21 de jun. de 2011

‘Miseráveis entre miseráveis’, mais de 10 milhões vivem com R$ 39

Uma população estimada em 10,5 milhões de brasileiros - equivalente ao Estado do Paraná - vive em domicílios com renda familiar de até R$ 39 mensais por pessoa. São os mais miseráveis entre 16,267 milhões de miseráveis - quase a população do Chile - contabilizados pelo governo federal na elaboração do programa Brasil sem Miséria.


Lançado no dia 3 de maio como principal vitrine política do governo Dilma Rousseff, o programa visa à erradicação da miséria ao longo de quatro anos.

Dados do Censo 2010 recém-divulgados pelo IBGE que municiaram a formatação do programa federal oferecem uma radiografia detalhada da população que vive abaixo da linha de pobreza extrema, ou seja, com renda familiar de até R$ 70 mensais por pessoa - que representam 8,5% dos 190 milhões de brasileiros.

A estimativa dos que sobrevivem com até R$ 39 mensais per capita é a soma dos 4,8 milhões de miseráveis que moram em domicílios sem renda alguma e 5,7 milhões de moradores em domicílios com rendimento de R$ 1 a R$ 39 mensais. Estima-se que outros de 5,7 milhões vivem com renda entre R$ 40 e R$ 70 mensais por pessoa da família.

Os números calculados pelo Estado são aproximados e levam em conta o número médio de 4,8 moradores por domicílio com renda familiar entre R$ 1 e R$ 70 mensais.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social com base no Censo 2010, há 4 milhões de domicílios miseráveis no País. Em 1,62 milhão desse total vivem famílias que não têm renda. Em 1,19 milhão de moradias a renda familiar é de R$ 1 a R$ 39 mensais per capita e em outro 1,19 milhão as famílias vivem R$ 40 a R$ 70.


Além da baixíssima renda, os extremamente pobres têm em comum o fato de viverem em domicílios com pelo menos um tipo de carência por serviços básicos, como energia elétrica, abastecimento de água, rede de saneamento ou coleta de lixo.

Ranking. O Estado com o maior número absoluto de miseráveis é a Bahia, onde estão 2,4 milhões, ou 14,8% da população extremamente pobre. Os baianos miseráveis são 17,7% dos habitantes do Estado.

No Maranhão, no entanto, está a maior proporção de miseráveis. Um em cada quatro moradores vive com renda familiar per capita entre zero e R$ 70 - um total de 1,7 milhão de pessoas, que representam 25,7% da população.

Seis Estados (PA, MA, CE, PE, BA e SP) têm, cada um, mais de 1 milhão de moradores em extrema pobreza. Juntos, eles concentram 9,4 milhões de miseráveis, ou 58% do total.

São Paulo. Estado mais populoso do País, São Paulo tem 1,084 milhão de pessoas que vivem em domicílios em situação de pobreza extrema - o que representa só 2,6% do total de habitantes.

A pesquisadora Lena Lavinas, do Instituto de Economia da UFRJ, especializada no estudo da pobreza, acredita que em um ano seja possível "alcançar as pessoas que, embora indigentes, ficaram de fora do programa Bolsa Família". "O importante é que não haja cotas ou limites para os municípios. Todas as pessoas devem ser cobertas."


"Isso vai funcionar melhor ou pior dependendo da competência dos municípios e da capacidade de articulação dos Estados", afirma. A economista lembra que outra etapa do Brasil sem Miséria será suprir carências das famílias como acesso a serviços básicos e à educação. "Essa dinâmica toma mais tempo, é um processo mais longo", afirmou.

Para calcular a renda média das famílias extremamente pobres, o IBGE levou em conta apenas as que têm algum tipo de rendimento, entre R$ 1 e R$ 70. Essa população tem renda familiar média de R$ 40,70 mensais - uma longa distância de mais de R$ 30 para, segundo os critérios do governo, passar de miserável a pobre (renda familiar per capita de R$ 71 a R$ 140 mensais).
 
A contagem feita em 2010 aponta a existência de agrupamentos de moradias miseráveis mesmo nas cidades em que a população tem alta renda.

São José do Rio Preto (SP) é um exemplo. Embora a renda familiar média seja de R$ 1.161,86 mensais por pessoa, há lá um conjunto de 867 domicílios extremamente pobres em que a renda média dos moradores é de apenas R$ 18,83 mensais per capita.

Grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, com alta renda média da população, também registram grupos de famílias com baixíssima renda.
 
Entre 20.075 famílias paulistanas na faixa de extrema pobreza, o rendimento médio domiciliar era de R$ 43,08. Há 101 mil miseráveis (com renda entre R$ 1 e R$ 70, excluídos os que não têm renda) na capital (0,9% da população). Em números absolutos, é a maior concentração de pessoas extremamente pobres do País.
 

O Estado de S.Paulo (19/06/11)
 

13 de jun. de 2011

Distribuir x Dividir

Ao longo da última década, caiu em um terço a desigualdade de renda entre municípios no Brasil. Os rendimentos dos moradores das 557 localidades mais pobres cresceram duas vezes mais rápido do que os das 557 localidades mais ricas. Resultado: o andar de baixo ficou mais parecido com o andar de cima.

Não que o Brasil tenha se transformado na Noruega, pois a renda média das cidades que formam os 10% do topo ainda é quatro vezes maior do que a dos 10% da base. Mas a aproximação dos extremos é boa notícia porque vai contra a tendência histórica brasileira. Dez anos atrás a diferença era de seis vezes.

O encurtamento da distância entre lugares ricos e pobres se deu pelo crescimento acelerado da renda dos municípios do Norte e, principalmente, do Nordeste. Entre 2000 e 2010, o rendimento médio das cidades nordestinas cresceu a uma velocidade 54% maior do que o das do Sudeste, por exemplo.

Os números divulgados até agora pelo IBGE sobre o Censo 2010 associados a outros estudos e pesquisas indicam que as molas que impulsionaram os municípios mais pobres foram as políticas federais de distribuição de renda, como o Bolsa Família, e os repetidos aumentos do salário mínimo acima da inflação.

Essas políticas se tornaram viáveis por causa da estabilização econômica e do controle da inflação ocorridas no período anterior. Mas a redução da disparidade regional só acelerou nos últimos dez anos. Houve uma reversão em relação à década de 90, quando as desigualdades ficaram imutáveis (Nordeste versus Sudeste), ou se aprofundaram (entre Sul e Norte).

As consequências dessa mudança brusca foram sentidas em múltiplas dimensões da sociedade brasileira, dos fluxos migratórios à geopolítica.

Na demografia, diminuiu a evasão populacional dos municípios mais pobres do Nordeste para os mais ricos do Sudeste. Com um cenário menos desigual, muitos viram uma oportunidade para voltar a seus Estados natais. Essa migração de retorno diminuiu a pressão por serviços básicos nas metrópoles do Sudeste. Ganharam quem voltou e quem ficou.

Na economia, o aumento da renda do andar de baixo fez girar um círculo virtuoso de consumo que propiciou o surgimento de um inédito mercado de massa. Pela primeira vez em muito tempo, o PIB (produto interno bruto) do Nordeste cresceu acima do das outras regiões do País.

Na política, PT e aliados se beneficiaram da memória imediata da população e faturaram a mudança cooptando eleitores que antes votavam nos seus adversários. Petistas e socialistas conquistaram governos e prefeituras importantes nos maiores estados nordestinos, como Bahia, Pernambuco e Ceará. Os votos do Norte e Nordeste ajudaram Lula a reeleger-se e a fazer sua sucessora.

E daí?

Não cola mais o argumento segundo o qual a única maneira de equilibrar o peso econômico do Sul/Sudeste é aumentar o peso político do Norte/Nordeste. Os desequilíbrios regionais estão diminuindo e isso não tem nada a ver com a desproporção representativa na Câmara dos Deputados e no Senado.

Ao contrário, a desigualdade entre pobres e ricos está menor apesar de o sistema eleitoral desrespeitar o princípio de uma pessoa um voto. As políticas nacionais de estabilização e promoção da renda básica provaram-se muito mais eficientes no combate às iniquidades regionais do que iniciativas divisionistas e paroquiais.

Destacados de Goiás, os municípios de Tocantins não tiveram desenvolvimento mais rápido do que os dos estados vizinhos. Palmas, a nova capital, sugou os recursos enviados pela União. Funcionou como ralo financeiro e populacional, drenando moradores das outras cidades tocantinenses. Sua renda é 2,5 vezes maior do que a média das demais.

Não é gastando com palácios e inchando burocracias estaduais que os moradores dos pretendidos novos estados de Carajás, Tapajós, Gurguéia e Maranhão do Sul vão melhorar de vida. A divisão beneficia apenas a pequena elite política que administra os recursos públicos. Concentra em vez de distribuir.

A União não faz necessariamente a força, mas sem ela não há redução de desigualdades regionais. Já o divisionismo é atalho conhecido para beneficiar poucos em detrimento de muitos. Além de reforçar o discurso xenófobo e separatista em estados que vão ajudar a pagar a conta. É óbvio: dividir não soma.



José Roberto de Toledo

O Estado de S. Paulo (13/06/11)

Cenas chocantes de escravidão moderna

Como resposta, mantenho meu sonho anarquista: na era das máquinas, deveríamos trabalhar apenas um dia por mês. Meu dia seria o 15. No dia 14, eu passaria o dia inteiro me preparando física e psicologicamente








Você está num bar ou restaurante, acompanhado de um amigo, de repente toca o celular dele. Ele atende, não é uma conversa qualquer, é trabalho. O diretor, gerente ou qualquer chefete dele dá ordens, pergunta algumas coisas e ele fica ali, meia hora “trabalhando” ao seu lado.


Isso está cada vez mais comum. Tem gente que se sente importante por receber da empresa que trabalha um telefone corporativo, “de graça”. E a partir daí o trabalho o acompanha 24 horas por dia. A jornada de trabalho, para esse pessoal chegado numa “modernidade” (nisso incluem-se as relações de trabalho) não é mais de 40 horas por semana. É de 168 horas. O sujeito tem que ficar 24 horas por dia com o aparelho ligado.

Alguns têm também um troço no computador, que apita quando é chamado para trabalhar,
seja de madrugada, depois de um dia estafante, seja num domingo na hora do almoço.


Há uns meses, um cara com quem marquei uma conversa num boteco apareceu com um laptop ligado. De vez em quando, parava a conversa e respondia a perguntas de um “superior” dele. Fiquei irritado. Ou vamos conversar ou você fica trabalhando aí que eu vou pra outro lugar. É uma chatice.


Outro cara que conheci falava maravilhas do laptop ligado à internet, porque nos fins de semana podia ir para à praia, ficar numa barraca tomando uma cerveja e… trabalhando. Respondi que acharia maravilha o contrário: você ficar no ambiente de trabalho tomando uma cerveja e paquerando. Mas para esse pessoal eu sou um anormal. A tecnologia é uma maravilha e temos que “aproveitá-la” o tempo todo. Só que quem tem aproveitado é o patrão. O celular da empresa e o laptop, nesses casos, são o instrumento da escravidão moderna.


Alguns perceberam isso, talvez tardiamente. Houve ações trabalhistas que chegaram ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), para cobrar horas extras sobre o tempo trabalhado com o celular, o pager e não sei que mais. O TST não aceitou as queixas. Esta semana decidiu que, como o empregado não perde a mobilidade trabalhando com o celular ou o pager nos horários que deveriam ser de folga, o trabalho executado por meio desses instrumentos de domínio (claro que o TST não usou esses termos), ele não tem direito a receber por horas adicionais de trabalho. Bem feito! Que continuem aceitando a escravidão moderna, sem rebeldia, sem nem sequer a alternativa de ir para um quilombo, pois esse pessoal, se for, é bem capaz de levar o celular institucional, o tal pager e o laptop em conexão com a empresa, como o cara que acha legal levar o laptop à praia.


Aliás, a tecnologia, que deveria ser libertadora do trabalho, tem tido esse efeito contrário. Imaginava-se que, com máquinas que executam trabalhos de centenas de pessoas, a carga de trabalho diminuiria radicalmente, sobrando mais tempo para a vida própria, a prática de atividades artísticas, esportivas, culturais e tudo que é agradável. Mas o que tem acontecido?


Dou o exemplo de uma multinacional que tem uma fábrica perto do bairro da Lapa,em São Paulo. Quando conheci a empresa, há três décadas, ela tinha mais de 1.500 empregados nessa fábrica. Todos trabalhavam num ritmo normal e moravam em casas de classe média da região. Hoje, a empresa produz dezenas de vezes mais, lucra muito mais, e tem pouco mais de cem empregados, boa parte deles morando em favelas. Trabalham muito mais e ganham muito menos.


É isso: se uma máquina pode substituir vinte pessoas, o racional, humano, seria diminuir a carga de trabalho dos trabalhadores, de modo que pelo menos muitos deles mantenham os empregos. Mas o patrão faz o contrário: com cinco máquinas que fazem o trabalho de vinte pessoas cada, ele poderia demitir cem empregados, mantendo o mesmo tempo de trabalho. Se fosse um pouquinho ético, demitiria muito menos. Mas demite 150, e os que sobram têm que trabalhar num ritmo alucinante, sem descanso. O patrão sabe que esses empregados restantes se sujeitam para não perder o emprego, porque eles desempregaram muita gente que está disposta a qualquer coisa para ter um emprego novamente.


Agora há esses instrumentos de controle, com a complacência e até o elogio dos escravizados. Escravizados de luxo, mas escravizados.


Eu continuo com meu sonho anarquista, irrealizável: já que a máquina faz quase tudo por nós, deveríamos trabalhar apenas um dia por mês. Por exemplo: meu dia de trabalho seria o 15 de cada mês. No dia 14, eu passaria o dia inteiro me preparando física e psicologicamente. Quereria fazer um trabalho exemplar. E ao final desse dia me sentiria livre por um mês para viajar, fazer cursos, ler, escrever, cursar alguma coisa, pintar, bordar, cantar, brincar, namorar, assistir a quantos filmes quisesse, enfim, fazer tudo o que acho bom.


Mas isso é coisa de anarquista, não é? Uma anormalidade. O normal é trabalhar o dia inteiro, ir pra casa e continuar trabalhando na hora que o patrão quer, sendo chamado a qualquer momento e tendo que atender para não perder o emprego. Interrompa-se o jantar, interrompa-se o sexo, interrompa-se o filme ou futebol, interrompa-se a leitura… Trabalhe, trabalhe, trabalhe. O TST não vai criar caso.



Por Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo

A Terra está cheia

Crise que mudará hábitos de consumo já está a caminho

Você deve se perguntar se daqui a alguns anos nós olharemos para a primeira década do século 21 - quando preços dos alimentos dispararam, preços da energia subiram, a população mundial cresceu, tornados arrasaram cidades, inundações e secas estabeleceram recordes, populações foram desalojadas e governos ameaçados pela confluência de tudo isso - e nos perguntaremos: o que estávamos pensando?


Como foi que não entramos em pânico quando havia evidências óbvias de ter cruzado algumas linhas vermelhas de crescimento/clima/recursos naturais/população todas de uma vez? "A única resposta pode se a negação", argumenta Paul Gilding, veterano empresário ambientalista australiano que descreve este momento em um livro intitulado The Great Disruption: Why the Climate Crisis Will Bring On the End of Shopping and the Birth of a New World (A grande ruptura: por que a crise climática trará o fim da compulsão da compra e o nascimento de um novo mundo, em tradução livre).
 
 
"Quando se está cercado por algo tão grande que requer que se mude tudo na maneira de pensar e ver o mundo, negar é a resposta natural. Mas quanto mais se espera, maior será a resposta requerida." Gilding cita o trabalho da Global Footprint Network, uma aliança de cientistas que calcula quantos "planetas Terra" precisaremos para sustentar nossas taxas de crescimento correntes. O grupo mede quanta área de terra e água é necessária para produzir os recursos que consumimos e absorver nosso lixo, usando a tecnologia existente.


Estamos crescendo a uma taxa que está usando os recursos da Terra bem mais rapidamente do que eles podem ser sustentadamente repostos, de modo que estamos comendo o futuro. Neste momento, o crescimento global está usando o equivalente a 1,5 Terra. "Ter apenas um planeta torna esse problema realmente significativo", diz Gilding. Isso não é ficção científica.


Quando estive no Iêmen, no ano passado, vi um caminhão-tanque entregando água na capital, Sanaa. Por quê? Porque Sanaa pode ser a primeira cidade grande do mundo a ficar sem água dentro de uma década. É isso que ocorre quando uma geração de um país vive a 150% de capacidade sustentável.


"Se você cortar mais árvores do que planta, ficará sem árvores", escreve Gilding. "Se colocar nitrogênio adicional num sistema de água, mudará o tipo e a quantidade de vida que a água pode suportar. Se engrossar o lençol de gás carbônico da Terra, a Terra ficará mais quente. Se fizer todas essas e outras ao mesmo tempo, mudará a maneira como o sistema todo do planeta Terra se comporta, com impactos sociais, econômicos e na sustentação da vida. Isso não é especulação, é ciência do colegial."
 
 
É também um assunto atual. "Nos milhares de anos de civilização da China, o conflito entre humanidade e natureza nunca foi tão grave como é hoje", disse recentemente o ministro do Meio Ambiente da China, Zhou Shengxian. "A diminuição, deterioração e exaustão de recursos e o desequilíbrio do ambiente ecológico se tornaram gargalos e empecilhos graves ao desenvolvimento econômico e social da nação." O que o ministro chinês está nos dizendo, diz Gilding, é que a Terra está cheia. Estamos usando agora tantos recursos e eliminando tanto lixo na Terra que atingimos uma espécie de limite.
 
 
A economia vai ter de encolher em termos de impacto físico." Não mudaremos sistemas, contudo, sem uma crise. Mas não se preocupem, estamos chegando lá. Estamos hoje apanhados em dois circuitos. Um é que aceleração do crescimento populacional e aumento do aquecimento global juntos provocam uma elevação dos preços dos alimentos. Uma elevação dos preços dos alimentos causa instabilidade política no Oriente Médio, que provoca uma alta nos preços do petróleo, que acarreta preços mais altos dos alimentos, que provocam mais instabilidade. Ao mesmo tempo, a produtividade aumentada significa que menos pessoas são necessárias em cada fábrica para produzir mais coisas. Sendo assim, se quisermos mais empregos, precisaremos de mais fábricas. Mais fábricas produzindo mais coisas causam mais aquecimento global. Aí os dois circuitos se encontram.


Solução. Gilding é, ao final, um "eco-otimista". Quando o impacto da Grande Ruptura iminente nos atingir, diz ele, "nossa resposta será proporcionalmente dramática, nos mobilizando como ocorre nas guerras. Mudaremos numa escala e velocidade que mal conseguimos imaginar hoje, reformando por completo nossa economia, incluindo nossos setores de energia e transporte, em poucas décadas".
 
 
Nós perceberemos, ele prevê, que o modelo de crescimento movido pelo consumo está quebrado e que temos de mudar para um modelo de crescimento mais movido pela felicidade, com pessoas trabalhando menos e ganhando menos. "Quantas pessoas", pergunta Gilding, "deitadas em seus leitos de morte dizem "gostaria de ter trabalhado mais duro construindo mais valor para acionistas" e quantas dizem "gostaria de ter jogando mais bola, lido mais livros para meus filhos, caminhado mais?""
 
 
Para isso, é preciso um modelo de crescimento baseado em oferecer mais tempo para as pessoas gozarem a vida, mas com menos coisas." Parece utópico? Gilding insiste que é realista. "Estamos a caminho de uma escolha movida por crise", diz ele. "Ou permitiremos que o colapso nos atinja ou desenvolveremos um novo modelo sustentável. Escolheremos a segunda. Podemos ser lentos, mas não somos estúpidos." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Thomas L. Friedman, The New York Times

O Estado de S.Paulo (13/06/11)

O duplo perfil do Facebook




A rede social colabora para a explosão do uso da web – com enormes impactos políticos, como na Tunísia e no Egito; mas também é parte a tentativa de cercear as liberdades na internet


A internet mudou o mundo. Segue transformando-o. E a mais recente transformação é consequência da invenção do Facebook por Mark Zuckerberg. Seis anos atrás, aos 19 anos, ele lançou o mais bem sucedido e abrangente site de rede social. Porque, como a grande maioria dos garotos de sua geração, acreditou que uma idéia na cabeça e alguns códigos à mão o fariam bilionário. Acertou. Isso o torna a expressão perfeita do fluido capitalismo contemporâneo, que vive de nos vender – o que somos e fazemos – produzindo uma inestimável sensação de liberdade.


No ano que se encerrou, conforme registra o livro The Connector, lançado recentemente nos Estados Unidos, a invenção de Zuckerberg atingiu a marca de 550 milhões de usuários. “Uma em cada dúzia de seres humanos existentes no planeta usa a ferramenta. Elas falam 75 línguas e coletivamente gastam mais de 700 bilhões de minutos no Facebook todos os meses. No último mês de 2010 o site angariou uma de cada quatro páginas de internet visitadas nos Estados Unidos. Essa comunidade tem crescido ao ritmo de cerca de 700 mil pessoas por dia”.


Por essa e outras razões – algumas delas vamos tentar descrever neste texto –, o Facebook passou a concentrar a atenção dos homens e mulheres que dedicam suas vidas a pesquisar e avaliar os fenômenos políticos, econômicos, sociais e culturais que são reflexo da emergência da rede mundial de computadores.


É bom alertar, estamos diante de um paradoxo que não compreenderemos por meio de leituras dicotômicas. Para aquilo que é líquido, busque-se o recipiente correto, senão a análise escorre pelas frestas. Esse paradoxo consiste em: por um lado, a rede social de Zuckerberg é, sem sombra de dúvida, um elemento fundamental para a explosão do uso da web – inclusive proporcionando impactos políticos inestimáveis, como na Tunísia e no Egito; por outro, integra e aprofunda o movimento de cercamento às reais liberdades que marcaram a internet desde a sua criação.


Esse cerco à internet livre é produzido por uma aliança entre governos conservadores, indústria da propriedade cultural, empresas de telefonia e algumas das emergentes corporações do mundo das redes, com diferentes níveis de envolvimento de cada um desses atores.


O papel do Facebook nessa epopéia é o do monopólio, que busca transformar uma parte (um site) em todo (a rede). A ambição de Zuckerberg é que todo cidadão conectado à internet – atualmente cerca de 2 bilhões de seres humanos -, tenha um perfil no Facebook e possa se relacionar lateralmente por meio da ferramenta. Diz fazer isso porque quer ver o mundo mais “aberto e conectado”. Não é verdade.


Para entendermos porque essa declaração é falsa, primeiramente precisamos compreender a qual campo fazemos referência quando falamos do Facebook.


Segundo danah boyd, estudiosa do tema e consultora de grandes empresas do mundo, um site de rede social tem três características: 1) permitir ao usuário construir um perfil; 2) articular uma lista de amigos e conhecidos; e 3) visualizar e cruzar sua lista de amigos com os seus associados e com outras pessoas dentro do sistema.


O primeiro site com essas características foi lançado em 1997, portanto apenas um ano depois de a internet se tornar comercial no Brasil. A explosão desse modelo, no entanto, ocorreria a partir de 2002, com a criação do Friendster e, logo depois, do MySpace.


No Brasil, diferentemente de outros países, a experiência foi singular. O que o mundo vem experimentando nos últimos dois anos com o crescimento do Facebook (todos os seus “amigos” trocando mensagens, fotos, vídeos, entre outras informações, em um mesmo ambiente controlado), os brasileiros experimentaram a partir de 2004 com a invasão do Orkut, o site de relacionamento criado pelo Google que segue líder de audiência por aqui.


Até pouco tempo – e não seria impreciso demarcar que o Facebook também é responsável por isso – as redes sociais foram observadas apenas como fenômeno adolescente, sem grande importância ou impacto no ecossistema midiático. Nos últimos anos, no entanto, isso mudou, principalmente porque essas redes passaram a redefinir a forma como as pessoas consomem e circulam informações. Conforme escreve Grossman, um dos principais objetivos de Zuckerberg é mudar a “forma como a mídia é organizada, para reconstruí-la a partir da oligarquia benevolente de sua lista de amigos como princípio dessa reorganização”. Quando isso ficou evidente, o tema redes sociais ganhou outro tratamento por parte dos detentores de poder.


Redes são pessoas


“As pessoas fazem as redes sociais para além delas mesmas”, explica André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia e autor, com Pierre Lévy, de O Futuro da Internet, lançado no ano passado. “A rede não é o canal por onde passam coisas, como pensamos comumente, mas algo fluido, movente: ela é a relação que se estabelece, a cada momento, entre os diversos atores. Ela é o que agrega. Ela faz o social”.


Como outras – mas melhor que qualquer uma – a ferramenta de Zuckerberg se propõe justamente facilitar a aproximação entre pessoas, o que só é possível porque as massas, de fato, aderiram à plataforma.


“O sucesso do Facebook demonstra que as pessoas querem se relacionar”, opina Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e eleito em janeiro para uma das representações da sociedade civil no Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI-Br). “Ao contrário do que foi sentenciado pelos tecnofóbicos, a rede permite aproximar as pessoas e intensifica os relacionamentos. O Facebook e outras redes sociais são articuladores coletivos, por isso, canalizam os processos de convocação, mobilização e solidariedade”


Para Giselle Beiguelman, artista multimídia e professora da Universidade de São Paulo, “é importante perceber, no entanto, que ao mesmo tempo em que redes sociais como o Facebook abrem possibilidades inéditas de fomento do consumo e controle, tornam-se também dispositivos de uso crítico e criativo das mídias existentes. Por isso, apontam para diferentes concepções e tendências políticas da ecologia midiática atual.”


Essa ambivalência estrutura o paradoxo ao qual nos referimos anteriormente. Ao obcecadamente buscar fazer melhor aquilo que a web se propõe a fazer, mimetizando-a em um ambiente controlado, Zuckerberg constrói talvez a mais definitiva ameaça às liberdades que constituíram a estrutura inovadora da rede mundial de computadores.


Não à toa, Tim Berners Lee, o inventor da web, deixou de lado sua postura pouco beligerante, para se posicionar claramente contra esse movimento do Facebook em um artigo publicado no ano passado na Scientific American.


Em “Vida Longa a Web: um chamado pela continuidade dos padrões abertos e da neutralidade de rede”, Berners Lee faz duas críticas ao invento de Zuckerberg: a) ao não permitir que informações produzidas e publicadas em sites de rede social circulem livremente (você só as acessa se estiver vinculado ao banco de dados da empresa) esses projetos trabalham pela destruição da universalidade da web, que é uma de suas características mais fundamentais; b) seu crescimento exagerado conforma um monopólio que acabará por limitar a inovação.


Para entender a crítica descrita no ponto “a”, é preciso desfazer uma confusão comum entre dois termos que são comumente utilizados como sinônimos, mas não são: internet e web. Internet é uma rede de redes, evolução das pesquisas militares da segunda metade do século 20 que desembocaram no desenvolvimento de protocolos de interoperabilidade que permitiram a conexão entre diferentes redes físicas (como o Internet Protocol IP, criado por Vint Cerf).


A world wide web (WWW) foi criada no início dos anos 90 e pode ser explicada como uma camada visual da rede que para ser acessada necessita de um software de navegação (um navegador, como o Firefox, o Chrome ou o Internet Explorer). Todos os protocolos criados são de livre uso e constituiu-se então um Consórcio, chamado W3C, que se dedica a manter a abertura e a flexibilidade dessas aplicações, melhorando-as.


Para sustentar sua crítica de que o Facebook promove a fragmentação da web, Berners-Lee escreve: “o isolamento ocorre porque cada pedaço de informação não tem um endereço. (…) Conexões entre os dados só existem dentro de um site. Assim, quanto mais você entra, mais você se tranca em seu site de redes sociais tornando-o uma plataforma central, um silo fechado de conteúdo, e que não lhe dá total controle sobre suas informações. Quanto mais esse tipo de arquitetura ganha uso generalizado, mais a web torna-se fragmentada, e menos temos um único espaço de informação universal.”


Um monopólio e seu produto: nós


“O Facebook atua estranhamente como um concentrador de atenções e uma “draga” de conteúdos. Nele tudo pode entrar, mas nada pode sair”, reforça Sérgio Amadeu. “O Facebook apaga postagens e elimina perfis sem nenhuma obrigação de avisar os usuários. Atuou contra o Wikileaks atendendo os interesses do governo norte-americano. A democracia inexiste no convívio com os gestores do Facebook. Se o Facebook fosse um país seria uma ditadura e Mark Zuckerberg um déspota de novo tipo”.


Em entrevista publicada no livro The Connector, Zuckerberg admite o objetivo de constituir um gigantesco banco de dados sob seu controle. “Estamos tentando mapear o que existe no mundo”, diz ele. De acordo com Grossman, “ser membro do Facebook é o equivalente a ter um passaporte. Ou seja, ele é uma ferramenta para verificação de sua identidade, não apenas no Facebook, mas onde quer que se esteja online”.


“Ferramentas como o Facebook estão no centro do chamado capitalismo cognitivo que precisam para existir mobilizar todas as forças afetivas, criativas, comunicacionais. Mobilizar a ‘vida’ como um todo”, escreve Ivana Bentes, coordenadora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Esses dispositivos servem simultâneamente a criação e ao controle, que é a forma de operar do pós-capitalismo, é a lógica do Google e do Facebook. Modular a ‘autonomia’ e a ‘liberdade’ indispensáveis na produção atual imaterial (design, moda, estilos de vida, conhecimento, tudo que é inovação).”


Tim Wu, ativista pela liberdade da rede, professor de direito da Universidade de Columbia, autor do livro The Master Switch – The Rise and Fall of Information Empires, ajuda-nos a explicar o que vem ocorrendo com a web com base naquilo que ele chama de o ciclo padrão de desenvolvimento midiático. Ele apresentou essa sua interpretação no Seminário sobre Cidadania Digital organizado por Amadeu da Silveira em 2009. Para ele, ao surgir, uma mídia se caracteriza por: abertura, amadorismo e competição. Depois, tende à formação de monopólios proprietários fechados. Isso estaria agora ocorrendo com a internet, a qual estaria deixando para trás o tempo da inovação em direção ao domínio de grandes monopólios (entre os quais o Facebook).


A arquitetura de padrões abertos e distribuídos da internet permitiu que a inovação brotasse no quintal de casa. No Vale do Silício garagens viraram museus, onde estão registrados os primórdios dos objetos e interfaces que hoje todos utilizamos. A principal contradição no caso do Facebook é a de ter se beneficiado desse ambiente inovador para agora traí-los, em um movimento que ninguém é capaz de definir onde desembocará, uma vez que sobram dúvidas sobre qual será o destino que Zuckerberg dará para todo esse arsenal informação que ele passou a comandar.


Giselle, para quem todas essas críticas são essenciais, soma mais alguns elementos a esse paradoxo que estamos descrevendo: “a vulnerabilidade das informações pessoais no Facebook é constantemente apontada como um dos seus problemas. Contudo, é bom lembrar, que num mundo mediado por bancos de dados de toda sorte – de programas de busca a redes sociais, passando pelas ‘Amazons’ da vida e as catracas da empresa e da escola –, somos uma espécie de plataforma que disponibiliza informações e hábitos conforme construímos nossas identidades públicas nos diversos serviços relacionados ao nosso consumo, lazer e trabalho”.


O caso do Egito


Em meio a críticas e desconfianças, o Facebook segue avançando. Uma das razões para isso, segundo Grossman, é que o “Facebook faz mais o ciberespaço como o mundo real: maçante, mas civilizado. Considerando que as pessoas levavam uma vida dupla, o real eo virtual, agora eles levam como uma só novamente.”


Outra razão que ajuda a explicar o sucesso da ferramenta é a crescente utilização da plataforma para fins políticos, como no caso dos protestos contra o ditador egípicio Hosni Mubarak. No período em que as manifestações tiveram início (e antes de o governo “desligar” a internet como forma de reprimir as movimentações) o Facebook chegou a concentrar 40% de todo o tráfego de dados daquele país.


Isso demonstra que os bancos de dados que nos espreitam também são instrumentos que servem à desobediência. “Facebook e Google oferecem ferramentas de expressão, de ativismo, de criação (os dispositivos como potência são incríveis!) e ao mesmo tempo ‘capturam’ essa potência, monetizam”, descreve Ivana. “A batalha do pós-capitalismo, a matéria do Facebook são os fluxos da própria vida. Nós somos o produto, mas nós somos os sujeitos da colaboração, das trocas, da cooperação social. O desespero do capital hoje é ser tão nômade e fluido quanto a vida, daí as ferramentas de colaboração serem hoje as mesmas do comando e do controle.”


O caso do Egito é emblemático não só do uso da internet para movimentações políticas, mas em especial do uso feito do Facebook. Foi por meio do site de rede social o Movimento Jovem 6 de Abril organizou suas primeiras manifestações. Conforme descrito em matéria publicada pelo The New York Times, os organizadores reuniram mais de 90 mil assinaturas online e com isso conseguiram encorajar as pessoas a irem para a rua.


À internet, sem dúvida, coube um papel fundamental, mas é preciso também relativizá-lo. “No caso do conflito no Egito, a rede de atores é composta por instâncias diversas: pessoas, discursos, redes sociais (Facebook e Twitter, os mais usados), SMS e telefones celulares, cartazes em praça pública, repercussão na mídia internacional, debates televisivos, luta corporal etc”, explica Lemos. “Nesse sentido, acho excelente que o Facebook seja usado para articular pessoas para a causa egípcia. Isso para além do Facebook. As redes sociais são um elemento importante de publicização do descontentamento egípcio, mas elas não fazem, sozinhas, a revolução”


Para Ivana Bentes, “o decisivo é que o desejo, a criação, a colaboração vem antes e não se reduzem ao comando, transbordam os dispositivos, mesmo quando são capturadas, rastreadas, monetizadas. Para ser mais brutal eu diria que por enquanto precisamos também dos Facebooks e Googles para fazer a insurreição digital que será decisiva para inventarmos uma nova política para o século XXI. Pós-Google e Pós-Face”.
Por Rodrigo Savazoni, em Retrato do Brasil


 Este texto foi construído a partir do diálogo com os professores André Lemos (Universidade Federal da Bahia – UFBA), Gisele Beiguelman (Universidade de São Paulo – USP), Ivana Bentes (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ) e Sérgio Amadeu da Silveira (Universidade Federal do ABC – UFABC).

9 de jun. de 2011

Irã triplicará processamento de urânio

TV estatal iraniana anuncia escalada sem precedentes no enriquecimento de material nuclear e transferência de reatores para bunker escondido no interior de montanhas; decisão seria resposta a novo tom adotado por agência atômica da ONU

O Irã anunciou ontem que triplicará sua produção de urânio enriquecido a 20%, processamento que passará a ser realizado em um bunker enterrado nas montanhas. Anunciada pela TV estatal iraniana, a decisão é uma resposta a declarações recentes do diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o japonês Yukiya Amano, expressando "preocupação sobre as possíveis dimensões militares" do programa iraniano.


A possibilidade de o Irã transferir parte de seus reatores para um local sob forte proteção militar vinha sendo discutida por diplomatas estrangeiros e analistas. A decisão de escalar a produção de urânio enriquecido, porém, deve intensificar a tensão entre Teerã e potências ocidentais, que acusam os iranianos de estarem em busca da bomba nuclear. "Nossa resposta é a ampliação do trabalho na esfera de tecnologia nuclear", anunciou a repórteres Fereydoun Abbasi, principal cientista do programa atômico iraniano, após participar de uma reunião com o gabinete da República Islâmica.


Potências ocidentais, como EUA e França, qualificaram o anúncio do Irã de "provocação". "Estamos preocupados com as intenções anunciadas pelo Irã de continuar reforçando seu programa de enriquecimento (nuclear) e com a violação de suas obrigações internacionais", declarou o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Tommy Vietor.


"Ele (o anúncio) reforça os temores da comunidade internacional em relação à intransigência do Irã e sua persistente violação do direito internacional", afirmou uma nota da chancelaria francesa.

A agência atômica da ONU, comandada por um conselho de 35 países, disse ter sido informada dos novos planos atômicos do Irã pela imprensa. "O Irã ainda não informou a agência sobre nenhuma decisão", afirmou Gill Tudor, porta-voz da AIEA.

Atualmente, o Irã processa urânio na usina de Natanz e a maior parte do material nuclear é enriquecida a 3,5% - taxa adequada para a geração de energia elétrica. O novo local onde funcionarão os principais reatores iranianos chama-se Fordo e fica ao lado de um complexo militar.

As instalações estão na região de Qom - um dos principais centros xiitas de estudos islâmicos - e foram mantidas em segredo até Estados Unidos e países europeus revelarem sua existência ao mundo, em 2009. As potências acusaram o Irã de construir Fordo para fins militares e, sob pressão, Teerã aceitou autorizar inspetores da AIEA a vistoriar o local.

Segundo um relatório da agência da ONU, Fordo deverá abrigar mais de 3 mil reatores, que entrarão em funcionamento "no verão" (entre junho e setembro). Atualmente não há nenhum reator no complexo.

Isótopos. Teerã já havia anunciado que pretende enriquecer urânio a 20% por meio de equipamentos mais modernos. O objetivo seria usar esse material nuclear para operar uma centrífuga de 44 anos - de fabricação americana - que produz isótopos para uso médico.

Para fabricar uma bomba, é preciso enriquecer urânio a níveis acima de 90%. Ontem o Institute for Science and International Security, um centro de pesquisa sobre política nuclear de Washington, afirmou que a implementação de Fordo poderia, dentro de um ano, permitir ao Irã produzir urânio para uma bomba, "caso decida fazê-lo".

Em reação às declarações do diretor-geral da agência da ONU, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, havia afirmado que o diplomata japonês "trabalha para Washington".

Há exatamente um ano, o Conselho de Segurança da ONU adotou a quarta resolução contra o programa iraniano. O organismo impôs várias restrições comerciais em "áreas sensíveis", como a nuclear e a militar do Irã. / REUTERS e WASHINGTON POST

PARA LEMBRAR



País passa por divisão política


A decisão do líder supremo do Irã, aiatolá Khamenei, de intervir no gabinete ministerial do presidente Mahmoud Ahmadinejad evidenciou um racha entre os dois líderes iranianos. Khamenei reverteu em abril a decisão de Ahmadinejad de demitir o ministro da Inteligência Heydar Moslehi. Em protesto, Ahmadinejad ausentou-se de cerimônias oficiais por 11 dias.

De acordo com o deputado Morteza Agha-Tehrani, próximo a Ahmadinejad, o aiatolá chegou a dar um ultimato ao presidente: que ele aceitasse o ministro, ou renunciasse. Em maio o presidente nomeou ele mesmo ministro do Petróleo, um dos cargos mais importantes do país, que ocupa a presidência da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Pressionado, recuou.




Como superar o impasse nuclear iraniano?


O 'Estado' publica este artigo - reproduzido também por 'Le Monde', 'El País' e 'Financial Times' - com exclusividade no Brasil

Richard Dalton, Steen Christensen, Paul Von Maltzahn, Guillaume Metten, François Nicoullaud e Roberto Toscano


 
Ao longo da última década, atuamos no Irã como embaixadores de vários países europeus. Acompanhamos atentamente o desenvolvimento da crise nuclear entre o Irã e a comunidade internacional. É inaceitável que as negociações estejam há tanto tempo num impasse.


O mundo árabe e o Oriente Médio estão entrando numa nova era. Nenhum país está imune às mudanças. A República Islâmica do Irã enfrenta o descontentamento de uma parcela expressiva de sua população. Por toda parte, novas perspectivas estão emergindo. Um período de incertezas como o atual oferece a oportunidade de reconsiderar posições previamente estabelecidas. É chegada a hora de adotar esta atitude em relação à questão nuclear iraniana.

Em termos do direito internacional, a posição da Europa e dos EUA é talvez menos sólida do que se acredita. Basicamente, ela tem como lastro um conjunto de resoluções adotadas pelo Conselho de Segurança referindo-se ao capítulo 7 da Carta das Nações Unidas, que autoriza o uso de medidas coercitivas no caso de "ameaças à paz".
 
 
 
Mas o que constituiria uma ameaça? Seria o enriquecimento de urânio nas centrífugas iranianas? Esta é, sem dúvida, uma atividade delicada, empreendida por um país delicado, numa região onde o equilíbrio é também delicado. As preocupações manifestadas pela comunidade internacional são legítimas, e o Irã tem o dever moral, além da necessidade política, de responder a elas. Mas, em princípio, não há nada no direito internacional, nem no Tratado de Não Proliferação (TNP), proibindo o enriquecimento de urânio. Além do Irã, muitos outros países - signatários do TNP ou não - enriquecem urânio sem serem acusados de "ameaçar a paz". E, no Irã, esta atividade é submetida às inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). É verdade que estas inspeções são limitadas por um acordo de salvaguardas que data da década de 70. Mas também é verdade que a AIEA nunca descobriu nenhuma tentativa iraniana de encaminhar material nuclear para usos militares.


‘País limítrofe’. Será que a ameaça à paz está contida num programa clandestino que busca a construção de uma arma nuclear? Faz ao menos três anos que funcionários dos serviços americanos de espionagem descartaram essa hipótese. O diretor de espionagem dos EUA, James Clapper, depôs no Congresso em fevereiro: "Nossa avaliação ainda é que o Irã está mantendo aberta a opção de desenvolver armas nucleares... Mas não sabemos se o Irã vai realmente decidir construí-las... Ainda entendemos que as decisões iranianas quanto ao programa nuclear têm por base um cálculo de custo-benefício, o que proporciona à comunidade internacional oportunidades para influenciar Teerã".


Atualmente, a maioria dos especialistas, mesmo em Israel, parece acreditar que o Irã luta para se firmar como um "país limítrofe", tecnicamente capaz de produzir uma arma nuclear, mas que se abstém de fazê-lo por enquanto. É possível que nos arrependamos depois, mas não há nada no direito internacional, nem nas regras da AIEA proibindo este tipo de ambição. Além do Irã, vários países comprometidos a não construir armas nucleares já atingiram esta situação limítrofe ou estão prestes a fazê-lo. Ninguém parece preocupado em incomodá-los.


Com frequência ouvimos que a má vontade do Irã, sua recusa em negociar com seriedade, deixou aos nossos países pouca escolha a não ser levar o caso iraniano ao Conselho de Segurança da ONU em 2006. Também neste ponto as coisas são pouco claras. Devemos lembrar que em 2005 o Irã estava disposto a negociar um limite para o número de suas centrífugas e a manter o nível de enriquecimento do material muito abaixo dos altos valores necessários para fins militares. E, principalmente, o país expressou sua prontidão em aplicar o Protocolo Adicional que já tinha sido assinado com a AIEA, permitindo inspeções invasivas em todo o território iraniano, mesmo em instalações não anunciadas. Mas, naquele momento, europeus e americanos queriam convencer o Irã a abrir mão de seu programa de enriquecimento, abandonando-o por completo. E, ao menos para os iranianos, o mesmo objetivo ainda está por trás da insistência do Conselho de Segurança na suspensão de todas as atividades de enriquecimento no Irã.


Dilema. Antes de acusar o Irã de dificultar as negociações, é preciso reconhecer que a meta de "nenhuma centrífuga operando no Irã, seja permanentemente ou temporariamente" é um objetivo irreal, que contribuiu muito para a criação do impasse atual.



É claro que há um dilema assombrando a mente da maioria de nossos líderes. Por que oferecer ao regime iraniano uma abertura que poderia ajudá-lo a restaurar tanto sua legitimidade interna quanto a internacional? Não seria melhor esperar um sucessor mais palatável? Trata-se de uma pergunta importante. Mas não devemos superestimar a influência de uma negociação nuclear sobre desenvolvimentos internos que operam em níveis mais profundos.


Ronald Reagan costumava chamar a URSS de "império do mal". Isto não impediu que ele negociasse intensamente com Mikhail Gorbachev tratando do desarmamento nuclear.


Deveríamos culpá-lo por retardar o avanço da história? Os países interessados no futuro do Irã devem, sem dúvida, manter o foco nas questões dos direitos políticos e do respeito aos direitos humanos, mas também se esforçar mais para solucionar um problema de proliferação frustrante e ainda urgente. Ao fazê-lo, reduziríamos uma considerável fonte de tensão numa região que precisa mais do que nunca da tranquilidade.


O fracasso da última rodada de negociações mostra que será difícil superar o impasse atual. No decorrer da negociação, quanto mais discretos e técnicos forem seus procedimentos, maiores serão as chances de progredir. E, em relação à sua substância, já sabemos que qualquer solução terá de levar em conta o sistema de inspeções da AIEA.


Temos de decidir se confiamos ou não na capacidade da AIEA de supervisionar todos os países membros. Se não confiamos na agência, devemos nos perguntar por que mantemos uma organização que só se mostra eficiente diante de seus membros mais virtuosos. Na verdade, o primeiro passo poderia ser um questionamento, de ambas as partes, de quais seriam as ferramentas adicionais para monitorar plenamente o programa nuclear iraniano e oferecer garantias críveis de que todas as iniciativas relacionadas a ele tenham intenções pacíficas. Com base na resposta oferecida, uma negociação pragmática poderia, então, ter início. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


Richard Dalton, Steen Christensen, Paul Von Maltzahn, Guillaume Metten, François Nicoullaud e Roberto Toscano são ex-Embaixadores respectivamente de Grã-Bretanha, Suécia, Alemanha, Bélgica, França e Itália no Irã.


O Estado de S. Paulo (09/06/11)

The War You Don't See, de John Pilger

Neste documentário, John Pilger expõe como os grandes meios de comunicação dos países imperialistas (assim como seus representantes nos países periféricos) manipulam as informações com o objetivo de justificar suas guerras de rapina e outras políticas contrárias aos interesses das maiorias populares.


John Pilger revela como estes meios agem de modo orquestrado para beneficiar as políticas imperialistas dos Estados Unidos, por exemplo, e de seus agentes no Oriente Médio (Israel).


A vida humana nada conta para estas potências imperialistas (ou sub-imperialistas) nem para a mídia que as defende. Nada está por cima dos interesses econômicos ou estratégicos militares dos estados e grupos econômicos que exergem a hegemonia política no planeta.


As cenas das atrocidades cometidas no Iraque, no Afeganistão e na Palestina são amostras do grau de perversidade a que se pode chegar com o objetivo de garantir privilégios.


Vejam!


Está legendado:


http://youtu.be/jzSmGf0vJgw

8 de jun. de 2011

Os gays e a Bíblia

Por que fingir ignorar que o amor exige união, e querer que essa união permaneça à margem da lei?


15 219x300 Os gays e a Bíblia


É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos. No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses, Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”…).


Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos, elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria, etc.). No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países-membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.


A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante, ao incluir no seu catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.


Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hetero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.
São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.


A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama…).


Por que fingir ignorar que o amor exige união, e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a Teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?


Ora, direis, ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como na do amor de Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.


Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus, condenava ao limbo crianças mortas sem batismo, considerava legítima a escravidão, e censurava o empréstimo a juros.


Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?


Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.


Por:

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de Conversa Entre a Fé e a Ciência (Agir), entre outros livros.


Publicado  no site Brasil de Fato.

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Um dos melhores artigos que já li sobre o tema!!!

Sonhos, frustrações, limites e realidade para a sustentabilidade

Amor perfeito, paraíso perfeito, mundo perfeito. Quantas vezes nos iludimos com tais promessas!


1413 Sonhos, frustrações, limites e realidade para a sustentabilidade



Desde pequeninos somos estimulados a fantasiar a perfeição. As meninas costumam brincam de bonecas e casinhas, como se fossem de verdade, e sonham com príncipes encantados. Os meninos brincam de carrinho e de bola, como se fossem o mais bem-sucedido dos pilotos de automobilismo ou jogadores de futebol. Essas brincadeiras são convenientes para reforçar papéis culturais, nem sempre os mais adequados, que se esperam de meninos e meninas, mas também são úteis para estimular nossos sonhos! E como é bom e importante sonhar para nos retirar de uma realidade nem sempre a mais desejada e nos projetar para um outro mundo, perfeito! Seria um desastre se nossas crianças passassem a não mais acreditar nos sonhos, se nós próprios, adultos, resolvêssemos viver só de realidade! São os sonhos que nos impulsionam para querer ser diferentes do que somos hoje, querer ser melhores, num mundo melhor. Eles nos permitem acreditar que é possível, que vale a pena lutar! O perigo é se descolar de tal forma da realidade que os sonhos se transformam numa realidade ilusória, e a pessoa se desconecta do mundo.


À medida que crescemos, no confronto com a realidade, nossos sonhos vão sendo triturados como num moinho, mas para a nossa sorte, a cada sonho que se desfaz, logo é substituído por outro e mais outro, pois, assim como nosso corpo material precisa de comida, nosso corpo espiritual também precisa de utopias. O processo de ajustar nossos sonhos à realidade nem sempre se dá de forma tranquila. Sonhamos com um mundo onde o meio ambiente seja respeitado e exista justiça social, e o que mais vemos à nossa volta é destruição e descaso ambiental, fome, miséria, violência, exclusão social. Não que não existam boas práticas e bons exemplos de sustentabilidade, mas o fato é que os maus exemplos ainda os suplantam. Além disso, o mau tem a péssima mania de se sobressair ao bem.


A realidade pode ser muito dura – e geralmente é – em parte por que existe uma enorme distância entre querer e fazer, sonhar e realizar, e também por que não somos sozinhos, mas em rede. Assim como nossas escolhas influenciam aos demais, os demais também nos influenciam. Enquanto alguns se importam com a dor alheia, outros são insensíveis, enquanto uns se preocupam em deixar um mundo melhor para as próximas gerações, outros parecem viver como se não fosse existir um amanhã.


Ainda assim é importante continuar sonhando, acreditando que é possível, e nos empenhar com determinação para fazer o melhor que pudermos, e quando as frustrações nos alcançarem, é importante estabelecermos limites do quanto podemos suportar. Não deveria existir nenhuma vergonha em ceder um pouco a fim de se alcançar o consenso do que é possível e suportável, ainda que isso signifique abrir mão de nossos sonhos, pelo menos um pouco, para nos ajustarmos aos sonhos dos outros, pois a sustentabilidade não é um sonho que se sonhe só. Para virar realidade, a sustentabilidade precisa ser sonhada por todos.



Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a Rebia – Rede Brasileira de Informação Ambiental e edita, deste janeiro de 1996, a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente. Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas.