9 de set. de 2011

Temas importantes! Revisão


União civil entre homossexuais

Casamento coletivo gay no Rio de Janeiro (Domingos Peixoto/Agência O Globo)
Em maio, em decisão inédita, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união civil entre os homossexuais. A partir da decisão, casais formados por parceiros do mesmo sexo passaram a ter direitos como herança, pensão por morte ou separação e declaração compartilhada do Imposto de Renda (IR), entre outros. A conquista pode estimular temas de redação, exigindo que o aluno se posicione. Vale lembrar que também circularam pelo noticiário recente a lei que criminaliza a homofobia e o “kit gay” elaborado pelo Ministério da Educação (MEC).

Tragédia no Japão

Criança brinca em meio aos destroços da cidade de Ishinomaki, Japão (Yasuyoshi Chiba/AFP)
O terremoto de 9 graus na escala Richter seguido de um tsunami que devastou a costa nordeste do Japão, em março, provocou a mais grave crise nuclear desde o desastre de Chernobyl, há 25 anos, na extinta União Soviética. Por isso, na prova de ciências da natureza, questões sobre energia nuclear devem aparecer. Nesse tema, é importante ter em mente os prós e contras dessa matriz energética e seus impactos ambientais nos países onde é utilizada – inclusive no Brasil. É bom se preparar também para questões básicas sobre placas tectônicas e desastres naturais.

Censo demográfico

IBGE fez o mais completo levantamento já levado à frente no país (Marcelo Correa)
Entre as marcas registradas do Enem está a intepretação de gráficos e tabelas. Com sua diversidade de dados, o censo demográfico é um prato cheio para questões dessa natureza. Divulgado este ano pelo IBGE, o estudo mostra, por exemplo, que o Brasil ultrapassou a marca dos 190 milhões de habitantes e que um em cada dez habitantes ainda vive na pobreza extrema. Temas como urbanização e janela demográfica também podem motivar os examinadores


Ascensão da mulher no Brasil

Dilma Rousseff é a primeira mulher a assumir a presidência da república (Eliária Andrade/Agência O Globo)
Desde janeiro, o Brasil é presidido por uma mulher – fato inédito em nossa história. A conquista deDilma Rousseff pode ser vista como mote para abordar a ascensão da figura feminina na sociedade. Mais uma vez, tabelas e gráficos podem aparecer e o assunto pode ser, inclusive, tema de redação.


Aids

Ainda sem cura, o vírus da aids atinge cerca de 34 milhões de pessoas no mundo (Thinkstock)
Há 30 anos, os Estados Unidos registravam o primeiro caso de aids do mundo. Em pouco tempo, o mal desconhecido passou a ser um caso de saúde pública mundial. O número de infectados, que era de um milhão em 1981, saltou para 27,5 milhões em 2010. Na prova de ciências da natureza, o candidato pode ser questionado sobre as características do vírus ou formas de contágio. Na prova de ciências humanas, as políticas públicas brasileiras de combate à aids, reconhecidas internacionalmente, podem aparecer.



Fuso-horário no Acre

Plebiscito no Acre decidiu sobre fuso-horário (Thinkstock)
Em outubro de 2010, um referendo alterou o fuso-horário no estado do Acre. Apesar de ter passado despercebida para a maioria da população, a votação pode motivar questões tradicionais no Enem, como a de cálculo de fusos em diferentes regiões do Brasil.



Copa do Mundo e Olimpíada no Brasil

Apesar de pouco provável, os eventos esportivos sediados no Brasil em 2014 e 2016 podem motivar os examinadores. Caso apareçam, devem versar sobre os impactos das obras nos grandes centros urbanos brasileiros. O encalhe do projeto do trem-bala e as reformas urbanas no Rio de Janeiro, sede dos Jogos Olímpicos, merecem atenção.

Morte de Osama bin Laden

Paquistanês lê jornal com informações sobre a morte de Osama bin Laden (Arif Ali/AFP)
Depois de 3.519 dias, duas guerras e 1,18 trilhão de dólares em gastos militares, o homem mais procurado do planeta, mandante do maior atentado terrorista já executado no mundo, o 11 de Setembro, foi morto por forças americanas. A operação aconteceu nos arredores de Islamabad, capital do Paquistão, e levou milhares às ruas de Nova York e Washington. O episódio traz à tona discussões sobre o terrorismo como ferramenta política, além de suscitar discussões sobre a Guerra do Golfo. Como energia é tema prioritário no Enem, questões sobre o petróleo merecem atenção.

China

Bandeira chinesa é hasteada em cerimônia de entrega de medalhas nos Jogos Asiáticos (Jason Lee/Reuters)
Apesar de temas internacionais terem pouca relevância na prova do Enem, o acelerado crescimento chinês pode motivar questões. A abordagem deve evidenciar as parcerias com o Brasil e os impactos na nossa economia. Mais uma vez, gráficos, tabelas e textos de apoio podem aparecer.

Fonte: Revista Veja


Seis temas que podem cair nos vestibulares


Terremoto no Japão


A tragédia é presença garantida nos vestibulares. O tremor de 9 graus na escala Richter e o consequente tsunami que arrasaram a costa nordeste do país, causando a mais grave crise nuclear desde o desastre de Chernobyl, há 25 anos, abrange vários assuntos: da química à história, passando pela biologia, física e geografia. É, assim, um prato cheio para questões interdisciplinares. Entre outras abordagens, o tema pode suscitar a discussão sobre energia nuclear. É bom estar preparado para responder perguntas sobre radiação, impactos ambientais e dependência energética. O assunto pode estimular também temas de redação.


Censo demográfico

No primeiro censo, o de 1872, o Brasil tinha 9,93 milhões de habitantes. A economia era agrícola e movida a mão de obra escrava. No censo mais recente, realizado em 2010 e divulgado no começo deste ano, descobre-se que a população se multiplicou por vinte, chegando a 190.755.799 habitantes. A economia se diversificou e a riqueza nacional cresceu cem vezes. Dados como esses costumam chamar a atenção dos examinadores. Eles abrem a oportunidade para a discussão de temas como urbanização e janela demográfica – ambos podem aparecer também como tema de redação. Atenção para a presença de gráficos e tabelas.

Revoltas no mundo islâmico

A onda de protestos que varreu do poder o tunisiano Zine El Abidine Ben Ali e o egípcio Hosni Mubarak alcança o norte da África e diversos países do Oriente Médio. A agitação em países como Síria e Líbia deve motivar questões conceituais sobre a região. Em história ou geografia, perguntas sobre democracia, cultura islâmica e religião podem aparecer nas provas. O ditador líbio Muammar Kadafi deve ficar de fora dos exames, mas os movimentos recentes servem de pretexto para a discussão sobre a região.

Conquistas femininas no Brasil

Pela primeira vez em sua história, o Brasil é presidido por uma mulher: a mineira Dilma Vana Rousseff. A eleição deve ganhar pouco destaque nos vestibulares. Mas é preciso ficar atento: é possível que o assunto seja abordado a partir do ponto de vista das conquistas da mulher na sociedade brasileira.

Morte de Osama bin Laden

"A justiça foi feita". Foi assim que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a morte do homem mais procurado do planeta, o terrorista mais famoso da história e mandante do maior atentado já executado no mundo: o 11 de Setembro. Bin Laden foi morto em uma operação militar realizada nos arredores de Islamabad, capital do Paquistão. O episódio traz à tona discussões sobre o terrorismo como ferramenta política, além de suscitar discussões sobre Guerra Fria e Guerra do Golfo.

Código Florestal

É pouco provável que o assunto apareça nas provas de vestibular de meio de ano. Contudo, como meio ambiente é um tema recorrente nos exames, é prudente estar atualizado sobre a questão. Além de dividir opiniões de ruralistas e ambientalistas, o assunto não é consensual nem dentro do próprio governo e permanece nebuloso para a sociedade civil.

Professores indicam temas para o Enem


ASSUNTOS PROVÁVEIS
lista MEIO AMBIENTE
link Novo Código Florestal
link Vazamento de energia nuclear em Fukushima
link Combustíveis alternativos
link Alterações climáticas no Brasil
lista CORRUPÇÃO
link Copa do Mundo no Brasil
link Nepotismo e tráfico de influência nos bastidores do governo
lista SOCIEDADE
link Aprovação da união estável entre casais homossexuais
link Homofobia: ataques a gays
link Força da mulher com a eleição de Dilma Rousseff como presidente
lista COMPORTAMENTO
link Distúrbios alimentares
link Modelos muito magras não desfilaram na ‘SP Fashion Week’
lista POLÍTICA
link Papel dos jovens na organização de movimentos políticos
link Auxílio das redes sociais nas mobilizações da juventude
link Protesto por educação no Chile
lista TEMAS RECENTES
link 2010: O trabalho na construção da dignidade humana
link 2009: O indivíduo frente à ética nacional
link 2008: Como preservar a floresta Amazônica
link 2007: O desafio de se conviver com as diferenças
link 2006: O poder de transformação da leitura
link 2005: O trabalho infantil na sociedade brasileira
link 2004: Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação
link 2003: A violência na sociedade brasileira - como mudar as regras desse jogo

Fonte:
O Estado de S. Paulo (05/09/11)

Cinco mitos sobre o 11 de Setembro


Todos nós lembramos onde estávamos em 11 de setembro de 2001. Na década seguinte, comissões, filmeslivros ou reportagens não conseguiram acabar com conceitos errôneos sobre o que significaram os ataques, a resposta dos EUA e a ameaça ainda existente. Vamos abordar mitos persistentes.
1. Os ataques eram inimagináveis: Em 2002, a Casa Branca descreveu o 11 de Setembro como "um novo tipo de atentado, que não tinha sido previsto". Mas a possibilidade de aviões sequestrados se espatifarem contra prédios não era algo inimaginável. A ideia remonta a, no mínimo, 1972, quando piratas do ar mataram um copiloto da Southern Airways e ameaçaram lançar o avião contra uma usina nuclear no Tennessee.
2. Os ataques foram um sucesso estratégico para a Al-Qaeda: Eles foram audaciosos, sem precedentes e um sucesso tático - mas também um erro estratégico. Para Osama bin Laden, a intenção dos ataques era fazer com que os EUA saíssem do Oriente Médio. Muitos comandantes da Al-Qaeda previram, porém, que o país concentraria sua fúria no grupo terrorista e em seus aliados. Quando isso ocorreu, Bin Laden disse que sua intenção havia sido fazer com que os EUA entrassem em uma guerra que inflamaria todo o Islã contra o país - o que também não ocorreu.
3. Washington reagiu desproporcionalmente: Na década posterior ao 11 de Setembro, os EUA sofreram menos ataques terroristas do que em qualquer outra desde os anos 60. Na ocasião, contudo, era necessária uma ação imediata. E isso implicava reforçar a inteligência, aumentar a segurança interna e usar força militar no exterior. O fato de a invasão do Iraque ter sido retratada como parte da guerra global contra o terrorismo - para se conseguir apoio político interno - não tornou a reação exagerada. Na verdade, a guerra se traduziu num enorme desvio de recursos da luta contra os terroristas e um favor prestado à Al-Qaeda para prosseguir com seu recrutamento.
4. Um ataque terrorista nuclear é quase inevitável: Diante dos atentados, a capacidade nuclear da Al-Qaeda tornou-se obsessão. Em 2008, o então diretor da CIA, Michael Hayden, definiu a organização como preocupação nuclear "número um". Mas não há nenhuma evidência de que a Al-Qaeda possua esse armamento.
5. As liberdades civis nos EUA foram dizimadas: A Constituição foi mantida. A prisão preventiva de suspeitos de atos terroristas, um procedimento comum em inúmeros países democráticos, foi rejeitada. Os valores americanos, porém, não prevaleceram no tratamento de combatentes e suspeitos estrangeiros, que foram mantidos em prisões secretas, sofreram torturas ou foram submetidos a interrogatórios sob coação. MARTINO

Brian Michael Jenkins, The Washington Post - O Estado de S.Paulo

É COEDITOR DO LIVRO THE LONG SHADOW OF 9/11: AMERICA'S RESPONSE TO TERRORISM

11 de Setembro: dez anos depois


Os ataques terroristas do 11 de Setembro mudaram o mundo em questão de horas. A primeira reação foi questionar: por quê? O que levou 19 muçulmanos a sequestrar jatos comerciais com 40 mil litros de combustível e transformá-los em bombas contra civis? A escassez de explicações para o 11 de Setembro fez do cientista político Samuel Huntington o profeta do momento. Ele passou os anos 90 defendendo que o mundo pós-Guerra Fria seria marcado por conflitos entre identidades culturais, entre as quais a islâmica era a mais encrenqueira. As democracias ocidentais, pluralistas e liberais, seriam sua nêmesis. O choque de civilizações foi a primeira sequela do 11 de Setembro: um surto de islamofobia.
Tragédia consumada, o presidente George W. Bush não tinha outra opção senão um revide proporcional ao golpe. Mas dessa vez o adversário não era um Estado. Na falta de alvos convencionais, ele declarou "guerra ao terror", anunciando sanções contra países que protegessem terroristas e prenunciando as primeiras ações no Afeganistão. Bush encontrou sua doutrina e, os EUA, o unilateralismo após o 11 de Setembro.
Dez anos depois, o esforço consumiu US$ 5 trilhões e contribuiu para o buraco nas contas públicas do país. Pior do que o déficit econômico, porém, foi o desgaste moral. Para trancafiar terroristas capturados, os EUA criaram um centro de detenção em Guantánamo, Cuba, até hoje um espinho na garganta da nação que era arauto dos direitos humanos.
A vida dos americanos também nunca mais foi a mesma depois do 11 de Setembro. A Lei Patriótica deu ao presidente o direito de prender sem acusação prévia suspeitos deterrorismo. Pouco depois, Bush mandou grampear telefonemas e e-mails de cidadãos sem permissão judicial. Viajar de avião virou uma via-crúcis. A segurança nos aeroportos foi reforçada e a inspeção de passageiros aumentou as filas, os atrasos e o desconforto.
Atingidas por dois aviões comerciais, as torres gêmeas do WTC queimam no céu de Nova York em 11 de setembro de 2001 - Gulnara Samoilova/AP

O duro combate ao trabalho escravo


O governo brasileiro tem se destacado na fiscalização, mas se omite na hora de enfrentar a bancada ruralista e endurecer a lei contra essa prática.
135 O duro combate ao trabalho escravo
Para quem não conhece profundamente as engrenagens do Congresso Nacional, é difícil entender como projetos que aparentemente visam ao bem comum e, pelo menos em tese, contam com a simpatia formal da maioria dos parlamentares, acabam morrendo na praia por inanição política. Um dia antes do recesso parlamentar do meio do ano, que começou oficialmente em 15 de julho, o clima era de frustração nos corredores da Câmara e do Senado. Seis meses se passaram desde a posse da atual legislatura e poucos temas relevantes que correram por fora da agenda do governo federal chegaram ao plenário para serem votados.
Entre os projetos que aparentemente tinham tudo para sair do papel no primeiro semestre de 2011 está a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Trabalho Escravo, que prevê a expropriação das terras de quem for flagrado usando mão de obra de trabalho escravo ou análogo à escravidão(1). “Há dez anos o projeto da PEC está tramitando. O texto atual está pronto para ir ao plenário em segundo turno. É só votar”, lamenta o deputado federal Arnaldo Jordy (PPS-PA), vice-presidente da Frente Parlamentar de Combate ao Trabalho Escravo da Câmara. Ele compara esse caso kafkiano ao Estatuto do Idoso. Apesar de contar com a simpatia “formal” de quase todos no Congresso, o projeto passou dez anos tramitando antes de ser votado. “Todos eram a favor do Estatuto, mas o projeto simplesmente não era votado. Ninguém entendia isso. Só depois ficou claro que havia um lobby subterrâneo patrocinado pelos planos de saúde e empresas de ônibus. O mesmo está acontecendo com a PEC do Trabalho Escravo. Nesse caso, quem está jogando contra é a bancada ruralista”, diz Jordy.
O parlamentar conta que ouviu do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS) a promessa de que a Proposta será “prioridade” no segundo semestre. Apesar da perspectiva, a Frente Parlamentar está organizando uma verdadeira ação de guerrilha. Em agosto, os corredores do Congresso serão tomados por militantes de direitos humanos. “Artistas como Dira Paes e Letícia Sabatella aderiram ao movimento. Vamos fazer uma grande ação pela aprovação da PEC, mas sabemos que não será fácil. A bancada ruralista não é pequena”, avalia Jordy.
Fórum procurou diversos parlamentares de todos os espectros para medir a temperatura do debate. “Nós do PT pautamos esse projeto como prioritário para o segundo semestre. A Proposta não foi votada ainda porque a pauta da Câmara estava muito pesada”, disse o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), líder do partido na Câmara. O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), diz que o projeto conta com o apoio da presidenta Dilma; deputados do PSDB e até do DEM também se manifestam favoráveis. Mas, por que então o projeto não é aprovado? “O problema é que a PEC sempre acaba virando moeda de troca. A articulação política do governo precisaria entrar de sola nessa questão. Não basta só dizer que é a favor”, afirma o cientista político Leonardo Sakamoto, integrante da Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo e diretor da ONG Repórter Brasil. Ele lembra que Dilma, quando candidata, assinou um documento no qual se comprometeu a atuar em favor da PEC. “A base do governo é frágil, fisiológica e depende muito de partidos como o PR e o PMDB, que estão cheios de ruralistas.” Além da PEC, existe também na Câmara um movimento para criar a CPI do Trabalho Escravo.
Outra realidade?
A bancada ruralista no Congresso não admite a possibilidade de retomar a votação da PEC do Trabalho Escravo. O grupo questiona a existência de trabalho escravo no Brasil contemporâneo e reclama de uma suposta caça às bruxas entre os produtores rurais. “Sou contra a PEC da forma como ela está colocada. Precisamos de uma definição clara do que seja trabalho escravo. Isso não pode ficar na subjetividade de cada fiscal”, pondera o deputado federal Moreira Mendes (PPS-RO), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária. Ele vai além e defende que seja criada uma legislação trabalhista específica para o campo. “A forma de se trabalhar no campo é diferente da cidade. Quem está no campo fica sujeito às intempéries do tempo. A colheita não espera a lei e tem que ser feita naquele dia. Para tirar leite, por exemplo, muitas vezes é preciso estar de pé às quatro da manhã.” O líder ruralista também reclama que os produtores rurais de hoje são perseguidos. “Hoje, o fiscal vai lá na terra, faz seu levantamento e, no outro dia, o fazendeiro já aparece em uma lista negra do Ministério do Trabalho. Ele não tem defesa. Isto é um absurdo.”
Em sua dissertação de mestrado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, apresentada em janeiro, a advogada Camilla de Vilhena Bemergui, coordenadora do Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho, defende a PEC como um instrumento indispensável para o combate ao trabalho escravo. “A questão que fica como desafio é a situação pós-resgate (dos trabalhadores em situação de escravidão), pois as ações até aqui existentes têm se mostrado ineficientes no sentido de reinserir o trabalhador numa realidade em que se escape de nova exploração.” Ela afirma que a PEC 438/2001, que está completando 11 anos de trâmite, seria uma saída. “O que se vislumbra, entretanto, é que a fiscalização é paliativa na erradicação do trabalho escravo. A relação da demanda (considerando-se as dimensões geográficas do país, quantidade de empregadores e empregados) com a quantidade de auditores e custo público inviabiliza que a totalidade das situações seja averiguada.”
Dividindo a água com o gado
Os casos de trabalho escravo flagrados no Brasil assustam pela crueldade. A boa notícia é que a ação do governo de combate a essa prática tem apresentado resultados concretos. Segundo dados da Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho, 2.626 trabalhadores foram resgatados em 2010. No mesmo ano, R$ 8,7 milhões foram pagos de indenização. As operações, que são sempre feitas de surpresa, são organizadas por uma coalizão que reúne Ministério Público do Trabalho, Polícia Federal, Polícia Rodoviária e Ministério do Trabalho. Eles formam uma espécie de “Tropa de Elite”, que age geralmente a partir de denúncias anônimas. A localidade geralmente é informada apenas na hora do embarque para evitar vazamentos.
“Para chegar em carvoarias com trabalho escravo no Pará, nós chegamos a demorar até três dias embrenhados na mata. Se você aparecer lá sozinho, eles te apagam”, conta o pesquisador Marques Cesara, da ONG Observatório Social, que acompanhou diversas operações. Quando essas ações começaram, em 1995, foram feitas apenas 11 operações e 84 trabalhadores foram resgatados(2). “Cheguei a resgatar trabalhadores no Acre que eram obrigados a beber água onde o gado defecava. Eles tinham que fazer suas necessidades no mato”, conta o procurador do trabalho Everson Rossi, membro da Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho do Ministério Público.
Em muitos casos, o grupo é recebido com desconfiança pelos trabalhadores. “Em Tucumã, no Pará, um trabalhador veio me perguntar se eu estava lá para tirar o trabalho dele”, conta. Ele explica que depois da diligência, o fazendeiro é obrigado a instalar seus trabalhadores em um hotel até que o contrato de trabalho seja rescindido. Em muitos casos, o dono da terra conta com um grupo de trabalhadores registrados e outro de “frilas”. “Esses, que são chamados para empreitadas, tipo colocar cerca, fazer o roçado ou aplicar veneno, não são considerados empregados”, diz o procurador. Também é comum os grupos ouvirem relatos de trabalhadores que já chegam devendo ao local da empreitada.
Depois de recrutados por “gatos”, eles viajam horas, às vezes dias, é só depois ficam sabendo que o valor do transporte, dos equipamentos e da comida serão “descontados” do pagamento final. “Mas não é só no campo que isso acontece. Já vimos casos de péssimas condições de trabalho em frigoríficos e na construção civil”, finaliza Everson Rossi. No final de junho, seis trabalhadores contratados para a construção de cercas em Ariquemes, em Rondônia, foram encontrados em situação totalmente degradante. Divididos em duas equipes de três integrantes, os trabalhadores disseram ao Grupo Móvel que haviam sido contratados para receber, cada equipe, a quantia de R$ 2 mil para cada quilômetro de cerca construído, embora, no momento do acerto, o contratante só pagasse R$ 500 por quilômetro construído. O Grupo Móvel constatou que, além de os trabalhadores terem que dividir o valor contratado por três, eles é que arcavam com a alimentação, com a compra das ferramentas de trabalho e dos equipamentos de proteção individual.
As duas equipes foram contratadas em momentos distintos. A mais antiga estava no campo desde o dia 5 de janeiro e a mais recente, havia 23 dias. A primeira equipe, cujo trabalho resultou na construção de aproximadamente 19 quilômetros de cerca, tinha um saldo com o empregador de R$ 9,5 mil (considerando o pagamento de R$ 500 por quilômetros de cerca construído) e estava com uma dívida para com o empregador em torno de R$ 13 mil, devido aos gastos com alimentação, ferramentas e compra de EPIs, feita no comércio de Ariquemes, mas anotado em cadernetas e recibos.“Sem dúvida, o ciclo vicioso de endividamento identificou a servidão por dívida, situação em que os trabalhadores jamais conseguiriam saldar sua dívida”, afirmou o procurador do Trabalho Tiago Ranieri de Oliveira.
Além da exploração desmedida do trabalho, os trabalhadores estavam alojados em meio a um pasto em barracões de lona, construídos por eles próprios. Não havia água filtrada e a água utilizada para beber e preparar a alimentação era de um pequeno riacho, existente no local, onde também lavavam as roupas e tomavam banho. Os trabalhadores faziam as necessidades fisiológicas no meio do pasto, não havia latrina, tampouco local para alimentação, sendo que as refeições eram feitas nas camas construídas de forma improvisada, explica o procurador. Foi estipulado pelo MPT uma multa por dano moral coletivo no valor de R$ 50 mil para ser revertida para a qualificação profissional dos trabalhadores da região por intermédio de cursos no ramo da agropecuária.
(1) Entenda a PEC do Trabalho Escravo
A PEC 438/2001 define ainda que as propriedades confiscadas serão destinadas ao assentamento de famílias como parte do programa de reforma agrária
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) número 438 foi apresentada em 1999 pelo ex-senador Ademir Andrade (PSB-PA), sob o número 57/1999. Ela propõe nova redação ao Art. 243 da Constituição Federal, que trata do confisco de propriedades em que forem encontradas lavouras de plantas psicotrópicas ilegais, como a maconha. A nova proposta estende a expropriação sem direito a indenização também para casos de exploração de mão de obra análoga à escravidão. A “PEC do Trabalho Escravo” é considerada pelos órgãos governamentais e entidades da sociedade civil que atuam nas áreas trabalhista e de direitos humanos como um dos projetos mais importantes de combate à escravidão, não apenas pelo forte instrumento de repressão que pode criar, mas também pelo seu simbolismo, pois revigora a importância da função social da terra, já prevista na Constituição.
No Senado Federal, a PEC tramitou durante dois anos e foi aprovada em 2001. Na Câmara, permanece parada desde 2004. No mês de agosto daquele ano, a matéria foi aprovada em primeiro turno no Plenário da Casa – com 326 votos favoráveis (18 a mais que o necessário: emendas constitucionais exigem a anuência de 3/5 do total de 513 deputados federais), dez contrários e oito abstenções. Desde então, permanece à espera da votação em segundo turno. O avanço da proposta em 2004 foi impulsionado pelas pressões geradas após o assassinato de três auditores fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego, em Unaí (MG), durante uma emboscada em janeiro do mesmo ano. Devido a mudanças propostas por membros da bancada ruralista (para inserir os imóveis urbanos na expropriação), a PEC 438/2001 terá que retornar ao Senado depois de aprovada na Câmara.
(2) “Tropa de Elite” já resgatou 39.180 trabalhadores*
1995 – 11 operações/ 84 trabalhadores resgatados/ Nenhuma indenização2000 – 25 operações/516 trabalhadores resgatados/R$ 472,8 mil pagos de indenização2005 – 85 operações/4.348 trabalhadores resgatados/R$ 7,8 milhões pagos de indenização
2010 – 143 operações/2.626 trabalhadores resgatados/R$ 8,7 milhões pagos de indenização
* Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego.
Pedro Venceslau, publicado originalmente no site da Revista Fórum.