26 de jul. de 2012

Tempos de sangue


A história estava esquentando havia um bom tempo na Síria. Em abril, o chanceler do Conselho Nacional Sírio, Bassma Kodmani, escolheu palavras certeiras para definir o que se passa no país: "Com a promessa de trégua, Bashar Assad fez o mundo de bobo. Tempo é sangue hoje na Síria".
Em maio, a Anistia Internacional acusou o país de crimes contra a humanidade, ante a tortura e o assassinato de opositores e manifestantes pacíficos. Em junho, observadores das Nações Unidas foram alvo de tiros na Província de Hama, enquanto o diplomata Kofi Annan via naufragar suas esperanças de um plano de paz para o país.
No início de julho, o general Manaf Tlass, oficial de alta patente do Exército e amigo de infância do ditador, desertou e passou a pedir apoio para uma transição democrática para o país. O diplomata Nawaf Fares, embaixador da Síria no Iraque, também debandou: "Peço aos membros do Exército para se juntarem à revolução. Direcionem suas armas para os criminosos do regime".
No domingo passado, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha declarou estado de guerra civil no país, onde os confrontos já se alastraram além das fronteiras de Hama, Homs e Idlib. Desde o início da revolta contra a ditadura do presidente Bashar Assad, há 16 meses, mais de 17 mil pessoas morreram - a estimativa é do Observatório Sírio de Direitos Humanos.
Agora, o regime sírio enfrenta o mais grave revés. Na quarta-feira, um atentado em Damasco matou três oficiais da alta cúpula: Daud Rajiha, ministro da Defesa, Asef Shawkat, vice-ministro, general e cunhado do presidente, e Hassan Turkomani, ex-ministro da Defesa. O Exército Livre Sírio assumiu a autoria dos ataques. Um dia depois, 20 mil sírios haviam fugido do país, temendo a artilharia pesada da repressão. Na sexta, Hisham Ikhtiyar, chefe da segurança nacional, também ferido no atentado, não resistiu e morreu.
Rumores saídos de Damasco sobre a queda iminente de Assad rapidamente se espalharam. "É o começo do fim", diziam. No entanto, e apesar da instabilidade crescente, China e Rússia vetaram a proposta de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas pela terceira vez. Passou apenas a resolução 2059, que prorroga a missão de observadores na Síria por 30 dias, prazo considerado "final" pelos Estados Unidos e seus aliados europeus. "Uma intervenção estrangeira prolongaria o conflito e pavimentaria o caminho para proxy wars (guerras delegadas) no território sírio. A revolução deve ser batalhada e vencida por dentro, para garantir sua legitimidade a longo prazo", considera a intelectual Marwa Daoudy. "Assad se agarrará ao poder e lutará até o último minuto, e pode ter um amargo fim", avalia.
Cientista política nascida na Síria, Marwa Daoudy se mudou para a Suíça na adolescência, há 25 anos. Agora, na casa dos 40, já fez diversas peregrinações intelectuais. Pós-doutora pela School of Oriental and African Studies, da Universidade de Londres, passou por Harvard, Sciences Po e Université Libre de Bruxelles, entre outras universidades.
Em setembro de 2010, tornou-se professora do Departamento de Política e Relações Internacionais do Oriente Médio na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Neste ano, foi professora visitante do Woodrow Wilson School of Public & International Affairs, de Princeton, nos Estados Unidos. Paralelamente à atividade acadêmica, é conselheira política das Nações Unidas para negociações de paz no Oriente Médio.
Além das andanças pelo mundo, a scholar voltou diversas vezes à terra natal, Damasco, não mais depois de novembro de 2010. Isso porque, em março de 2011, quando os ventos da Primavera Árabe começaram a soprar no país, ela foi alertada de que o regime estava de olho nas suas críticas publicadas pela imprensa internacional. Agora, observa e analisa os acontecimentos políticos na Síria a partir do front diplomático. "Estamos testemunhando um novo capítulo da Primavera Árabe", diz.
Apesar do desfecho ainda incerto do cerco a Assad até a noite de sexta-feira, a analista arrisca: "Assad cairá. A questão é: quando? E derrubado por quem?" De Genebra, Marwa Daoudy conversou com o Aliás.
Como interpretar os acontecimentos da Síria nessa semana? O que se pode esperar?
A operação foi decisiva. Ao mirar a sede da Segurança Nacional em Damasco, os rebeldes acertaram o coração do regime, matando o terceiro homem mais poderoso do país, o general Asef Shawkat, cunhado do presidente. Esse é o começo do fim para Bashar Assad, como quer a oposição? Não sei. Mas não acredito que o regime vá entrar em colapso nos próximos dias. Acredito que Assad se agarrará ao poder e lutará até o último minuto, e pode ter um amargo fim. Até lá, haverá ainda mais violência na Síria, confrontos entre os insurgentes armados e o Exército do regime espalhados por todo o país. No entanto, as batalhas travadas na capital são decisivas e representam uma reviravolta. A vulnerabilidade do regime foi exposta pela primeira vez.
Nos últimos dias, Assad perdeu o apoio de militares e diplomatas. O presidente está sendo abandonado?

As deserções estão aumentando, principalmente a partir da postura assumida pelo general Manaf Tlass. E aumentarão, com peso significativo, sobretudo após o atentado rebelde na quarta-feira. O fato de que os insurgentes foram capazes de matar oficiais do alto escalão das forças armadas alavancou a resistência e encorajou militares a abandonar o barco. Entretanto, a elite militar, constituída pelos alauitas, próximos do poder, continua leal a Assad.

O presidente pode usar armas químicas?
Na minha temporada nos Estados Unidos, ouvi de fontes militares que os americanos e os israelenses já estavam se preparando para a possibilidade de a Síria usar armas químicas. Mas em minha opinião o regime está muito relutante em usá-las, porque sabe que isso detonaria a condenação imediata da comunidade internacional. Se o governo apelar para as armas químicas, será realmente o último dos últimos recursos. E seria suicídio, porque sabe que Estados Unidos e Israel estão em alerta. Se Assad usar as armas, perderá o apoio da Rússia e abrirá as portas para a intervenção na Síria. Seria uma ação totalmente irracional. Na minha opinião, não há risco iminente de Assad lançar mão desse recurso. Mas quem sabe o que o regime desesperado faria para sobreviver? Além disso, se os israelenses decidissem atacar, as consequências ultrapassariam as fronteiras sírias e chegariam ao Irã, o que certamente pavimentaria o caminho para a regionalização, se não a internacionalização, do conflito.
Qual é o papel das Nações Unidas nessa guerra civil?

A ONU pode aumentar a pressão sobre o regime, ampliando suas sanções - mas contra os oficiais do governo, seus movimentos e seus ativos (e não contra os recursos e fontes do país, o que provocaria mais impacto negativo na vida cotidiana da população). Não apoio uma intervenção militar estrangeira, seja votada pelas Nações Unidas, seja decidida fora dela. Uma intervenção prolongaria o conflito e abriria caminho para proxy wars no território sírio. A revolução deve ser lutada e vencida por dentro, para garantir sua legitimidade. Qualquer intervenção militar estrangeira, com tropas e força aérea, seria inaceitável e comprometeria uma transição pós-Assad. Custaria muito aos sírios no longo prazo. Claro, sem a intervenção, o preço também é alto - afinal, o regime está dizimando civis. Mas na minha perspectiva uma intervenção ampliaria o problema no tempo (a duração do conflito) e no espaço (as fronteiras), porque envolveria agendas políticas de outras potências. E não só a dos Estados Unidos, pois também temos atores regionais importantes como Israel, Irã, Catar e Arábia Saudita. Então a Síria se tornaria uma plataforma para interesses externos. Isso, na minha visão, poderia transformar a Síria em um novo Iraque. Mas será outra história se a revolução for vencida por dentro. E o que assistimos nessa semana é um indicativo de que isso pode acontecer, pois os rebeldes golpearam o coração do regime com armas e táticas próprias.

Como a sra. analisa o veto de China e Rússia a sanções no Conselho de Segurança?

Não foi surpresa. China e Rússia têm tomado continuamente posições contrárias à mudança de regime na Síria. Viram que a imposição de sanções, econômicas e diplomáticas, logo levaria a isso. Os russos também sentem que foram enganados no passado, com a operação na Líbia - na época, a questão foi redirecionada de "proteção a civis" para "mudança de regime". E eles sentem que a situação pode se repetir na Síria, o que disparou um alarme para chineses e russos. Afinal, Rússia e China não querem que isso seja usado como precedente para futuras operações sob o mesmo pretexto de violações dos direitos humanos. A Rússia também está tentando preservar seus interesses estratégicos no Oriente Médio através das relações com a Síria. Atualmente, o jogo do poder é principalmente jogado contra os Estados Unidos, pois a Rússia quer mostrar que ainda tem voz no tabuleiro geopolítico.

Quais são os atores em jogo na resistência contra Assad?

Atualmente, há dois diferentes movimentos de oposição claros: a resistência pacífica e a insurgência armada. Mas é bom lembrar que a revolução começou como um movimento não violento a favor da justiça socioeconômica. No entanto, como civis, principalmente os desarmados, foram brutalmente torturados e sitiados por forças do regime, parte da população se deslocou para a insurgência armada para se defender. E, num certo ponto, percebeu que a defesa não era mais suficiente e partiu para a ofensiva. No plano militar, o Exército Sírio Livre emergiu como principal jogador. É formado por civis e soldados desertores, além de apoiado tanto pelos Comitês de Coordenação Locais (a rede de movimentos de oposição) quanto pelos movimentos de oposição externa, como o Conselho Nacional Sírio, e potências estrangeiras. Fontes de inteligência também mostram que existem cerca de cem grupos rebeldes operando no país, alguns ainda desconhecidos. E se acredita que jihadistas do Iraque se infiltraram nas fronteiras e estão operando contra as forças do regime - tentando transformar a revolução em uma revolução islâmica. Mas há ainda um ativismo não violento muito forte na Síria promovendo ações de "desobediência civil". Por exemplo, mercados no coração de Damasco que não abrem suas portas como forma de protesto diante dos assassinatos. Mas agora os comerciantes desses mercados vêm sendo muitas vezes forçados pela polícia a abrir suas lojas, porque as forças do regime já sabem que se trata de desobediência. Então, essa tendência de oposição pacífica está ficando à margem. Com essa crescente complexidade da resistência, está ficando cada vez mais difícil identificar quem é quem entre os rebeldes.

Qual é o papel das mulheres na resistência? Há espaço para elas?

Sim, definitivamente. As mulheres são um dos principais pilares da sociedade civil síria. Elas efetivamente contribuíram para os levantes não violentos desde o início da revolução. E continuam sendo uma parte importante junto às comissões de coordenação locais e movimentos oposicionistas. A Síria é um Estado secular, muito relacionado à ideologia socialista progressista que promoveu os direitos das mulheres. Então, as mulheres estudam, trabalham e se destacam na política. Elas são ativistas, esposas, estudantes, irmãs, filhas, mães, profissionais, que emergem para contribuir com o esforço coletivo de resistência. Algumas inclusive pagaram um preço alto: os massacres em Homs, Houle e Tremesh visaram principalmente às mulheres e suas crianças. Muitas mulheres e garotas foram estupradas, como forma de reimpor o pavor e a vergonha em uma sociedade que já tinha se libertado do medo e da dominação. Apesar disso, a participação feminina continua forte - inclusive a de algumas antigas alunas minhas em Damasco. O futuro pós-Assad precisa reconhecer o papel das mulheres e dar a elas as posições merecidas na sociedade e na política.

Onde estão os intelectuais sírios?

Alguns tomaram uma posição revolucionária. Outros preferiram uma postura mais "prudente" contra as consequências não desejadas. Muitos escritores e pensadores condenaram as ações do regime e agora pedem uma transição política. O debate foca a trilha a ser percorrida para dar fim à crise. Deveria ser em diálogo com o regime? Ou deveria atravessar o regime comprometido por crimes e com muito sangue nas mãos? Apesar do autoritarismo do regime, a sociedade civil síria sempre foi muito vibrante. Ativistas de direitos humanos e intelectuais têm se mobilizado continuamente, e se fazem ouvir, através de petições e críticas em jornais libaneses e até sírios. Sim, foram atormentados, presos e torturados. Mas não desistiram. Muitos dissidentes históricos e intelectuais sírios, como Michel Kilo, Riad Turk e Riad Seif, continuam vivendo na resistência na Síria.

Que ecos da Primavera Árabe vemos na Síria agora?

Nós estamos realmente testemunhando um novo capítulo da Primavera Árabe, com esses desdobramentos na Síria. A Primavera Árabe definitivamente está lá. No entanto, depois de mais de um ano de levantes populares, a revolução na Síria ainda está lutando para conquistar o que pretende. Uma coisa é certa: as mudanças são irreversíveis. O regime certamente cairá. As questões que interessam agora são: como? Quando? E será derrubado por quem?

Fonte:

Caderno Aliás, O Estado de S. Paulo

19 de jul. de 2012

Racismo




CRÔNICA

Preconceito racial e discriminação racial são duas coisas diferentes.

O preconceito é um sentimento, fruto de condicionamento cultural ou de uma deformação mental, mas sempre incorrigível. Não se legisla sobre sentimentos, não se muda um habito de pensamento ou uma convicção herdada por decreto. Já a descriminação racial é o preconceito determinando atitudes, políticas, oportunidades e direitos, o convívio social e o econômico. Não se pode coagir ninguém a gostar de quem não gosta, mas qualquer sociedade democrática, para desmentir o nome, deve combater a descriminação por todos os meios – inclusive a coação.

Não concordo com quem diz que uma política de cotas para negros no estudo superior é discriminação. É coação, certo, mais para tentar corrigir um dos desequilíbrios que persistem na sociedade brasileira, o que reflete na educação a desigualdade de oportunidades de brancos e negros em todos os setores, mal disfarçada pela velha conversa da harmonia racial tão nossa. As cotas seriam irrealistas? Melhor igualdade artificial do que igualdade nenhuma.

Agora mesmo caíram em cima de quem disse – numa frase obviamente arrancada do contexto – que racismo de negro contra branco é justificável. Nenhum racismo é justificável, mas o ressentimento dos negros é. Construiu-se durante todos os anos em que a última nação do mundo a acabar com a escravatura continuou na prática o que o tinha abolido no papel. Não se esperava que o preconceito acabasse com o decreto da abolição, mas mais de 100 anos deveriam ter sido mais do que suficientes para que a discriminação diminuísse. Não diminuiu.

Igualar racismo de negro com racismo de branco não resiste a um teste elementar. O negro pode dizer – distinguindo com nitidez preconceito de descriminação – “Não precisa me amar, só me dê meus direitos”. Qual a frase mais próxima disto que um branco poderia dizer, sem provocar risos? “Não precisa me amar, só tenha paciência”? “Me ame, apesar de tudo”?. Pouco convincente.

É uma questão que vai e vem, como as marés. A velha oposição, na seleção brasileira, do time do povo e o time do técnico. Quando as coisas vão bem (Brasil 4, Chile 0) não há discussão, quando as coisas vão mal (Brasil ali ali, Gana 0) volta a questão. O povo quer os melhores sempre no time. Isto se repete há anos. Mudam os técnicos, mudam os melhores, muda, em boa parte o povo, e a questão continua indo e vindo. Como as marés.

Fonte:

Por

Luis Fernando Veríssimo

''Ensaio sobre a cegueira''



CRÔNICA

EM SETEMBRO passado, o presidente do Irã visitou Nova York. Bizarro, sobretudo para quem deveria estar preso por suas exortações genocidas? Nem por isso. O momento bizarro da visita aconteceu na Universidade Columbia, uma vetusta casa por onde já passaram Lionel Trilling ou Jacques Barzun. Bons tempos, esses, em que a universidade não era uma pocilga.

Em 2007, e perante a platéia erudita do momento, Mahmoud Ahmadinejad, internacionalmente conhecido por sua sanidade mental, declarou que no Irã não havia "homossexuais". Toda a gente riu.

Toda, exceto o próprio Ahmadinejad. E com inteira razão. Não pretendo ser internado no manicômio na companhia dele. Mas sou obrigado a concordar com o presidente. Como é possível acreditar que o Irã tem "homossexuais" dentro das suas portas quando o regime tem sido exemplar a persegui-los, a torturá-los e a executá-los?

Os números não mentem: em 1979, uma data que será lembrada na história da humanidade como hoje recordamos a Revolução Russa de 1917 ou a chegada de Hitler ao poder em 1933, o aiatolá Khomeini iniciava a sua "revolução islâmica". E, em três décadas, o regime executava 4.000 "homossexuais", aplicando a rigorosa (mas altamente discriminatória) lei penal iraniana sobre a matéria.

Digo rigorosa mas discriminatória porque a lei penal concede às donzelas uma benevolência que está interdita aos machos: a sodomia é punida com a morte; mas o mesmo não acontece com a homossexualidade feminina. As senhoras recebem "apenas" cem açoites nas três primeiras infrações lésbicas.

Só à quarta vez conhecem o fatal destino dos homens. Quem disse que não existem vantagens em pertencer ao "sexo fraco"?

Aliás, as vantagens não se ficam pelo chicote. E não será exagero afirmar que, no Irã, só morre por homossexualismo quem quer.

Li em tempos, num artigo da jornalista portuguesa Alexandra Prado Coelho, que o regime iraniano pode condenar os homossexuais à morte. Mas o regime não se opõe a operações cirúrgicas para mudança de sexo. Pelo contrário: o financiamento estatal é bastante generoso para esse fim.

De acordo com os números oficiais, existem entre 15 a 20 mil transexuais no Irã. Mas os números "clandestinos" multiplicam a cifra por dez, o que transforma o Irã no segundo país do mundo, logo a seguir à Tailândia, com o maior número de homossexuais que optaram pelo bisturi para jogarem por outro time. O presidente Ahmadinejad sabia do que falava. Homossexuais? É tão difícil encontrar um no Irã como encontrar o saci a pular no mato brasileiro.

Mas alguns ainda pulam. Para sermos mais exatos, alguns pulam fora e procuram salvação no corrupto mundo ocidental.

Pior: de acordo com as notícias dos últimos dias, existem casos em que "homossexuais" islâmicos abandonam a riqueza e a tolerância das suas culturas locais, entregando-se de alma e coração a potências opressores e imperialistas. Como a Grã-Bretanha. Como Israel.

Na Grã-Bretanha, o governo de Gordon Brown, depois de uma ridícula hesitação diplomática, decidiu conceder asilo político a um homossexual iraniano de 19 anos.
Parece que o rapaz, de seu nome Mehdi Kazemi, depois de assistir à execução do namorado em Teerã, achou por bem não ficar mais tempo no país. Inexplicavelmente, há gente que não gosta de balas. Ou de bisturis.

Mas o caso da semana veio de Israel, essa entidade maligna que continua a envenenar o Oriente Médio: em decisão rara, Tel Aviv concedeu visto de permanência para palestino homossexual que vivia na Cisjordânia e se preparava para ser morto pelos vizinhos. 

Segundo parece, os palestinos não se limitam a jogar pedras contra os judeus; também praticam esse desporto contra os seus próprios homossexuais.

Exatamente como o leitor médio da imprensa ocidental média pratica o seu desporto favorito: abominar as democracias liberais onde vive pelo aplauso irracional a culturas retrógradas e até sinistras. As mesmas culturas que o condenariam facilmente à morte caso o leitor tivesse uma orientação sexual, ou religiosa, ou política, que os fanáticos considerassem intolerável.

A cegueira física é um infortúnio, sem dúvida. Mas a cegueira mental, sobretudo quando voluntária, não deixa de ser um infortúnio maior. Ela começa no dia em que a distinção entre civilização e barbárie deixa de fazer sentido.

Fonte:


Por

João Pereira Coutinho

Tragédias na mídia


Crônica

Nas últimas semanas, temos sido bombardeados, por todas as mídias, por notícias que revelam violências contra crianças praticadas possivelmente por adultos próximos a elas. É uma criança torturada aqui, outra ali, outra que morre lá e assim por diante. E não podemos esquecer que as crianças, hoje, têm acesso a todos os veículos de comunicação e recebem essas informações.
Que sentidos elas dão a esses fatos? Tomemos dois exemplos que chegaram a mim. Uma criança, de oito anos, perguntou à mãe se o pai poderia matá-la quando ficasse muito bravo. Outra, um pouco mais nova, perguntou se iria ficar de mãos amarradas quando fosse ao castigo. Certamente, muitos leitores devem ter passado por experiências semelhantes com seus filhos e seus alunos.
As crianças estão angustiadas com tais notícias porque identificam nelas que os adultos próximos, ao invés de de protetores, podem ser ameaçadores. Justamente aqueles em quem elas depositam a maior confiança se revelam, nas notícias, suspeitos de agir de modo contrário. E agora?
Agora, mais uma parte da infância de nossas crianças fica comprometida, fato cada vez mais banal. Mas será que não se pode fazer nada? Sim, podemos e devemos fazer algo por elas, que, sozinhas, não conseguem entender e expressar toda a angústia que as invade.
A maioria das escolas costuma ignorar o fato de que seus alunos sabem dessas notícias e continuam seus trabalhos como se nada de excepcional ocorresse. Pois todas elas têm recursos para, de alguma maneira, tratar dessas questões. É um bom momento, por exemplo, para oferecer aos alunos, nas aulas de expressão artística, estratégias para dar forma ao que eles imaginam, sentem e pensam sobre tais fatos.
O simples fato de colocar de modo simbólico sentimentos e angústias já aponta pistas sobre outras formas de trabalhar o tema. Depois, é importante que se fale a respeito, sem psicologismos nem interpretações leigas, para que, coletivamente, eles se sintam acolhidos em suas preocupações e aprendam sobre os direitos das crianças e dos adolescentes e os valores sociais da justiça e da responsabilidade com o bem comum.
Para os pais, esse é um bom momento para oferecer aos filhos mais segurança em relação aos vínculos familiares e dar maior relevância aos valores morais e éticos. É muito importante, por exemplo, afirmar que a família ama e respeita a vida, que nenhuma violência deve ser aceita pelos integrantes do grupo familiar, que casos como os noticiados são exceções -apesar de tanto alarde-, que os impulsos agressivos podem ser controlados e, também, estabelecer um diálogo a respeito das opiniões dos pais e dos filhos sobre esses fatos.
Todas as tragédias servem para nos fazer refletir sobre a humanidade e o nosso cotidiano. Por isso, é importante que os adultos pensem a respeito das pequenas violências, simbólicas ou reais, que o mundo adulto comete contra os mais novos. Afinal: nossas posições demonstram que somos a fim deles ou que estamos mais para ser o fim deles?

Fonte:


Por

Rosely Sayão

Teoria da Relatividade, 96 anos


Em 20 de março de 1916, Albert Einstein publicou sua Teoria Geral da Relatividade. As ideias gerais nela contidas haviam sido apresentadas em novembro do ano anterior, na Academia Prussiana de Ciências, e ocupavam o físico desde 1907. Eram uma tentativa de colocar em diálogo sua Teoria Restrita da Relatividade (apresentada em 1905) e a física de Galileu e Newton, um dos fundamentos da ciência moderna. Mas abalavam as certezas anteriores (e ainda hoje predominantes, no senso comum) sobre tempo, espaço e movimento.

A imensa série de desdobramentos científicos e filosóficos da teoria de Einstein não cabe, evidentemente nestas linhas. Mas seu sentido geral é radicalizar a noção de que não há pontos de referência universais – nem, portanto, verdades únicas. Séculos antes, Galileu havia demonstrado que um mesmo fenômeno físico é visto de distintas maneiras, dependendo do ponto onde está o observador. Einstein acrescentou, a esta incerteza, muitas outras – relacionadas especialmente ao tempo. Também este, mostrou ele, dilata-se e se contrai. Não há um relógio universal, uma régua geral para todos os acontecimentos. Dois eventos que um observador vê como simultâneos podem não o ser para outro.

O interessante é que esta quebra de paradigmas científicos seria seguida, décadas mais tarde, por mudanças que sacudiram as noções sociais de tempo e a percepção sobre ostatus da ciência. Ao menos dois textos, disponíveis naBiblioteca Diplô, contribuem diretamente para este debate.

Em “O futuro do tempo”, Jérôme Deuvieau discute como a pós-modernidade dissolveu as réguas temporais mais importantes desde o Renascimento (as do trabalho) sem que nada tenha, ainda, ocupado seu lugar. Na Idade Média, considera ele, o tempo religioso dava sentido à vida. Mais tarde, este papel passou a ser exercido pelo labor, que cumpriu as três funções básicas antes preenchidas pela fé e seu serviço: a) Produzir vínculo social; b) Estabelecer laços entre atividade e "salvação"; c) Orientar o futuro, dando-lhe um sentido, agora secular.

Mas a deslegitimação do trabalho começa no século 19 e acelera-se no seguinte – por múltiplos fatores. Em países como a França, o tempo diretamente dedicado às atividades laborais cai de 70% da vida em vigília (em 1850) para 7% a 8%, hoje. As máquinas (o capital) encarregam-se de um conjunto crescente de atividades antes executadas por seres humanos. E as próprias aspirações dos indivíduos, na virada para o século 21, deslocam-se da acumulação de bens materiais para a "redescoberta de si".

O aspecto negativo destas transformações está, também ele, relacionado ao tempo e sua métrica. Os projetos anteriores de um "futuro melhor" por meio do trabalho coletivo perdem sentido – tanto os que apostavam nas supostas virtudes da disciplina capitalista quanto os que esperavam a coletivização da indústria. À falta de um futuro, busca-se desesperadamente o imediato: "o ser humano de hoje enxerga-se com direitos sobre o de amanhã, ameaçando o bem-estar, equilíbrio e às vezes a vida deste último".

A saída, imagina Deauvieau, está numa visão do futuro que substitua a velha ideia linear de tempo e "progresso" por outra, baseada na responsabilidade. Construir uma nova utopia é possível. Mas implica assumir posturas que já não se apoiam principalmente em nosso lugar na produção de riquezas – mas em nossa solidariedade com as gerações futuras, precaução com o planeta, preservação e multiplicação dos bens comuns.

A mudança de paradigma provocada pela Teoria da Relatividade suscita ainda outra linha de reflexão pouco convencional. Em "Outra ciência é possível", Jean-Marc Lévy-Leblond questiona uma das certezas que acompanham o Ocidente desde o Renascimento: o suposto caráter "neutro", "objetivo" e, portanto, "universal" do saber científico. É algo que resistiu, pensa ele, como um porto seguro no século 20. "Em um mundo no qual sistemas sociais, valores espirituais, formas estéticas vivem incessantes abalos, seria tranquilizador que a ciência oferecesse pelo menos um ponto fixo de referência, dentro do relativismo ambiente"...

Mas ao longo de seu texto, Leblond reúne elementos quecontestam esta falsa segurança. O que chamamos hoje de "ciência" diz ele, é uma das múltiplas formas possíveis de produção do saber. Seu método, desenvolvido a partir da Grécia e baseado na abstração e na prova, é de fato um avanço em relação, por exemplo, às formulações empíricas dos egípcios. Regride mais tarde, para ressugir no Renascimento (com grande contribuição islâmica), associado à mecanização, ao "domínio da natureza" e à produção de riquezas. Mas pode perfeitamente estar em declínio. O comando mercantil que lhe deu força em outros tempos restringe gravemente, hoje, a "possibilidade de pesquisas especultaivas, sem garantia de sucesso imediato".

Não há ampliação de horizontes sem abandono das antigas referências. Assim como a Teoria da Relatividade nos liberta da segurança ilusória de um "tempo único", deveríamos estar abertos, conclui Leblond, a "outras formas de ciência". Mas não poderemos fazê-lo sem o doloroso reconhecimento de que não temos as chaves do saber... 

Fonte:

Biblioteca Diplô

Metrô de São Paulo: as razões do caos


Um pensamento preconceituoso, envolvendo mobilidade urbana, tornou-se comum em São Paulo, nos últimos anos. Costuma-se dizer que as estações do metrô estão superlotadas e caóticas devido… ao crescimento da rede. Ao chegar a regiões da periferia antes não servidas, ela teria incorporado as multidões que a sufocaram. Pobre metrópole gigante: nela, até mesmo algo racional, como o transporte público, seria inviável…
Esta concepção é rigorosamente incorreta, revela hoje uma série especial de três matérias produzidas pelo jornalista Guilherme Soares Dias e publicadas pelo Valor (1 23). O problema do metrô é, na verdade, o oposto. O sistema está superlotado não porque tenha crescido muito, mas porque avançou devagar demais. O congestionamento atual pode ser perfeitamente superado com a inauguração de novas linhas e estações. Esta providência desafogará as atuais, redistribuindo o tráfego.
O metrô paulistano, revelam as reportagens, estacionou após a década de 1970 (quando foram inauguradas as duas primeiras linhas). Nos últimos 18 anos, sob governo estadual do PSDB, foram estendidos apenas 27 quilômetros de trilhos, 1,5 km por ano. A malha total limita-se a 74,3 km — contra 285 km em Seul, ou 200 km na Cidade do México, onde os sistemas têm aproximadamente a mesma idade. Nem se fale dos 420 km. de Shangai (cuja primeira linha foi inaugurada apenas em 1994…)
É a rede reduzida que concentra o fluxo de passageiros em poucas linhas e estações. As reportagens dão dois exemplos. Inaugurada há pouco mais de dois anos, a linha 4 já está sobrecarregada. Um dos motivos é o atraso na extensão da linha 5, que um dia ligará a região de Santo Amaro, na periferia Sul, à avenida Paulista. Deveria estar pronta há vários anos. Inacabada, obriga quem faz o trajeto a usar (e congestionar) duas outras linhas ferroviárias: a 9 (de trens urbanos) e a 4, do metrô. Outro exemplo: a linha 4 foi aberta, em 2010, com apenas parte das estações operando. A estação Paulista tornou-se insuportável, em certos horários do dia, por concentrar, além de seus usuários naturais, os que normalmente se dirigiriam a Oscar Freire e Higienópolis, ambas inacabadas.

Os sinais de que a sobrelotação se reduz, quando a malha se expande, já começaram a aparecer. A inauguração da linha 4, por exemplo, diminuiu em 18% o número de usuários da estação Sé, e aliviou seu caos: ela deixou de ser passagem obrigatória entre as linhas 1 e 2.
Produzida nos limites da mídia tradicional, a reportagem do Valor não pôde ser crítica, como era necessário, em relação aos últimos governos de São Paulo. Ela aceita sem questionar as afirmações do Palácio dos Bandeirantes, que fala em construir 100 quilômetros de linhas, até 2018 (como se sua reeleição fosse garantida, aliás). Mantido o ritmo de expansão do metrô observado nas gestões de seu partido, o governador Geraldo Alckmin precisaria de 66 anos para alcançar tal meta…
Fonte:


Antonio Martins
Outras Palavras

14 de jul. de 2012

Aí é too much


Depois brotará o vazio no pasto da solidão, e ela perguntará antes de dormir para seu confidente, o travesseiro: "Não é melhor ser menos exigente? Quem vai cuidar de mim quando ficar velhinha?" Até lá, vamos curtir, baby...
Ela jamais diria que a solteira é aquela que perdeu a ocasião de tornar um homem infeliz. Acreditava nas relações. Apostava no amor. Sua solteirice? Temporária, posta em xeque.
Queria apenas curar a ressaca da separação recente. Farreando, por que não? Queria por um período aliar a independência financeira com a afetiva. Queria se divertir sem parar, ir ao cinema sozinha, viajar com amigas e amigos, reclamar que todos os homens são tolos e infantis, e que os caras mais lindos, gays.
Porém, a fase festiva sofreu dois grandes baques:
1. O ex-marido se juntou com uma garota que não precisava de sutiã, luzes no cabelo, nem maquiagem, e andava enjoando em demasia; o peito tinha aumentado, e a barriga, começado a ficar redonda. Aquele ex que nunca quis ter filhos. Mudou de ideia ou foi forçado a?
2. O anúncio de que a melhor amiga, que recebia convites para as melhores festas, com quem saía todos os finais de semana e aprendeu a ser adolescente depois de madura, viajava nos feriados prolongados, desabafava sobre as loucuras do ex e as idiossincrasias das paqueras, estava... namorando! Com um garoto interessante, cheio de amigos interessantes que trabalhavam juntos num coletivo interessante e faziam projetos de interesse social, tecnológico e além de tudo sustentáveis.
Claro que ela refez os planos, baixou a guarda, deixou a teimosia no armário e flutuou pela correnteza da vida. Até enroscar numa curva e ser seduzida por Pedro, que tocava pandeiro no grupinho de pagode do coletivo, que se reunia no happy hour as sextas-feiras. E que fez tudo certo: a esnobou até o limite, xavecou no momento preciso, investiu com as armas apropriadas, falou o que precisava ser dito e, enfim, a beijou exatamente quando a brecha apareceu depois de gentilmente trazer a quinta latinha.
Pedro foi um mestre. Conquistou o grande troféu, a solteira mais cobiçada. Recebeu reconhecimento dos amigos e adversários. Mas o convívio... Sempre ele a denunciar nossas incongruências.
Pedro é daqueles que atendem celular no elevador. Viciados em UFC. OK, é um segmento forte do mercado. Que buzinam para os carros da frente assim que abre o farol. Tudo bem, ela se dizia, nem tudo é perfeito. Que param em vagas de idosos no shopping e ainda contam vantagem: "Dentro de estabelecimentos comerciais não podem multar."
Um dia ele implicou com a unha vermelha dela. "Não é coisa de empregada?", disse ao entrar no carro quando ela foi pegá-lo, desviando do caminho, num dia de congestionamento recorde, sem ao menos passar na sua casa, para não atrasarem para o sambão do coletivo, para o qual trocou o almoço pela manicure.
Calma, garota, não seja exigente. Sou suficientemente lúcida para admitir que não existe o par perfeito, ilusão, escapismo utópico inventado pelos românticos, e que exigir de alguém o mesmo comportamento social é um exercício de fraqueza narcisista de pessoas problemáticas que só conseguem se relacionar com o espelho.
Sustos apareceram no primeiro jogo de futebol pela TV que viram juntos. Ela não era fanática. Nem o ex. Gostava, assistia, e que ganhasse o melhor.
Já Pedro... O time dele disputava cabeça a cabeça a liderança do campeonato com o de maior rivalidade. Xingava o juiz e os bandeirinhas sem economia. O fato de uma bandeirinha ser mulher incrementava os impropérios: "Vaca, piranha! Vai pra cozinha, filha da mãe!" Ela achava engraçado porque quando a decisão do outro bandeirinha, homem, era colocada em dúvida, sua heterossexualidade também.
Quando o zagueiro do próprio time deu uma furada, expressões de preconceito social foram proferidas sem nenhum sentimento de culpa: "Burro! Imbecil! Se pensasse direito não seria jogador de futebol!"
Quando o time fez um gol, a gritaria foi suficiente para matar de vez todos aqueles com problemas cardíacos na vizinhança. No apito final, palavras de carinho e solidariedade foram proferidas quando ele abriu a janela e começou a gritar: "Chupa, desgraçados, filhos da pu%$! Toma, seus via#$s do car%&*$!" O tempo em que ele ficou se comunicando aos berros com outros vizinhos aliados e adversários foi suficiente para esvaziar o estádio.
Então, como se diz no jargão do esporte bretão, o que era promessa virou dúvida. Mas antes de um julgamento sem direito à defesa, ela ouviu do travesseiro: "Egocêntrica, não consegue conviver com ninguém, perdoar, aceitar as diferenças, passará o resto dos dias sozinha! O problema está em você!" Perdeu a prática, menina. Vamos. Vai dar certo.
Ficou surpresa quando numa manhã viu na rede social que ele mudara o status para "um relacionamento sério". Surpresa, lisonjeada e receosa. Pedro jogava publicamente um estatuto de responsabilidades. Já está na hora de alterarmos o status?
À tarde, o pânico tomou conta. Ele mudou a foto do perfil. Não era mais a que beijava o escudo do time, mas uma foto dos dois, isso mesmo, dele com ela, abraçados no sambão, olhando para a lente, cada um segurando uma latinha, foto de que ela nem lembrava, em que, por sinal, ela estava péssima, de retinas vermelhas e com a testa enrugada. Parecia uma tia e seu afilhado.
Antes mesmo de ela sugerir que aquela foto não era apropriada, recebeu uma mensagem com outra foto deles abraçados anexada, em que ela estava pior, com a sugestão: "Se quiser usar no seu avatar."
Foi o fim. Celular no elevador, impropérios futebolísticos, comentários desrespeitosos que exaltam a luta de classes, parar na vaga de idosos e implicar com esmalte vermelho... Mas foto de casalzinho no perfil individual de rede social? Aí é too much.
Sua resposta foi um calculado: "Pedro, precisamos conversar."
Fonte:
Marcelo Rubens Paiva

13 de jul. de 2012

Cidades e Soluções revela um lado do Brasil marcado pela extrema pobreza

http://g1.globo.com/globo-news/cidades-e-solucoes/videos/t/programas/v/cidades-e-solucoes-revela-um-lado-do-brasil-marcado-pela-extrema-pobreza/2036981/

Como o possível envenenamento de Yasser Arafat pode ser abordado no vestibular


Nos últimos dias, a morte do ex-líder palestino Yasser Arafat ganhou novamente destaque na mídia. Oito anos após seu falecimento, altas doses de um elemento radioativo raro, o polônio-210, foram encontradas nos pertences de Arafat. A descoberta foi feita pela rede de TV Al Jazeera em parceria com Instituto de Radiofísica de Lausanne, na Suíça. A família suspeita que o serviço secreto israelense seja o responsável pelo envenenamento. O Mossad, como é conhecido, já utilizou tóxicos para eliminar inimigos anteriormente (confira o quadro abaixo).
Com base nas novas notícias, a viúva do ex-líder, Suha Arafat pediu à Autoridade Palestina (AP) a exumação do corpo do falecido marido. Os médicos farão testes para encontrar a presença do polônio também nos ossos de Arafat. Morto em 2004, a razão da morte do ex-líder palestino permanece desconhecida, embora o comunicado oficial aponte a falência múltipla dos órgãos. O relatório das análises foi considerado sigiloso na época, o que gerou dezenas de teorias conspiratórias em torno de seu falecimento. Segundo alguns jornais, as especulações aumentaram também devido ao fato de Arafat ter adoecido subitamente. Em menos de um mês ele precisou ser transferido para a França a fim de fazer exames e procurar tratamento, mas não resistiu e morreu em 11 de novembro de 2004, aos 75 anos.
Na época, os médicos realizaram testes, mas não encontraram vestígios de substâncias tóxicas conhecidas. As suspeitas cresceram após o assassinato do ex-agente secreto russo Alexander Litvinenko, em 2006, que, segundo dados da política britânica, foi morto envenenado por polônio.
O serviço secreto de Israel
A história do Mossad começa nos anos 30, devido à crescente tensão entre árabes e judeus da Palestina, que na época era uma colônia britânica. Antes de declarar sua independência, em 1948, Israel já tinha seu serviço secreto. Criado oficialmente em 1951, o Instituto de Inteligência e Operações Especiais tinha como foco inicial os países árabes hostis a Israel.
Outros casos do Mossad
Chocolates envenenados
Em 1976 um avião da Air France foi sequestrado por palestinos e levado para o aeroporto de Uganda. Mais de cem passageiros judeus ficaram reféns. Com uma mega operação de resgate, a Mossad conseguiu reaver as vítimas e matar os terroristas. O cérebro do sequestro, Wadi Haddad, chocólatra, recebeu doces envenenados de presente. Morreu no ano seguinte, vítima de uma doença misteriosa.
Guerra dos Seis Dias
Nos anos 60, o egípcio Eli Cohen, de uma família judaica ortodoxa, era um agente disfarçado que passou informações do ministério de defesa da Síria para Israel. Cohen enviou segredos militares cruciais para a vitória do país na Guerra de 1967, entre eles, a localização das tropas sírias nas Colinas de Golã.
Contra o Irã
Aparentemente, o Mossad é responsável pela morte de pelo menos 3 cientistas atônicos iranianos desde 2010. Agentes também teriam ajudado os EUA a fabricar vírus de computador usados para atrasar o programa nuclear iraniano.
Para saber mais sobre o Mossad, leia a matéria de capa da edição 108 da revista Aventuras na História, em julho nas bancas.
Quem foi Yasser Arafat?
Arafat nasceu em Jerusalém, em 1929. Após a criação do Estado de Israel, em 1948, mudou-se para o Egito. Durante o curso de Engenharia, tornou-se presidente da União dos Estudantes Palestinos. Em 1956, já no Kuwait, fundou o grupo Al Fatah, que tem como objetivo eliminar o controle do exército israelense na Palestina, com base na luta de guerrilhas com pequenas ações isoladas.
Em maio de 1964, durante o 1° Congresso Nacional Palestino, surge a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). O objetivo era centralizar a liderança de vários grupos clandestinos. No final da década de 1970, a Fatah ganha grande espaço na OLP e, em 1969, Yasser Arafat é nomeado presidente da organização.
Arafat iniciou sua carreira política com atos violentos. Na década de 70, o grupo Setembro Negro, conhecido como um braço extremista do Fatah, foi responsável por uma das tragédias internacionais mais famosas na história do conflito entre palestinos e israelenses. Nas Olimpíadas de 1972, 11 atletas israelenses foram sequestrados e mortos pelo grupo terrorista.
Na década de 70, o Mossad saiu à caça dos líderes do Setembro Negro e foi responsável por matá-los um a um. Alguns dos alvos eram representantes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), da qual Arafat era presidente. A condenação internacional do Massacre de Munique, como ficou conhecido o ataque aos atletas, é geralmente descrito como um dos motivos para o líder palestino ter se distanciado oficialmente de grupos terroristas. Nos anos seguintes, Arafat assume uma postura mais moderada e reconhece a existência de Israel.
Como a questão pode ser abordado no vestibular
Ainda não é possível afirmar se Arafat foi assassinado ou mesmo quem teria cometido o ato. Segundo o professor Samuel Robes Loureiro, professor de História do Cursinho do XI, o vestibular não irá pedir para o estudante falar quem matou Arafat. “Essa questão é muito específica e não há provas de que ele foi mesmo assassinado. O que pode ser cobrado do aluno são as atitudes radicais de ambas as partes envolvidas no conflito: tanto de palestinos como de israelenses”, explica.
O professor dá outra dica sobre a questão: prestar atenção aos processos de paz de ambos os lados (israelense e palestino) e os desenrolares disso. “O que os avaliadores podem pedir também é que o estudante conecte essa morte com o assassinato de Yitzhak Rabin”. O primeiro-ministro de Israel foi morto em 1995 por um judeu, um jovem extremista ortodoxo, dois anos após iniciar um processo de paz com os palestinos. “O problema é que sempre que os dois lados dão um passo em direção à paz, sempre acontece algum ato violento de um grupo radical contrário a isso”, pontua Samuel.
Em 1993, Arafat e Rabin assinaram o Acordo de Oslo, que reconhecia o estabelecimento da Autoridade Nacional Palestina (ANP) em parte da Faixa de Gaza e na cidade de Jericó. O acordo foi marcado pelo histórico aperto de mãos dos dois líderes, no gramado da Casa Branca. No ano seguinte, Israel estabeleceu relações diplomáticas com a Jordânia e com a Turquia. E pouco tempo depois, no dia 28 de setembro de 1995, novo acordo foi firmado (Oslo II), ampliando o controle da ANP sobre as grandes cidades da Cisjordânia, exceto Jerusalém.
Os radicais de ambos os lados começaram a agir. Ataques de grupos palestinos continuaram. Em Israel, a extrema direita considerou o ato de Rabin uma traição. Em novembro de 1995, Rabin levou três tiros no estômago e no peito, enquanto participava de uma passeata pela paz, com 100 mil manifestantes. Após a morte de Rabin, as tentativas de paz encabeçadas por Arafat se fragilizaram e o líder perdeu forças. A ocupação israelense continuou e, ao longo dos anos 90, os assentamentos judeus ilegais foram expandidos. Em 2000, novas tentativas de paz fracassaram, dessa vez lideradas pelo primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak.
Fonte:
Carolina Vellei
Guia do Estudante

Se os tubarões fossem homens


Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos? 

Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo. 

Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. 

O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências. 

Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói. 

Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões. 

Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões. 

Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc. 

Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar. 

Fonte:
Bertold Brecht

 http://resistir.info/ .



11 de jul. de 2012

“Made in China” agora significa luxo


Diante do crescimento de uma nova elite chinesa, novas marcas de luxo locais estão deixando o estigma de “produto barato” para trás.
A primeira coisa que vem à mente quando se pensa em produtos chineses é “barato” e “baixa qualidade”. Mas, nos últimos anos, o estigma começou a mudar. Com o surgimento de uma nova elite chinesa, marcas locais querem abastecer um outro tipo de demanda. Comparada com Alexander Mac Queen, a estilista Guo Pei administra um ateliê com mais de 400 funcionários, voltado exclusivamente para o mercado de luxo.
“Nosso país está dando um grande salto”, diz a estilista de 44 anos ao jornal Le Monde. “Daqui a dez ou 15 anos, teremos designers incríveis.”
Analistas acreditam que, até 2020, a China será responsável por 44% do consumo de produtos de luxo. As grandes marcas não esperaram para capitalizar o potencial do mercado. É o caso da Chanel, que criou uma coleção Paris-Xangai e organiza desfiles a cada temporada especial na China.
Diante deste movimento, um número crescente de empresas quer capitalizar sobre marcas de luxo chinesas. Vinte marcas já estão presentes nesse nicho – fabricantes de relógios, joias, roupas e espumantes – e vários deles, como a marca de cosméticos Herborist, adaptaram tecnologias ou materiais antigos para satisfazer os gostos dos consumidores chineses de hoje.
Os números desta marca de cosméticos de luxo chegam a US$ 300 milhões, e a marca está presente em 900 lojas em todo o país. Ela também iniciou a sua expansão no exterior.
Em um relatório sobre bens de luxo da China, a empresa de consultoria AT Kearney disse que o “Made in China” foi “por milhares de anos, sinônimo de qualidade e expertise incomparável”. A virada veio no Século 20, quando a realização de economias de escala tornou-se predominante, em detrimento da qualidade de materiais e fabricação de produtos. Hoje, “com a economia crescendo novamente, os empresários chineses estão revivendo e recolocando no mercado séculos de know-how para criar uma nova geração de marcas de luxo”, avalia o documento.
Fonte:
 Jornal Le Monde 

Por Estevan Muniz, da Rede Brasil Atual
(Título original: “Seis meses depois, ‘cracolândia’ ainda é a ‘cracolândia’”)
Os números apresentados pela Secretaria de Segurança Pública são eloquentes: quase 83 mil abordagens, 489 prisões, mais de 6 mil encaminhamentos para serviços de saúde e 775 internações, além de 66 quilos de drogas apreendidos. Nada disso, porém, conseguiu por fim à Cracolândia, no centro de São Paulo, conforme previa o projeto de “limpeza” da área iniciado em janeiro pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), em parceria com a administração Gilberto Kassab (PSD).
Seis meses depois das ações repressivas da PM, a região, que fica entre o Campos Elíseos e o bairro da Luz, continua concentrando grande número de dependentes de crack. E a presença da polícia, nas ruas, ainda é maior do que a dos agentes de saúde.
Em janeiro, a denominada “Operação Sufoco” prendeu 296 pessoas e internou 195. A prefeitura demoliu imóveis condenados, que seriam ocupados pelo tráfico de drogas. A ideia era “limpar” a região para facilitar o desenvolvimento do polêmico projeto Nova Luz, que favorece a especulação imobiliária e sofre vários questionamentos na Justiça por ter desapropriado um bairro inteiro em benefício da iniciativa privada.
Originalmente, a Operação Integrada Centro Legal tinha três fases. A primeira consistia em quebrar a logística do tráfico, para, segundo o governo do estado, criar condições para a intervenção da saúde, com uma presença intensa da polícia por 30 dias.
A segunda fase previa ações sociais e de saúde aos usuários, com abordagens e encaminhamento. Agora, seis meses depois, seria o momento da terceira fase, já sem a presença de usuários – mas isso parece estar longe de acontecer.
As cenas chocantes de policiais acuando hordas de viciados, mostradas pelas TVs em janeiro, continuam acontecendo. PM e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) não interromperam a chamada “romaria do crack”, que consiste em mover os usuários de uma rua para outra, forçando-os a circular no bairro, como se fossem uma manada de bois. A comparação é feita por uma usuária, cujo segundo nome é Laura.
“Só queria que a polícia deixasse a gente em paz”, disse ela. “Eles nos descem pra lá, sobem pra cá, tiram a gente dali e voltam pra cá. Não podemos ficar em paz em lugar algum. Aqui a gente está por enquanto, porque já já eles vêm e nos tiram”.
Grupo de usuários expulso de um quarteirão na rua Helvétia Fotos: Danilo Ramos/Rede Brasil Atual
A reportagem presenciou a GCM expulsando um grupo de usuários de um quarteirão da rua Helvétia. Antes de a polícia chegar, alguns deles gritam, em aviso aos demais: “Oh a loira passando de caminhão”, um código no qual a ‘loira’ significa a polícia. A GCM coordenava o fluxo de pessoas. Em seguida, passavam agentes da Limpeza Urbana, com um caminhão-cisterna varrendo a rua com água. Minutos depois, o mesmo grupo se encontrava concentrado em outro quarteirão, na própria Helvétia, a 100 metros dali.
“Uso crack desde 1980, quando surgiu o crack”, conta Laura, que não quis revelar a idade. “Foi a pior coisa que eu fiz na vida. Isso é horrível, é avassalador, é a pior coisa que pode acontecer com um ser humano. Você sabe o que é ficar 24 horas só dependendo daquilo? O crack não te deixa dormir, não te deixa comer, você parece um zumbi”.
Quando a operação começou em janeiro, ela conseguiu escapar, indo para os bairros vizinhos. Laura não reconhece qualquer aspecto positivo da ação da PM. “Eles xingam a gente, chamam de vagabunda e de escória e batem na gente. Todo mundo que mora aqui é amigo, nós convivemos bem. O único problema é a PM. Eu sei que isso é terrível, que ninguém quer ter noia na porta de casa, mas infelizmente acontece, em algum lugar a gente tem que ficar”, disse.
Questionada se não tinha interesse em se internar e se não pensou que a ação da polícia poderia ser uma boa oportunidade para tanto, respondeu: “Todos os meus conhecidos que foram internados em janeiro voltaram. Eu já fui internada dez vezes, e eu voltei”. Laura poderia ter mudado para outros bairros, como o Glicério e o entorno do Elevado Presidente Costa e Silva, o “Minhocão”, como outros usuários fizeram após a operação, mas disse que se acostumou com a Cracolândia. “Eu tenho família, mas, quando eu surto, eu sumo e venho pra cá, por dois ou três dias, depois eu volto pra minha casa e fico meses lá.”
A operação policial foi alvo de denúncias de violação aos direitos humanos feitas pela Conectas e outras três entidades ao Conselho de Direitos Humanos das Organizações Unidas. Em junho, o Ministério Público de São Paulo, que considerou a ofensiva um “mero exercício higienista”, ajuizou ação pedindo condenação do governo do estado e indenização às pessoas submetidas à operação policial, por danos morais, no valor mínimo de R$ 40 milhões.
Os promotores pediram a concessão de uma liminar que impedisse a PM de fazer a “romaria do crack”. “A operação mostrou-se totalmente ineficiente”, disseram os promotores Justiça Arthur Pinto Filho, Eduardo Ferreira Valério, Luciana Bergamo Tchorbadjiane e Maurício Antonio Ribeiro, em nota divulgada pelo MP.
Eles afirmaram que a “romaria” dificulta o trabalho de agentes de saúde no local e de entidades que realizam trabalhos sociais com os usuários. “Ela gerou graves violações aos direitos humanos, ofendeu princípios do Estado Democrático de Direito e desperdiçou vultosos recursos públicos”, sustentaram eles, na ação.
Para comerciante da região, presença policial não resolveu nada
A quantidade de usuários diminuiu, na região, de acordo com os comerciantes que ali trabalham. A maioria deles, contudo, acredita que a região continua a ser um “antro” do crack. Dermivaldo Pereira tem comércio na região desde 1970. “Está a mesma coisa, oh eles ali”, contou, apontando para usuários na rua de sua loja de conveniência.
Everaldo Siva Ribeiro, que vive há 30 anos no bairro, aprova a presença da polícia. “Não tem mais roubos, e não tem mais noia na minha rua”, disse. Ele afirma, entretanto, que a Cracolândia ainda existe e que os usuários continuam presentes na região.
Outros comerciantes que preferiram não ser identificados são avessos à operação da polícia. “Eles [a PM e a GCM] acham que só porque a gente mora aqui é traficante”, disse um deles. A ação da polícia é abusiva, e as abordagens aos moradores é excessiva e agressiva, segundo eles.
Em janeiro, a prefeitura afirmou que o comércio da região sofria com a presença dos dependentes e as lojas estavam sendo fechadas. Pereira, entretanto, conta que alguns usuários são clientes de seu estabelecimento e que não há qualquer desavença com eles.