8 de jun. de 2011

Até o final do século, a humanidade pode chegar a dez bilhões de pessoas, que vão precisar de três refeições por dia. A questão é quem vai produzir essa comida toda…



A mídia e os governos tentam fazer de conta que a crise global de 2008, que ainda lança sua sombra sobre a Europa e os Estados Unidos, foi apenas financeira. O fato, no entanto, é que seus efeitos foram muito mais amplos e os preços globais dos alimentos estão subindo, e cerca de um bilhão de pessoas ao redor do mundo não conseguem se alimentar dentro dos padrões considerados adequados pela Organização Mundial de Saúde. Um relatório recente Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que, entre fevereiro e março deste ano, o valor médio dos alimentos da cesta básica no mundo está cerca de 35% mais alto do que no mesmo período do ano passado, e fontes da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), informaram este mês que não existe perspectiva de queda em curto prazo.


Além disso, as projeções de impactos das mudanças climáticas sobre a agricultura ainda estão pouco estudadas, mas podem ser de grande monta, caso a temperatura média do planeta, no final deste século, esteja mesmo quatro graus centígrados mais alta. “Até agora nenhum plano para oferecer alimentos a uma população em crescimento levou em conta as mudanças no clima”, diz Antonio Hill, que atua na Oxfam, uma organização internacional com trabalhos na área de combate à pobreza. Para ele, é importante que se reconheça os limites do atual sistema de produção de alimentos. Um relatório da Oxfam mostra que o preço dos alimentos é diretamente impactado pela alta no preço do petróleo, nos custos de transportes e de fertilizantes. Os mesmos fertilizantes que são frequentemente acusados pela contaminação da água e exaustão do solo. “E, mesmo com aplicações maciças de fertilizantes, a produtividade não está crescendo”, diz Hill.


Em um cenário de disputas entre o grande agronegócio global, onde as terras são utilizadas para extensões sem fim de monoculturas como a soja, o milho ou a cana, o que realmente tem potencial para oferecer comida para toda essa gente é a agricultura familiar, segundo o relatório da Oxfam. E com um detalhe: as famílias instaladas em pequenas propriedades têm mais cuidado com a diversidade de animais e plantas, utilizando agroquímicos com maior parcimônia. “Existem cerca de seis mil plantas comestíveis no mundo, no entanto, nos limitamos a 50 espécies que são produzidas em escala comercial”, diz Antonio Hill.


Para tentar influir em políticas públicas que apontem para o aumento da produção de alimentos, a Oxfam está lançando uma campanha global para pressionar os líderes mundiais a não deixarem as questões relativas à segurança alimentar apenas nas mãos do mercado, uma vez que o sistema de preços não consegue oferecer comida a preços compatíveis com a renda de uma camada imensa da população pobre. As primeiras reuniões intergovernamentais em que o grupo deve marcar presença serão a do Comitê de Segurança Alimentar Mundial do G20, que se reúne no último trimestre deste ano, e a COP 17, sobre Mudanças Climática, em dezembro, na cidade sul-africana de Durban.


Hill explica que a agricultura familiar já responde pela alimentação de um terço da humanidade, com um impacto ambiental consideravelmente inferior ao do agronegócio. No entanto, esse percentual pode ser multiplicado se houver apoio, assistência técnica, financiamentos e vontade política. “Já há operações agroecológicas tão eficientes quanto a do agronegócio”, arremata.


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Ana Carolina Amaral
(Agência Envolverde)

A ONU avalia a liberdade na internet

Relatório à Assembleia Geral aponta diversas formas de censura — do bloqueio de palavras-chaves a leis penais ultra-restritivas –, mas sustenta: sociedades estão driblando as restrições


O alcance mundial da internet e sua capacidade de informar em tempo real e de mobilizar as populações gera medo entre governos e poderosos, afirmou Frank La Rue, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Promoção e Proteção do Direito à Liberdade de Opinião e de Expressão. Esse medo levou ao aumento de restrições no uso da rede mundial, mediante a introdução de complexas tecnologias para bloquear os conteúdos, controlar e identificar ativistas e críticos, além da penalização de formas legítimas de expressão, afirmou o jurista guatemalteco.


La Rue, que, no dia 3, apresentou seu informe ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, mencionou as técnicas de filtragem de informação empregadas na China, mediante tecnologias que bloqueiam conteúdos com a menção de um só conceito, por exemplo, “direitos humanos”. O acesso aos conteúdos significa pluralidade e diversidade na recepção de informação pela internet e também em sua difusão pela rede mundial de computadores. Esse procedimento implica total ausência de censura, disse o especialista.


Essa fortaleza da internet e os levantes populares dos últimos meses no Oriente Médio e Norte da África, especialmente no Egito e na Tunísia, “atemoriza os políticos”, disse La Rue em entrevista coletiva. O relator afirmou que esses levantes não foram “revoluções da internet”, mas revoluções dos povos da Tunísia e do Egito que usaram a internet. Portanto, as mudanças de estilo de governo ou de desenvolvimento dependem das populações dos países, e também está claro que com a internet elas contaram com meios mais rápidos para denunciar as violações dos direitos humanos, para enfrentar a impunidade e para divulgar ao mundo em tempo real o que estava ocorrendo, acrescentou.


Em uma visita à Argélia, La Rue transmitiu aos governantes e especialistas sua convicção de que nos países da região não se pode ignorar o reconhecimento das aspirações da população jovem, que quer mais liberdade, maior participação e pretende ser ouvida. Os jovens também querem mais empregos. A região tem um nível de educação superior ao de ocupação e é muito frustrante para eles estudar e ficar de mãos vazias, disse o especialista. Por isso, este é o momento de ouvir os jovens e suas demandas, além de dar um espaço para se expressarem, ressaltou.


A internet se converteu em um instrumento crucial para favorecer os direitos humanos e facilitar a participação da cidadania e, em consequência, para transformar-se em um fundamento da construção e do fortalecimento da democracia, acrescentou La Rue. Ele também citou outra forma de censura: o uso do direito penal, como ocorre na Coreia do Sul, onde a legislação específica tipifica a difamação como crime com penas de até sete anos de prisão.


A função da internet como meio para o exercício do direito à livre expressão pode ser aperfeiçoada somente se o Estado aplicar políticas para promover o acesso universal a esse serviço, destacou o relator. Sem planos de ação, a internet se tornará um instrumento tecnológico acessível apenas para determinadas elites, o que perpetuará a brecha digital, alertou La Rue.


Esse desequilíbrio se reflete no índice de usuários do sistema, que chega a 71,6% nos países industrializados e cai até a 21,1% nos países em desenvolvimento. Esta disparidade é maior na África, onde há apenas 9,6 usuários para cada cem habitantes, segundo La Rue, que dedicará um estudo especial ao acesso à internet no informe que apresentará na próxima Assembleia Geral da ONU, reunida a partir de setembro.


Os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, definidos em 2000 por um fórum mundial, se propõem a reduzir pela metade a proporção de pessoas que sofrem pobreza e fome (em relação a 1990), garantir educação primária universal, promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade infantil e materna, entre outras metas, até 2015. La Rue recordou que também incluem um chamado no sentido de expandir os benefícios das novas tecnologias, especialmente as da informação e da comunicação.


Entre os projetos patrocinados pela ONU nessa área, figura o projeto “Um Computador por Aluno”, apoiado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). La Rue felicitou o Uruguai porque com a aplicação desse projeto, chamado Plano Ceibal e em vigor desde 2007, conseguiu distribuir computadores a toda sua população escolar. O relator da ONU mencionou o caso de Ruanda, que distribuiu entre sua população escolar infantil 56 mil computadores como parte de um plano que prevê a entrega de cem mil equipamentos.


La Rue disse à IPS que considera a concentração de meios de comunicação uma ameaça à liberdade de expressão, que deve se basear na diversidade e no pluralismo. O povo e toda pessoa individualmente têm direito a construir seu pensamento e formular opiniões próprias, mas para isto precisam de informação diversa, de diferentes pontos de vista e de diferente natureza, ressaltou.


“Na América Latina, cometemos um erro histórico ao permitir a supercomercialização da comunicação. É certo que a comunicação comercial tem um papel importante, mas não deve ser tudo. Para mim é mais importante que haja comunicação comercial, comunicação comunitária e serviços públicos de comunicação, que exista uma diversidade de elementos”, concluiu.



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Gustavo Capdevilla na Envolverde/IPS

A tempestade à vista e o Brasil

Políticas europeias e norte-americanas estão conduzindo economia mundial a crise grave. Para defender país, governo precisa abandonar “pé-no-freio”



Ainda não se passaram três anos e já se delineiam duas sérias ameaças em nível global, que podem indicar um primeiro desdobramento da crise financeira originada nos Estados Unidos em 2008. É a situação crítica da questão fiscal dos Estados Unidos e Grécia. Os holofotes agora estão na Grécia, mas não levará tempo para se dirigirem aos EUA.


Vale recordar. Na primeira tentativa de sair do buraco, a Grécia acertou com o FMI que sua economia deveria encolher 4% em 2010, 2,6% em 2011 e o desemprego, de 9,4% em 2009, subiria para 14,8% em 2012. Esse o custo da redução do déficit fiscal de 13,6% do PIB em 2009, para 8,1% em 2010 e 6,5% em 2012. Mesmo assim, sua dívida se estabilizaria em 150% do PIB! Mas em 2010, em vez de conseguir a meta de déficit de 8,1%, obteve 10,5%, o que acendeu a luz vermelha.


Os holofotes agora estão na questão fiscal da Grécia, que precisará de um novo empréstimo em 2012. Com um crescimento mais baixo que o esperado, a tendência é o agravamento fiscal e a necessidade de mais empréstimos que, se vierem, trarão sérias dificuldades de satisfazer as condições impostas pelo FMI, com impacto social crescente e sério risco político ao governo.


A aposta dos “salvadores” (Banco Central Europeu – BCE, países da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional – FMI) ao concederem o primeiro socorro era de que uma profunda restrição fiscal, com rebaixamento de salários, demissões no setor público e freada no crescimento econômico, seria capaz de gerar os excedentes para honrar as parcelas dos empréstimos, que tiveram prazos mais alongados.


Esse aperto fiscal deveria ser imposto à população e as reações foram imediatas com paralisações e manifestações de massa, que na ocasião poderiam inviabilizar as negociações em curso. Mas o governo grego conseguiu vencer o primeiro round e aprovou as duras exigências dos financiadores, com importante condição: a dívida teria que ser integralmente paga, sem nenhum prejuízo aos credores.


Esse socorro financeiro implica em dois problemas fiscais, de solução quase impossível, pois crescem as despesas com o serviço da dívida pelo forte aumento do endividamento e cai a arrecadação pela redução da atividade econômica e pelo aumento da inadimplência dos contribuintes – ou seja, forma-se um “sanduíche” fiscal.


Os credores, no entanto, partiram da premissa de que a redução das despesas públicas seria suficiente para superar esses dois problemas. Não foi o que aconteceu e nem acontecerá. Assim, seria necessário reduzir o valor a ser pago no serviço da dívida, ou seja, seu deságio, com perda para os credores.


Mas o deságio não bastaria para solucionar o problema, pois os desequilíbrios macroeconômicos já existentes tornam necessários outros esforços para viabilizar o equilíbrio de suas contas internas e externas. Atualmente ocorre déficit na balança comercial de 4% do PIB, maior déficit comercial entre os países da região do euro. Se esse déficit persistir, a Grécia terá de captar o volume total em instituições de crédito estrangeiras, mesmo se os déficits orçamentários pós-inadimplência puderem ser financiados com captações domésticas.


A simples ameaça do deságio na Grécia precipitou a elevação dos riscos das dívidas de Portugal e Espanha. Portugal foi o primeiro a pedir socorro e já está seguindo o mesmo caminho grego. Tomou em maio recursos do FMI e da União Europeia de US$ 110 bilhões, que representam 47% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O último pacote de auxílio do FMI ao Brasil, em 1998 foi de US$ 40 bilhões ou 4,7% do PIB. Assim, esse socorro a Portugal foi, em termos de tamanho de sua economia, 10 vezes maior do que o nosso.


Para situar a gravidade do problema que ronda a Europa, o pacote da Grécia de US$ 156 bilhões foi também de 47% do PIB e o da Irlanda (US$ 120 bilhões), 52,9% do PIB, segundo matéria publicada em O Estado de São Paulo (22/5). Esses socorros foram também sem deságio nas dívidas e será apenas questão de tempo para evidenciar a falta de visão dos “salvadores” e o agravamento da inevitável deterioração fiscal nesses países.


Não tem como escapar do deságio das dívidas. Esse deságio, por sua vez, poderá trazer novos desdobramentos na rede financeira europeia já fragilizada pela crise iniciada nos Estados Unidos com as hipotecas de alto risco (subprime) e por a nu os títulos podres em posse do BCE ao socorrer o sistema bancário da Irlanda, Grécia, Espanha entre outros países.


A nova tentativa de socorro à Grécia continuará tentando preservar os credores, alongando mais a dívida, sem reestruturá-la, com nova injeção de empréstimos, e o calote será inevitável e maior mais a frente. É uma exigência do BCE para tentar empurrar com a barriga os títulos podres em seu poder cujo montante é desconhecido.


O mesmo poderá ocorrer com Portugal, mais à frente à Espanha e, em seguida a Itália, países de maior expressão econômica na zona do euro. Poderá ser essa a sequência dos PIIGS [Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Espanha]. É claro que isso atingirá o sistema bancário das economias mais sólidas como França e Alemanha, agravando a crise europeia com repercussões em outros países fora da área. Como existe forte relação entre os sistemas financeiros de Europa e Estados Unidos, esse país certamente será afetado.


Em 16/5, os Estados Unidos atingiram o teto de US$ 14,294 trilhões da dívida pública e o Departamento do Tesouro planeja anunciar que vai parar de emitir e reinvestir títulos do governo em certos fundos de pensão públicos, parte de uma série de medidas para adiar a moratória até 2/8. Essas medidas do Tesouro visam ganhar tempo para a Casa Branca e líderes do Congresso chegarem a um acordo de redução do déficit, para atingir número suficiente de congressistas a votar o aumento da dívida.


A disputa política entre republicanos e democratas pode fornecer o combustível necessário para começar a por em dúvida a capacidade de o país honrar o pagamento aos credores, que estão espalhados por todo o mundo, especialmente entre países que acumularam fortes reservas ligadas ao dólar, como China, Japão, Alemanha e o Brasil. Para agravar esse quadro o déficit fiscal previsto ao final deste ano pode atingir US$ 1,7 trilhões ou 11% do Produto Nacional Bruto (PNB).


A tentativa de ativar a economia via elevação da liquidez é outro motivo de preocupação. De 2004 a 2008, a base monetária girava em torno de US$ 0,8 trilhão e a disparada sem cessar a partir de 2009 a elevou para US$ 2,4 trilhões. Apesar disso, os empréstimos bancários ficaram estabilizados desde o final de 2008 em US$ 9 trilhões, evidenciando o deslocamento dessa elevação da liquidez para fora dos EUA.


É possível que as agências de classificação de risco, que dormiram no ponto na crise de 2008/2009, não tenham o mesmo comportamento agora. Alguns sinais já apontam nessa direção. O primeiro foi dado pela Standard & Poor’s que rebaixou de “estável” para “negativa” a perspectiva de rating de crédito soberano de longo prazo dos Estados Unidos.

Com isso, sinalizou que poderá piorar a nota da dívida americana. As razões apontadas para a decisão foram o persistente déficit orçamentário e o elevado endividamento do país.


De acordo com a agência, mesmo após dois anos após a eclosão da crise financeira que abalou o mercado de hipotecas dos EUA, o governo do presidente Barack Obama dá sinais de que não chegou num acordo sobre como reverter a deterioração fiscal por que passa o país atualmente, nem aponta soluções para as pressões fiscais de longo prazo.


O dólar já vem de longo processo de perda de valor perante outras moedas e commodities, e isso expressa a doença que se abate lentamente sobre a economia norte-americana. As análises sobre as perspectivas deste país oscilam a cada dia ao sabor de dados sobre pedidos de desemprego, construção de novas moradias, produção industrial, inflação, etc. Fato é que a reação aos fortes estímulos dados desde 2008 produziram efeitos pífios e os déficits fiscais passaram de 3% do PNB em 2008 e poderão atingir 11% neste ano. A dívida sobe de forma ameaçadora, indicando claros riscos em seu pagamento.


Para agravar esse quadro, a elevação dos preços do petróleo e outras commodities subtraem o poder aquisitivo dos americanos, com reflexos negativos sobre o consumo, que representa 70% do PIB do país. Isso afeta o crescimento econômico, a arrecadação e eleva o déficit fiscal.


Parecem esgotados os instrumentos monetários para tirar o país da crise. A forte injeção de dólares feita pelo Fed (banco central americano) e os juros negativos não conseguiram estimular o consumo. É incerto se terminará em junho a escalada da injeção de US$ 600 bilhões. Essa elevação da liquidez já dá sinais de problemas com a inflação, que começam a aparecer no front de preocupações do Fed. E nada mais potente para retirar o poder aquisitivo do norte-americano que a inflação.


O caminho que seria possível para romper com esse agravamento é a ampliação das exportações e contenção das importações, para gerar empregos suficientes para tirar da letargia o mercado interno. Mas isso não vem ocorrendo no nível necessário, pois a disputa no mercado internacional cresceu fortemente, como consequência da crise de 2008.


Face a esse quadro, o melhor para o Brasil é apostar as fichas da saúde econômica e financeira naquilo em que somos bons: alto potencial de mercado interno inexplorado. Assim, é bom repensar as políticas do pé no freio, que podem fragilizar o País aos trancos que poderão vir de fora.



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Amir Khair

Belo Monte já começa a mudar rotina de Altamira

Nas últimas semanas, além da escalada dos preços de alguns serviços, como aluguel de imóveis, cerca de 3 mil pessoas desembarcaram no município


A autorização do Instituto de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) para o início de construção da Hidrelétrica de Belo Monte, na semana passada, já movimenta a população do Oeste do Pará, especialmente em Altamira.
 
Hélvio Romero/AE–14/4/2010
Hélvio Romero/AE–14/4/2010
Caminho aberto. Cerca de 400 veículos devem chegar em Altamira para início das obras
 
Além da escalada dos preços de alguns serviços, como locação de imóvel e de veículos, a cidade começou a receber moradores de outras regiões. Calcula-se que nas últimas semanas cerca de 3 mil pessoas desembarcaram no município, número que deve subir rapidamente nos próximos meses.

Eles estão de olho nas vagas que serão abertas para levantar a megahidrelétrica (11.233 MW) e nos negócios criados pela obra. A construção da usina criará 18 mil empregos diretos e 80 mil indiretos. As primeiras vagas já começaram a ser preenchidas, afirma o diretor-geral da Unidade de Negócios de Energia da Andrade Gutierrez, Flávio Barra, presidente do conselho do consórcio construtor de Belo Monte. Cerca de 110 pessoas foram treinadas pelo grupo para exercer funções de carpinteiro, pedreiro e armadores.
 
"A grande maioria dos profissionais treinados deve ser contratada pela empresa", diz Barra. O executivo destaca que o consórcio vai privilegiar primeiro os moradores da região e apenas depois vai buscar gente de fora. Até agora cerca de 10 mil pessoas se cadastraram para trabalhar nas obras da usina, sendo entre 10% e 15% mulheres.
 
Outro fato que vai movimentar a região será a chegada da primeira frota de máquinas, tratores, escavadeiras, caminhões e equipamentos que vão abrir o caminho para a construção do alojamento provisório dos trabalhadores. Na primeira leva, serão cerca de 400 veículos. Todos serão transportados por via rodoviária e sairão de várias partes do País, como São Paulo e Vitória. Alguns equipamentos foram importados.
 
Barra diz que a expectativa é que os veículos cheguem em Altamira nos próximos 15 dias. Isso se o caminho permitir. A frota de veículos terá de superar vários obstáculos. Um deles é trafegar pela Transamazônica em período de chuva. Outros equipamentos devem chegar na região pelo rio, mas ainda vai demorar um tempo. Primeiro a empresa terá de construir um porto para receber os veículos e materiais de construção. A frota total deve somar 2 mil equipamentos.
 
Rodada de negócios. Amanhã e sexta-feira, Altamira ficará agitada. A cidade vai abrigar a primeira rodada de negócios entre o consórcio e as empresas da região. Diversos representantes de entidades empresariais do Pará confirmaram presença, como sindicatos de comércio e construção, e a federação da indústria do Estado.
 
Além disso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco da Amazônia e Banco do Brasil vão participar do evento e oferecer suas linhas de crédito para as empresas. O objetivo da rodada de negócios é mostrar às companhias as demandas criadas pela construção da hidrelétrica. Da mesma forma, o consórcio construtor terá a noção exata da capacidade de oferta das empresas locais e o que terá de importar de outras regiões.

O Estado de S. Paulo (08/06/11)
Rafinha Bastos está sendo acusado de estimular o estupro pelo Conselho da Condição Feminina de São Paulo por causa de suas piadas. Não creio, claro, que ele tenha o menor interesse em estimular a violência contra a mulher. Assim como ele não tem prazer em debochar de órfãos, como fez em seu twitter no Dia das Mães.


Para entender:
Na nota, o Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo, órgão institucional formado por representantes da sociedade e do poder público, divulgou nota de repúdio contra o humorista Rafinha Bastos, do programa "CQC". Critica as declarações sobre estupro feitas por Bastos em seu show de comédia stand-up reproduzidas na revista Rolling Stone e diz que sua piada encoraja os homens. "Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus", disse o humorista.


O problema é o seguinte: essa geração de comediantes é vítima da busca do sucesso a qualquer custo, um vale-tudo para aparecer, típico da era da celebridade. Uma necessidade de ser engraçado e provocativo o tempo todo. Some-se a isso a tentação fácil de transmitir tudo em tempo real no twitter e no Facebook.

Acaba-se perdendo a noção de coisas elementares. Esculhambar órfão em Dia das Mães é considerado "piada". Ou dizer que só mulher feia reclama de estupro é visto como algo engraçado. Na verdade é apenas ridículo --um ridículo que faz sucesso.

Como judeu, aprendi a valorizar o humor refinado --a história do judaísmo se confunde com a história do humor. Mas também aprendi a detestar o uso da palavra para reforçar preconceitos.

Não vejo graça em coisas que fazem outras pessoas sofrerem.

Sou a favor da liberdade de expressão, claro. Por mais que nos doa. Mas estabelecer limites, dizendo o que vai além do aceitável em respeito humano, também é um valor democrático.

Ou seja, Rafinha Bastos, um sujeito talentoso, está sendo vítima de um estupro --ele está, sem saber, se estuprando moralmente.

 
Gilberto Dimenstein, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz.

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Opinião:


"A liberdade de expressão, direito previsto constitucionalmente, encontra limite quando em choque com outro direito, que é o da dignidade da pessoa humana, que está acima de qualquer outro", diz a nota do Conselho.
"No caso, estamos a falar da dignidade da mulher, do direito assegurado internacional e nacionalmente de não ter sua imagem estereotipada, bem como ter o direito à escolha de com quem manter relação sexual."  
                   
(Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo)



Estão confundindo liberdade de expressão com o princípio fundamental da Constituição Brasileira e da vida: a dignidade da pessoa humana.


Este humorista é irresponsável ao extrapolar essa linha tênue entre manifestação do pensamento e integridade do ser humano.


É uma piada de tão mau gosto, pois numa sociedade machista, em que alguns dizem, como ilustração, que a mulher "facilitou" o estupro, usando roupas curtas. Este tipo de declaração ou piada soa como ofensa.


A beleza das pessoas não é só exterior, mas é o conjunto, que faz com que mulheres e homens se tornem seres especiais. Esteriotipar o feio, o bonito... não tem graça! Concordo com Dimenstein: NÃO TEM GRAÇA FAZER AS OUTRAS PESSOAS SOFREM!!


Luciana.

7 de jun. de 2011

Fábrica de espanhóis

Jorge não possui a certidão de nascimento do avô, originário das Ilhas Canárias, para obter sua nova nacionalidade na Embaixada da Espanha em Havana. Evarista, que mora apenas a duas portas da sua casa, há três anos iniciou o processo, enquanto espera a certidão de casamento de seus avós maternos. Em agosto, Maritza, que mora no andar de cima, partirá com seus dois filhos menores de 21 anos para tentar a sorte em Oviedo; ela entrará no avião com seu novo passaporte comunitário obtido graças à chamada lei dos netos.


Por todo o bairro, as pessoas remexem os baús em busca de velhas fotos de parentes, reconstroem uma árvore genealógica que até ontem era passatempo somente de pessoas obcecadas com seus antepassados. Os cubanos olham cada vez mais para trás e para fora e resgatam seus vínculos com a Península Ibérica. Não há locais mais ativos e concorridos neste país do que os consulados, nem posse mais prezada do que um parente que alguma vez empregou a letra "z".

Somos uma ilha que se vai, que escapa, nem o canto das tímidas reformas econômicas consegue nos deixar presos ao mastro nacional.

Quando um caminho de fuga é cancelado, a pressão interna provoca o surgimento de outros. Há alguns anos, essa rota de escape era pelo Equador; na época não era necessário um visto para entrar no país. E para lá foram milhares de compatriotas; uma parte conseguiu finalmente entrar em solo americano. Outros continuam - ainda hoje - presos entre sua condição de ilegal naquelas terras e a impossibilidade de entrar novamente em seu próprio país.

A rota de evasão passou também pela Rússia. Amigos e conhecidos nos contavam que, em breve, voariam para Moscou, quando sabíamos que eles não tinham ninguém naquelas terras, nenhum interesse de fato em viver nesta que uma vez foi nossa metrópole.
 
E, então, surgiu o caminho inverso ao de Cristóvão Colombo, a volta da terceira geração que nasceu no estrangeiro e agora retorna para a pátria de seus avós. A esquina formada pelas ruas Cárcel e Zulueta, onde tremula a bandeira da Espanha, converteu-se num local de peregrinação para aqueles que desejam partir. A fila de espera é imensa, os guardas examinam todos os documentos antes de autorizar a entrada no edifício, e o sol do meio-dia caribenho não faz ninguém desistir.
 
Entre os grandes paradoxos que marcam nossa realidade podemos destacar este, o de um discurso oficial extremamente nacionalista em contraposição ao sonho de emigrar que nutre a maioria dos cubanos.
 
Esta obsessão de partir que tomou conta do país não distingue idade nem filiação política. Até nas fileiras do Partido Comunista foram adotadas medidas para conter a debandada, impedir que os militantes iniciem os trâmites para obtenção da nacionalidade espanhola. O resultado não tem sido o esperado: muitos preferem renunciar à credencial do partido a esconder os papéis da avó galega ou do pai andaluz.

Entretanto, o mar continua sendo uma alternativa. As embarcações já não são tão improvisadas quanto as que singraram as águas em 1994, durante a crise dos balseiros. Um GPS custa cerca de 300 no mercado negro e é peça-chave para navegar até a Flórida. Em alguns lugares mais intrincados da costa norte da ilha, continuam chegando lanchas rápidas enviadas pelos exilados para buscar suas famílias. O risco é enorme para os tripulantes e os viajantes, mas quando o objetivo é partir, poucos se importam com o perigo. Sabemos que muitas pessoas foram interceptadas - ou pela guarda costeira americana ou pelos cubanos - pelo menos uma dezenas de vezes, mas continuam tentando. É como se um poderoso ímã as atraísse para fora, ou mais precisamente, como se uma força de repulsão as empurrasse
de dentro.
 
Quem tem filhos pequenos ou teme os tubarões explora novas rotas. E obter a nacionalidade de outro país é uma delas. Assim, as pessoas vêm recorrendo aos tribunais, aos arquivos, cartórios que expedem certidões de nascimento ou de casamento. Um périplo que exige uma boa dose de perseverança, à prova de todos os tipo de obstáculos.
 
Mas não importa. Depois, com o dossiê completo, seguem para o consulado da Rua Zulueta. Calados, atentos, esperarão do lado de fora do majestoso edifício até conseguir entrar. São dezenas, centenas, milhares de candidatos a cada semana.
 
Olhando de fora, do Museu da Revolução, a uns poucos metros dali, parece que estamos diante de uma produção contínua. É uma sucessão de candidatos entrando por uma porta como cubanos, que saem mostrando o documento que os reconhece cidadãos de um outro país. Chegam até a caminhar diferente ao passar pela ampla cancela; parecem mais leves, menos nervosos, mais espanhóis. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
 

Yoani Sánchez  É JORNALISTA CUBANA E AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. EM 2008, RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO.


O Estado de S.Paulo (05/06/11)

Após retomada, energia nuclear patina

Acidente de Fukushima escancara questão da segurança, põe em xeque opção por plantas atômicas e acirra debate sobre política energética



A radiação liberada da usina nuclear de Fukushima no Japão pode ter tido um impacto geográfico limitado. Mas suas implicações políticas atravessaram fronteiras e o que parecia uma tecnologia consolidada e em plena expansão agora volta ao centro da agenda política e energética de vários países.
 
O debate, que envolve a questão da segurança e também o futuro do abastecimento de energia no planeta, ganhou nesta semana uma nova dimensão quando a Alemanha anunciou que vai fechar todos seus 17 reatores nucleares até 2022, revertendo uma posição política que parecia sólida há apenas nove meses. Na Alemanha, 23% da energia vem dessas plantas.
 
Agora, o anúncio da chanceler Angela Merkel foi considerado como uma vitória do "lobby verde", que começa a ganhar poder e influenciar eleições. Mas não são apenas os votos que entram na equação - parte da decisão está vinculada à promoção de um novo setor industrial. A indústria de energia renovável na Alemanha é responsável por 13% do abastecimento do país e deve chegar a 35% em 2020. O país tem as maiores empresas de energia solar e eólica do mundo. A Siemens, por exemplo, prepara um plano ambicioso para captar energia solar no deserto do Saara e abastecer a Europa.
 
No total, 17 bilhões foram investidos pela Alemanha em 2009 no setor, que em dez anos deverá empregar 500 mil pessoas. Hoje, seriam 300 mil funcionários, quase dez vezes mais que a mineração.
 
A Europa parece ter se transformado em um campo de testes políticos a céu aberto para a discussão do futuro da energia nuclear. O governo da Suíça apresentou a mesma proposta do alemão, ainda que tenha colocado a meta do fechamento das usinas na década de 2030 - o país vai buscar nos próximos 20 anos um substituto para a energia nuclear, hoje responsável por 40% do abastecimento do país. Em julho, será a vez da Suécia debater o fim da energia nuclear, enquanto a Itália colocará a questão em um referendo, no dia 12 de junho.
 
Considerações políticas e econômicas também fazem parte dos cálculos de outros países, mas de uma maneira diferente, principalmente entre os que precisam importar energia. As crises na Líbia e no Oriente Médio fizeram os preços de petróleo e gás explodirem, fortalecendo inclusive o lobby pró-nuclear.
 
A França se transformou no maior exemplo da dependência de toda uma economia em relação à energia nuclear. Hoje, mais de 70% da eletricidade do país vem de plantas atômicas. Não por acaso, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, sequestrou parte da agenda do G-20 e do G8 que ele mesmo lidera, para insistir em debater a segurança nuclear - e não sua exclusão. O governo tem grande parte das ações na Areva, uma das maiores indústrias do setor nuclear no mundo.
 
Vendas. A aposta na energia nuclear parece também fazer as empresas manter o otimismo. Mesmo com a as iniciativas alemã e suíça, uma das principais fabricantes de tecnologia para usinas nucleares, a japonesa Mitsubishi, estima que suas vendas podem dobrar no mundo até 2014, chegando a US$ 7,4 bilhões. Isso graças à proliferação de planos de construção de usinas em mercados emergentes.
 
Em pouco mais de 50 anos, a energia nuclear ganhou um espaço sem precedentes. Dados da Associação Nuclear Mundial apontam que existem 440 reatores em uso em 47 países - 14% de toda a energia gerada no mundo vem de plantas nucleares, um total de 2,6 trilhões de quilowatts. Antes de Fukushima, as estimativas apontavam que o número de plantas aumentaria em 50% em poucos anos.
 
"Não estamos vendo o fim da era atômica", adverte Duane Bratt, da Universidade de Calgary, no Canadá. Ele lembra que até a Ucrânia anunciou a construção de novas usinas, mesmo depois da experiência de Chernobyl. No Japão, o governo insiste que não está pensando em abandonar a opção nuclear.
 
"A decisão não terá uma implicação mundial", acrescenta Steve Kerekes, do Instituto de Energia Nuclear dos EUA. Segundo ele, apenas a China tem 87 reatores em construção, um número quase cinco vezes maior de usinas que a Alemanha fechará.
 
Se a decisão de Berlim e Berna são relativamente modestas diante do avanço dos demais programas, ambientalistas admitem que os anúncios na Europa pelo menos mostram que já não existe um consenso de que a energia nuclear é a única saída. A esperança, agora, é de que grupos de ambientalistas de outros países recoloquem na agenda política a mesma discussão.

Complemento:


O Estado de S.Paulo (05/06/11)

6 de jun. de 2011



Sem preconceito linguístico...
Aprovado pelo MEC.

Só escola tira da pobreza

Não se mede o sucesso de um programa tipo Bolsa-Família pela quantidade de pessoas beneficiadas. É certo que o programa tem o objetivo imediato de aliviar a pobreza corrente e oferecer um mínimo de conforto para as famílias mais necessitadas. Mas isso não retira as pessoas dessa condição. Elas continuam dependendo do dinheiro do governo. Nesse caso, trata-se de assistência social, não de um programa de redução e eliminação da pobreza. Como esse objetivo poderia ser atendido?

A medida essencial está no progresso escolar das crianças atendidas. A ideia básica para esses programas, desenvolvida no âmbito do Banco Mundial, partiu do seguinte ponto: as famílias mais pobres transmitem a pobreza a seus filhos porque não têm recursos para mandá-los para a escola ou porque precisam do rendimento do trabalho dessas crianças. Sem educação formal, estas não encontram bons empregos e, assim, não têm como escapar da pobreza.

Daí o nome técnico do programa - Transferência de Renda com Condicionalidades (Conditional Cash Transfer) - e sua regra básica: a mãe recebe uma renda mínima e mais dinheiro conforme o número de crianças na escola. Trata-se de cobrir aquilo que o menino ou a menina poderiam ganhar trabalhando.

A ideia de entregar o dinheiro partiu da constatação do fracasso de programas antigos, como a distribuição da cesta básica. Em todos os países os problemas se repetiam: corrupção na compra pelo governo, erros na composição da cesta, perdas na distribuição. Auditorias mostravam que, a cada R$ 1 alocado para o programa, menos da metade chegava na casa das famílias pobres.

Que tal dar o dinheiro à família? Muitos tecnocratas diziam que isso daria errado, pois as pessoas gastariam tudo com bobagens ou, pior, com bebida, cigarro e jogo. Um equívoco. A prática provou que as famílias sabem cuidar de si, especialmente quando o dinheiro é entregue para a mãe, como é o caso dos atuais programas.

A segunda ideia boa foi exigir uma condição. A bolsa está condicionada basicamente à presença da criança na escola e, mais que isso, ao seu progresso na educação (frequentar aulas, passar de ano, etc.).

No México Oportunidades, o primeiro programa de âmbito nacional na América Latina, iniciado em 1997 e hoje considerado o mais bem implementado, a bolsa paga por criança aumenta na medida em que esta progride na vida escolar. Vai de US$ 10 (mensais), para alunos do ensino primário, a US$ 58, para os rapazes no 3.º ano do ensino superior, com
até 22 anos.

As meninas recebem bolsa maior (US$ 66 no ensino universitário) porque são retiradas da escola com mais frequência, para ajudar na casa e no cuidado com os irmãos. Além disso, o México Oportunidades ainda paga uma caderneta de poupança para alunos do ensino médio. Concluindo o curso, eles podem usar o dinheiro para iniciar um negócio ou financiar os estudos universitários.

No Brasil, o Bolsa-Família atende crianças de até 15 anos. Eis, pois, um caminho para aperfeiçoar o programa brasileiro, sobretudo porque há um problema grave de evasão escolar e atraso no ensino médio. Outro ponto que se poderia copiar do México: o programa é auditado por uma instituição independente.

Resumo da ópera: o programa pode atender 1/4 da população, como ocorre no Brasil e no México, mas fracassará se as crianças não estiverem avançando na escola. Vai daí que a melhora do ensino público é uma condição essencial.

É preciso prestar atenção no foco, porque há sempre uma visão político-clientelista, dinheiro em troca de votos, como, aliás, denunciava Lula em suas campanhas eleitorais antes de ganhar. Ele atacava a distribuição de cesta básica e tíquete de leite, definida como prática eleitoral para ganhar o povo pela barriga. Dizia mais o candidato Lula: "Eles (dirigentes) tratam o povo mais pobre da mesma maneira que Cabral tratou os índios, distribuindo bijuterias e espelhos para ganhar os índios. Hoje, eles (da elite) distribuem alimentos... Tem como lógica manter a política de dominação".

Isso vale para o Bolsa-Família, se o programa for apenas, ou principalmente, de distribuição de dinheiro aos pobres. Há até um argumento econômico a favor dessa distribuição: os beneficiados gastam o dinheiro e movimentam o consumo, de modo que, quanto mais dinheiro dado, melhor. Os pobres continuam pobres, mas gastando o dinheirinho recebido das mãos dos políticos no governo e... votando neles. O que muda tudo é o foco na educação, o efetivo progresso escolar das crianças.

Paternidades. O programa Transferência de Renda com Condicionalidades, desenvolvido no Banco Mundial, foi testado no início dos anos 90 em Honduras.

No Brasil, a primeira experiência nasceu em Campinas, em 1994, numa iniciativa do prefeito José Roberto Magalhães. Era um Bolsa-Escola. Um ano depois, o então governador Cristovam Buarque introduziu o programa em Brasília.

Buarque batalha a ideia desde os anos 80. Colaborou com pesquisadores do Banco Mundial e a Unicef, que estiveram em Brasília, e ajudou o prefeito Magalhães.

O primeiro programa nacional em larga escala começou no México, em 1997. O Brasil foi o terceiro país, com o Bolsa-Escola de 2001, governo FHC, numa iniciativa do Comunidade Solidária, de Ruth Cardoso, que participara dos estudos no Banco Mundial. Em 2002, o Bolsa-Escola e outros programas semelhantes atendiam mais de 4 milhões de famílias.

No início de 2004, depois do fracasso do Fome Zero, o presidente Lula criou o Bolsa-Família, juntando todos aqueles programas. E ampliou o número de famílias beneficiadas para 12,5 milhões.

O risco, hoje, é afrouxar o controle da vida escolar das crianças, tolerar as faltas à escola e acabar levando o programa mais para a distribuição de dinheiro do que o apoio à educação. Ao anunciar a ampliação do Bolsa-Família na semana passada, a presidente Dilma pouco falou da escola.

Carlos Alberto Sardenberg, JORNALISTA
 
 
O Estado de S.Paulo (06/06/12)

5 de jun. de 2011

Epidemia de Aids completa 30 anos com queda nas infecções

O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, Unaids, informou que o número de novas infecções caiu cerca de 25%, entre 2001 e 2009. O Unaids lançou um relatório em Genebra e Nova York, para marcar os 30 anos da epidemia. O primeiro caso de Aids foi notificado em 5 de junho de 1981. Segundo a agência, 34 milhões de pessoas vivem com o HIV e cerca de 30 milhões perderam a vida, desde o surgimento da doença.


Acesso


Para as Nações Unidas, o acesso ao tratamento vai transformar a resposta à Aids na próxima década. O chefe do Unaids, Michel Sidibé, disse que a terapia com antirretrovirais não só aumenta a sobrevivência, mas evita a transmissão do vírus para mulheres, homens e crianças.


Atualmente, mais de 6,6 milhões de soropositivos estão recebendo tratamento em países de rendas baixa e média. Mas no ano passado, cerca de 9 milhões de pacientes que tinham direito ao coquetel, ficaram sem o medicamento.
O médico da OMS, Marco Vitória, falou à Rádio ONU de Genebra, antes do relatório, sobre alguns desafios logísticos na cobertura universal.
“Em muitos países, apesar dos avanços, ainda existem muitas pessoas que não têm acesso ao tratamento em virtude de uma série de dificuldades estruturais. Apesar de ser um tratamento muito efetivo. Ele ainda é complexo para ser administrado por pessoas que não sejam médicos, ou especialistas em saúde, em áreas fora de centros urbanos”, afirmou.


África do Sul e Índia


Alguns países registram ganhos na luta contra o HIV. Na Índia, o índice de novas infecções caiu mais que pela metade, já na África do Sul, que viveu altas taxas de contaminação, a queda foi de 35%. Os dois países ainda concentram a maior parte de soropositivos nos respectivos continentes.


O fornecimento de antirretrovirais para crianças também aumentou mais de 50% desde 2008.


O relatório revela que após 30 anos, as pessoas estão se preocupando mais com segurança nas relações sexuais. Mas ainda há disparidades. Homens jovens têm mais acesso à informação sobre prevenção ao vírus que mulheres na mesma idade. Cerca de 74% dos homens conhecem o preservativo como método de prevenção. Entre as mulheres, este número baixa para 49%.


O tratamento para crianças também é menor que para adultos.


Direitos Humanos


As regiões da África Subsaariana e do sudeste da Ásia registraram quedas acima da média, já América Latina e Caribe tiveram reduções modestas de menos de 25%. O leste da Europa, Oriente Médio e o norte da África notificaram aumento dos casos de HIV.


O relatório “Estratégia Global do Setor de Saúde sobre HIV/Aids para 2011-2015” deverá conduzir as ações da OMS e dos países-membros para fortificar os sistemas de saúde e responder a violações de direitos humanos e desigualdades que impedem o acesso ao tratamento.



Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU em Nova York

A economia delinquente

Governo está saturado de informações sobre a violência no campo e instrumentos para apontar os autores. Por que não os usa?


As mortes violentas ocorridas no sudeste do Pará, de duas vítimas-alvo e de uma possível testemunha, e a ocorrida em Rondônia, de trabalhador sobrevivente do massacre de Corumbiara, de 1995, por serem mortes previstas e uma delas informada ao governo e anunciada publicamente pela própria vítima, surpreenderam pela surpresa que causaram. Surpresa que se confirma na improvisação notória da criação, pela Presidência da República, de um comitê interministerial de trabalho para analisar o caso. A hora de analisar já passou faz tempo. Ou o governo tem uma política para a questão da violência no campo ou não a tem.


Há anos a Pastoral da Terra entrega ao governo listas de ameaçados de morte, pedindo prevenção, e a lista dos já mortos de morte prevista, como fez agora, pedindo apuração, processo e justiça. Um governo saturado de informações sobre a violência no campo e saturado de órgãos e funcionários supostamente dedicados à apuração e à prevenção de ocorrências desse tipo está muito aquém do que dele se tem o direito de esperar se não sabe o que fazer. Sobretudo quando, em face de fato grave e alarmante, só tem a dizer à nação que criou um comitê de ministros para analisar os fatos.
 
Os fatos vêm sendo analisados há décadas, já sabemos tudo que é necessário saber sobre eles. Dúzias de livros, relatórios e análises foram publicados, até com o patrocínio do poder público. O governo tem instrumentos sofisticados para identificar áreas problemáticas e potencialmente conflituosas, apurar causas e identificar autores. Por que não os usa?
 
A questão ambiental e a questão fundiária decorrem da economia delinquente, clandestina e paralela da grilagem de terras e do desmatamento irregular, que têm sido marca de nossa história desde que a Lei de Terras, de 1850, no Império, criou a propriedade fundiária absoluta e privou o Estado do direito de domínio sobre as terras do País. Privou-se o governo do principal recurso para gestão do uso do território entregando aos particulares o arbítrio e a decisão sobre bens naturais que dizem respeito ao nosso futuro, ao bem-estar do povo e à própria segurança nacional.
 
A República agravou o problema transferindo aos Estados, redutos das oligarquias retrógradas e seus interesses políticos e territoriais, a gestão das terras devolutas. A reação militar à decorrente desrrepublicanização da República, nas revoltas tenentistas dos anos 20 e na Revolução de Outubro de 1930, desencadeou um movimento de recuperação do domínio do Estado nacional sobre as terras da nação. Inicialmente, com o Código de Águas, que nacionalizou o subsolo e relativizou o direito de propriedade e, de certo modo, estabeleceu o direito do Estado à gestão e uso do território.
 
Era, também, o caminho para a eventualidade da reforma agrária, corretiva do uso abusivo, especulativo e improdutivo das terras do País. O golpe de 1964, motivado nas ruas pela resistência à possibilidade da reforma agrária, janguista e de esquerda, produziu o efeito bumerangue de uma legislação e de uma política de reforma agrária, em nome das razões de Estado e da própria segurança nacional. Um passo importante na recuperação do domínio do Estado sobre o território brasileiro.
 
A última medida tendente a incrementar essa política de recuperação da soberania do Estado sobre o território ocorreu no governo FHC, quando o ministro Raul Jungmann determinou a nulidade de supostos títulos de propriedade destituídos de legitimidade, correspondentes a milhões de hectares de terras possuídas ilegal e irregularmente.
 
A violência divulgada nestes dias não diz respeito unicamente a questões relativas a direitos sociais, o direito à terra por parte de quem nela trabalha, e a direitos humanos, o direito à vida e à segurança pessoal e da família. Diz também respeito à questão da segurança nacional. A economia delinquente e paralela, ilegal, tem se apropriado de porções do território, criado enclaves territoriais, estabelecido governos invisíveis, instituído polícias privadas, abolido a lei e os códigos, violado a Constituição. Como se vê no caso noticiado de um "condomínio" em 170 mil hectares de terras invadidas, que pertencem à União, em Rondônia, para extração irregular de madeira e cobrança de direitos de passagem a caminhões que transportam a madeira. Um país dentro do País. A violência contra trabalhadores indefesos do sudeste do Pará e de outras regiões é feita em nome de uma potência privada e oculta, que não paga impostos e não respeita a lei. Situa-se, portanto, na categoria de "inimigo interno", injustamente aplicada a inocentes brasileiros não faz muito e aplicável muito mais a mandantes e autores da violência atual.
 
Na prática, uma guerra foi declarada contra o Brasil por esse inimigo interno, em nome de interesses econômicos e territoriais que não são os do País nem dos verdadeiros empresários.


José de Souza Martins, SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR DE FRONTEIRA (CONTEXTO)



O Estado de S.Paulo (05/06/11)

2 de jun. de 2011

Proposta para educação

Você lembra o número do telefone de seu dentista? Onde estão suas músicas preferidas? E a história de seu país? Essas informações estão fora de seu corpo, talvez no seu telefone celular, nos CDs e nos livros que enchem as estantes.

Estamos tão acostumados a guardar, buscar e utilizar informações armazenadas em instrumentos de memória extracorpórea que é quase impossível imaginar como seria nossa existência sem essas tecnologias. Mas a realidade é que, durante a maior parte da existência do Homo sapiens, o único instrumento de que dispúnhamos para armazenar informação era nossa memória e a memória de nossos conhecidos.

O processo de acúmulo de informações surgiu quando nossos ancestrais começaram a se comunicar, talvez 1 milhão de anos atrás. Antes, a informação acumulada por uma pessoa desaparecia com sua morte.

O que para nós é difícil de compreender é que durante 995 mil desses últimos 1 milhão de anos toda a informação acumulada por nossa espécie estava armazenada exclusivamente em nossa própria memória. Não havia instrumentos de memória extracorpórea, a escrita não tinha sido inventada. Os desenhos e outras formas de arte, apesar de úteis, são incapazes de estocar muita informação. Faz menos de 5 mil anos que aprendemos a escrever e aos poucos pudemos retirar de nossa memória parte da responsabilidade de estocar a informação coletada pela humanidade. Surgiram os livros, depois os discos e os computadores.

É quase impossível imaginar como foi nossa relação com a memória cerebral durante centenas de milhares de anos. Imagine um mundo onde qualquer informação esquecida não pudesse ser recuperada. Foi neste ambiente que nosso cérebro evoluiu e foi moldado pelo processo de seleção natural. A educação de um indivíduo obrigatoriamente passava pela tarefa de memorizar as informações acumuladas por seus antepassados. As histórias, as músicas, os alimentos, como caçar e como tratar doenças. Cada indivíduo, antes de se considerar educado, deveria memorizar todas estas informações. Educar era antes de tudo lembrar.

Com o desenvolvimento da escrita, as tradições orais foram colocadas no papel e cuidadosamente replicadas. Mas só muito recentemente a prensa de Gutenberg se espalhou pela Europa e os livros puderam chegar a grande parte da população. Foi nesta época de transição, entre o uso exclusivo da memória e a introdução dos instrumentos de memória extracorpóreos, que surgiram as escolas. A disponibilidade da informação nesses instrumentos ainda era limitada e a educação tinha como objetivo "copiar" no cérebro de cada indivíduo grande parte da informação acumulada pela humanidade. Mas, enquanto esse sistema de ensino se espalhava e as crianças estavam memorizando acidentes geográficos, por exemplo, o aprimoramento dos mecanismos de memória extracorpórea permitiu que a quantidade de informação acumulada crescesse exponencialmente.

Nosso sistema de educação estava condenado ao fracasso antes de poder se espalhar. Hoje é impossível ensinar ou aprender tudo o que a humanidade sabe. Os anos de estudo se prolongam e a quantidade de informação a ser ensinada se multiplica. A especialização, grande esperança do século 20, inibe a criatividade, condena as pessoas a viverem em um microcosmo e acirra conflitos entre habitantes de cada microcosmo. São agricultores que não entendem o ecossistema, ecologistas que não entendem a evolução. E, pior, pessoas que não sabem aprender fora da escola.

Talvez seja a hora de pensar numa mudança radical no processo de educação. Ele não deve ter como objetivo copiar a informação para nosso cérebro. Da mesma maneira que deixamos de decorar o número do telefone do dentista, o objetivo da educação deveria ser capacitar as pessoas a explorar, capturar, selecionar, julgar e utilizar as informações acumuladas nos mecanismos de memória extracorpórea. Deveríamos também ensinar as pessoas a organizar, sistematizar e depositar informações nesses mecanismos extracorpóreos, tanto individualmente quanto coletivamente. As informações utilizadas durante o ensino seriam somente exemplos que permitiriam aos alunos aprender a navegar pelo mar de informações. Aos 21 anos deixaríamos para sempre o ambiente escolar, cada jovem diferente de todos os outros, mas todos capazes de estudar e aprender durante o resto da vida.


Fernando Reinach, BIÓLOGO.

O Estado de S.Paulo (02/06/11)

Fuvest muda regras

O Conselho de Graduação (CoG) da Universidade de São Paulo (USP) aprovou nesta quinta-feira, 2, um pacote de cinco medidas que devem tornar o vestibular da Fuvest mais difícil e concorrido. As mudanças, que vão elevar a nota de corte de praticamente todas as carreiras, já valem para o próximo processo seletivo.

As alterações aprovadas são: voltar a considerar a nota da 1.ª fase, com o mesmo peso das provas da segunda etapa; diminuir de 20 para 16 o número de questões da prova do segundo dia da 2.ª fase; chamar entre dois e três alunos por vaga para essa etapa – hoje são chamados três vestibulandos para cada vaga; elevar a nota de corte da 1.ª fase de 22 para 27 pontos e a possibilidade de escolha de uma nova opção de carreira após a 3.ª chamada.

O vestibular da Fuvest tem uma 1.ª fase com 90 questões de múltipla escolha, e uma 2.ª etapa com provas dissertativas e redação, aplicadas durante três dias.

As sugestões foram elaboradas por um grupo de trabalho nomeado pela pró-reitora de graduação, Telma Zorn, com base em avaliações dos últimos vestibulares e sugestões dos departamentos. As propostas foram discutidas em duas reuniões do CoG este ano, mas enfrentaram resistência dos membros do conselho, formado por representantes das 42 unidades da USP.

Em março, o CoG aprovou mudanças no Programa de Inclusão Social da USP (Inclusp), elevando a bonificação para oriundos da rede pública de até 12% para até 15%, mediante o desempenho na 1.ª fase.

As inscrições para o vestibular da Fuvest estarão abertas, exclusivamente pela internet, entre os dias 26 de agosto e 9 de setembro. A 1.ª fase do vestibular será realizada em 27 de novembro. Já as provas da 2.ª etapa estão marcadas para os dias 8, 9 e 10 de janeiro de 2012.

O Estado de S. Paulo (02/06/11)