não é que o nosso povo seja “mais ignorante”, pela média, do que a população dos Estados Unidos ou das maiores economias europeias. O problema, isso sim, é que o nosso país ostenta aquela que é talvez a elite social mais ignorante, presunçosa e intelectualmente preguiçosa do mundo, que repele qualquer espécie de intelectualidade autêntica precisamente porque acredita que seu status social lhe confere, automaticamente, o decorrente status de membro da elite intelectual pátria, como se isso fosse uma espécie de título aristocrático.
Nenhum país do mundo tem um povo cujo cidadão médio é extremamente culto e devorador de livros. O problema se dá quando um país tem uma elite social que é extremamente inculta e lê/escreve num nível digno de analfabetismo funcional. Pesquisas recentemente divulgadas dão por conta que apenas 25% dos brasileiros são plenamente alfabetizados, e que o número de analfabetos funcionais entre estudantes universitários é de 38%. A elite social brasileira possivelmente acredita que a totalidade desses 75% de deficientes intelectuais encontra-se abrangida pelas classes C, D e E.
Sem diferença
Será mesmo? Outra pesquisa recentemente divulgada noticiava que o brasileiro lê uma média de cerca de quatro livros por ano. Enquanto os integrantes da Classe C afirmavam ter lido 1,79 livro no último ano, os integrantes da Classe A disseram ter lido 3,6. O número é maior, como naturalmente seria de se esperar, mas a diferença é muita pequena dado o abismo de condições econômicas entre uma classe e outra. Qual é o dado grave que se constata aí? Será que o problema real da formação intelectual do nosso país está no fato de que o cidadão médio lê apenas dois livros por ano? Ou está no fato de que a autodenominada elite intelectual do país lê apenas quatro livros por ano? Vou encerrar o argumento ficando apenas no dado quantitativo, sem adentrar a provocação qualitativa de questionar se, entre esses quatro livros anuais, consta alguma coisa que não sejam os últimos e rasos best-sellers de vitrine, a literatura infanto-juvenil e os livros de dieta e autoajuda.
O que importa é ter a consciência de que o descalabro intelectual brasileiro não reside no fato de que o típico cidadão médio demonstra desinteresse pela vida intelectual e gosta mais de assistir televisão do que de ler livros. Ora, este é o retrato do cidadão médio de qualquer país do mundo, inclusive das economias mais desenvolvidas.
O que é digno de causar espanto é, por exemplo, ver Merval Pereira sendo eleito um imortal da Academia Brasileira de Letras em virtude do “incrível” mérito literário de ter reunido, na forma de livro, uma série de artigos jornalísticos de opinião, escritos por ele ao longo dos anos. Ou seja: dependendo dos círculos sociais que você frequenta, hoje é possível ingressar na Academia Brasileira de Letras meramente escrevendo colunas de opinião em jornais. Podemos sobreviver ao cidadão médio que lê dois livros por ano, mas não estou convencido de que podemos sobreviver a uma suposta elite intelectual que não vê diferença literária entre Moacyr Scliar e Merval Pereira.
“Vão ter que me engolir”
Apenas para referir mais um exemplo (entre tantos) das invejáveis capacidades intelectuais da elite social brasileira: na semana passada, o jornal Folha de S.Paulo noticiou que uma celebridade global havia perdido a compostura no Twitter após sofrer algumas críticas em virtude de um comentário que havia feito na rede social. A vedete, longe de ser uma estrelinha de quinta categoria, é casada com um dos diretores da toda-poderosa Rede Globo.
Bem, imagina-se que uma pessoa tão gloriosamente assentada no topo da cadeia alimentar brasileira certamente daria um excelente exemplo de boa formação intelectual ao se manifestar em público por escrito, não é mesmo? Pois bem, vamos dar uma lida nas sua singelas postagens, conforme referidas na reportagem mencionada:
“Almas penadas, consumidas pela a inveja, o ódio e a maledicência, que se escondem atrás de pseudônimos para destilarem seus venenos. Morram!”
“Só mais uma coisinha! Vão ter que me engolir, também f…-se, vocês são minurias [sic] e minuria [sic] não conta.”
Em quem se espelhar?
Não vou nem entrar no mérito da completa falta de educação dessa pessoa, que parece menos uma rica atriz global do que um valentão de boteco. Vou me ater apenas a dois detalhes. Primeiro: a intelectual do horário nobre da Globo escreve “minoria” com “u”, atestando para além de qualquer dúvida razoável que se encontra fora do grupo dos 25% dos brasileiros plenamente alfabetizados (ela comete o erro duas vezes, descartando qualquer possibilidade de desculpa do tipo “foi erro de digitação”).
Segundo: ela acha que “minorias não contam”, demonstrando, portanto, que ignora completamente as noções mais elementares do que vem a ser um Estado democrático de Direito, ou mesmo o simples conceito de “democracia” na sua acepção contemporânea. Do ponto de vista da consciência de direitos políticos, sociais e de cidadania é, portanto, analfabeta dos pés à cabeça.
Com os ricos e famosos que temos no Brasil, em quem o mítico e achincalhado “homem-médio” poderia mesmo se espelhar?
Fonte:
Por
Henrique Abel, no Observatório da Imprensa


Uma boa dose de polêmica, não?

10 de ago. de 2012

O fetiche cruel do “Ouro Olímpico”


É possível acompanhar os Jogos Olímpicos de duas maneiras. A primeira é a certa: você presta atenção nos atletas e torce por boas performances. Você os vê chorar e se abraçar de felicidade ou olha feio por um mau desempenho. Você simpatiza com eles como seres humanos e debate se Michael Phelps é o melhor atleta olímpico de todos os tempos ou apenas o melhor nadador. Você pensa sobre doping mas tenta acreditar que as agências esportivas o mantêm mais ou menos sob controle.
E também há o meu jeito de assistir à Olimpíada: como um estudo estatística sobre geopolítica e políticas públicas destrutivas. Os indivíduos importam, até certo ponto – mais como produtos do sistema do que como personalidades distintas. Admiro o desempenho do chinês Ye Shiwen, mas me pergunto mais sobre por que os técnicos de natação do país recebem quase tanto quanto os investimentos do governo central gasta com a preservação da cultura popular, quase morta no país. Acho que Phelps é um grande espécime físico, mas me pergunto por que os norte-americanos ficam cada vez mais gordos. E olho com espanto o repentino crescimento da Grã-Bretanha no quadro de medalhas – o conto de fadas de um país com complexo de inferioridade que decidiu gastar enormes quantias de dinheiro em chamar a atenção das elites esportivas: a inveja do pênis moderna.
As Olimpíadas costumavam ser mais fáceis de acompanhar. Nos primeiros cinquenta anos, eram um evento muito menor, comumente interrompido por guerras. Apenas Hitler parecia perceber o potencial de relações públicas dos jogos. Então, veio a Guerra Fria e as disputas tornaram-se um campo de batalha para ideologias rivais. Países como a Alemanha Oriental e a União Soviética gastavam enormes somas em esportes, como uma forma de ganhar reconhecimento. Especialmente a Alemanha Oriental, que precisava de respeitabilidade, tinha um desejo quase patológico sobre o sucesso nas Olimpíadas. Em apenas cinco edições, o país ganhou 409 medalhas.
A maior parte das pessoas pensa que o sucesso do antigo bloco socialista era apenas uma questão de doping geneeralizado – mulheres com pomo-de-adão e barba. Mas os países inteligentes perceberam que havia outras explicações para o sucesso. Os países do Pacto de Varsóvia gastaram muito em esportes, é verdade, mas a chave era que eles se concentravam apenas nos atletas com chances de ganhar medalha. A Alemanha Oriental, por exemplo, nunca se importou com hóquei no gelo, porque percebeu que teria de treinar pelo menos uma dúzia de atletas de elite para montar um time – e mesmo assim, seria difícil competir com as potências estabelecidas. Ao invés disso, focou-se nos esportes em que um atleta poderia ganhar várias medalhar – ciclismo, por exemplo. Isso também evitava esportes que dependem de equipes (basquete, baseball, hóquei no gelo e outros): era melhor apoiar atletas que treinavam sozinhos por precisarem de menos infra-estrutura. E é claro que atletas como Katarina Witt ganharam bastante dinheiro – e visibilidade nacional – para fazer disso uma profissão. Amadorismo era para perdedores.
Mesmo antes de a Guerra Fria acabar, os países ocidentais imitaram essas táticas. A Coreia do Sul chamou muita atenção nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, ao ganhar mais medalhas que a Alemanha Oriental e acabar em quarto lugar no quadro de medalhas. A Austrália foi ainda mais longe: depois de não ganhar nenhuma medalha de ouro nos jogos de Montreal, em 1976, montou uma burocracia de esportes centralizada, que estabeleceu novos padrões atléticos e canalizou recursos para programas de treinamento e especialmente para os ganhadores. Apesar da pequena população, o país ficou em quarto lugar no quadro de medalhas de Sidney e Atenas (caiu para sexto em Beijing e aparentemente está ainda pior, em Londres).
Os problemas da Austrália refletem o acirramento da competição e o fato de as democracias terem maior dificuldade em financiar pesadamente luxos como esportes. Outros países, com ainda mais habitantes e dinheiro, começaram a canalizar recursos para a elite esportiva com grande chance de ganhar medalha. Curiosamente, o Comitê Olímpico Internacional (COI) implicitamente apoia esta mentalidade da medalha de ouro. Seu site não estampa um quadro de medalhas, mas apenas uma classificação dos países segundo as medalhas de ouro alcançadas. As de prata e bronze são contabilizadas apenas como desempate. Isso evidencia o que apenas os norte-americanos classificam os países pelo total de medalhas. Para todos os outros no mundo, o ouro é o que importa.
Ainda mais notável é que a Alemanha mudou de rumos e começou a retomar a política da Alemanha Oriental, em favor de escolas atléticas. A peça central é o enorme Centro de Ensino e Performance em Esporte, em um subúrbio de Berlim Oriental, não distante da prisão da Stasi em Hohenschönhausen (isso não é um tiro no escuro; os dois eram parte do aparato de domínio do partido). Por anos, a escola apodreceu, com apenas um pequeno setor, que funcionava como estabelecimento de ensino médio. Agora, está sendo renovada. A piscina foi reaberta e antigos treinadores da Alemanha Oriental foram trazidos de volta. Apesar do doping ser banido e de os regimes de treino não serem tão extremos, é uma mudança radical, para um país que estava revoltado com os excessos da máquina de esportes da Alemanha Oriental, fechada quase completamente nos anos 1990.
Mas os esforços da Alemanha estão apenas começando – o país está caminhando para uma das suas piores performances nas Olimpíadas – e de qualquer forma, ficará muito atrás da China. O governo chinês não revela seu orçamento para esportes de elite, mas o volume é incrível. De acordo com reportagens da imprensa australiana, treinadores estrangeiros ganham 250 mil dólares por medalha de ouro, 150 mil por prata e $100 mil por bronze. O treinador de Ye, Ken Wood, disse que “o dinheiro não é o objetivo” – mas os atletas chegam acompanhados de grupos completos de treinadores e cozinheiros, e vivem em apartamentos de luxo. Fiz a comparação com a cultura popular porque, segundo uma antiga autoridade chinesa que entrevistei esse ano, o país gasta US$ 2 milhões por ano para proteger artistas folclóricos de música, teatro e dança.
Escolher a China, no entanto, não é justo. Qualquer país tem necessidades mais importantes que medalhas de ouro para um atleta. Enquanto a Sports England – a organização de esportes de massa, voltada para a participação popular e a vida saudável – teve seu orçamento para este ano reduzido a 82 milhões de libras (eram £98 milhões, em 2011); a UK Sports (que financia a elite esportiva) gastará £264 milhões com os jogos de Londres. Focará principalmente em esportes nos quais a Grã-Bretanha tem chances de ganhar ouro. Isso torna cada vez mais improvável que os Jogos incentivem a prática de esportes. Na vida extra-Olimpíadas, as praças esportivas estão sendo vendidas para cortar os gastos.
E os Estados Unidos? O país não tem uma agência de esportes centralizada, para promover o sucesso. Em vez disso, os êxitos dos EUA refletem algo mais novo, mas também mais traiçoeiro. Do lado positivo, o país tem uma sociedade civil vibrante e muitos filantropos querendo ajudar. Mais recentemente, a Nike participou do financiamento de corridas de longa distância, ajudando a revitalizar as chances norte-americanas nesse campo. Mas apenas as escolas e universidades têm uma rede importante de equipamentos esportivos. Nada disso é produto de um esquema governamental para iludir os cidadãos com pão e circo.
Mas isso reflete o lado ruim – o fato que muito do sucesso esportivo dos Estados Unidos é devido a um redirecionamento de prioridades que começa nas raízes. Eu estudei na Universidade da Flóriida, a alma mater do nadador Ryan Locht, que ganhou duas medalhas de ouro em Londres. É uma escola que enlouqueceu em relação aos esportes, construindo um estádio profissional de futebol americano e luxuosas instalações para os atletas. A instituição afirma que os esportes são um setor separado e auto-sustentado, mas o efeito no campus é debilitante. A escola oferece prêmios fáceis aos atletas e fomenta uma cultura de que os esportes são tão importantes quanto a academia. Em alguns momentos, parecia que você estava em uma escola de esportes com outros cursos adjuntos.
Os esportes tornaram-se tão ensandecedores nos Estados Unidos que as famílias gastam quantias enormes de dinheiro em crianças com potencial atlético de elite. Os pais de Lochte perderam sua casa hipotecada, e a mãe da ginasta Gabby Douglas tornou-se insolvente. Nada disso significa que os norte-americanos estejam mais ativos ou saudáveis que em outros países. Para a maioria, esportes é algo para ser vista, ou praticado em equipamentos muito caros ou clubes muito seletos, uma ou duas vezes por semana.
Então, como comparar os países estatisticamente? Um de meus sites preferidos nesses jogos tem sido uma rede de televisão alemã, ARD. Ela criou um “barômetro de medalhas” que permite seguir a quantidade de medalhas de ouro de um país ao longo do tempo. A página é em alemão, mas é fácil de usar. Clique em quantos países desejar, e o software compara os ouros obtidos por eles. É difícil não ver isso como espelho da ascensão dos países. Compare a China com os Estados Unidos, e você verá uma potência tradicional enfrentando um país que veio “do nada” para ganhar. E se você comparar regiões – a página permite isso – poderá acompanhar a ascensão da Ásia e o declínio da Europa.
Isso parece menos inocente quando você conhece o poder do dinheiro. Escolha a Austrália e veja o crescimento e queda. Ou compare a Alemanha (uma potência tradicional em esportes, com estruturas esportivas públicas fantásticas) com a Grã-Bretanha, que é uma versão ocidental da China – um país com infra-estrutura pública para esportes imitada e pouca participação popular, mas decidido a ganhar ouros. Esse gráfico não passará em branco na Alemanha, que provavelmente vai investir ainda em esportes de elite e reduzir ainda mais as instalações públicas esportivas.
O que provavelmente a maioria das pessoas esquecem é que 77 dos países ou territórios do mundo nunca ganharam uma medalha. Se a maioria não fosse pobre, alguém poderia considerá-los sortudos – livres da corrida que consome os possíveis campeões.
Fonte:
Por
Ian Johnson, no New York Review of Books | Tradução: Daniela Frabasile

9 de ago. de 2012

Chineses questionam sua “máquina de medalhas”


Minutos após receber a medalha do ouro olímpico, o pai da atleta de salto sincronizado Wu Minxia lhe contou que sua mãe está com câncer de mama e que seus avós maternos haviam morrido há mais de um ano. “Aceitamos há muito tempo que ela não nos pertence”, justificou o pai. “Nem sequer ouso pensar em coisas como desfrutar a felicidade familiar.”
Com a medalha de prata no peito, o levantador de peso Wu Jingbiao disse, chorando, a um repórter: “Eu desonrei o meu país, eu desonrei o time nacional de levantamento de peso, eu desonrei todos os que se importam comigo”.
Na plateia, quando Li Xueying venceu o levantamento de peso na categoria 58 kg, o seu pai, soluçando, disse que não havia planejado comemoração: “Só quero vê-la imediatamente. Nós não nos encontramos há dois anos! Ela é minha filha, afinal de tudo.”
Treinado na Austrália, o bicampeão olímpico de natação Sun Yang custou aos cofres públicos 10 milhões de yuan (R$ 3,2 milhões) apenas nos últimos dois anos, segundo a imprensa chinesa.
O pai de Lin Qingfeng, outro atleta vencedor do levantamento de peso, disse à imprensa que não reconheceu seu filho de 23 anos na TV _há seis anos, não o encontra. Só percebeu que era ele ao ouvir o nome.
Faltando poucos dias para o final dos Jogos, grande parte dos chineses está certamente orgulhosa pelo desempenho do país, que vem mantendo a liderança no quadro olímpico. Mas, à medida que a competição avança e histórias como as de acima se espalham, muitos vêm questionando se o draconiano e caro sistema esportivo estatal traz benefícios para os atletas e para a população.
O sucesso olímpico chinês é fruto do ambicioso Projeto 119, criado em 2002, cujo nome reflete o número de medalhas de ouro que a China luta para conquistar. Inspirado no modelo soviético, recebe generosos recursos estatais e envolve uma rotina de treinamento excruciante com crianças de até 5 anos.
O esforço fez com que a China ganhasse 51 medalhas de ouro quando competiu em casa, há quatro anos, um número recorde na história das Olimpíadas. Neste ano, tem liderado no quadro de medalhas até agora.
Apesar dos números exitosos, as críticas são várias. Em entrevista à revista “Caixin”, o comentarista esportivo Guan Jun resumiu as principais: 1) o sistema do “tudo ou nada” tira a alegria dos atletas; 2) não há estímulos para esportes de massa e prática esportiva entre a população; 3) o controle estatal tem provocado casos de abuso de poder e corrupção; e 4) o sistema falha nos esportes mais populares, como futebol e nas provas de atletismo.
Nos microblogs, as críticas ao sistema vêm aumentando com o passar dos dias. Muitos dos que enviaram mensagens de apoio ao corredor de 110 metros com barreira Liu Xiang, que na quarta-feira tropeçou e se machucou de forma dramática no primeiro obstáculo, aproveitaram para criticar o programa estatal.
“Com este sistema de esporte nacional opressor, ele apenas tinha uma escolha _ganhar respeito se machucando”, escreveu um blogueiro, citado pelo jornal “New York Times”.
Mesmo na imprensa estatal há criticas. A versão em inglês do jornal “Global Times”, do Partido Comunista, publicou em seu site fotos dramáticas de crianças treinando ginástica, entre as quais algumas publicadas mais abaixo neste post (ATENÇÃO: IMAGENS FORTES).
Temendo uma onda de críticas, a censura chinesa passou a coibir reportagens negativas . Em instrução recente aos meios de comunicação do país, o Departamento de Propaganda determinou que, “ao reportar sobre as Olimpíadas de Londres, não levantem o tema do ‘sistema nacional’ novamente. Com a exceção de comentários na imprensa especializada, não desafie o sistema nem faça especulações sobre ele”.
Vale a pena?

Menina chora enquanto o treinador pisa em suas pernas para estirar os ligamentos em Nanning, região autônoma de Guangxi Zhuang (sudoeste) (Foto: “Global Times”).


Técnico estira costas de aluno da Escola de Esportes para Crianças em Jiaxing, Província de Zhejiang (leste) (Foto: “Global Times”).

Equipe de ginástica se aquece numa escola de ensino fundamental de Xangai (Foto: Global Times).

Fonte:
Fabiano Maisonnave
Folha de S. Paulo

Complemento: assistir ao filme: O último dançarino de Mao


Quino

Vale uma boa discussão, hein?!?

31 de jul. de 2012

Economia verde, economia inclusiva


O documento da ONU para a Rio+20 continha de positivo o reconhecimento de que a crise atual é estrutural, transcende os aspectos econômicos e financeiros, e resulta do esgotamento e das fragilidades do atual modelo capitalista de desenvolvimento.
Se o diagnóstico estava correto, a medicação agrava o estado do doente: a economia verde.
Esta economia não foge ao paradigma neoliberal de mercantilização dos recursos naturais. No frigir dos ovos, prioriza o capital privado.
A economia inclusiva ou sustentável procura atender as necessidades e direitos de todos os seres humanos; promove a distribuição equitativa da riqueza e das oportunidades para a geração de renda e o acesso a bens e serviços públicos; e assegura, assim, condições de vida digna a toda a população, erradicando a pobreza e reduzindo as desigualdades sociais.
A crise atual é um momento privilegiado para se avançar na transição para novos modelos de governança, capazes de redirecionar os diversos capitais na criação de oportunidades de negócios e empregos que representem alternativas de desenvolvimento sustentável e sustentado.
Frente a esse cenário, o Instituto Ethos propõe Compromissos de Ação, entre os quais vale destacar: buscar a ecoefetividade de nossas atividades, por meio da redução do consumo total e da intensidade de insumos (como água e energia); reduzir emissões de gases de efeito estufa e mitigar seus efeitos já inevitáveis; investir no desenvolvimento de novas tecnologias, processos, produtos e modelos de negócio, pautados pelos princípios da sustentabilidade.
Propõe ainda o desenvolvimento territorial sustentável, contribuindo para erradicar a miséria e a pobreza; trabalhar por uma economia a serviço do desenvolvimento humano; implementar políticas e ações nas empresas e cadeias produtivas, visando ao desenvolvimento do capital humano e social, com ênfase equivalente à aplicada aos capitais econômico e financeiro, e a redução das desigualdades de oportunidades e remuneração em razão de origem social, racial, étnica, geracional ou de gênero.
Isso requer melhoria da governança e promoção da transparência e integridade, além do compromisso de trabalhar pela erradicação da corrupção e pelo estabelecimento de novas arquiteturas institucionais que prezem pela participação plural dos diversos atores sociais.
Há que enfatizar a importância do aperfeiçoamento dos mecanismos de promoção da integridade e da transparência dos processos de planejamento, decisão e operação, públicos e privados; e empenhar-se para o aperfeiçoamento do sistema político e da democracia.
É preciso também contribuir com conhecimentos e competências de modo a aprimorar as políticas públicas e fortalecer a gestão pública e dos mecanismos de controle e participação social, bem como exercer cidadania ativa e fiscalizadora, tanto nos processos eleitorais quanto durante os mandatos eletivos.
Fonte
Por:
Frei Betto, Adital.

30 de jul. de 2012

O retorno dos filósofos comunistas


Ler Marx e escrever sobre Marx não faz de ninguém comunista, mas a evidência de que tantos importantes filósofos estão reavaliando as ideias de Marx com certeza significa alguma coisa. Depois da crise econômica global que começou no outono [nórdico] de 2008, voltaram a aparecer nas livrarias novas edições de textos de Marx, além de introduções, biografias e novas interpretações do mestre alemão.
Por mais que essa ressurreição [2] tenha sido provocada pelo derretimento financeiro global, para o qual não faltou a empenhada colaboração de governos democráticos na Europa e nos EUA, esse ressurgimento [3] de Marx entre os filósofos não é consequência nem simples nem óbvia, como creem alguns. Afinal, já no início dos anos 1990s, Jacques Derrida [4], importante filósofo francês, previu que o mundo procuraria Marx novamente. A previsão certeira apareceu na resposta que Derrida escreveu a uma autoproclamada “vitória neoliberal” e ao “fim da história” inventados por Francis Fukuyama.
Contra as previsões de Fukuyama, o movimento Occupy e a Primavera Árabe demonstraram que a história já caminha por novos tempos e vias, indiferente aos paradigmas econômicos e geopolíticos sob os quais vivemos. Vários importantes pensadores comunistas (Judith Balso, Bruno Bosteels, Susan Buck-Mors, Jodi Dean, Terry Eagleton, Jean-Luc Nancy, Jacques Rancière, dentre outros), dos quais Slavoj Zizek é o que mais aparece, já operam para ver e mostrar como esses novos tempos são descritos em termos comunistas, quer dizer, como alternativa radical.
O movimento acontece não só em conferências de repercussão planetária em Londres [5], Paris [6], Berlin [7] e New York [8] (com participação de milhares de professores, alunos e ativistas) mas também na edição de livros que se convertem em best-sellers globais como Império [9] de Toni Negri e Michael Hardt, A Hipótese Comunista [10] de Alain Badiou e Ecce Comu [11] de Gianni Vattimo, dentre outros. Embora nem todos esses filósofos apresentem-se como comunistas – não, com certeza, como o mesmo tipo de comunista –, a evidência de que o pensamento comunista está no centro de seu trabalho intelectual autoriza a perguntar por que há hoje tantos filósofos comunistas tão ativos.
A ressurgência do marxismo
Evidentemente, nessas conferências e nesses livros, o comunismo não é proposto como programa para partidos políticos, para que reproduzam regimes historicamente superados; é proposto como resposta existencial à atual catástrofe neoliberal global.
A correlação entre existência e filosofia é constitutiva, não só da maioria das tradições filosóficas, mas também das tradições políticas, no que tenham a ver com a responsabilidade sobre o bem-estar existencial dos seres humanos. Afinal, a política não é apenas instrumento posto a serviço da vida burocrática diária dos governos. Mais importante do que isso, a política existe para oferecer guia confiável rumo a uma existência mais plena. Mas quando essa e outras obrigações da política deixam de ser cumpridas pelos políticos profissionais, os filósofos tendem a tornar-se mais existenciais, vale dizer, tendem a questionar a realidade e a propor alternativas.
Foi o que aconteceu no início do século 20, quando Oswald Spengler, Karl Popper e outros filósofos começaram a chamar a atenção para os perigos da racionalização cega de todos os campos da atividade humana e de uma industrialização sem limites em todo o planeta. Mas a política, em vez de resistir à industrialização do homem e da vida humana, limitou-se a seguir uma mesma lógica industrial. As consequências foram devastadoras, como todos já sabemos.
Hoje, as coisas não são essencialmente diferentes, se se consideram os efeitos igualmente calamitosos do neoliberalismo. Apesar do discurso triunfalista do neoliberalismo, a crise das finanças globais neoliberais do início do século 21 serviu para mostrar que nunca as diferenças de bem-estar material foram maiores ou mais claras que hoje: 25 milhões de pessoas passam a viver, a cada ano, em favelas urbanas; e a devastação dos recursos naturais do planeta já provoca efeitos assustadores em todo o mundo, tão devastadores que, em alguns casos, já não há remédio possível.
Por isso tudo, relatório recente do ministério da Defesa da Grã-Bretanha [12] previa, além de uma ressurgência de “ideologias anticapitalistas, possivelmente associadas movimentos religiosos, anarquistas ou nihilistas, também movimentos associados ao populismo; além do renascimento do marxismo”. Essa ressurgência do marxismo é consequência direta da aniquilação das condições de existência humana resultantes do capitalismo neoliberal como o conhecemos.
O que é “comunismo”?
Por mais que a palavra “comunista” tenha adquirido inumeráveis significados distintos, ao longo da história, na opinião pública atual ela significa uma relíquia do passado e é associada a um sistema político cujos componentes culturais, sociais e econômicos são todos controlados pelo estado.
Por mais que talvez seja o caso na China, Vietnã ou Coreia do Norte, para a maioria dos filósofos e pensadores contemporâneos esse significado é insuficiente, está superado, é efeito de propaganda maciça e, sobretudo, é diariamente desmentido pela evidência de que o mundo não estaria vivendo uma “ressurgência” do marxismo, se o comunismo marxista fosse apenas isso.
Como diz Zizek, o comunismo de estado não funcionou, não por fracasso do comunismo, mas por causa do fracasso das políticas antiestatizantes: porque não se conseguiu quebrar as limitações que o estado impôs ao comunismo, porque não se substituíram as formas de organização do estado por forma ‘diretas’ não representativas de auto-organização social.”
O comunismo, como ideário antiestatizante das oportunidades realmente iguais para todos, é hoje a melhor hipótese, ideia e guia  para os movimentos políticos libertários antipoder, como os que nasceram dos protestos em Seattle (1999), Cochabamba (2000) e Barcelona (2011).
Por mais que esses movimentos lutem em nome de causas e valores específicos e diferentes entre si (contra a globalização econômica desigualitária, contra a privatização da água, contra políticas financeiras danosas), todos lutam contra o mesmo adversário: o sistema de distribuição não igualitária da propriedade, em democracias organizadas pelos princípios impositivos do capitalismo.
Como o demonstram a pobreza sempre crescente e o inchaço das favelas, este modelo deixou para trás todos os que não foram “bem-sucedidos” segundo suas regras, produzindo novos comunistas.
Comunismo e democracia
Em resumo, enquanto Negri e Hardt [13] buscam no “comum” (quer dizer, nos modos pelos quais a propriedade pública imaterial pode ser propriedade dos muitos), e Badiou busca nas insurreições (em ações como a da Comuna de Paris) [14], a possibilidade de se alcançarem “formas de auto-organização” não estatais, quer dizer, a possibilidade de formas comunistas, Vattimo (e eu) [15] sugerimos que todos examinemos os novos líderes democraticamente eleitos na Venezuela, Bolívia e outros países latino-americanos.[16]
Se esses líderes conseguiram chegar ao governo e começar a construir políticas comunistas sem insurreições violentas, não foi por terem chegado ao mundo político armados por fortes conteúdos teóricos ou programáticos; mas por suas fraquezas.
Diferente da agenda pregada pelo “socialismo científico”, o comunismo “fraco” (também chamado “hermenêutico” [17]) abraçou não só a causa ecológica [18] do de-crescimento, mas também a causa da decentralização do sistema burocrático estatal, de modo a permitir que se constituam conselhos independentes locais, que estimulam o envolvimento das comunidades.
Que ninguém se surpreenda se muitos outros filósofos, atraídos para o comunismo pelas ações e políticas de destruição da vida do neoliberalismo, também vislumbrarem a alternativa [19] que se constrói na América Latina. Especialmente, porque as nações latino-americanas demonstraram que os comunistas podem ter acesso ao poder também pelas vias formais da democracia.
Fonte:
Por
Por Santiago Zabala, na Al Jazeera | Tradução: Vila Vudu
* Santiago Zabala é pesquisador e professor de filosofia da Institució Catalana de Recerca i Estudis Avançats, ICREA[1], da Universidade de Barcelona. 
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[9] Império, 2005, Rio de Janeiro: Ed. Record, 501 p.
[10] A hipótese comunista, 2012, São Paulo: Boitempo Editorial, 152 p.
[17] Hermenêutico: adj. Relativo à interpretação dos textos, do sentido das palavras. (…) 3) Rubrica: semiologia. Teoria, ciência voltada à interpretação dos signos e de seu valor simbólico. Obs.: cf. semiologia  4) Rubrica: termo jurídico. Conjunto de regras e princípios us. na interpretação do texto legal (…). Etimologia: gr. herméneutikê (sc. tékhné) ‘arte de interpretar’ < herméneutikós,ê,ón ’relativo a interpretação, próprio para fazer compreender’ [NTs, com verbete do Dicionário Houaiss, emhttp://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=hermen%EAutica&cod=101764]

29 de jul. de 2012

A tartaruga e a metralhadora automática


Se você já parou para observar a indignidade de uma revista de aeroporto, como, por exemplo, a mãe que vê a mamadeira do seu bebê ser confiscada ou o idoso que mal se aguenta em pé, tendo a bengala desmontada, pode ter ponderado: este é o custo da segurança. Mas se você foi a uma sessão de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge no cinema de Times Square na sexta-feira à noite (20/7), faria outra ponderação. A presença ostensiva de policiais armados e discretos, de sabe-se lá quantos à paisana, não garantia proteção contra o que o comandante da polícia de Nova York admitiu temer: o crime copycat, cometido por alguém tentando uma vaga sob o holofote da infâmia do atirador de Aurora.
via crucis em que se transformou a vida do passageiro aéreo é um produto do terrorismo, ainda que não possa ser explicada apenas por ele. Já o risco que corremos na plateia do cinema, na sala de aula de Virginia Tech e Columbine, ou no bar do Alabama, onde outro dia um homem entrou atirando e acertou em 17 pessoas, é filho legítimo de uma convicção americana: a liberdade individual só sobrevive numa democracia se você puder comprar uma arma automática com o poder de disparar 600 tiros por minuto.
Logo depois do massacre de Aurora, uma deputada do Partido Republicano pelo estado do – adivinhem? – Texas, declarou que a tragédia foi causada “pelos ataques às crenças judaico-cristãs” e concluiu o pronunciamento com a pérola: “Com tanta gente dentro do cinema, por que não havia alguém armado para reagir contra o atirador?” Voltemos ao Velho Oeste, ela parece recomendar.
“A melhor segurança de um país livre”
No ano passado, uma pesquisa do Instituto Gallup revelou que os registros de porte de arma dispararam nos Estados Unidos durante o governo Obama. Comerciantes que mal dão conta das encomendas de munição acreditam que a demanda se deve à certeza de que o presidente vai tentar passar leis de controle de porte de armas. Barack Obama nunca demonstrou a menor disposição de assumir o risco eleitoral de mexer no vespeiro do porte de arma. Deixo ao leitor a conclusão sobre a diferença entre a percepção e a realidade.
A trilogia do Batman, dirigida por Christopher Nolan, termina, mas a sequência do reality show de horror dos assassinatos em massa com armas de fogo tem reprise garantida graças à interpretação obscena da Segunda Emenda da Constituição americana: “Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser impedido.”
A emenda, redigida por James Madison, em 1789, tinha o objetivo de acalmar o temor dos anti-federalistas contra o abuso de poder do governo federal do país recém-fundado. O texto original dizia: “O direito do povo de portar armas não deve ser violado; uma milícia bem armada e bem regulada é a melhor segurança de um país livre.”
A falta de coragem do Partido Democrata
Não passou pela cabeça dos fundadores dos Estados Unidos que eles estavam defendendo o porte de arma privado ou os direitos dos caçadores.
O assassino de Aurora não precisava de escopeta e centenas de rodadas de munição para acertar numa rolinha e morava num complexo residencial universitário onde a manutenção da segurança não lhe compete. Ainda assim, comprou armas, explosivos e armadura militar no exercício escatológico de liberdade que é celebrado pela deputada texana mentecapta. Se eu pisar numa calçada nova-iorquina com o copo de vinho que acabei de pedir num bar, posso ser convocada para me explicar diante de um juiz.
O inesgotável arsenal do lobby das armas para acertar políticos e a falta de coragem do Partido Democrata para enfrentar a carnificina não serão abalados pelo que aconteceu na sessão do Batman.
Até o próximo massacre.
Fonte:
Por:
Lúcia Guimarães, do Estado de S.Paulo.

a desconversão humana


Tentou a noite toda escrever algo. A tela em branco imprimia a sua crise duradoura.
Um escritor sem ideias. Café, cigarro, doses de uísque, nada serviram.
Tentara já vinho, conhaque, charuto, macrobiótica.
Há meses, o bloqueio criativo apareceu. Noites em busca de inspiração. Precisava escrever, era o seu ganha-pão, seu dom, sua vida, se dedicara anos. Nada.
Deixou o computador ligado e foi dormir.
O que leva um escritor a parar de escrever?
Por que Rimbaud, depois de criar a poesia moderna, sumiu?
E Sallinger, que escreveu apenas quatro livros? Auto exigência? Atração pelo nada.
“Escrever também é não falar, é se calar, uivar sem ruído”, dizia Marguerite Duras.
Síndrome de Bartleby é a paralisia que atormenta os escritores. Inspirada no personagem de Melville (Moby Dick), copista de um cartório que fica na sua mesa sem fazer absolutamente nada, sem ir a lugar algum. Nem mesmo se alimentar.
No dia seguinte, lá estava a frase metafísica na tela do seu computador: “O tempo só corre para quem se preocupa com a perda dele.” Quem digitou?
Heráclito? Sim, lembrava os pensamentos circulares do pré-socrático. Será que digitara num delírio torturado pelo sono e desespero? Surto de sonambulismo?
Sua diarista digitou? Sua diarista não aparecia há dias.
Olhou para o lado e viu seu gato vira-lata deitado no canto da mesa, com as orelhas em pé, encarando-o de relance. Não é possível!
O gato costumava passear pela mesa sempre que tentava escrever. Por vezes ficava em frente do monitor, tapando a visão. Às vezes brincava com o cursor do mouse. Em outras passeava sobre o teclado.
Suas patas apertavam e digitavam [pateavam] apenas frases como “procslxkdjshsdh gfgfggf czvc”.
Foi você?
Ele miou de volta.
Repetiu a experiência à noite. Deixou o computador ligado, fechou a porta do quarto, deitou-se. Não conseguia dormir. Tentava escutar os passos do gato pela casa. Mas o silêncio era o maior ruído.
Na manhã seguinte, outra frase digitada: “Esperar é também realizar.”
Olhou para o gato. Parecia dormir profundamente. Sua respiração, ofegante. O batimento cardíaco dos gatos é superior. Ou estava exausto?
Mas para quem contar que desconfiava que seu gato mandava mensagens quando ele ia dormir. Não podia para o seu editor, pois fugia dele, que cobrava um romance cujo adiantamento já fora pago. Nem ao melhor amigo, que esperava há meses o prefácio não escrito de um livro quase no prelo.
Ninguém sabia da sua síndrome. Vivia o tormento inventando desculpas, “já estou terminando”, “deu pau no computador e perdi tudo”.
Esperava o milagre da criação, a voz de Deus ou do diabo falando através dele, o despertar do inconsciente, emitindo sinais que chegariam aos seus dedos para movê-los em busca de uma história.
Fez as malas. Encheu a casa com potes de água e ração da melhor qualidade. Deixou o computador ligado. Escondeu os brinquedinhos do gato, para que não houvesse distração. Até limpou a mesa, para que seu suposto ghost writer felídeo tivesse a ordem necessária. Despediu-se com carinho. E foi para um flat pulguento do centro da cidade.
Passou quatro noites sem sair do quarto, fumando sem parar, ansioso pelo resultado da experiência. E preocupado. Seria seu gato um escritor que precisava da presença do dono para criar. Ou, como a maioria dos gênios, a paz, o silêncio e a solidão são o fogo que ferve as ideias e cozinha a arte?
Ao voltar para casa, encontrou-a toda revirada, resultado da solidão de um vira-lata carente: sofá arranhado, livros derrubados, papel higiênico desenrolado. Seu pequeno animal correu para saudá-lo, miou muito, trançou por suas pernas, saudoso.
Passo a passo, caminhou até a mesa de trabalho. Tela em branco. Apertou o Ctrl home. Mais de 78 páginas escritas em formato Word, letra areal, tamanho 12.
A Desconversão Humanachamava-se a obra. Que título pretensioso, pensou.
Riu sozinho. O que está acontecendo? Quem é você? Perguntou para o bichano que se acomodava no seu colo e ronronava.
Leu. Um tratado sobre a solidão e de como todas as possibilidades de busca pela fé e um sentido para a vida criaram um efeito contrário, tornando o homem isolado e inapto a conviver com a própria consciência.
Segundo o gato writer, a criação de uma moral, a absorção de deveres e tabus, embrulharam a nossa essência. “Deve-se viver o nada”, escreveu.
Maravilhado, apesar de não ter bagagem para compreender tudo, enviou por e-mail, sem nenhum comentário, apenas escrito “livro novo” no assunto, para o seu editor.
A resposta veio no dia seguinte: “Virou autor de autoajuda?”. Que tosco e insensível editor. Que encaminhou para o selo deste gênero da editora, que aprovou o manuscrito, revisou e entregou para o departamento de marketing, que preparou o lançamento em quatro meses.
Resenhas? Apenas num jornal de bairro e numa revista literária cristã.
Porém, pouco a pouco, o boca a boca interferiu no processo.
A Desconversão Humana em oito meses entrou para a lista de bestsellers, categoria não ficção.
Em oito semanas, atingiu o topo da lista.
Seu telefone não parou mais.
Queriam entrevistas, palestras, explicações. Editoras e agentes estrangeiros o procuraram.
O livro foi traduzido e publicado em 65 países. Em todos eles, sucesso.
Logo começaram a surgir explicações e versões resumidas.
Um escritor pilantra irlandês lançou Como Entender a Desconversão Passo a Passo. A editora propôs uma versão infantil ilustrada. Um poeta do Mato Grosso lançou O Bê-á-bá da Desconversão. Um indiano escreveu A Desconversão Tântrica. Um sueco, A Desconversão Líquida.
Sua vida não teve mais sossego.
Por onde andava, tinha que dar autógrafos e tirar fotos em celulares.
Seu e-mail estava entupido: pedidos de entrevistas, seminários e casamentos. Seus amigos literatos o ignoraram, dominados por preconceitos contra livros de sucesso.
Familiares vieram pedir dinheiro emprestado.
Estressado, decidiu se isolar e mudar para uma praia deserta, para um bangalô sem luz elétrica, e viver recluso.
Claro. Levou o gato com ele. Que nunca mais pode escrever.
Mas se esbaldou: natureza e peixes.

Fonte:
Por 
Marcelo Rubens Paiva
blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva

“Mãe, eu quero. Você compra?”


A frase do título, que muitas vezes culmina em uma discussão, tem feito parte do dia a dia da maioria das famílias brasileiras nos últimos tempos. Discutir os limites das crianças frente ao que é apresentado nas televisões, via publicidade, é algo que muitas vezes está além do alcance das mães, pais e até educadores. Não raro vemos matérias, baseadas em pesquisas ou estudos psicológicos, que desvendam os caminhos para a atuação, para não dizer manipulação e controle, sobre o público infantil numa tentativa de reforçar o apelo de compra.
Contrariando um caminho trilhado, há anos, por diversos países com democracias consolidadas, como a Suécia, Alemanha, Austrália, Espanha (Catalunha), Chile, Estados Unidos, Holanda, Nova Zelândia, Portugal e Reino Unido, o Brasil continua permitindo que a publicidade seja direcionada ao público infantil. Mesmo que a criança e o adolescente sejam considerados públicos prioritários pela Constituição brasileira e reforçado no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), eles continuam sendo alvo das propagandas e do merchandising, instrumentos da publicidade,que os utilizamcomo mecanismo de “fidelização” de um futuro consumidor e, ultimamente, definidor de compras da família, numa estratégia de infantilizar o adulto e dar uma ideia de maturidade às crianças, numa troca de responsabilidades vil.
O que é mais estranho é que todas essas ações, que são consideradas violações de direitos, dão-se no espaço público do audiovisual, ou seja, nas rádios e televisões, que são concessões públicas. Para ser mais clara, é de propriedade do Estado o espectro eletromagnético que é temporariamente cedido a determinadas empresas de comunicação. E como parte das regras desta concessão está a atenção ao que já é estabelecida em lei, como informado no parágrafo acima. Como afirma o mestre em Ciência Política, pela Universidade de São Paulo, professor Guilherme Canela, “se o Estado (governo e sociedade) acorda institucionalmente que esse recorte etário merece prioridade absoluta, à mídia não é conferido nenhum salvo-conduto para se escusar de cumprir suas responsabilidades, especialmente porque radiodifusores são operadores de concessões públicas do Estado e da sociedade”.
Programação para todos os públicos
Esse “descumprimento” do acordo entre o Estado e o mercado ultrapassa também outras esferas, como a regulamentação do setor, defendida por organizações da sociedade civil e pesquisadores da área. No Brasil, o próprio mercado publicitário regulamenta toda a publicidade mercadológica por meio do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que estabelece as normas e julga os casos que porventura sejam enviados por entidades representativas ou cidadãos comuns. Para o presidente da entidade, Gilberto Leifert, as tentativas de regulamentação revelam que o Estado não acredita no poder de discernimento do cidadão. “É um evidente paradoxo. Muitas vezes, o projeto de lei ou a intervenção do Estado sugere que o cidadão é considerado plenamente capaz apenas para constituir família, eleger representantes políticos, pagar impostos, mas seria incapaz de fazer escolhas a partir da publicidade”, afirma.
Outra prova da complexidade do que estamos falando se deu com a retirada do programa infantil diário TV Globinho, substituído por um voltado para o público adulto capitaneado pela jornalista Fátima Bernardes nas manhãs na TV Globo. A emissora, que já chegou a apresentar O Sítio do Pica-Pau AmareloVila SésamoXou da Xuxa, apresentou como argumentação que a grade infantil não dá nem audiência, nem receita publicitária, e diz seguir tendência internacional de deixar as crianças para a TV paga. Segundo a empresa, o canal fechado seria um espaço menos sujeito a controle externo, como classificação indicativa, sugerida pelo governo e proibições à publicidade infantil (como limite à propaganda de alimentos e ao uso de desenhos para seduzir o público-alvo). “O segmento infantil está na TV paga porque lá não tem censura nem restrição à propaganda”, diz Luís Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação. Importante questionar, neste caso, como ficam as crianças que não têm TV paga, já que o lazer e entretenimento também são direitos e a TV é uma concessão pública? Isso sem falar que como concessionária de um serviço público a empresa deve cumprir com o regulamento que prevê programação para todos os públicos.
Direito de ter brinquedo
Mas muitas pesquisas e estudos também são realizados para medir o impacto da publicidade no desenvolvimento psíquico e emocional, atual e futuro, das crianças e adolescentes. E os resultados são alarmantes. Segundo o Instituto Alana, organização não governamental de defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes em relação ao consumo em geral, bem como ao excessivo consumismo ao qual são expostas, as crianças são mais vulneráveis que os adultos e sofrem cada vez mais cedo com as graves consequências relacionadas aos excessos do consumismo, por estarem em pleno desenvolvimento. Para o Alana, são consequências danosas à exposição excessiva a obesidade infantil, a erotização precoce, o consumo precoce de tabaco e álcool, o estresse familiar, a banalização da agressividade e violência, entre outras.
Mas como não se mudam leis e costumes num passe de mágica, algumas tentativas de minar o poderio do mercado e proteger as crianças têm sido realizadas. Cabe registrar que está em tramitação no Congresso Nacional, há mais de dez anos, um projeto de lei que proíbe a publicidade de produtos infantis (PL 5921/01). O texto, de autoria do deputado Salvador Zimbaldi (PDT-SP), que faz parte da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, já foi alterado nas comissões de Defesa do Consumidor e de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio. Para o relator, “é necessária uma lei sobre publicidade infantil porque o Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar) não tem sido eficaz”. Depois que Zimbaldi apresentar o parecer, a proposta seguirá para a Comissão de Constituição e Justiça em caráter conclusivo.
O anteprojeto encontra bastante resistência por parte do setor empresarial, especialmente o de brinquedos. Para o presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), que também é presidente da Fundação Abrinq, Synésio Batista, a publicidade infantil é fundamental já que toda criança tem o direito de ter brinquedo e a publicidade ajuda a aumentar a produção, despertando o interesse e deixando a criança informada, “não se oferece um produto dizendo o que ele não tem”, afirma Batista.
Discurso mágico
Outra forma de quebrar o bloqueio empresarial está na capacidade de organização da sociedade. Já é possível perceber que há intervenção de diversos setores desta na defesa pela regulamentação e isso tem mexido na estrutura de poder e aberto diversas frentes de debates sobre o tema criança e consumismo, especialmente nas redes sociais. Por conta disso, algumas campanhas publicitárias foram tiradas do ar. A mais recente foi o parque Mundo da Xuxa, que foi notificada pelo Procon/SP, e não pelo Conar, que apresentou como justificativa “o potencial de induzir o público infantil a atitudes que gerem risco à segurança e a saúde”. Importante registrar que esta campanha só saiu do ar depois que o coletivo Infância Livre de Consumismo (ILC), junto com outros movimentos e organizações, registrou queixas contra a propaganda. Este é outro exemplo de organização. Já as empresas Nestlé, Mattel, Habib’s, Dunga Produtos Alimentícios Ltda. (Biscoito Spuleta) e Roma Jensen (Roma Brinquedos) receberam as multas, também do Procon/SP, na semana passada, num total de mais de R$ 3 milhões, por campanhas publicitárias abusivas dirigidas ao público infantil. Estas últimas também foram resultado de mobilização de organizações da sociedade civil.
O Infância Livre de Consumismo (ILC) é um coletivo de pais, mães e cidadãos inconformados com a publicidade dirigida às crianças que nasceu como contraponto a campanha “Somos todos responsáveis”, promovido pela Associação Brasileira das Agências de Publicidade (ABAP). “Por mais informadas e conscientes que sejam as famílias, os pais não têm como combater um discurso mágico e atraente feito por adultos pertencentes a grandes e poderosos conglomerados empresariais, com alto poder econômico, que detêm pesquisas psicossociais, de mercado e até mesmo neurológicas”, avalia Marina Machado de Sá, publicitária e mestre em Políticas Públicas, uma das fundadoras do coletivo Infância Livre de Consumismo (ILC).
“Atentado à liberdade de expressão comercial”
Já a campanha “Somos todos responsáveis” defende que apenas os pais seriam os responsáveis pela proteção das crianças diante dos estímulos abusivos das propagandas ao consumismo. Para eles é importante, necessária e sadia submeter às crianças à informação. “Se a ideia é proteger as crianças da mídia, não adianta mais desligar a televisão, abaixar o volume do rádio e ficar longe das bancas de jornais”, diz Dalton Pastore, presidente do Conselho Superior da Abap. “A questão é mais complexa e merece uma discussão mais profunda, baseada em educação, e não em proibição”, complementa.
No entanto, atitudes como esta isentam o Estado e o mercado (empresas e publicitários) de quaisquer responsabilidades sobre a publicidade dirigida às crianças. “Nesta relação, fica patente a vulnerabilidade das famílias, da comunidade e da própria criança diante do discurso mercadológico”, alerta Mariana Sá.
Um alerta interessante feito por essas organizações diz respeito aos problemas causados ao meio ambiente. Segundo o ILC, o excesso de propagandas e conteúdo manipulatório dirigidos ao público infantil dificulta a educação cidadã e sustentável e vai contra a formação de um consumidor consciente, justo num momento em que o mundo repensa formas de consumo sustentáveis.
Assim cabe uma reflexão sobre o que está por trás dessa resistência do mercado no diálogo sobre a regulamentação do setor. É importante e urgente entender que isso é uma das pontas do iceberg chamado democratização da comunicação. Tema este que merece ser aprofundado, especialmente para entender o porquê de o discurso mercadológico estar baseado na censura e na defesa da liberdade de expressão. Como bem afirma Gilberto Leifert, a proibição de propaganda infantil é um “atentado à liberdade de expressão comercial”. Num país que acabou de sair de um processo de ditadura onde o calar foi um dos recursos mais (bem) utilizados, qualquer aceno que relembre esse momento é evidentemente danoso, significativo e causa aversão. Segundo o coordenador executivo da organização Andi Comunicação e Direitos, Veet Vivart, “associar a regulação, que é um instrumento democrático, interdita o debate”.
Cúmplices de violações
Daí surge outro debate sobre o porquê da importância dos pais, mães e demais responsáveis pelo cuidado direto de crianças e adolescentes, dizerem “não” aos constantes pedidos de “compra” emitidos por eles. Dizer não além de ser educativo, ajuda a criançada a entender que a vida não é o “céu de brigadeiro” que a TV mostra. Dito isso, é salutar compreender que um dos recursos da publicidade é o de se aproveitar do (grande) tempo que as crianças ficam exposta a programas televisivos, longe da presença de adultos, para impor uma lógica de consumo desenfreado, por meio de técnicas de aborrecimento (onde vencem pelo cansaço), aumento do volume no momento dos comerciais, o uso constante de merchandising, entre outras. Para se ter uma ideia do que estamos falando, as crianças brasileiras ficam até cinco horas na frente da TV, diferentemente de outros países, inclusive os Estados Unidos. No final, temos crianças obesas, sedentárias, doentes e mal informadas, para não aprofundar mais neste debate.
No final, a maioria dos pais e mães que trabalham fora de casa e, portanto, ficam longe de seus filhos, vê-se obrigado a comprar, atendendo aos pedidos insistentes do filho, na tentativa de suprir o tempo perdido. Mas é preciso entender que não se compra tempo, atenção e afeto, especialmente das crianças. Faz-se necessário e urgente refletir e criar estratégias de recompensa desse tempo a partir de momentos de aproximação, conversa, troca e atenção, onde os pais e mães fiquem com suas crianças e promovam momentos de interação com eles. Isso vale muito mais do que um brinquedo, na maioria das vezes caro, que será deixado de lado, em breve. Sem contar que é fundamental avaliar o pedido de compra. Afinal, é algo que vai ser realmente utilizado pela criança, é adequado para a idade, vai ajudá-lo de alguma forma, que habilidades serão desenvolvidas? Porquedo contrário, a velha resposta do “porque agora não tenho dinheiro”, atrapalha por não acrescentar, por não ajudar a pensar de forma sustentável e educativa. O “não” tem de estar embasado em outras motivações.
Importante resgatar que o processo de debate e regulação proposto pela sociedade civil é algo que deve inclusive acontecer dentro da esfera pública do Estado. Afinal,cabe a este ente promover e induzir os processos de garantia de direitos, uma vez que ele é o representante formal, referendado noutro processo democrático de consulta pública.
Por fim, quero lembrar que este é mais um ano de eleições e que estaremos escolhendo a/os nossa/os futura/os representantes à Prefeitura e Câmara de Vereadores. Em dois anos, escolheremos a/o presidente, governadores, senadores e deputados. E quantas vezes procuramos saber qual o plano de governo que eles propõem, nossas demandas de focar as crianças estão contempladas ou mesmo se acompanhamos esses compromissos pleiteados durante a campanha? Acredito que não. Normalmente preferimos nos omitir sob a desculpa de que política é lugar de corrupção, privilégios e impunidade. No entanto, essa postura nos coloca como cúmplice das inúmeras violações direcionadas a população infanto-juvenil brasileira.
Fonte:
Por:
Rosely Arantes é jornalista, educadora popular e especialista em Gestão Estratégica Pública.
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